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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 12 · Fortunata e Jacinta

Parte 2 — Capítulo I: Maximiliano Rubín

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Parte 2 — Capítulo I: Maximiliano Rubín

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A venerável loja de puxador de ouro que, desde tempo imemorial, esteve nos pórticos de Platerías, entre as calles de la Caza e San Felipe Neri, desapareceu, se não estou enganado, nos primeiros dias da revolução de 68. Numa mesma data caíram, portanto, duas coisas seculares: aquele trono e aquela loja, que, se não era tão antiga quanto a Monarquia espanhola, era mais antiga que os Bourbons, pois sua fundação datava de 1640, como dizia uma inscrição muito mal pintada nas prateleiras. O estabelecimento tinha apenas uma porta e, acima dela, esta breve tabuleta: Rubín.

Federico Ruiz, que anos atrás teve a mania de escrever artigos sobre os Obscuros, mas indubitáveis vestígios da raça israelita na Espanha moderna (artigos com os quais os editores da Revista que os publicou gratuitamente fizeram um folhetinho), sustentava que o sobrenome Rubín era judeu e fora usado por alguns convertidos que permaneceram aqui depois da expulsão. «Na calle de Milaneses, na de Mesón de Paños e em Platerías abrigavam-se diferentes famílias de ex-deicidas, cujos últimos rebentos chegaram até nós, já sem caráter fisionômico nem etnográfico.» Assim dizia o fecundo publicista, e dedicava meio artigo a demonstrar que o verdadeiro sobrenome dos Rubín era Rubén. Como ninguém o contradizia, ele se punha a provar tudo quanto lhe dava vontade, com aquela boa-fé e aquele honrado entusiasmo que alguns sábios de hoje põem em certos trabalhos de erudição que o público não lê e os editores não pagam. Já fazem bastante publicando-os. Eu não gostaria de me enganar, mas parece-me que todo aquele judaísmo de meu amigo era pura fluxão de seu cérebro constipado, que eliminava aquelas matérias enfadonhas como tantas outras, conforme o tempo e as circunstâncias. E sei que D. Nicolás Rubín, último proprietário da mencionada loja, era cristão-velho, e nem sequer lhe passava pela cabeça que seus antepassados tivessem sido fariseus com rabo ou verdugos narigudos dos que aparecem nos andores da Semana Santa.

A morte desse D. Nicolás Rubín e o fim da loja foram simultâneos.

Havia muito que as dívidas minavam a casa, que se mantinha escorada pela consideração pessoal que os credores tinham por seu dono. A causa da ruína, segundo a opinião de todos os amigos da família, foi a má conduta da esposa de Nicolás Rubín, mulher desregrada e escandalosa, que vivia com luxo impróprio de sua classe e deu muito que falar por seus desvarios e trapaças. Houve naquele matrimônio diversas e inexplicáveis alternativas, ora unido, ora dissolvido de fato, e o marido passava das violências mais bárbaras às tolerâncias mais vergonhosas. Cinco vezes expulsou-a de casa e outras tantas tornou a admiti-la, depois de pagar todas as suas dívidas fraudulentas. Contam que Maximiliana Llorente era uma mulher bela e desejosa de agradar, dessas que não cabem na estreiteza vulgar de uma loja. Deus a levou em 1867 e, no ano seguinte, o pobre Nicolás Rubín passou para melhor vida, em consequência da ruptura de uma variz, sem deixar aos filhos outra herança além da detestável reputação doméstica e comercial e de um passivo enorme, que dificilmente pôde ser pago com as existências da loja. Os credores levaram tudo, até as prateleiras, que só serviram para lenha. Eram contemporâneas do Conde-Duque de Olivares.

Os filhos daquele desventurado comerciante eram três. Preste-se bem atenção a seus nomes e às idades que tinham quando ocorreu a morte do pai.

Juan Pablo, vinte e oito anos.

Nicolás, vinte e cinco.

Maximiliano, dezenove.

Nenhum dos três se parecia com os outros dois, nem no semblante nem na compleição, e só com muita boa vontade se lhes encontrava o ar de família. Dessa heterogeneidade dos três rostos veio sem dúvida a versão maliciosa de que os tais eram filhos de pais diferentes. Podia ser calúnia, podia não ser; mas é preciso dizê-lo para que o leitor vá formando seu juízo. Agora que me lembro, alguma coisa tinham em comum: todos sofriam de fortes e incômodas enxaquecas. Juan Pablo era bonito, simpático e muito bem-apessoado, de boa estatura, agradável e desembaraçado ao falar, de inteligência flexível e desperta. Nicolás era desengonçado, vulgar, tinha o rosto avermelhado e furado como uma peneira por causa da varíola, e era tão peludo que lhe saíam tufos pelo nariz e pelas orelhas. Maximiliano era raquítico, de natureza pobre e linfática, absolutamente privado de graças pessoais. Também pudera: nascera de sete meses e depois fora criado com mamadeira e com uma cabra.

Quando morreu o pai desses três rapazes, Nicolás, isto é, o peludo, para que se vá distinguindo um do outro, foi viver em Toledo com o tio D. Mateo Zacarías Llorente, capelão de Doncellas Nobles, que o meteu no Seminário e o fez sacerdote; Juan Pablo e Maximiliano foram viver com a tia paterna, dona Guadalupe Rubín, viúva de Jáuregui, conhecida vulgarmente por Dona Lupe dos perus, que viveu primeiro no bairro de Salamanca e depois em Chamberí, senhora de tais circunstâncias que bem merece toda a atenção que mais adiante lhe dedicarei. Numa povoação da Alcarria, os irmãos Rubín tinham uma tia materna, viúva, sem filhos e rica; mas, como ela parecia ter vidas para vender, a herança daquela senhora não passava de esperança remota.

Não havia outro remédio senão trabalhar, e Juan Pablo começou a ganhar a vida. Odiava de tal modo as lojas de puxadores de ouro que, ao passar por alguma, parecia ser acometido de enxaqueca. Meteu-se num negócio de peixe, associando-se a certo indivíduo que o recebia em consignação para vendê-lo por atacado, em cestos de pescado fresco e barris de escabeche, na própria estação ou na plaza de la Cebada; mas, nos primeiros meses, surgiram tais desavenças com o sócio que Juan Pablo abandonou a pesca e se tornou viajante comercial. Durante dois anos andou rodando pelas ferrovias com suas caixas de amostras. De Barcelona a Huelva e de Pontevedra a Almería, não ficou recanto que não visitasse, detendo-se em Madri todo o tempo que podia. Trabalhou com chapéus de feltro, calçados de Soldevilla, e espalhou por toda a Península, como se espalha sobre o papel a areia de um areeiro, diferentes artigos de comércio. Noutra temporada, correu chocolates, lenços e xales galería, conservas, devocionários e até palitos de dentes. Por sua diligência, sua honradez e a pontualidade com que remetia os fundos arrecadados, seus comitentes o apreciavam muito. Mas não se sabe como se arranjava para estar sempre mais pobre que os ratos e lamentar, com afetado pessimismo, sua maldita sorte. Todos os ganhos lhe escapavam por entre os dedos, pois frequentava muito os cafés nas horas de descanso, pagava sem medida para os amigos e dava a si mesmo a melhor vida possível nas cidades que visitava. Aos funestos resultados desse sistema, chamava ele ter nascido sob má estrela. A própria heterogeneidade e multidão dos artigos que representava logo reduziu os resultados das viagens, e algumas casas começaram a retirar-lhe a confiança; o viajante enfadado, sempre de mau humor e lançando maldições e pragas contra os mercadores, aspirava a uma mudança de vida e a ocupação mais lucrativa e nobre.

Dia memorável para Juan Pablo foi aquele em que esbarrou em certo amigão da infância, companheiro seu em San Isidro. O amigo era deputado dos que chamavam cimbros, e Juan Pablo, homem de muita lábia, encareceu-lhe tanto seu enfado da vida comercial e quão bem preparado estava para a administrativa que o outro acreditou, e eis meu homem empregado. No mês seguinte, Rubín foi inspetor de polícia em não sei que província. Mas sua infame estrela lhe fizera juramento de persegui-lo: três meses depois mudou a situação política, e meu Rubín ficou demitido. Tomara gosto pela carne da folha de pagamento e já não podia ser outra coisa senão empregado ou pretendente. Não sei o que há nisso, mas é certo que até a demissão parece prazer amargo para certas naturezas, porque as emoções de pretender um cargo as revigoram e tonificam, e por isso há muitos que morrem no dia em que são nomeados. A irritabilidade lhes deu vida, e a sedação brusca os mata. Juan Pablo sentia deleites incríveis em ir ao café, falar mal do Governo, antecipar nomeações, dar uma volta pelos ministérios, espreitar o protetor nas esquinas da Gobernación ou à saída do Congresso, dar o salto do tigre e cair-lhe em cima quando o via chegar. Por fim saiu a nomeação. Mas que diabo!, sempre a maldita sorte a persegui-lo, porque todos os cargos que lhe davam eram das coisas mais antipáticas que se possam imaginar. Quando não era algo da polícia secreta, era coisa de cárceres ou presídios.

Enquanto isso, cuidava do irmão mais novo, por quem sentia um carinho que se confundia com a compaixão, por causa das contínuas doenças que o pobre rapaz sofria. Passados os vinte anos, ele se fortaleceu um pouco, embora continuasse tendo seus achaques; e, vendo-o mais vigoroso, Juan Pablo decidiu dar-lhe uma carreira para que não se perdesse como ele próprio se perdera, por falta de direção fixa desde a idade em que se delineia o futuro dos homens. O mais velho dos Rubín atribuía sua desgraça à disparidade entre suas aptidões inatas e os meios de exteriorizá-las. «Ah, se meu pai me tivesse dado uma carreira!», pensava. «Hoje eu seria alguma coisa no mundo...»

Não demorou a receber novo golpe, pois, quando sonhava com uma promoção, tornaram a limpar-lhe o cocho. E eis meu homem passeando por Madri com as mãos nos bolsos ou vendo correr estupidamente as horas neste e naquele café, falando da situação, sempre da situação, da guerra e de como os políticos espanhóis eram infames, indecentes e grotescos! Pau neles! Assim desabafam os espíritos agitados e tempestuosos. E daquela vez não havia esperanças para Juan Pablo, porque os seus, aqueles que chamava com tanta ênfase de os meus, estavam por terra, e havia o que chamam de maré ruim nas regiões burocráticas. Às vezes, o mísero demitido explorava a consciência e espantava-se de não encontrar nela coisa alguma em que fundamentar terminantemente sua filiação política. Porque ideias fixas... Deus as desse; lera muito pouco e alimentava o entendimento com o que ouvia nos cafés e com o que os jornais lhe diziam. Não sabia ao certo se era liberal ou não e, com o maior desembaraço do mundo, chamava qualquer um de doutrinário, sem saber o que a palavra significava. Ora sentia no espírito, sem saber por quê nem por que não, frenético entusiasmo pelos direitos do homem; ora a alma se lhe inundava de alegria ao ouvir dizer que o Governo ia distribuir muitas pauladas e passar os tais direitos debaixo do nariz.

Nessa situação, apresentou-se inesperadamente em Madri Nicolás Rubín, o padrezinho peludo, que também tinha suas pretensões de ingressar, não sei se no clero castrense ou no catedralício, e os dois irmãos celebraram colóquios muito reservados, passeando sozinhos pelos arredores. Em resultado disso, Juan Pablo apareceu certo dia no café com alguma animação, muito desembaraço em seus juízos políticos, fazendo-se de profeta e exprimindo mais altivamente que nunca seu desprezo pela situação dominante. Aos que se conduzem desse modo, olha-se nos cafés com um pouquinho de respeito e até com certa inveja, supondo-os conhecedores de segredos de Estado ou de alguma intriga muito grande. «O amigo Rubín», disse, na ausência dele, D. Basilio Andrés de la Caña, que era um dos pontos fixos à mesa, «parece-me que não joga limpo conosco. Se vão nomeá-lo, que diga de uma vez. O que temos, vem aí a federal ou quê? Mistérios! Meditemos!... Ou será que leva mexericos a D. Práxedes? Pois bem, senhores, que os leve. Não me importa a espionagem.»

Isso acontecia no fim de 1872. De repente, Rubín disse que ia ao estrangeiro retomar os trabalhos de viajante comercial. Desapareceu de Madri e, meses depois, cochichou-se na tertúlia do café que ele estava na facção e que D. Carlos o nomeara algo como contador ou intendente em seu Quartel Real. Soube-se mais tarde que fora à Inglaterra comprar fuzis, que fizera um desembarque clandestino perto de Guetaria, que viera disfarçado a Madri e passara à Mancha e à Andaluzia no verão de 73, quando a Península, ardendo pelos quatro cantos, era uma imensa pira à qual cada espanhol levara sua tocha e o Governo soprava.

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Juan Pablo, que sempre se enganara no que dizia respeito a si mesmo e andava por caminhos tortuosos, acertou ao decidir que o irmão mais novo seguisse a carreira de Farmácia. Muitas pessoas que só fazem disparates possuem essa perspicácia no conselho e na orientação dos outros e, sem acertar uma nos próprios destinos, enxergam claramente os do próximo. Nessa decisão também teve bastante influência um grande amigo do falecido Nicolás Rubín e de toda a família, o farmacêutico Samaniego, dono da acreditada botica da calle del Ave María, que prometeu tomar Maximiliano sob seus auspícios, levá-lo como balconista ou praticante, com a intenção de que, com o correr do tempo, ficasse à frente do estabelecimento.

Maximiliano começou os estudos em 69, e o irmão e a tia lhe encareciam quão bonita era a Farmácia e quanto se ganhava com ela, porque os medicamentos eram muito caros e as matérias-primas muito baratas: água do poço, cinza da lareira, terra dos vasos e assim por diante... O pobre rapaz, muito dócil, mostrava-se de acordo com tudo. Entusiasmo, falando com franqueza, não tinha por aquela carreira nem por nenhuma outra; não despertara nele grande anseio algum, nem aquela curiosidade sedenta de que nasce a sabedoria. Era tão fraco que passava doente a maior parte do ano, e seu entendimento nunca enxergava com clareza nos recessos da ciência nem se apoderava de uma ideia senão depois de lhe lançar muitos laços, como se a amarrasse. Usava a escassa memória como ave de falcoaria para caçar ideias; mas o falcão escapava no melhor momento, deixando-o de boca aberta, olhando para o céu.

Foram penosíssimos os primeiros passos na carreira. A preguiça e a fraqueza retinham-no na cama pela manhã mais do que o habitual, e a pobre dona Lupe passava as maiores aflições para tirá-lo dos lençóis. Ela se levantava muito cedo e punha-se a bater com o pilão no almofariz junto à própria cabeça do adormecido, que na maioria das vezes fingia não perceber semelhante estrondo. Depois fazia-lhe cócegas, deitava o gato com ele, retirava-lhe os lençóis com a devida precaução para que não se resfriasse. O sono se cevava de tal modo naquele corpo, pelas exigências da reparação orgânica, que despertar o estudante era obra de romanos e uma das coisas em que dona Lupe demonstrava maior energia e constância.

O rapaz estudava e queria cumprir o dever, mas não podia ir além de suas capacidades. Dona Lupe ajudava-o a estudar as lições, animava-o nos desfalecimentos e, quando o via aflito e temeroso pela proximidade dos exames, punha a mantilha e ia falar com os professores. Dizia-lhes tais coisas que o rapaz passava, embora com notas ruins. Quando não estava doente, assistia pontualmente às aulas e era um dos que carregavam maior quantidade de notas, apontamentos e cadernos. Entrava na sala de aula carregado com aquele fardo e não perdia uma sílaba do que o professor dizia.

Era pequeno de corpo e malformado, tão fraco que parecia que o vento o levaria, com a cabeça achatada e o cabelo liso e ralo. Quando ele e o irmão Nicolás estavam juntos, a qualquer pessoa que os visse ocorreria propor ao segundo que concedesse ao primeiro os pelos que lhe sobravam. Nicolás levara todo o cabelo da família e, por causa daquela usurpação pilosa, a cabeça de Maximiliano anunciava que ficaria calva antes dos trinta anos. Sua pele era lustrosa e fina, pele de criança com transparências de mulher definhada e clorótica. Tinha o osso do nariz afundado e achatado, como se fosse de substância mole e houvesse recebido um golpe, resultando disso não apenas fealdade, mas obstruções da respiração nasal, que sem dúvida eram a causa de ele manter sempre a boca aberta. Sua dentição nascera com tamanha desigualdade que cada peça estava, por assim dizer, onde bem entendia. E menos mal se aqueles malditos ossos nunca o incomodassem; mas o pobrezinho tinha dores de dente que o faziam gritar além do Céu! Sofria também de corizas e emendava uma na outra, de modo que resultava uma coriza crônica, com a pituitária em fogo e destilando sem cessar. Como já ia aprendendo o ofício, administrava a si mesmo iodeto de potássio sob todas as formas possíveis e andava sempre com um canudo na boca, aspirando alcatrão, demônios ou não sei o quê.

Diga-se o que se quiser, Rubín não tinha ilusão alguma com a Farmácia. Mas não estava vazia de aspirações elevadas a alma daquele jovem, tão desfavorecido pela Natureza que, física e moralmente, parecia feito de sobras. Aos dois ou três anos de carreira, aquele molusco começou a sentir vibrações de homem, e aquele cego de nascimento começou a entrever as fases grandes e gloriosas do astro da vida. Dona Lupe morava naquela parte do bairro de Salamanca que chamavam Pajaritos. Maximiliano via da janela de seu terceiro andar os alunos do Estado-Maior, quando a Escola ficava no antigo número 40 da calle de Serrano; e não se pode imaginar a admiração que lhe causavam aqueles jovens, nem o arrebatamento que lhe produziam a faixa azul na calça, o ros, a sobrecasaca com folhas de carvalho bordadas na gola e a espada... tão jovens alguns, e já com espada! Em certas noites, Maximiliano sonhava que tinha sua tizona, bigode e uniforme, e falava dormindo. Acordado também delirava, imaginando que crescera um palmo, tinha as pernas retas e o corpo menos inclinado para a frente, imaginando que o nariz se endireitava, que lhe brotava cabelo e que adquiria um garbo marcial como o do mais vistoso. Que sorte desgraçada! Se não fosse tão desengonçado de corpo e o tivessem posto a estudar aquela carreira, quanto teria se aplicado! Certamente, à força de esfregar os livros, o talento lhe teria saído, como se tira fogo da madeira esfregando-a muito.

Nas tardes de sábado, quando os alunos iam ao exercício com o fuzil ao ombro, Maximiliano seguia-os para vê-los manobrar, e o fascínio daquele espetáculo durava-lhe até segunda-feira. Na própria aula, que, pela placidez do recinto e a monotonia da lição, convidava à sonolência, punha-se a brincar com a fantasia e a provocar e acender a ilusão. O resultado era um êxtase completo e, através da explicação sobre as propriedades terapêuticas das tinturas-mães, via os alunos militares em seu estudo tático de campo, como se pode ver uma paisagem através de um vitral colorido.

Os rapazes da aula de Botânica divertiam-se dando uns aos outros apelidos semelhantes às nomenclaturas de Lineu. A certo Anacleto, que se fazia de muito fino e muito senhorito, chamavam Anacletus obsequiosissimus; a Encinas, que era de estatura muito baixa, chamavam Quercus gigantea. Olmedo era muito desleixado, e cabia-lhe admiravelmente o Ulmus sylvestris. Narciso Puerta era feio, sujo e malcheiroso. Deram-lhe o nome de Pseudo-Narcissus odoripherus. A outro, muito pobre e que desfrutava de um empreguinho, puseram Christophorus oficinalis; e, por fim, Maximiliano Rubín, que era feíssimo, desajeitado e de pouquíssima inteligência, foi chamado durante toda a carreira de Rubinius vulgaris.

Ao começar o ano de 1874, Maximiliano tinha vinte e cinco anos e ainda não aparentava mais de vinte. Não tinha bigode, mas não lhe faltavam espinhas, que saíam em diferentes pontos do rosto. Aos vinte e três anos, teve uma febre nervosa que pôs sua vida em perigo; mas, quando saiu dela, parecia um pouco mais forte; sua respiração já não era tão fatigosa, nem as corizas tão tenazes, e até os malditos restos das raízes dos dentes pareciam mais civilizados. Já não usava o iodeto tão abundantemente nem o canudo de alcatrão, e apenas as enxaquecas persistiam, como aqueles amigos importunos cuja visita periódica causa espanto. Juan Pablo estava então no Quartel Real, e dona Lupe deixava Maximiliano em liberdade, porque o julgava inacessível aos vícios, em razão de sua pobreza física, de seu temperamento apático e da timidez que resultava daquelas desvantagens. E, além da liberdade, a tia dava-lhe algum dinheiro para seus prazeres de rapaz, certa de que ele só o gastaria com muita cautela. O jovem inclinava-se a economizar e tinha um cofrinho de barro no qual ia metendo as moedas de prata e algum centén de ouro que os irmãos lhe davam quando vinham a Madri. Era muito cuidadoso com a roupa e gostava de mandar fazer ternos baratos e da moda, que tratava como as meninas dos olhos. Disso lhe veio alguma vaidade, e graças a ela sua figura não parecia tão ruim quanto realmente era. Tinha uma boa capa, com forros vermelhos; à noite, enrolava-se nela, entrava no bonde e ia dar uma volta até as onze, raramente até as doze. Naquele tempo, dona Lupe mudou-se para Chamberí, sempre procurando casas baratas, e Maximiliano foi perdendo pouco a pouco a ilusão dos alunos do Estado-Maior.

Sua timidez, longe de diminuir com os anos, parecia aumentar. Acreditava que todos zombavam dele, considerando-o insignificante e incapaz. Sem dúvida exagerava sua inferioridade, e o desânimo fazia-o fugir do convívio social. Quando era obrigado a fazer alguma visita, a casa em que deveria entrar incutia-lhe medo mesmo vista de fora, e ele ficava dando voltas pela rua antes de decidir penetrar nela. Temia encontrar alguém que o olhasse com malícia e pensava no que haveria de dizer, acontecendo na maioria das vezes que não dizia nada. Certas pessoas infundiam-lhe um respeito que era quase pânico e, ao vê-las chegar pela rua, passava para a outra calçada. Essas pessoas não lhe haviam feito mal algum; ao contrário, eram amigas de seu pai, de dona Lupe ou de Juan Pablo. Quando ia ao café com os amigos, sentia-se muito bem se não havia mais que dois ou três. Nesse caso, até se lhe soltava a língua e ele começava a falar sobre qualquer assunto. Mas, se se reuniam seis ou oito pessoas, emudecia, incapaz de ter opinião sobre coisa alguma. Se se via obrigado a exprimir-se, fosse porque queriam zombar dele, fosse porque sem malícia lhe perguntavam alguma coisa, lá estava meu homem vermelho como grã e gaguejando.

Por isso gostava mais, quando o tempo não estava muito frio, de vagar pelas ruas, embrulhadinho na capa, olhando vitrines e as pessoas que iam e vinham, parando nas rodas em que cantava um cego e espiando pelas janelas dos cafés. Nessas excursões, podia muito bem empregar duas horas sem se cansar e, assim que dava corda a si mesmo e tomava impulso, o cérebro ia se aquecendo, aquecendo, até chegar a uma pressão altíssima, na qual o jovem errante imaginava estar perseguindo aventuras e ser muito diferente do que era. A rua, com seu bulício e a diversidade de coisas que nela se veem, oferecia grande estímulo àquela imaginação, que, por se desenvolver tarde, costumava manifestar o vigor de que dão mostras alguns enfermos graves. A princípio, as mulheres que encontrava não lhe chamavam a atenção; mas pouco depois começou a distinguir as bonitas das que não o eram e seguia alguma, por puro êxtase de aventura, até encontrar outra melhor e passar também a segui-la. Logo soube distinguir as classes, isto é, chegou a ter olho tão bom que reconhecia imediatamente as que eram honradas e as que não eram. Seu amigo Ulmus sylvestris, que às vezes o acompanhava, induziu-o a romper a reserva que o acanhamento lhe impunha, e Maximiliano conheceu algumas que vira mais de uma vez e lhe haviam parecido muito bonitas. Mas sua alma permanecia serena em meio às tentativas viciosas: as próprias mulheres com quem passara momentos agradáveis causavam-lhe repugnância depois e, se as via chegando pela rua, desviava-se delas.

Agradava-lhe mais vagar sozinho do que na companhia de Olmedo, porque este o distraía, e o prazer de Maximiliano consistia em pensar e imaginar livremente e à vontade, figurando realidades e voando sem tropeço pelos espaços do possível, ainda que fosse improvável. Andar, andar e sonhar no compasso das pernas, como se a alma repetisse uma música cujo ritmo era marcado pelos passos, era o que o deleitava. E, quando encontrava mulheres bonitas, sozinhas, aos pares ou em grupos, com pequeno xale na cabeça ou com manto, desfrutava muito ao afirmar para si mesmo que aquelas eram honradas e segui-las até ver aonde iam. «Uma honrada! Que uma honrada me ame!» Tal era sua ilusão... Mas não havia que pensar em semelhante coisa. Só de imaginar dirigir a palavra a uma mulher honrada, as carnes lhe tremiam. Se, quando ia à casa da tia e ali estavam Rufinita Torquemada ou a senhora de Samaniego com a filha Olimpia, ele se metia na cozinha para não se ver obrigado a cumprimentá-las...!

iii

Dessa maneira, aquele misantropo chegou a viver mais com a visão interior do que com a exterior. Aquele que antes era como uma ostra viera a ser algo semelhante a um poeta. Vivia duas existências, a do pão e a das quimeras. Às vezes tornava esta tão esplêndida e tão elevada que, quando caía dela para a do pão, ficava todo moído e maltratado. Maximiliano tinha momentos em que chegava a convencer-se de que era outro, sempre à noite e na solidão vagabunda de seus passeios. Ora era oficial do Exército, tinha um palmo a mais de altura, nariz aquilino, muita força muscular e uma cabeça... uma cabeça que nunca lhe doía; ora era um civil abastado e muito galante, que falava pelos cotovelos sem jamais se perturbar, capaz de dirigir um elogio à mulher mais arisca e que estava na sociedade de mulheres como o peixe na água. Pois, como eu disse, aquecia os miolos de tal maneira que chegava a acreditar naquilo. E, se durasse, seria tão louco quanto qualquer dos que estão em Leganés. Sua sorte era que aquilo passava, como passaria uma enxaqueca; mas a alucinação recobrava o império durante o sono, e então vinham os disparates e o tece-retece de aventuras geralmente muito ternas, muito requintadas, com abnegações, sacrifícios, heroísmos e outros fenômenos sublimes da alma. Ao despertar, naquele momento em que os juízos da realidade se confundem com as imagens mentirosas do sonho e há no cérebro um crepúsculo, uma discussão vaga entre o que é verdade e o que não é, o engano persistia por algum tempo, e Maximiliano esforçava-se por retê-lo, tornando a fechar os olhos e atraindo as imagens que se dispersavam. «Na verdade», dizia ele, «por que uma coisa há de ser mais real que a outra? Por que não há de ser sonho o que se passa de dia e vida efetiva o que se passa à noite? É questão de nomes e de termos decidido chamar dormir ao que chamamos despertar, e deitar-se ao levantar-se... Que razão existe para que eu não diga agora, enquanto me visto: “Maximiliano, agora você está adormecendo. Vai passar uma noite ruim, com pesadelo e tudo, isto é, com aula de Matéria farmacêutica animal...”»

O tal Ulmus sylvestris era um rapaz simpático, bonito, alegre e de cabeça um tanto leviana. De todos os companheiros de Rubinius vulgaris, aquele era o que mais o estimava, e Maximiliano lhe pagava com um carinho que tinha algo de respeito. Olmedo levava vida muito pouco exemplar, mudando todos os meses de pensão, passando as noites em lugares pecaminosos e fazendo todos os disparates estudantis, como se fossem um programa que era preciso cumprir sem remédio. Ultimamente vivia com uma tal Feliciana, graciosa e muito experiente, e se dava importância por isso, como se sustentar mulheres fosse uma carreira em que se precisava matricular para obter o título de homem feito e completo. Dava-lhe o pouco que tinha, e ela trabalhava por seu lado para irem vivendo, um dia com aperto, outro com fartura, e sempre com a maior despreocupação. Ele levava a sério aquele gênero de vida e, quando tinha dinheiro, convidava os amigos para comer um bacalhau em seu hotel, assumindo ares de homem do mundo e malandrinho, com certa imitação ruim do desleixo parisiense que conhecia pelos romances de Paul de Kock. Feliciana era valenciana e preparava muito bem o arroz; mas o serviço de mesa e a própria mesa eram de ver. E Olmedo fazia tudo tão ao vivo e tão de acordo com o programa que se embriagava sem gostar de vinho, cantava flamenco sem saber cantar, arrebentava o violão e cometia todos os desatinos que, em sua opinião, constituíam o rito do devasso; pois lhe ocorrera ser devasso, como outros são maçons ou cavaleiros cruzados, pelo prurido de desempenhar papéis e ter uma significação. Se existisse uniforme de devasso, Olmedo o teria vestido com verdadeiro entusiasmo, e lamentava que não houvesse algum distintivo, fita, penacho ou galão para sair com ele, dizendo tacitamente: «Vejam como sou dissoluto». E, no fundo, era um infeliz. Aquilo não passava de prolongamento vicioso da idade do peru.

Maximiliano nunca ia às pândegas do amigo, embora este sempre o convidasse. Mas informava-se da saúde de Feliciana como se ela fosse uma senhora, e Olmedo também levava aquilo a sério, dizendo: «Está um pouquinho adoentada. Hoje pedi a Orfila que passe lá em casa». Esse Orfila era um estudantezinho do último ano de Medicina, que tinha o mesmo nome do célebre doutor e curava, isto é, receitava para os amigos e para as amigas dos amigos.

Certo dia, ao saírem da aula, Olmedo disse a Rubín: «Passe lá em casa, caso queira ver uma mulher... mas uma mulher e tanto. É amiga de Feliciana e foi passar uns dias em nosso hotel enquanto encontra colocação».

— É honrada? — perguntou Rubín, mostrando no tom a importância que dava à honradez.

— Honrada! Que nada! — exclamou o devasso, rindo. — Mas você acredita que existe alguma mulher que seja... aquilo que se chama honrada?

Disse isso com aprumo filosófico, o chapéu inclinado sobre a têmpora direita como distintivo de suas ideias acerca da depravação humana. Já não havia mulheres honradas: dizia-o profundo conhecedor da sociedade e do vício. O ceticismo de Olmedo era sinal de infância, desordem de transição fisiológica, algo como uma segunda dentição. Tudo se reduz a babar muito, e depois vem o homem com outras ideias e outra maneira de ser.

«Então não é honrada!...», observou Maximiliano, que teria desejado que todas as mulheres o fossem.

— Como haveria de ser, homem?... É uma bela peça! Chegou a Madri não faz muito tempo com um valentão... creio que traficante de fuzis. Que luxo traziam, homem!... Eu a vi uma noite... Juro que era puro ópio. Parecia saída do próprio Paris... Mas não sei o que aconteceu, raios!

Aquele senhor não jogava limpo e, certa manhã, foi embora deixando uma dívida muito grande na pensão e outra não sei onde, e dívidas e mais dívidas... Em suma, a pobre teve de empenhar todos os trapos e ficou apenas com a roupa do corpo, apenas com a roupa do corpo, quando está com ela no corpo, entenda-se. Feliciana encontrou-a não sei onde, desfeita num mar de lágrimas, e disse-lhe: «Venha para minha casa». E lá está! Faz suas saídinhas, olho vivo, para as quais Feliciana lhe empresta a roupa. Não pense mal; é uma moça muito boa. Tem uma alma...!

À noite, Maximiliano foi ao hotel de Feliciana, terceiro andar na calle de Pelayo, e, ao entrar, a primeira coisa que viu... É que junto à porta de entrada havia um quartinho pequeno, onde se alojava a hóspede, e esta saía de seu esconderijo no momento em que Rubín entrava. Feliciana fora abrir com o lampião na mão, porque o levava para a sala, e, sob a luz vivíssima do petróleo sem quebra-luz, Maximiliano ficou frente a frente com a mais extraordinária beleza que seus olhos tinham visto até então. Ela o olhou como se olhasse para uma coisa rara, e ele a olhou como se fosse uma aparição sobrenatural.

Rubín passou para a saleta e, deixando a capa, sentou-se numa poltrona de oleado cujas molas assassinavam a parte do corpo que caísse sobre elas. Olmedo queria que o amigo jogasse com ele sete e meio; mas, como Maximiliano se recusasse, começou a fazer paciências. Feliciana pôs sobre a luz um quebra-luz de gravuras de moda, cujos vestidos eram feitos com retalhinhos de pano, e depois deixou-se cair com indolência na poltrona, cobrindo-se com o xale estampado como tapete.

«Fortunata», gritou, chamando a amiga, que dava voltas por toda a casa como se procurasse alguma coisa. «O que você perdeu?»

— Menina, meu chalezinho azul.

— Já vai sair?

— Vou. Que horas são?

Rubín alegrou-se com aquela oportunidade de prestar um serviço a mulher tão bela e, tirando o relógio com muita solenidade, disse: «Faltam sete minutos... e meio para as nove». Não se podia dizer a hora com exatidão mais escrupulosa.

«Está vendo?», disse Feliciana. «Você tem tempo... Até as dez. Contanto que saia daqui às dez menos quinze... Mas esse chalezinho?... Olhe, olhe, está naquela cadeira junto à cômoda.»

— Ai, minha filha... se fosse cachorro, teria me mordido.

Pôs o chale, envolvendo a cabeça, lançou alguns olhares a um espelho de moldura negra que ficava sobre a cômoda e depois sentou-se numa cadeira para passar o tempo. Maximiliano pôde então observá-la melhor. Não se fartava de olhar, e uma singular obstrução fixou-se em seu peito, cortando-lhe a respiração. E o que dizer? Porque precisava dizer alguma coisa. O pobre jovem sentia-se diante daquela beleza mais acanhado do que na visita mais cerimoniosa.

«É bom você se agasalhar», observou Feliciana à amiga; e Rubín viu o céu abrir-se, porque pôde dizer em tom de sentença filosófica:

— Sim, a noite está fresquinha.

— Leve a chavinha... — acrescentou Feliciana. — Você sabe que o vigia se chama Paco. Costuma estar na taberna.

A outra não abria os lábios. Parecia estar de muito mau humor. Maximiliano contemplava como bobo aqueles olhos, aquelas sobrancelhas incomparáveis e aquele nariz perfeito, e teria dado alguma coisa de grande valor para que ela se dignasse a olhá-lo de outra maneira que não aquela com que se olham os bichos raros. «Que pena não ser honrada!», pensava. «E quem sabe se não será, quero dizer, se não conservará a honradez da alma em meio a...»

Estava muito fixa nele aquela ideia das duas honradezes, em alguns casos harmonizadas, em outros não. Fortunata falou pouco e vulgarmente; tudo quanto disse era das coisas menos dignas de passar à história: que fazia muito frio, que uma de suas mitenes se descosturara, que aquela chavinha parecia a maça de Fraga, que, ao voltar para casa, entraria na botica para comprar umas pastilhas para a tosse.

Maximiliano estava encantado e, sem se atrever a abrir os lábios, dava assentimento com um sorriso, sem afastar os olhos extáticos daquele semblante que lhe parecia angelical. E ouviu tudo quanto ela disse como se fosse uma fieira de conceitos engenhosíssimos. «É um anjo!... Não disse uma só palavra desagradável... E que timbre de voz! Nunca na vida ouvi música tão agradável... Como será esta mulher dizendo um amo você, dizendo com verdade e com alma?» Essa ideia produziu na mente de Rubín abalos que lhe duraram algum tempo. Um frio correu-lhe pela espinha e veio-lhe certa comichão no nariz, como quando se bebe água gaseificada.

Cansado de fazer paciências, Olmedo começou a contar histórias indecentes, o que pareceu muito mal a Maximiliano. Em outras noites ouvira anedotas semelhantes e rira; mas naquela noite ficava de todas as cores, desejando que a boca do maldito amigo secasse. «Que falta de vergonha contar aquelas imundícies diante de pessoas... de pessoas decentes, sim, senhor!» Rubín estava tão desconcertado como se as duas mulheres ali presentes fossem damas melindrosas ou alunas de um colégio de freiras; mas a timidez impedia-o de mandar Olmedo calar-se. Fortunata tampouco ria daquelas piadas estúpidas; mas parecia mais indiferente do que indignada ao ouvi-las. Estava distraída, pensando em suas coisas. Que coisas seriam? Maximiliano daria para sabê-las... seu cofrinho com tudo quanto continha. Ao lembrar-se do tesouro, teve outro estremecimento e remexeu-se no assento, ferindo-se muito com o duro contato daquelas molas mal chamadas.

«Mas a história mais engraçada, raios!», disse Olmedo, «é a do padeiro. Você conhece? Quando aquele bispo foi fazer a visita pastoral e dormiu na cama do padre... Vejam...»

Fortunata levantou-se para ir embora. Ocorreu a Maximiliano sair atrás dela para ver aonde ia. Era sua maneira particular de cortejar. Em seu espírito sonhador existia a vaga crença de que aqueles seguimentos envolviam uma comunicação misteriosa, talvez magnética. Seguir, olhando de longe, era uma linguagem ou telegrafia sui generis, e a pessoa seguida, ainda que não olhasse para trás, devia sentir em si os efeitos do fluido de atração. Fortunata saiu, despedindo-se com muita frieza, e dois minutos depois Maximiliano também se despediu, com intenção de ainda alcançá-la no portal. Mas o maldito Ulmus sylvestris deteve-o à força, agarrando-lhe uma das mãos e apertando-a com bárbaras exibições de vigor muscular, para rir dos gritos de dor que o pobre Rubinius vulgaris soltava. «Como você é burro!», exclamava este, retirando enfim a mão machucada, com os dedos grudados uns aos outros. «Que belas brincadeiras!... Contar porcarias e fazer isso são suas especialidades. Melhor faria estudando.»

Menino de mérito, bochechas castas, quer fazer o favor de me lamber as botas?

— Não se faça de grosseiro — disse Rubín com bondade. — Você não é; por mais que queira parecer, não consegue.

Aquilo feriu o amor-próprio de Olmedo mais do que se o amigo o tivesse coberto de insultos, porque suportava tudo com paciência, menos que lhe reduzissem em um fio a graduação de devasso que concedera a si mesmo. A indulgência de Rubín lhe caiu tão mal que saiu atrás dele até a porta, dizendo-lhe, entre outras tolices: «Belo hipócrita você é... raios! Esses silfos, quando menos se espera, enganam a gente».

iv

Maximiliano desceu a escada como desce uma criança de oito anos quando seu brinquedo caiu da janela para o pátio. Chegou sem fôlego ao portal e ali hesitou se devia tomar a direita ou a esquerda da rua. O coração lhe disse que fosse para a calle de San Marcos. Apertou o passo, pensando que Fortunata não devia caminhar muito depressa e que logo a alcançaria. «Será aquela?» Julgou ver o chalezinho azul; mas, ao se aproximar, notou que não era a nuvem de seu céu. Quando via uma mulher que pudesse ser ela, diminuía o passo para não se aproximar demais, pois, de muito perto, os encantos do seguimento não eram tão misteriosos. Andou por ruas e mais ruas, retrocedeu, deu voltas neste e naquele quarteirão, e a dama noturna não aparecia. Nunca na vida sentira tamanho desconsolo. Se a encontrasse, seria capaz até de falar-lhe e dizer algum atrevimento amoroso. Agitou-se tanto naquele passeio vagabundo que, às onze, já não conseguia manter-se de pé e encostava-se às paredes para descansar um pouco. Voltar para casa sem encontrá-la e sem dar uma boa caminhada com ela... a trinta passos de distância, causava-lhe muita tristeza. Mas por fim ficou tão tarde e ele estava tão fatigado que não teve outro remédio senão tomar o bonde de Chamberí e recolher-se. Chegou e deitou-se, desejando apagar a luz para pensar sobre o travesseiro. Seu espírito estava abatidíssimo. Assaltaram-no pensamentos tristes e sentiu vontade de chorar. Mal dormiu naquela noite e, pela manhã, fez o propósito de ir ao hotel de Feliciana assim que saísse da aula.

Fez como pensara e, naquele dia, conseguiu vencer um pouco a timidez. Feliciana ajudava-o, estimulando-o com habilidade, e assim Rubín conseguiu dizer à outra algumas coisas que, para disfarçar seus sentimentos, quis que fossem maliciosas. «A senhora voltou um pouco tarde ontem à noite. Às onze ainda não tinha regressado.» E outras frases vulgares do mesmo gênero, que Fortunata ouvia com indiferença e respondia de maneira desdenhosa. Maximiliano reservava as purezas de sua alma para ocasião mais oportuna e, com feliz instinto, decidira iniciar-se como um qualquer, como um homem que só queria divertir-se por algum tempo. A tunante de Feliciana deixou-os sozinhos, e Rubín acovardou-se no princípio; mas de repente se refez. Já não era o mesmo homem. A fé que lhe enchia a alma, aquela paixão nascida na inocência e desenvolvida numa noite como árvore milagrosa que surge da terra carregada de frutos, agitava-o e transfigurava-o. Até a maldita timidez ficava reduzida a fenômeno puramente externo. Olhou Fortunata sem pestanejar e, tomando-lhe uma das mãos, disse com voz trêmula: «Se a senhora quiser gostar de mim, eu... gostarei da senhora mais do que da minha vida».

Fortunata também o olhou, surpreendida. Parecia-lhe impossível que o bicho raro se exprimisse assim... Viu nos olhos dele uma lealdade e uma honradez que a deixaram pasma. Depois refletiu um instante, procurando apoiar-se num juízo pessimista. Haviam zombado tanto dela que aquilo que estava vendo não podia ser senão nova zombaria. Aquele, sem dúvida, era mais patife e mentiroso que os demais. Consequência de tais ideias foi a sonora gargalhada que a mulher soltou diante do rosto compungido de um homem que era todo espírito. Mas ele não se desconcertou, e a circunstância de se ver ouvido com atenção dava-lhe coragem desconhecida. Ânimo! «Se a senhora gostar de mim, eu a adorarei, eu a idolatrarei...»

A tal mulher revelava grande ceticismo, e o que a malandra fazia era tomar por riso a paixão do jovem.

«E se eu provasse?», disse Maximiliano com uma seriedade que lhe deu, parece mentira!, um reflexo de beleza. «E se lhe provasse de um modo que não deixasse lugar a dúvidas...?»

— O quê?

— Que vou idolatrá-la!... não, que já a estou idolatrando.

Tem graça!... Idolatrando! Ha, ha! — repetiu a outra, devolvendo a palavra como se devolve uma bola no jogo.

Maximiliano não insistiu em empregar vocábulos muito expressivos. Compreendeu que o ridículo vinha cair sobre ele. Disse apenas: «Pois bem, seremos amigos... Por hoje, contento-me com isso. Sou um infeliz, quero dizer, sou bom. Até agora nunca amei mulher alguma».

Fortunata olhava para ele e, francamente, não conseguia habituar-se àquele nariz achatado, àquela boca tão sem graça, ao corpo frágil que parecia desfazer-se com um sopro. Que sempre se apaixonassem por ela tipos assim! Obrigada a dissimular e representar certos papéis, embora na verdade não o fizesse muito bem, prosseguiu a conversa naquele terreno.

«Esta noite quero falar com a senhora», disse Rubín categoricamente. «Virei às oito e meia. Dá-me sua palavra de não sair... ou de me esperar para sair comigo?»

Ela deu-lhe a palavra de que o jovem tanto precisava, e assim terminou a entrevista. Rubín foi correndo para casa.

Que rapaz! Parecia outro. Ele próprio notava que alguma coisa se abrira dentro de si, como arca selada que se rompe, soltando um mundo de coisas antes comprimidas e sufocadas. Era a crise, que em outros é longa ou pouco acentuada e ali fora violenta e explosiva. Até lhe parecia que tinha talento...! Naquela tarde, ocorreram-lhe pensamentos magníficos e juízos de originalidade surpreendente. Formara de si mesmo conceito pouco favorável como homem de inteligência; mas agora, por efeito do amor súbito, julgava-se capaz de superar mais de quatro. A modéstia cedeu lugar a certo orgulho que tomava posse da alma... «Mas e se ela não gostar de mim?», pensava, desanimando e caindo por terra com as asas quebradas. «Ela terá de gostar... Não seria o primeiro caso... Quando me conhecer...»

Ao mesmo tempo, a apatia e a preguiça ficavam vencidas... Andavam-lhe por dentro novas comichões e pruridos, um desejo de fazer alguma coisa e provar sua vontade em atos grandes e difíceis... Caminhava pela rua sem ver ninguém, esbarrando nos transeuntes, e pouco faltou para chocar-se contra uma árvore do paseo de Luchana. Ao entrar na calle de Raimundo Lulio, viu a tia na varanda, tomando sol. Vê-la e sentir um medo muito grande, mas muito grande, foi uma só coisa. «E se minha tia souber...!» Mas do medo saiu imediatamente a reação de coragem, e ele apertou os punhos debaixo da capa, apertou-os tanto que os dedos doeram. «Se minha tia se opuser, que se oponha e vá para os diabos.» Nunca, nem sequer em pensamento, Maximiliano falara de dona Lupe com tão pouco respeito. Mas os antigos moldes estavam quebrados. Todo o mundo e toda a existência anteriores àquele estado novíssimo afundavam ou se dissipavam como as trevas ao nascer do sol. Já não havia tia, irmãos, família, nada, e quem quer que atravessasse seu caminho era declarado inimigo. Maximiliano teve tamanho acesso de coragem que até a imagem de dona Lupe, sua segunda mãe, apareceu-lhe com traços odiosos. Ao subir as escadas da casa, acalmou-se, pensando que a tia nada sabia; e, se sabia, pois que soubesse, ora essa!... «Que caráter estou criando!», disse consigo ao entrar no quarto.

Fechou cuidadosamente a porta e pegou o cofrinho. Seu primeiro impulso foi arremessá-lo contra o chão e quebrá-lo para tirar o dinheiro; já o tinha na mão para consumar tão antieconômico propósito quando o assaltou o temor de que a tia ouvisse o ruído, entrasse e armasse uma confusão. Lembrou-se de como dona Lupe se orgulhava do cofrinho do sobrinho. Quando recebiam visitas, ela o mostrava como coisa rara, sacudindo-o e dando-o para que sentissem a massa, a fim de que todos se espantassem com o menino tão comedido e previdente. «Isto é que se chama ser sério. Há poucos rapazes assim...»

Maximiliano concluiu que, para realizar seu desejo, precisava comprar outro cofrinho de barro exatamente igual àquele e enchê-lo de cobres para que produzisse som e tivesse a mesma massa... Ficou rindo sozinho por algum tempo, pensando na peça que pregaria à tia... ele, que nunca cometera uma travessura! A única coisa que fizera, anos antes, fora roubar botões da tia para colecioná-los. Instintos de colecionador, que são variantes da avareza! Algumas vezes chegara a cortar os botões dos vestidos; mas, depois da surra que lhe deram, não lhe restara vontade de repetir. Fora isso, nada; sempre fora a própria mansidão e tão econômico que a tia talvez o amasse mais pela virtude da poupança que pelas outras.

«Pois bem, mãos à obra. Na loja de louças do paseo de Santa Engracia há cofrinhos exatamente iguais. Comprarei um; vou examinar bem este para tomar-lhe as medidas.»

Maximiliano estava com o cofrinho na mão, olhando-o por cima e por baixo, como se fosse retratá-lo, quando a porta se abriu e entrou uma menina de cerca de doze anos, magra e espigadinha, com os braços arregaçados, franja e cachinhos muito penteados, e um avental que lhe chegava aos pés. Foi Maximiliano vê-la e perturbar-se como se o tivessem surpreendido num ato vergonhoso.

«O que procura aqui, menina sem-vergonha?»

Como única resposta, a garota mostrou-lhe quase um palmo de língua, apertando os olhos e fazendo umas caretas de máscara feia das coisas mais extravagantes e grotescas que se possam imaginar.

— Sim, você fica muito bonita... Saia daqui, ou vai ver...

Era a criada da casa. Dona Lupe odiava mulheronas e sempre tomava a seu serviço meninas, para educá-las e moldá-las a seu gosto e costumes. Chamavam-na Papitos, não sei por quê. Era mais viva que pólvora, ativa e trabalhadora quando queria, preguiçosa e manhosa em certos dias. Tinha o corpo esbelto, as mãos ásperas do trabalho e da água fria, o rosto diabólico, com uns olhos saltados dos quais tirava grande proveito para fazer as pessoas rirem, a boca beiçuda e graciosa, com um jogo de lábios e dentes alvíssimos que pareciam feitos sob encomenda para produzir as caretas mais extravagantes. Os dois dentes centrais superiores eram enormes e apareciam sempre, porque nem mesmo quando fazia beiço fechava completamente a boca.

Ao ouvir a ameaça de Maximiliano, Papitos ficou ainda mais insolente. Era assim que se comportava. Quanto mais a ameaçavam, mais importuna ficava. Tornou a pôr para fora uma quantidade incrível de língua e depois começou a dizer em voz baixa: «Feio, feio...», umas trinta ou quarenta vezes. Aquela apreciação, que não era contrária à verdade, muito pelo contrário, nunca inspirara a Rubín mais que desprezo; mas naquela ocasião o indignou tanto que, ora essa... de boa vontade teria cortado toda aquela linguarona que Papitos punha para fora.

«Se você não sair daqui, com o pontapé que vou dar...!»

Foi atrás dela, mas Papitos pôs-se a salvo. Parecia voar. Do fundo do corredor, à porta da cozinha, repetia as zombarias, fazendo com as mãos gestos de macaco. Ele voltou muito irritado ao quarto e pouco depois ela entrou outra vez.

«O que procura aqui?»

— Vim buscar o lampião para arrumá-lo...

O motivo de a menina ter dito isso com relativa sensatez e serenidade foi ouvirem-se os passos de dona Lupe e sua voz temível: «Veja, Papitos, estou indo aí...»

— Tia, venha... Ela está fazendo uma algazarra...

— Acusador! — disse-lhe baixinho a menina ao pegar o lampião. — Feioso.

— A culpa é sua — acrescentou dona Lupe severamente, à porta —, porque você brinca com ela, ri de suas graças, e veja no que dá. Quando quer que ela o respeite, já não é possível. É muito mal-educada.

Tia e sobrinho conversaram um instante.

«Você também vai voltar tarde esta noite? Veja que as noites estão muito frias. Estas geadas são cruéis. Você não está em condições de fazer valentias.»

— Não, eu não sinto nada. Nunca estive melhor — disse Rubín, sentindo a timidez dominá-lo outra vez.

— Não façamos tolices... Faz um frio horrível. Que ano ruim! Acredita que ontem à noite não consegui me aquecer antes da madrugada? E isso que pus quatro cobertores sobre mim. Que atrocidade! Estamos entre as Cátedras de Roma e Antioquia, que, segundo dizia meu Jáuregui, é a pior época do ano em Madri.

v

— A senhora vai esta noite à casa de dona Silvia? — perguntou-lhe Rubín.

— É o que penso. Se você sair, vai me deixar lá e depois me buscará às onze em ponto.

Isso contrariava Maximiliano, porque lhe limitava o tempo; mas ele não disse nada.

— E esta tarde, a senhora sai? — perguntou depois, desejando que a tia saísse antes do jantar, para realizar, enquanto ela estivesse fora, a substituição dos cofrinhos.

— Talvez eu passe um instante na casa de Paca Morejón.

«Eu a acompanharei... Preciso ir ver Narciso, para que me empreste uns apontamentos. Deixarei a senhora na calle de la Habana.»

Dona Lupe foi à cozinha e armou uma grande gritaria com Papitos porque ela deixara queimar o refogado. Mas a menina estava muito acostumada a tudo e não se perturbava. Mal acabava de ouvir que a chamavam pelos nomes mais injuriosos e de receber um beliscão que lhe atenazava a carne, punha-se atrás da patroa a fazer caretas e mostrar a língua, enquanto coçava o braço dolorido.

«Você pensa que não a estou vendo, tratante», dizia dona Lupe sem se voltar, meio risonha e meio zangada. E não conseguia viver sem ela. Precisava ter uma criatura a quem repreender e ensinar por seus próprios métodos.

Dona Lupe pôs a mantilha, e tia e sobrinho saíram. A primeira ficou na calle de Arango, e o segundo foi comprar o cofrinho e voltou para casa. Chegara o momento de consumar o atentado, e aquele que durante a premeditação se mostrara tão corajoso sentia vivíssima inquietação ao aproximar-se o instante crítico. Começou por proteger-se da curiosidade de Papitos, trancando a porta depois de acender a luz; mas como proteger-se da própria consciência, que se alvoroçava, pintando-lhe a falta projetada como crime nefando? Comparou os dois cofrinhos, observando com satisfação que eram exatamente iguais em volume e na cor do barro. Não era possível que alguém percebesse a substituição. Mãos à obra. A primeira coisa era quebrar o antigo para apanhar o ouro e a prata, transferindo para o novo as moedas miúdas, com mais de duas pesetas em perros que, para esse fim, trocara na mercearia. Quebrar o pote sem fazer ruído era impossível. Permaneceu por algum tempo sentado numa cadeira junto à cama, com os dois cofrinhos sobre ela, acariciando suavemente aquele que seria a vítima. Seu olhar vagava ao redor da luz, caçando uma ideia. A luz iluminava a mesinha coberta de oleado negro, sobre o qual estavam os livros de estudo, encapados com jornais e muito bem ordenados por dona Lupe; dois ou três frascos de substâncias medicinais, o tinteiro e vários números de La Correspondencia. O olhar do jovem esvoaçou pela estreita cavidade do quarto, como se seguisse as curvas do voo de uma mosca, e foi da mesa ao cabide em que pendiam aqueles moldes de si mesmo, sua roupa, o fraque que reproduzia seu corpo e as calças que eram suas próprias pernas penduradas como para que se esticassem. Olhou depois para a cômoda, o baú e as botas que estavam sobre ele, seus próprios pés cortados, mas dispostos a andar. Um movimento de alegria e a animação do rosto indicaram que Maximiliano apanhara a ideia. Bem dizia ele: com aquelas coisas, tornara-se de repente homem de talento. Levantou-se e, pegando uma bota, saiu e foi à cozinha, onde Papitos cantava.

«Menina, pode me dar o pilão do almofariz? Esta bota tem um prego terrível, mas terrível, que me deixou manco.»

Papitos pegou o pilão, fazendo o gesto de esmagar a cabeça do senhorito.

«Vamos, menina, fique quieta. Veja que conto tudo à tia. Ela me encarregou de tomar conta de você e de lhe dar dois cascudos caso saísse da cozinha.»

Papitos começou a picar a escarola, sem deixar de fazer caretas.

«E eu vou contar», replicou, «vou contar o que o senhor faz... seu grande trambiqueiro...»

Maximiliano estremeceu. «Sua tola, o que é que eu faço?...», disse, tentando disfarçar a perturbação.

— Tranca-se no quarto, ai, olé! ai, olé!... para ninguém ver; mas eu vi pelo buraco da fechadura... ai, olé! ai, olé!...

— O quê?

— Escrevendo cartas para a namorada.

— Mentira... eu?... Saia daqui, sua enredeira...

Voltou ao quarto levando o pilão e, depois de trancar novamente a porta, tapou o buraco da fechadura com um lenço.

«Ela não vai olhar; mas, caso lhe ocorra...»

O tempo urgia, e dona Lupe podia voltar. Quando pegou o cofrinho cheio, seu coração palpitava e a respiração tornou-se difícil. Sentia compaixão pela vítima e, para evitar que a ternura frustrasse o ato, fez como os criminosos que se lançam freneticamente a dar o primeiro golpe para perder o medo e calar a consciência, impedindo-se de recuar. Pegou o cofrinho e, com mão febril, deu-lhe uma pancada. A vítima soltou um gemido seco. Estava rachada, mas ainda não quebrada. Como o primeiro golpe fora dado sobre o chão, pareceu a Maximiliano que retumbara muito; então pôs sobre a cama o objeto ferido. Sua perturbação era tamanha que quase golpeou o cofrinho vazio em vez do cheio; mas serenou, dizendo: «Como sou tolo! Se isto é meu, por que não posso dispor dele quando me der vontade?» E pau, mais pau... A infeliz vítima, aquele antigo e leal amigo, modelo de honradez e fidelidade, gemeu sob os golpes ferozes, abrindo-se enfim em três ou quatro pedaços. Sobre a cama espalharam-se as entranhas de ouro, prata e cobre. Entre a prata, que era o que mais abundava, brilhavam os centenes como as sementes amarelas de um melão entre a polpa branca. Com mão trêmula, o assassino recolheu tudo, menos as moedas miúdas, e guardou no bolso da calça. Os cacos espalhados pareciam pedaços de um crânio, e o pozinho vermelho do barro cozido que sujava a colcha branca pareceu ao criminoso manchas de sangue. Antes de pensar em apagar os vestígios do estrago, pensou em pôr os cobres no cofrinho novo, operação realizada com tanta precipitação que as moedas se engasgavam na boca e algumas não queriam passar. É que a abertura era um pouquinho mais estreita do que a da morta. Depois introduziu o cobre das duas pesetas que trocara.

Não havia tempo a perder. Ouvia passos. Dona Lupe já estaria subindo? Não, não era ela; mas logo viria, e era necessário despachar. Aqueles cacos, onde os jogaria? Eis um problema que pôs de pé os cabelos do assassino. O melhor era embrulhar aqueles despojos ensanguentados num lenço e atirá-los no meio da rua quando saísse. E o sangue? Limpou a colcha como pôde, soprando o pó. Depois percebeu que a mão direita e o punho da camisa conservavam alguns sinais e tratou de apagá-los cuidadosamente. Também o pilão precisou de boa limpeza. Haveria alguma coisa na roupa? Examinou-se bem dos pés à cabeça. Não havia nada, absolutamente nada. Como todos os matadores em caso semelhante, foi escrupuloso no exame; mas esses desgraçados sempre esquecem alguma coisa, e onde menos imaginam conserva-se o indício acusador que ilumina a justiça.

O que desconcertou Rubín quando julgou concluída a tarefa foi a apreensão de perceber que o cofrinho novo não se parecia em nada com o sacrificado. Como antes do crime ele os vira tão iguais que pareciam o mesmo? Erro dos sentidos. Também podia ser erro a diferença que notava depois do crime. Enganara-se antes ou se enganava agora? Na enorme perturbação de seu ânimo, não conseguia decidir coisa alguma. «Mas basta ter olhos», dizia, «para perceber que este cofrinho não é aquele... Neste o barro está mais recozido, é de cor mais escura e tem por aqui uma mancha negra... À simples vista se vê que não é o mesmo... Deus nos acuda. Vejamos a massa?... Pois a massa me parece menor neste... Não, antes maior, muito maior... Fatalidade!»

Ficou parado por muito tempo, olhando para a luz e vendo nela dona Lupe no ato de pegar o cofrinho falso e dizer: «Mas este cofrinho... não sei... parece-me... não é o mesmo». Dando um grande suspiro, embrulhou rapidamente num lenço os restos destroçados da vítima e guardou-os na cômoda até o momento de sair. Pôs o novo cofrinho no lugar habitual, que era a gaveta alta da cômoda, abriu a porta, retirando o lenço que tapava o buraco da fechadura, e, depois de levar à cozinha o instrumento traiçoeiro, voltou ao quarto com a ideia de contar o dinheiro... Mas, se era seu, por que tanto medo e inquietação? Não roubara nada de ninguém e, no entanto, estava como os ladrões. Mais correto seria contar à tia o que se passava, em vez de andar com encobrimentos. Sim, dona Lupe ficaria muito contente se ele lhe contasse a aventura e o uso que dava às economias! Era melhor calar e seguir adiante.

Não pôde entreter-se contando o tesouro, porque dona Lupe entrou, dirigindo-se imediatamente à cozinha. Maximiliano passeava pelo quarto, esperando que o chamassem para jantar, e fazia cálculos mentais sobre aquela soma desconhecida que tanto lhe puxava o bolso. «Deve ser muito, mas muito», calculava, «porque em tal época pus um dobrão de quatro, e em outra época outro. E, quando tomei aquele remédio de gosto tão ruim, minha tia me deu dois durinhos; e, toda vez que precisava tomar um purgante, um durinho ou meio durinho. Quanto a moedas de cinco, talvez sejam mais de quinze.»

Sentiu a coragem renascer. Mas, quando o chamaram para jantar, foi à sala e ficou frente a frente com a tia, pensou que ela lhe reconheceria no rosto aquilo que fizera. Ela o olhava como no dia infausto em que ele lhe roubara os botões, arrancando-os da roupa... E a consciência do sobrinho alvoroçou-se, fazendo-o ver perigos onde não existiam. «Parece-me», cismava, engolindo a sopa, «que a colcha não ficou muito limpa... Raios, esqueci uma coisa, mas uma coisa muito importante... verificar se tinham caído pedacinhos de barro em algum lugar. Agora me lembro de ter ouvido um tim, como se um fragmento tivesse saltado no momento do golpe e ido chocar-se, lançado com força, contra o frasco de iodeto. Talvez esteja no chão... e minha tia varre todos os dias!... Como ela olha para mim! Será que suspeita de alguma coisa?... O que me faltava agora era minha tia ter passado pela loja ao voltar da casa das Morejón e o comerciante ter dito: “Seu sobrinho esteve aqui para trocar duas pesetas em moedas miúdas”.»

O olhar perscrutador de dona Lupe nada tinha de particular. Ela estava acostumada a estudar-lhe o rosto para verificar como andava de saúde, e aquele semblante era um livro no qual a boa senhora aprendera mais Medicina do que o sobrinho aprendera Farmácia nos textos impressos.

«Parece-me que você não está bem...», disse-lhe. «Quando entrei, ouvi você tossir... Estas geadas...

Por Deus, tenha muito cuidado; não tenhamos aqui outra como a do ano passado, quando você emendou quatro resfriados e por pouco perdeu o ano. Não se esqueça de enrolar um lenço de seda na cabeça à noite, quando se deitar; e, se eu fosse você, começaria a tomar a água de alcatrão... Não faça cara feia. É bom prevenir-se. Por via das dúvidas, amanhã trarei pastilhas de Tolú.»

Com isso o jovem se tranquilizou, compreendendo que os olhares não passavam da inspeção médica de todos os dias. Jantaram e prepararam-se para sair. O criminoso envolveu-se bem na capa e apagou a luz do quarto para pegar os restos da vítima e retirá-los às escondidas. Como as moedas que levava no bolso da calça não eram palha, denunciavam-se batendo umas contra as outras. Para evitar aquele ruído inoportuno, Maximiliano meteu um lenço no bolso, entupindo-o bem para que as peças de prata e ouro não soltassem um pio, e assim de fato aconteceu, pois, durante todo o percurso de Chamberí até a casa de Torquemada, o ouvido de dona Lupe, que sempre se aguçava com o rumor do dinheiro como o ouvido dos gatos com os passos do rato, e até parecia que lhe endureciam as orelhas, nada percebeu, absolutamente nada. O sobrinho, quando julgava que as moedas se moviam, socava o bolso como quem carrega uma arma. Parecia que lhe nascera um tumor na perna!...

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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Continue a leitura Parte 2 — Capítulo I: Maximiliano Rubín Capítulo 12 · 12 de 32 · ≈ 57 min
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