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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 25 · Fortunata e Jacinta

Parte 3 — Capítulo VII: A ideia... a danada da ideia

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Parte 3 — Capítulo VII: A ideia... a danada da ideia

i

Guillermina morava, como antes se disse, na rua de Pontejos, parede-meia com os Santa Cruz. Era aquela a antiga casa dos Moreno; ali funcionara desde tempos remotos o banco desse nome e ali ainda funcionava, sob a firma Ruiz Ochoa e Companhia. O edifício, estreito e alto, parecia uma torre. O chefe atual do banco não morava ali, mas tinha seu escritório no entressolo; no primeiro andar moravam D. Manuel Moreno-Isla, quando vinha a Madri, sua irmã, Dona Patrocinio, viúva, e sua tia Guillermina Pacheco; no segundo vivia Zalamero, casado com a filha de Ruiz Ochoa; e, no terceiro, duas senhoras idosas, também da família, irmãs do bispo de Plasencia, frei Luis Moreno-Isla y Bonilla.

Guillermina entrou em casa às nove e meia daquele dia que haveria de ser memorável. Tão cedo, e aquela mulher já percorrera meio mundo, ouvira três missas e visitara o asilo velho e o que estava em construção, resolvendo de passagem algumas diligências. Chegou por um instante ao gabinete, pensando na visita que esperava naquele dia, mas o interesse desse assunto não a fez esquecer os próprios, e, sem tirar o manto, tornou a sair e foi ao escritório do sobrinho.

— Posso entrar? — perguntou, abrindo suavemente a porta.

— Entra, rata — respondeu Moreno, que acabara de tomar banho e estava sentado, escrevendo à escrivaninha, de roupão e gorro, com os óculos de ouro fincados no cavalete do nariz.

— Bom dia — disse a santa, entrando; ele a olhava por cima dos óculos. — Não venho incomodar-te... Mas, antes de tudo, como estás hoje? A sufocação não voltou?

— Estou bem. Dormi ontem à noite. Parece mentira que eu tenha descansado uma noite. Suporto tudo com paciência, mas essas insônias horríveis me matam. Hoje, como vês, falo algum tempo seguido e não me canso.

— Ora... coisas dos nervos... e também resultado da vida ociosa que levas... Mas vamos ao meu pleito. Só queria dizer-te que, já que não acabas o andar para mim, ao menos me dês umas vigas velhas que tens em teu terreno da rua de Relatores... Fui vê-las ontem. Se mas deres, mandarei serrá-las...

— Pois ficam para ti as vigas, que não são velhas.

— Estão meio podres!

— Qual podres! Mas, enfim, megera, são tuas — respondeu Moreno, tornando a escrever. — Quando Deus há de querer que acabes teu bendito asilo, para que o gênero humano descanse? Olha, não sabes como te tornas antipática com tuas coletas. És o pesadelo de todas as famílias e, quando te veem entrar, não duvides, embora façam boa cara, amaldiçoam-te por dentro de todas as maneiras...!

A essas palavras, ditas com uma seriedade que mais parecia brincadeira, Guillermina respondeu sentando-se junto à escrivaninha, apoiando nela um cotovelo e olhando de frente para o sobrinho, cuja barba acariciou com os dedos, entre os quais ainda tinha enredado o rosário.

— Dizes tudo isso só para me provocar. És muito malandrinho. Por enquanto, venham essas madeiras que não te servem para nada.

— Carrega com elas e que quebres uma perna — respondeu D. Manuel, sorrindo.

— Mas isso não basta. É preciso dar uma ordem a teu administrador para que mas entregue. Aqui, neste papelzinho... Já que tens a pena na mão, não saio sem a ordem. Depois acabarás tua carta.

Dizendo isso, tirava da papeleira uma folha timbrada e a punha diante dele, afastando com a própria mão a carta que estava pela metade.

— Deus tenha compaixão de mim! E o diabo carregue estas santas afetadas, estas fundadoras de estabelecimentos que não servem para nada.

— Escreve, tolinho. Tudo o que falas é barulho. Se és a pessoa mais bondosa... e mais cristã...!

— Cristão, eu! — exclamou o cavalheiro, mascarando a benevolência com ferocidade histriônica. — Cristão, eu! Mau pecado! Para que nunca mais te aproximes de mim, vou tornar-me protestante, judeu, mórmon... Quero que fujas de mim como da peste.

— Vamos, não sejas bobo. Advirto-te que de modo algum te livrarás de mim, pois, ainda que te transformes no próprio Demônio, hei de pedir-te dinheiro e hei de arrancá-lo. Vamos; escreve isso para mim.

— Não tenho vontade.

E, dizendo-o, começou a redigir a ordem.

— Assim, assim... — dizia Guillermina, ditando. — “Senhor D... faça o favor de entregar as madeiras...”

— Isso... as madeiras... Madeira é o que deviam dar em ti.

Durante o silêncio da escrita, ouviu-se no corredor próximo um rumor de saias, vozes de mulheres e estalos de beijos. Moreno ergueu a pena, dizendo:

— Quem é?

— Não te interrompas... O que te importa? Deve ser Jacinta. Continua.

— Pois que entre aqui. Por que não entra?

— Está falando com tua irmã. Jacinta, Jacintinha!, entra: o monstro quer ver-te.

A porta abriu-se e apareceram Jacinta e Patrocinio, irmã de Moreno. Esta ria ao ver o irmão engalfinhado com a santa e, rindo, retirou-se.

— Venha... Jacinta, pelo amor de Deus — disse Moreno, assinando o documento —, e tire-me deste Calvário. Acredite que sua amiguinha está me crucificando.

— Cale-se, sovina — respondeu a jovem, avançando para a mesa. — É o senhor que a crucifica, porque, podendo dar-lhe tudo o que pede, pois tem de sobra, não lhe dá; e faz muito mal em atormentá-la, se pensa dar no fim.

— Muito bem, a senhora passou para o inimigo. Já não há salvação — afirmou ele, tirando os óculos e esfregando os olhos, cansados de tanto escrever. — Estamos perdidos.

— Então, que tal? Tenho bons advogados? — disse Guillermina, recolhendo o papel.

— Sovina! — repetiu Jacinta. — Negar-lhe três ou quatro mil tristes duros para acabar o andar...! Um homem sem filhos, nadando em dinheiro! O senhor, que antes era tão bom, tão caridoso...!

— É que me tornei protestante, herege, e vou tornar-me judeu, para ver se esta calamidade me deixa em paz.

— Não, não o deixaremos, não é? — insistiu a santa. — Olha, Manolo: Jacinta e eu pedimos agora juntas. Ainda que te tornes turco, já te arranjamos ocupação.

— Não, Jacinta não se mete nessas embrulhadas — disse Moreno, fitando-a nos olhos.

— Pois meto, sim. O asilo é meu; comprei-o.

— É? Pois, se deu duas pesetas por ele, fez mau negócio. Ainda está pela metade e já está caindo.

— Tu cairás primeiro.

— É meu — afirmou a senhora de Santa Cruz, avançando mais e pousando a palma da mão sobre a escrivaninha. — Vamos, rico avarento, dê para a obra de Deus.

— Outra! Já dei umas vigas que valem alguma coisa — respondeu Manolo, olhando encantado ora o rosto da pedinte, ora sua mão de anjo, rosada e rechonchuda.

— Isso não basta. Precisamos acabar o primeiro andar, e...

— Isso... isso... — interrompeu Guillermina. — Mas ele não te dará nem um ceitil. Sabes? Vai tornar-se mórmon e precisa do dinheiro para tantas mulheres que terá de sustentar.

— Devagar, minhas senhoras — observou o rico avarento, recostando-se na cadeira. — A coisa muda de aspecto. Jacinta metida a santa fundadora! Que compromisso! Agora, sim, não sei como sair desta, porque agora, sim, condeno-me de verdade se insistir na negativa. Pois não há dúvida de que esta mão que pede é mão do Céu...

— E muito do Céu — indicou a própria Delfina, sacudindo a mão. — Decida-se depressa, cavalheiro. É a primeira vez que exerço de santa. Se me der a esmola, será o primeiro a estrear-me.

— É?... — disse ele, movendo-se na cadeira com grande inquietação. — Pois dou, pois dou.

Guillermina começou a bater palmas, gritando:

— Hosana... já o apanhamos.

E, com vivacidade semelhante à de uma mocinha, lançou mão da chave que estava metida numa das gavetas da mesa.

— Ei... que liberdades são essas? — gritou o sobrinho, segurando-lhe a mão.

— O talão do banco... — dizia a rata eclesiástica, lutando para soltar-se e conter o riso. — Aqui, aqui o tens, cachorro herege... tira depressa e põe quatro números, quatro letras e o rabisco de tua assinatura. Jacinta, abre... tira-o... não tenhas medo.

— Ordem, ordem, senhoras — argumentou Moreno, cuja respiração o riso cortava. — Isto já é invasão de domicílio, arrombamento. Tenham calma, porque, senão, terei de chamar uma dupla de guardas.

— O talão, o talão! — gritava Jacinta, também batendo palmas.

— Paciência, paciência. Não tenho aqui o talão. Está lá embaixo, no escritório. Depois...

— Ora!... Está zombando de nós!...

— Não, não — disse Guillermina com ardor —, agora já não pode voltar atrás.

— Eu já não saio daqui sem a assinatura.

— Mais que a assinatura — manifestou Moreno, muito sério, pondo a mão sobre aquele coração que já não valia dois vinténs — vale minha palavra.

Estava pálido, quase branco, da cor do papel em que escrevia.

— De verdade?

— Não há mais o que falar.

— Isso, sim — disse a santa —, ele é um velhaco, um herege; mas, quanto à palavra, ele a cumpre...

Ditas mais algumas brincadeiras, as duas santas fundadoras retiraram-se, deixando o herege com o médico. Iam tão contentes que, quando entraram no quarto de Guillermina, pouco faltou para que esta se pusesse a dançar.

— Mas ele mandará mesmo o cheque? — perguntou Jacinta, incrédula.

— É como já o termos na mão... Foste muito hábil... Como ele tem tanta confiança comigo, põe-se muito difícil. Mas a ti não poderia negar... Que alegria!... Já temos o primeiro andar! Viva São José bendito! Vivaaa!... Viva a Virgem do Carmo!... Vivaaa! Porque tudo devemos a eles. Mais cedo ou mais tarde, Manolo me daria esse dinheiro. Ah, eu o conheço bem. Se é um anjão, um bendito, uma alma de Deus...!

ii

O regozijo não durou muito, porque ouviram o relógio da Puerta del Sol dar as dez, e ambas mudaram subitamente a expressão do rosto.

— Dez horas; veremos se ela vem — disse Guillermina, que ainda conservava clarões de alegria no rosto. — Prometeu vir; mas essa palavra não deve ser tão segura quanto a de Manolo.

E, permanecendo ambas de pé, a fundadora disse à amiguinha:

— Só faço isto por ti... meter-me na vida alheia! A impressão que tirei outro dia é que, por enquanto, não é ela quem o distrai de ti. Seria uma atriz consumada se não fosse assim. Se vier hoje, introduziremos a sonda mais fundo para ver se sai alguma coisa. De qualquer modo, pregarei nela um bom sermão para que o receba de cara fechada, caso ele tentasse... Acreditas numa coisa? Aquela mulher não me parece inteiramente má.

— Pode ser... Mas, se a senhora tivesse visto a cara que me fez outro dia, uma cara de rancor como não pode imaginar...

— Diz que depois se arrependeu...

— Velhaca! — exclamou Jacinta, franzindo os lábios e cerrando os punhos.

— Enfim, hoje voltaremos a sondá-la. Seja como for, seu sermãozinho ninguém lhe tira. E, caso venha cedo... combinamos das dez às onze... deves ir embora agora, para que ela não te encontre aqui.

Depois de algum tempo de silêncio, a Delfina disse com firmeza:

— Eu não vou.

— Minha filha, o que estás dizendo!... Estás louca?

— Eu não vou. Vou me esconder no quarto. Quero ouvir o que ela disser...

— Isso, sim, não consinto. Na minha casa, cenas de comédia? Não, não esperes por isso.

— Mas como a senhora é tola, exagerada e cheia de escrúpulos, minha filha! Que mal há nisso? Diga... Eu lhe digo que não vou.

— Pois ficas aqui... Ah, não, isso também não. Vai embora, menina de minha alma, e não me ponhas numa situação tão desagradável. Isso não combina com meu caráter.

— Deixe-me... pelo amor de Deus! Mas que importância tem?... vamos... Entro no quarto e fico lá como se estivesse na missa.

— Minha filha, nem nos teatros isso resulta com bom senso... Para depois saíres dizendo com voz cavernosa: “Ouvi tudo!”

— Não darei um pio. Ficarei apenas ouvindo... Vamos, afetada, deixe-me.

— Eu já imaginava que sairias com alguma tolice. És caprichosa. É assim que agradeces o que faço por ti...

— Mas que mal há?... Ora, como a senhora é teimosa. Pois não vou, não vou.

A campainha soou.

— Apostamos que é ela?... Lamento — disse Guillermina, aparecendo à porta.

Jacinta não julgou prudente discutir mais e, sem dizer nada, entrou no quarto, fechando cuidadosamente as portas envidraçadas. Guillermina, não se conformando com o esconderijo, quis sair com o propósito de receber a visita em outro aposento; mas a fatalidade dispôs que sua prima Patrocinio, ao ver Fortunata entrar, a tomasse por uma das muitas pessoas que iam ali pedir auxílio e a introduzisse, por assim dizer, à queima-roupa, no gabinete da santa. Esta ficou um pouco confusa, sem saber como sair daquele atoleiro.

— Ah, era a senhora?... Eu não a esperava... Entre e sente-se.

Fortunata, que estava vestida com grande simplicidade, entrou como entraria uma passadeira que vai entregar a roupa. Avançava timidamente, detendo-se a cada palavra da saudação, e foi preciso que Guillermina mandasse duas ou três vezes que se sentasse para que o fizesse. Seu ar modesto, seu acanhamento, que era o melhor sinal da consciência de sua inferioridade, faziam dela naquele instante o verdadeiro tipo da mulher do povo que, por acaso, se encontra frente a frente com pessoas de classe superior. Constrangia-a muito o temor de não saber empregar termos em consonância com os que a confessora usaria, pois, em todas as ocasiões difíceis, recuperava sua rudeza popular e lhe fugiam da memória os poucos ensinamentos de linguagem e maneiras que recebera em sua curta e acidentada vida de senhora.

Mas o verdadeiramente singular era que Guillermina, em geral tão senhora de sua palavra, também estava aturdida naquele dia e não sabia como proceder. O esconderijo da amiga enchia-a de confusão, porque era um engano, uma fraude, uma trapaça indigna de pessoas sérias. A primeira coisa que ocorreu à santa, para começar, foi ampliar o que dissera na casa de Severiana.

— Se a senhora quer que sejamos amigas e que eu lhe dê bons conselhos, é preciso ter muita confiança em mim e não me ocultar nada, por mais feio e mau que seja. Há em sua vida um ponto muito obscuro. A senhora é casada e não ama o marido; confessou-me isso outro dia. Acredite que isso me deu muito o que pensar. Diz que se casou sem saber o que fazia... Explicação escorregadia. Sejamos sinceras e falemos claramente. A sinceridade é difícil; mas, assim como as crianças que se confessam pela primeira vez não se confessariam se o padre não lhes arrancasse os pecadinhos de colher, eu também vou ajudá-la, perguntando e lançando o anzol da resposta. Veremos se morde... Quando decidiu casar-se, não fez lá no fundo do pensamento a ressalva de que o casamento lhe permitiria pecar livremente, não digo com este e com aquele, mas com o homem que amava?

Fortunata olhava para o teto, recordando.

— Não havia essa ressalva? Vamos... procure bem; procure mais dentro, mais embaixo.

— Pode ser que houvesse — disse a outra por fim, com voz muito baixa e trêmula. — Pode ser que sim...

— Vê como a borra sai quando se quer tirá-la?

— Mas também lhe direi que eu não contava voltar a vê-lo... Pensei que ele não se lembrava de mim. Cheguei a acreditar que poderia ser boa e honrada... engoli isso. Mas o que aconteceu? Ele me procurou... sim, senhora, procurou-me e encontrou-me. Sem saber como, de repente, o casamento e meu marido foram parar a cem mil léguas de distância. Não sei explicar, não sei explicar.

Assim que a conversa deslizava para o lado de Juanito Santa Cruz, Guillermina aterrorizava-se. Queria afastá-la daquela extremidade perigosa e não sabia como conduzir sua penitente a um terreno puramente ideal.

— Mas sua consciência... é isso que quero saber.

— Minha consciência!... isto é que é estranho... Conto-lhe como aconteceu... ela não se alvoroçava quando eu cometia aqueles pecados tão feios... Direi mais, ainda que a senhora se horrorize... minha consciência me aprovava... vamos ao caso, dizia-me uma coisa muito atroz, dizia-me que meu verdadeiro marido...

— Não continue — interrompeu a santa, alarmadíssima, julgando ouvir ruído no quarto. — É horrível. Não continue. Virgem do Carmo! A senhora está muito corrompida.

— Parecia-me — prosseguiu a penitente, incapaz de conter a efusão de sua sinceridade — que aquele homem me pertencia e que eu não pertencia ao outro... que meu casamento era um engano, uma ilusão, como as coisas que mostram nos teatros.

— Cale-se, cale-se, pelo amor de Deus...

— Mas espere... Ele me dera palavra de casamento... tão certo como isto é luz... E me dera antes de se casar... E eu tivera um filho... E parecia-me que nós dois estávamos ligados para sempre, e que todo o resto que veio depois não valia... é isso.

Guillermina levou as mãos à cabeça... Pensou que o melhor seria adiar a conferência para outro dia, alegando que precisava sair.

— Isso é muito grave. É preciso tratar devagar. É certo que uma promessa vincula um pouco... Não sustentarei que aquele jovem se comportou bem com a senhora. Mas o tempo, a sociedade... E, sobretudo, os direitos que a senhora poderia ter, perdeu-os com sua má conduta.

— Eu não teria sido má — disse a senhora de Rubin, ganhando coragem ao ver na confessora uma inexplicável perturbação —, se ele não me tivesse largado no meio da rua com um filho dentro de mim.

A santa vacilava; não sabia por onde sair. Ah, sem aquela perigosa testemunha de Jacinta, já se teria explicado muito bem, ensinando à atrevida quantos são cinco.

— A senhora, minha filha, está como que transtornada — disse-lhe, procurando maneiras de tornar a conversa insignificante. — Outro dia pareceu-me mais razoável... que mosca a picou...?

— Que mosca? — disse Fortunata com certo desvario no olhar. — Que mosca? Pois uma.

— Porque a senhora não leva em conta que passou muito tempo, que esse homem está casado com uma mulher angelical e que...

Na fisionomia da criatura acendeu-se de repente uma luz vivíssima. Foi como uma auréola de inspiração que lhe envolveu o rosto inteiro. Mais bela que nunca, tirou da cabeça um galhardíssimo argumento e lançou-o contra a outra como se lança uma bomba explosiva.

Pruuum! Guillermina ficou atordoada quando ouviu esta atrocidade:

— Angelical!... sim, tudo o que a senhora quiser; mas não tem filhos. Esposa que não tem filhos não é esposa.

Guillermina ficou tão pasma que não conseguiu responder.

— É uma ideia minha — prosseguiu a outra, com a inspiração de um apóstolo e a audácia criminosa de um anarquista. — A senhora dirá o que quiser; mas é uma ideia minha, e ninguém a tira de minha cabeça... Virtuosa, sim; estamos de acordo; mas não pode dar-lhe um herdeiro... Eu, eu, eu lhe dei um, e posso tornar a dar...

— Pelo amor de Deus... cale-se... nunca vi outro caso... Que ideia!... Que atrevimento! A senhora está condenada.

E a virgem e confessora chegou a tal grau de confusão que já não acertava nada.

— Estarei tão condenada quanto a senhora quiser... mas é minha ideia; com esta ideia irei para o Inferno, para o Céu ou para onde Deus dispuser que eu vá... Porque isso de eu ser má, muito má, ainda está por provar.

A santa olhava-a com verdadeiro espanto. Fortunata parecia fora de si, como o artista exaltado que não tem consciência do que diz ou canta.

— Por que devo ser tão má quanto pareço?... porque tenho uma ideia? A gente não pode ter uma ideia?... A senhora diz que a outra é um anjo? Não nego, não pretendo tirar-lhe o mérito... Eu gosto dela, queria parecer-me com ela em algumas coisas, em outras não, porque ela será para a senhora tão santa quanto queira, mas está abaixo de mim numa coisa: não tem filhos, e, quando se trata de ter filhos, não me abaixo diante dela e ergo a cabeça, sim, senhora... E ela já não os terá, porque isso está provado, e, quanto a eu poder tê-los, também está muito provado. É minha ideia, uma ideia minha. E digo outra vez: a esposa que não dá filhos não vale... Sem nós, as que os damos, o mundo acabaria... Logo, nós...

“Nada, nada, esta mulher está louca e não terei outro remédio senão pô-la na rua”, pensou Guillermina. “E que sofrimento estará passando a outra pobre, ouvindo tais delicadezas!”

Notava nela certa exaltação doentia. Não era a mesma mulher com quem falara dois dias antes. Já tinha na boca as palavras para despedi-la com bons modos, quando se ouviu um ruído como de uma mão batendo nos vidros de uma galeria e depois uma voz que chamava Guillermina. Esta apareceu. Fortunata ouviu claramente a voz de Dona Bárbara perguntando:

— Jacinta está aí?

iii

A santa hesitou antes de responder. Por fim respondeu:

— Jacinta?... Não, não está aqui.

As duas damas pouco mais conversaram, e Guillermina voltou para junto da visita; mas a falsidade que se vira obrigada a dizer transtornava-lhe de tal modo o espírito que ela não parecia a mulher de sempre, segura, impávida e tão senhora de sua palavra quanto de seus atos. A mentira e o esconderijo teatral da amiga puseram-na na situação mais crítica do mundo, porque se habituara à verdade e vivia nela como os peixes na água. A pobre senhora estava, com aqueles escrúpulos, como peixe tirado de seu elemento, e chegou a passar-lhe pela cabeça a pavorosa ideia: pecado mortal! Enfim, aquilo tinha de acabar.

— Minha filha, a senhora está hoje um pouco alucinada. Bem gostaria de ouvi-la, consolá-la... mas terá de desculpar-me por hoje... Outro dia...

— A senhora precisa sair? — disse a anarquista, penalizada. — Está bem, voltarei; tenho de contar-lhe uma coisa... Se não contar à senhora, vou lamentar... Ai, uma coisa que me aconteceu ontem... tremenda, muito tremenda!

Guillermina permaneceu de pé, dizendo consigo: “O que será?”

— Se a senhora persiste — acrescentou em voz alta — em ter essas ideias extravagantes, é difícil que eu a console. Nunca nos entenderemos.

Naquele momento a pecadora cravava os olhos na santa. Estava achando-a parecida com Mauricia. O rosto não era o mesmo; mas a expressão, sim... e a voz tornara-se rouca como a das pessoas que bebem aguardente.

— Em que a senhora está pensando? Por que me olha tanto? — perguntou Guillermina, que já estava impaciente para terminar.

— Olho porque gosto de olhá-la... Ontem e anteontem, e todos os dias desde aquele em que conversamos, tenho a senhora metidinha dentro dos olhos; vejo-a quando durmo e quando não durmo. Ontem, quando me aconteceu o que me aconteceu, eu disse: “Não terei sossego enquanto não contar à senhora.”

Guillermina, movida por grande curiosidade, sentou-se e, tomando-lhe uma das mãos, disse em voz baixa:

— Conte... Estou ouvindo.

— Pois ontem — relatou a jovem com os olhos baixos, erguendo-os ao fim de cada frase como se pusesse com eles as vírgulas, mais do que com a entonação —, pois ontem... eu ia muito tranquila pela rua de la Magdalena, pensando na senhora... porque sempre penso na senhora e... parei para olhar a vitrine de uma loja onde há canos e torneiras... Nem sei por que parei ali, pois que me importam os canos?... quando senti às minhas costas... melhor dizendo, aqui no pescoço, uma voz... Ai, senhora!, a voz soou aqui atrás, junto destes cabelinhos que temos onde nasce a cabeleira, e foi como se me enfiassem uma agulha muito fina e muito fria... Fiquei gelada... virei-me... vi-o... ele sorria.

Guillermina estendeu a mão para tapar-lhe a boca; mas sem resultado.

— Eu não conseguia falar... Fiquei como uma estátua; deu-me vontade de chorar, de sair correndo ou não sei quê.

— Ele não deve ter-lhe dito nada de particular — indicou a santa, muito assustada, procurando tirar gravidade do assunto. — Apenas uma saudação...

— Que saudação?... A senhora vai ver. Disse-me: “Menina, o que é feito de tua vida?...” Eu não consegui responder... Dei meia-volta, e ele me pegou pela mão.

— Vamos, vamos, isto já é demais — declarou Guillermina, levantando-se perturbadíssima. — Outro dia a senhora me contará isso...

— Não, não há mais muito... Retirei a mão e fui embora sem lhe dizer nada... Não tive coragem de seguir adiante sem olhar para trás, e olhei e o vi... Ele me seguia, de longe. Acelerei o passo e entrei em casa...

— Muito bem-feito, muito bem-feito...

— Mas espere — disse Fortunata, que já não estava exaltada, mas num grau de humildade lastimosa, e seu tom era o dos penitentes muito aflitos, que não conseguem suportar o fardo das culpas. — Ainda falta o melhor. Depois que o vi, cravou-se de tal maneira em meu pensamento a ideia de... É uma ideia minha, uma ideia má, senhora... mas a senhora é uma santa e vai tirá-la da minha cabeça... Por isso não tenho sossego enquanto não lhe disser...

— Basta, basta; não quero, não quero.

— Quer, sim — insistiu a jovem, retendo-a pelas duas mãos, pois a confessora fizera menção de afastar-se.

— Uma ideia infame... a ideia de pecar outra vez... — disse Guillermina, balbuciante. — É isso?...

— É isso... mas a senhora verá. Quero expulsá-la de mim; mas às vezes me ocorre que não devo expulsá-la, que não peco...

— Jesus!

— Que assim deve ser, que assim está disposto — acrescentou a senhora de Rubin, tornando a exaltar-se e a assumir a expressão do anarquista que lança a bomba explosiva para fazer saltar os poderes da terra. — É uma ideia minha, uma ideia muito desgraçada, uma ideia negra como as meninas dos olhos de Satanás... e não consigo arrancá-la.

— Cale-se...

Guillermina fez cara de consternação e deu alguns passos, vacilando como uma pessoa prestes a cair. Havia muito, muito tempo, que a insigne fundadora não se encontrava em semelhante apuro. Sentia-se presa e sem liberdade, e isso a tirava de si, destruindo aquela serenidade soberana que normalmente possuía. Ainda tentou um esforço para dominar situação tão penosa e, lançando olhares alarmados à porta envidraçada do quarto, disse:

— Mas a senhora... não reflete... que...

Não conseguiu concluir aquela frase trivial. A outra, que, sendo a cifra de todas as fraquezas humanas, parecia mais forte do que a grande doutora e santa, permitiu-se sorrir ao ouvi-la.

— E o que ganho refletindo? Quanto mais reflito, pior.

— Vejo que a senhora não tem freio... Com essas ideias, logo voltaríamos ao estado selvagem.

Com um sorriso sarcástico e um expressivo erguer de ombros, Fortunata deu a entender que, por ela, não havia inconveniente em a sociedade voltar ao estado selvagem...

“A senhora não tem senso moral; jamais poderá ter princípios, porque é anterior à civilização; é uma selvagem e pertence inteiramente aos povos primitivos.” Isso ou coisa semelhante Guillermina lhe teria dito se seu espírito estivesse em outra disposição. Exprimiu apenas algo que se relacionava vagamente com aquelas ideias:

— A senhora tem as paixões do povo, brutais e como uma pedra ainda não lavrada.

Assim era a verdade, porque o povo, em nossas sociedades, conserva as ideias e os sentimentos elementares em sua plenitude rude, como a pedreira contém o mármore, matéria da forma. O povo possui as grandes verdades em bloco, e a civilização recorre a ele à medida que se gastam as pequenas de que vive.

De repente Fortunata vacilou em seu ânimo. Parecia uma força nervosa que caía em brusca sedação. A outra, em contrapartida, engrandeceu-se subitamente por um abalo da consciência.

— Chega, chega de mentira. Não posso, não posso...

Ergueu os olhos para o teto, cruzou as mãos, o rosto ficou muito aceso e os olhos iluminados. A anarquista ficou atônita ao ouvi-la dizer estas palavras com um acento que parecia vir de outro mundo:

— Salva, meu Jesus, esta alma que quer perder-se, e afasta-me da mentira.

Depois se aproximou dela e, tomando-lhe uma mão, disse com profunda compaixão:

— Pobre mulher! Eu tenho a culpa das atrocidades que a senhora disse, eu, eu, Deus me perdoe, e a causa foi uma farsa, uma mentira... A verdade antes de tudo. A verdade sempre me salvou e agora me salvará. A senhora disse coisas infernais que dilaceram o coração de minha amiga, e disse-as porque acreditava estar falando apenas comigo. Pois eu a enganei, porque Jacinta está escondida naquele quarto.

Dizendo isso, correu para a porta envidraçada e empurrou-a. Fortunata, que estava sentada diante daquela porta, levantou-se de um salto, ficando rígida e muda. Jacinta não aparecia. Ouviram-se apenas seus soluços. Estava sentada numa cadeira, apoiando a cabeça na cama da santa. Esta foi até ela e disse:

— Perdoa-a, querida, porque não sabe o que diz.

— E a senhora... — acrescentou, saindo à porta — bem compreenderá que deve retirar-se. Faça-me o favor...

Talvez tudo houvesse terminado de modo pacífico; mas a Delfina levantou-se de repente, tomada daquela raiva de pomba que às vezes lhe vinha. Almas benditas! Num salto saiu para o gabinete. Estava roxa de tanto chorar e da imensa cólera que sentia... Não conseguia falar... sufocava. Teve de cuspir as palavras para conseguir dizer, em gritos entrecortados:

— Velhaca... infame, tem a coragem de acreditar-se!... não compreende que não foi mandada... para as galés porque a justiça... porque não há justiça... E a senhora... — dirigia-se a Guillermina — não sei como consente, não sei como pôde acreditar... Que ignomínia!... Esta mulherzinha aqui, nesta casa... que afronta!... Ladra...!

Fortunata, no primeiro movimento de surpresa e temor, dera uma volta e se colocara atrás da poltrona em que pouco antes estivera sentada. Apoiando as mãos no encosto, abaixou o corpo e meneou os quadris como os tigres prestes a saltar. Guillermina olhou-a, sentindo o maior espanto de toda a vida... Fortunata abaixou ainda mais a cabeça... Seus olhos negros, colocados contra a claridade da varanda, pareciam tornar-se verdes, lançando um fulgor de luz elétrica. Ao mesmo tempo deixou ouvir uma voz rouca e terrível que dizia:

— A ladra és tu... tu! E agora mesmo...

A ira, a paixão e a grosseria do povo manifestaram-se nela de golpe, com explosão formidável. Voltou à infância, àquela época em que, trocando insultos com alguma outra garota da pracinha, agarravam-se pelos cabelos e batiam-se com força até que os adultos as separassem. Não parecia ser quem era, nem devia ter consciência do que fazia. Jacinta e Guillermina acovardaram-se por um momento; mas logo a primeira soltou um grito de angústia, e a santa saiu para pedir socorro. Fortunata não teve tempo de prolongar a altercação nem de voltar a si, porque apareceu à porta o criado de Moreno, um inglês enorme como um castelo, e pouco depois vieram Dona Patrocinio e o próprio Moreno.

A senhora de Rubin não se deu conta do restante... Guardava depois uma ideia incerta de que a mão dura do inglês a pegara por um braço, apertando-o tanto que ainda lhe doía no dia seguinte; de que a tiraram do gabinete, abriram-lhe a porta e ela se viu descendo a escada.

Todos acudiram à senhora de Santa Cruz, que perdera os sentidos, e Moreno, fazendo uma cara entre zombeteira e consternada, deixou escapar:

— Essas coisas acontecem à minha querida tia por meter-se a redentora.

iv

Fortunata desceu os degraus rindo... Era um riso estúpido, salpicado de interjeições.

— Dizerem isso a mim...! Se não me expulsam, eu a agarro... levanto-a... mas não sei, não me lembro bem se lhe arranhei o rosto. Dizerem isso a mim! Se lhe dou uma mordida, não a solto... Ha, ha, ha...

As pernas tremiam tanto que, ao chegar à rua, mal conseguia andar. A luz e o ar pareceram clarear-lhe um pouco a cabeça, e começou a dar-se conta da situação. Mas era verdade o que dissera e fizera? Não tinha certeza de havê-la golpeado; mas, sim, de que lhe dissera alguma coisa. E por que a outra a chamara de ladra?... Subiu pela rua de la Paz, passando a todo instante de uma calçada à outra sem saber o que fazia.

— Mas o que fiz?... Oh, fiz muito bem... Chamar-me de ladra, ela que roubou o que era meu!

Voltou-se para trás e, como quem lança uma maldição, disse entre dentes:

— Tu me chamarás do que quiseres... Chama-me isto ou aquilo e terás razão... Tu serás um anjo... mas não tiveste filhos. Os anjos não os têm. E eu, sim... É minha ideia, uma ideia minha. Rói-te, rói-te, rói-te... E não os terás, nunca os terás, e eu, sim... Rói-te, rói-te, rói-te...

Mais adiante do Banco tornou a rir. Seu monólogo era assim:

— Igualzinha à outra, a senhora do Espírito Santo... Dona Mauricia, digo, Guillermina, a Dura... Quer fazer-nos acreditar que é santa... bela peça! Farta de divertir-se com os padres, quer tornar-se a bispa catolicíssima e meter-se no confessionário... Perdida, beberrona, hipócrita!... espinho de sacristia, amancebada com todos os clérigos... com o Núncio e com São José...

De repente suas ideias mudaram e, sentindo dolorosa angústia na alma, como impressão de um vazio horrível, pensava assim:

— Mas a quem recorrerei agora? Meu Deus, como estou sozinha! Por que morreste, amiga de minha alma, Mauricia!... Digam o que disserem, tu eras um anjo na terra, e agora estás divertindo-te com os do Céu; e eu aqui tão sozinha! Por que morreste? Volta para cá... O que será de mim? O que me aconselhas? O que me dizes?... Que vontade sinto de chorar! Sozinha, sem ninguém que me diga uma palavra de consolo... Oh, que amiga perdi!... Mauricia, não fiques mais entre as almas benditas e volta a viver... Olha que estou órfã, e eu e os órfãozinhos de teu asilo estamos chorando por ti... Os pobres que socorrias chamam por ti. Vem, vem... O senhor Pepe fez os tirantes... vi-o esta manhã na forja, martelando, tin, tan... Mauricia, amiga de minha alma, vem, e nós duas juntas contaremos nossas dores, falaremos de quando nossos homens nos amavam e do que nos diziam quando nos embalavam, e depois beberemos aguardente juntas, porque eu também quero a aguardentezinha, como tu, que estás na glória, e a beberei contigo para que minhas dores adormeçam, sim, para que minhas dores se embriaguem.

Por fim entrou em casa. Inteiramente transtornada, andava como uma máquina. Não havia ninguém além de Papitos, que ela viu, mas a quem nada disse. Trancou-se no quarto, atirou o manto e lançou-se no sofá, soltando um rugido. Depois de revolver-se como fera ferida, pôs-se de bruços, apertando o ventre contra as molas do sofá e cravando os dedos numa almofada. Não demorou a cair num letargo penoso, cheio de visões absurdas e horríveis, sem dar-se conta do tempo em que permaneceu assim. Quando voltou a si, havia pouca luz no quarto. Fixando a vista, pôde distinguir o rosto perscrutador de Dona Lupe, que a observava...

— O que tens?... Assustaste-me. Soltavas uns mugidos...!, e de repente te punhas a rir, e escapavam-te umas palavrinhas...!

Às perguntas reiteradas e capciosas da tia, respondia evasivamente e com muita inépcia.

— Onde estiveste hoje? Tu saíste.

— Fui comprar aquele tecido...

— E onde está?

— Onde está o tecido?... Pois não sei...

— Parece que estás na lua. Acontece alguma coisa contigo. Levanta-te desse sofá.

Mas ela não se levantava. A viúva começou a suspeitar que aquele espírito estava perturbado e tremeu. Vieram-lhe ao pensamento vergonhas e desgraças passadas, e prometeu a si mesma vigiar muito. A senhora passou a noite inteira emburrada, e Fortunata mais emburrada ainda, sentindo que a aversão por toda aquela família se apoderava de sua alma. Não conseguia vê-los. Eram seus carcereiros, seus inimigos, seus espiões. A qualquer parte da casa que fosse, Dona Lupe a seguia. Sentia-se vigiada, e o arrastar dos chinelos da tia causava-lhe ira violentíssima. No dia seguinte, depois do almoço, quando Maxi já partira para a farmácia, Fortunata teve tanto medo de que a ira explodisse que, para evitá-lo, amarrou uma faixa na cabeça, fingindo enxaqueca, e, trancando-se no quarto, deitou-se na cama. Meia hora depois veio-lhe, como no dia anterior, aquela embriaguez, o desvanecimento das ideias, que se embriagavam com goles de dor e adormeciam.

Nessa situação, sente vivos impulsos de sair à rua; levanta-se, veste-se, mas não tem certeza de haver tirado a faixa. Sai, dirige-se à rua de la Magdalena e para diante da vitrine da loja de canos, obedecendo àquela rotina do instinto pela qual, quando temos um encontro feliz em determinado lugar, voltamos ao mesmo lugar acreditando que o teremos pela segunda vez. Quantos canos! Chaves de bronze, torneiras e uma multidão de coisas para levar e trazer água... Detém-se ali por um tempo razoável, olhando e esperando. Depois segue para a praça del Progreso. Na rua de Barrionuevo, para à porta de uma loja onde há peças de tecido desenroladas e penduradas, formando ondas. Fortunata examina-as e pega alguns panos entre os dedos para apreciá-los pelo tato.

— Como é bonita esta chita!

Lá dentro há um anão, um monstro vestido com um balandrau vermelho e turbante, criatura de transição que ficou no meio do caminho darwinista pelo qual os orangotangos vieram a tornar-se homens. Aquele mostrengo faz ali mil extravagâncias para atrair o público, e na rua os garotos se amontoam para vê-lo e rir dele. Fortunata prossegue e passa junto à taberna em cuja porta está a grande grelha para assar costeletas e, debaixo dela, a enorme fornalha cheia de fogo. Aquela taberna guarda para ela lembranças que lhe arrancam tiras do coração... Entra pela Concepción Jerónima; sobe depois pelo beco del Verdugo até a praça de Provincia; vê as bancas de flores e ali hesita entre seguir para Pontejos, para onde a empurra sua maldita ideia, ou desviar-se para a rua de Toledo. Opta por esta última direção, sem saber por quê. Deixa-se levar pela rua Imperial e para diante do vestíbulo do Fiel Contraste para ouvir um pianinho que está tocando uma música muito bonita. Sente vontade de dançar e talvez dance um pouco; não tem certeza.

Ocorre então uma dessas obstruções tão frequentes nas ruas de Madri. Sobe um carroção de sete mulas enfileiradas como um rosário. A da frente insubordina-se, entrando na calçada, e as outras tomam aquilo por pretexto para não puxar mais. O veículo, carregado de odres de azeite, com um cão amarrado ao eixo e a frigideira das migas pendurada atrás, estaciona justo quando chega pela retaguarda o carro da carne, com os quartos de vaca pingando sangue, e os dois carroceiros começam a despejar pela boca as finuras de costume. Não há meio de abrir passagem, porque o rosário de mulas forma uma curva, e dentro dela fica preso um fiacre que desce com duas senhoras. Era só o que faltava... Pouco depois chega uma carruagem de luxo com um cavalheiro muito gordo. Passa tu, afasta-te tu, sim e não. O carroceiro da carne cobre Deus de insultos. Pau nas mulas, que começam a corcovear, e um desses coices acerta a portinhola do fiacre e a despedaça... Gritos, pancadaria, e o condutor do carroção empenhado em consertar a situação pondo Deus, a Virgem, a hóstia e o Espírito Santo de um jeito impossível de repetir.

E o pianinho continua tocando ares populares, que parecem acender com seus acentos de combate o sangue de toda aquela turba. Várias mulheres que têm na sarjeta bancas ambulantes de lenços recolhem às pressas o comércio, e o mesmo fazem os da grande liquidação de saldo, a real e meio a peça. Um indivíduo que sobre uma mesinha dobrável exibe o grande invento para cortar vidro precisa sair em disparada; outro que vende os lápis mais resistentes do mundo, com os quais dá tremendas bicadas na madeira sem lhes quebrar a ponta, também recolhe os apetrechos, porque a mula da frente avança contra ele. Fortunata olha tudo aquilo e ri. O chão está úmido, e os pés escorregam. De repente, ai!, pensa que lhe cravam um dardo. Descendo pela rua Imperial em direção ao grande aglomerado de gente que se formou, vem Juanito Santa Cruz. Ela ergue-se na ponta dos pés para vê-lo e ser vista. Seria milagre se ele não a visse. Vê-a no mesmo instante e vai direto a ela. Fortunata treme, e ele lhe pega uma mão, perguntando por sua saúde. Como o pianinho continua blasfemando e os carroceiros tocando seus instrumentos, ambos precisam elevar a voz para se ouvir. Ao mesmo tempo, Juan faz uma expressão muito aflita e, levando-a para dentro do vestíbulo do Fiel Contraste, diz-lhe:

— Arruinei-me, menina, e, para sustentar meus pais e minha mulher, trabalho como escrevente num escritório... Estou tentando uma vaga de cobrador de bonde. Não vês como estou malvestido?

Fortunata olha para ele e sente uma dor tão viva como se lhe dessem uma punhalada. Com efeito, a capa do senhorito Santa Cruz tem um rasgão tremendo e, debaixo dela, aparece o paletó com as orlas desfiadas, a gravata encardida e o colarinho de duas semanas... Então ela se deixa cair sobre ele e diz com carinhosa efusão:

— Alma minha, trabalharei por ti; eu estou acostumada, tu não; sei passar, sei remendar, sei servir... tu não precisas trabalhar... eu por ti... Basta que me acompanhes para entregar as roupas... nada mais. Viveremos num sótão, sozinhos e muito felizes.

Então começa a ver que as casas e o céu se desvanecem, e Juan já não está de capa, mas com um sobretudo muito elegante. Edifícios e carros desaparecem, e em seu lugar Fortunata vê algo que conhece muito bem: as roupas de Maxi penduradas num cabide, as suas em outro, com uma cortina de percal por cima; depois vê a cama, vai reconhecendo pedaço a pedaço seu quarto; e a voz de Dona Lupe ensurdece a casa, repreendendo Papitos porque, ao preparar as lamparinas, derramou quase todo o querosene... e ainda bem que é dia, porque, se fosse noite e houvesse luz acesa, incêndio certo.

v

O que sonhara ficou tão impresso na mente da senhora de Rubin como se fosse realidade. Vira-o, falara-lhe. Completou seu pensamento, ameaçando com o punho fechado um ser invisível:

— Ele tem de voltar... Pois o que pensavas? E, se ele não me procurar, eu o procurarei... Tenho minha ideia, e ninguém a tira de mim.

Depois se ergueu, ficando apoiada num cotovelo e olhando para os ladrilhos. Seus olhos fixaram-se num ponto do chão. Com rápido impulso saltou para aquele ponto e apanhou um objeto. Era um botão... Olhou-o tristemente e depois o lançou com força para longe, dizendo:

— É preto e tem três furinhos. Mau agouro.

Voltou à cogitação:

— Porque, se eu o encontrar e ele não quiser vir, eu me mato, juro que me mato. Não vivo mais assim, Senhor; digo-te que não tenho vontade de continuar vivendo assim. Darei um jeito de procurar na farmácia qualquer veneno que acabe depressa... Engulo e vou-me com Mauricia.

Aquela ideia parecia dar-lhe certa firmeza, e ela saiu do quarto. Em poucas palavras, Dona Lupe pô-la a par da enorme asneira que Papitos fizera.

— Nada, filha, se fosse noite e o querosene se derramasse com a luz acesa, morreríamos todos queimados... Esta menina é muito desgraçada e vai consumir minha vida.

Passada a irritação, fixou-se no rosto da sobrinha, encontrando nele um obscuríssimo hieróglifo que não conseguia decifrar:

— Mas fica tranquila, que eu ainda te decifro... Comigo não brincas.

Naquela noite Maxi fez mil extravagâncias e, na manhã seguinte, ficou tão irascível e melindroso que ninguém o aguentava.

— É preciso ter muita paciência — disse Dona Lupe a Fortunata. — Sabes o que te aconselho? Não o contradigas em nada. É preciso dizer sim a tudo, sem prejuízo de fazer o que deve ser feito. O pobrezinho está mal. Ballester me disse esta manhã que ele tem um pouco de amolecimento cerebral. Deus nos tenha pela mão.

Fortunata sentia vivos desejos de sair à rua e não sabia que pretexto inventar para conseguir escapadas. Oferecia-se para fazer compras de que Dona Lupe necessitava e inventava afazeres que justificassem uma saidinha. A astuta viúva de Jáuregui compreendeu que uma sujeição absoluta seria prejudicial e começou a dar-lhe liberdade. Certo dia leu-lhe a cartilha nestes termos:

— Podes sair; não és uma menina e já sabes o que fazes. Creio que não nos darás desgosto algum e que zelarás pelo decoro da família como eu zelo. A dignidade, filha, a dignidade é o primeiro.

Mas Dona Lupe começava a tornar-se horrivelmente antipática para ela, e por nada no mundo Fortunata lhe faria uma confidência. Falando com franqueza, o que mais desgostava Dona Lupe não era Fortunata sair, mas não lhe comunicar nada do que pensava ou sentia. Pensar que talvez naquele exato momento a senhora de Rubin estivesse armando uma grande patifaria contra o decoro da família mortificava-a, sim, mas não tanto quanto ver que não a consultava nem lhe pedia conselho sobre aquilo, desconhecido e obscuro, que sem dúvida lhe acontecia.

“Esse segredo é o que me faz estourar. Se eu o descobrir, haverá escândalo. Em hora maldita entrou aqui esta loucura. Não, nunca a engoli, o Senhor é testemunha... sempre me desagradou. O ganso de Nicolas foi quem estragou tudo, tomando a coisa pelo lado religioso... Se ao menos ela viesse a mim e dissesse: ‘Tia, estou neste conflito, faltei ou vou faltar, ou talvez falte se não me impedirem...’ Ela sabe muito bem que, com a experiência que tenho e com a facilidade de raciocinar que Deus me deu, eu lhe abriria caminho para pôr a salvo a honra da família. Mas não... a besta insiste em governar-se sozinha, e o que fará?... Alguma barbaridade, e das grandes. Senão, esperem para ver.”

Fortunata saiu à rua e, na praça del Progreso, viu muitas carruagens; mas muitas. Era um enterro que seguia pela rua del Duque de Alba em direção à de Toledo. Pelos rostos conhecidos que foi vendo enquanto passava o séquito fúnebre, compreendeu que o enterro era de Arnaiz, o Gordo, falecido no dia anterior. Passaram os Villuenda, os Trujillo, os Samaniego, Moreno-Isla... Pois D. Baldomero e o filho também iriam... talvez nos carros da frente, presidindo o cortejo...

— Ora, também Estupina.

Do fiacre em que ia com um dos rapazes, o grande Plácido lançou-lhe um olhar de indignação e desdém. Ela seguiu atrás do enterro e, ao chegar à parte baixa da rua de Toledo, tomou à direita pela rua de la Ventosa e foi até a esplanada do Portillo de Gilimón, de onde se descobre toda a várzea do Manzanares. Conhecia bem aquele lugar, porque, quando morava na rua de Tabernillas, muitas tardes ia passear em Gilimón e, sentando-se num dos blocos de pedra que há ali, e que não se sabe se são restos ou preparativos de obras municipais, ficava longo tempo contemplando as belas vistas do rio. Pois fez o mesmo naquele dia. O céu, o horizonte, as formas fantásticas da serra azul, revolvidas com as massas de nuvens, sugeriam-lhe ideias vagas de um mundo desconhecido, talvez melhor do que este em que estamos, mas certamente diferente. A paisagem é ampla e bela, limitada ao sul pela fileira de cemitérios, cujos mausoléus branqueiam entre o verde escuro dos ciprestes. Fortunata viu o longo rosário de carruagens como uma cobra que avançava ondulando; ao mesmo tempo, outro enterro subia pela rampa de San Isidro, e outro pela de San Justo. Como o vento vinha daquela direção, ouviu claramente o sino de San Justo anunciando um cadáver.

“Ele estará com o pai”, pensou, “e, ainda que me veja quando voltar, não há de dizer-me nada.”

Depois de permanecer ali longo tempo, foi à Virgen de la Paloma, a quem disse algumas coisas, e estava rezando quando seus olhos, ao deslizarem pelo chão, tropeçaram num objeto que brilhava entre as lajotas de mármore. Pôs-se por um momento de quatro para apanhá-lo. Era um botão.

— É branco e tem quatro furinhos! Bom agouro — disse, guardando-o.

Foi para casa e, no dia seguinte, saiu para comprar tecido para um vestido. Esteve em duas lojas da Plaza Mayor, tomou depois a rua de Toledo com o pacote na mão e, ao dobrar a esquina da rua de la Colegiata para seguir em direção a casa, recebeu como um tiro esta voz que soou a seu lado:

— Negra!

Meu Deus!, encontrá-lo assim tão de repente, justamente num dos poucos instantes em que não estava pensando nele! Ela vinha imaginando a combinação que poria no vestido. Azul ou prata velha? Olhou-o e ficou da cor da cera branca. Ele então deteve um fiacre que passava. Abriu a portinhola e olhou para a antiga amiga, sorrindo; sorriso que queria dizer: Vens ou não? Se estás morrendo de vontade de vir... para que essa hesitação?

A hesitação durou uns dois segundos. Depois Fortunata entrou na carruagem de cabeça, como quem se atira num poço. Ele entrou atrás, dizendo ao cocheiro:

— Olhe, siga para as Rondas... paseo de los Olmos... o Canal.

Durante algum tempo olharam-se, sorriram e nada disseram. Às vezes Fortunata inclinava-se para trás, como desejando não ser vista pelos transeuntes; em outras parecia tão tranquila como se estivesse acompanhada pelo marido.

— Ontem eu te vi... digo, não te vi... Vi o enterro e imaginei que irias nas carruagens da frente.

Os olhos dela envolveram-no num olhar suave e carinhoso.

— Ah, sim, o enterro do pobre Arnaiz... Diz-me uma coisa: guardas rancor de mim?

O olhar dela tornou-se úmido.

— Eu?... Nenhum.

— Apesar de eu ter me comportado tão mal contigo?...

— Já te perdoei.

— Quando?

— Quando! Que graça! No mesmo dia.

— Faz tempo, menina negra, que penso muito em ti — disse Santa Cruz com um carinho que não parecia fingido, cravando-lhe uma mão na coxa.

— E eu!... Vi-te na rua Imperial... não, digo, sonhei que te vi.

— Eu te vi na rua de la Magdalena.

— Ah, sim... a loja de canos; muitos canos.

Mesmo com aquela linguagem amistosa, a reserva só se rompeu quando saíram para a Ronda. Ali o isolamento os invadiu. A carruagem penetrava no silêncio e na solidão como um navio que avança em alto-mar.

— Tanto tempo sem nos vermos! — exclamou Juan, passando-lhe o braço pelas costas.

— Tinha de ser, tinha de ser! — disse ela, inclinando a cabeça sobre o ombro dele. — É meu destino.

— Como estás bonita! Cada dia mais formosa!

— Toda para ti — afirmou ela, pondo a alma inteira numa frase.

— Toda para mim — disse ele, e os dois rostos se apertaram um contra o outro. — E eu não a mereço, não a mereço. Francamente, menina, não sei como ainda olhas para mim.

— Meu destino, filho, meu destino. E não me arrependo, porque tenho aqui comigo minha ideia, sabes?

Santa Cruz não pensou em pedir-lhe que explicasse a ideia. A sua era esta:

— Mas como estás linda! Fizeste alguma travessura durante o tempo que passamos sem nos ver?

— Travessuras, eu?... — estranhando muito a pergunta.

— Quero dizer: depois que voltaste para teu marido, não tiveste por aí algum devaneio...?

— Eu! — exclamou ela com o acento da dignidade ofendida. — Mas estás louco! Não tenho devaneios senão contigo...

— De quanto tempo podes dispor?

— De todo o que quiseres.

— Poderias ter um desgosto em casa.

— É verdade... mas e daí?

E no mesmo instante lembrou-se das admoestações de Feijoo. Claro; não havia necessidade de perder a compostura nem de faltar à religião das aparências.

— Pois disponho de uma hora.

— E amanhã?

— Nós nos veremos amanhã? Não me enganes, mas não me enganes — disse ela, suplicante. — Estou acostumada às tuas lorotas...

— Não, agora não... Tu me amas?

— Que pergunta!... Bem sabes, e por isso abusas. Sou muito tola contigo; mas não posso evitar. Ainda que me batesses, eu te amaria sempre. Que barbaridade! Mas Deus me fez assim, que culpa tenho?

Tamanha ingenuidade, já conhecida pelo incrédulo Delfim, era uma das coisas que mais o encantavam nela. Havia tempo que ele notava certa secura na alma e ansiava mergulhá-la no frescor daquele afeto primitivo e selvagem, pura essência dos sentimentos do povo rude.

— Vais me enganar outra vez, farsante? — cravando por sua vez os dedos no joelho dele.

— Não craves tanto, filha, que dói. E agora aproveitemos o momento, sem pensar no que faremos ou não depois. Isso depende das circunstâncias.

— Ah, essas senhoras circunstâncias é que me aborrecem. E eu digo: “Mas, Senhor, para que há circunstâncias no mundo?” Não devia haver senão amar-se e viver.

— Tens razão — abraçando-a com frenesi nervoso e dando-lhe uma infinidade de beijos. — Amar-se e viver. És o maior coração que existe.

Fortunata tornou a lembrar-se do amigo e mestre Feijoo. Coração grande era um mal e precisava ser aparado.

— Reconheço — prosseguiu o Delfim — que vales muito mais do que eu em matéria de coração, mas muito mais. Ao teu lado sou pouca coisa, menina negra. Não sei o que tens nesses malditos olhos. Dentro deles passeiam todas as auroras da glória celestial e todas as chamas do Inferno... Ama-me, ainda que eu não mereça.

— Morro por ti! — puxando-lhe suavemente a barba. — Se não me amares, irás para o Inferno... fica sabendo; irás comigo... eu te levarei, arrastando-te por essa barba.

Risadas.

— Como sou feliz, mas como sou feliz hoje, meu Deus! — exclamou a jovem, com o rosto e os olhos iluminados. — Não me trocaria por todos os anjos e serafins que estão saltando diante de Sua Divina Majestade no Céu; não me trocaria, não me trocaria.

— Nem eu... Faz tempo que eu precisava de uma alegria. Estava triste e dizia: “Falta-me alguma coisa; mas o que é que me falta?”

— Eu também estava triste. Mas o coração me diz há muito tempo: “Tu voltarás, tu voltarás...” E, se a gente não voltasse, para que viver? Viver para que chegue um dia assim; o resto é estar sempre morrendo.

— É tarde, e não quero que te comprometas. Cautela, menina. Não façamos tolices.

Tornando a lembrar-se de Feijoo, ela repetiu:

— O principal é não fazer tolices.

— Ficamos então em que...

— Amanhã, na hora que te convier.

— Cocheiro, volte.

— Deixa-me na entrada da rua de Valencia.

— Onde quiseres.

— E depois de amanhã também — disse, após uma pausa e com ansiedade, a insensata mulher.

— E no outro, e no outro... Mas não mordas...

Ela olhava para o futuro, e sua felicidade radiante se anuviava com a ideia de que os dias vindouros desmentissem aquele em que estava.

— Porque agora não serás tão mauzinho como antes. Não é verdade, meu velhaco?... Não serás, não, verdade, querido?

— Não, não... Vais ver... Tu te convencerás...

— Jura... Ah, como sou tola! Como se juramentos valessem! Enfim, agora tomarei minhas precauções... Se minha ideia se cumprir...

— E qual é tua ideia? Que ideia é essa?

— Não quero dizer... É uma ideia minha: se te dissesse, pareceria uma barbaridade. Não entenderias... Mas o que pensas, que eu também não tenho meu talento?

— O que tu tens, menina negra, é todo o sal de Deus — beijando-a com romantismo.

— Pois isso... junto com o sal está a ideia... Se minha ideia se cumprir... Não te quero dizer mais.

— Amanhã me dirás.

— Não, amanhã também não... No ano que vem.

Já chegou o instante feroz...

Silvia da despedida. Deixa-me aqui. Adeus, filho de minha vida. Lembra-te de mim. Quem dera os minutos fossem horas! Adeus... morro por ti.

— Não faltes. E não esqueças o número.

— Como eu haveria de esquecer, homem? Antes esquecerei meu nome.

— À uma em ponto. Adeus, negra encantadora.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Madri. Dezembro de 1886.

FIM DA TERCEIRA PARTE

* * * * *

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

Fortunata e Jacinta

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