Universo da obra
Universo da obra
Grande foi o espanto de Fortunata naquela noite, ao ver Maximiliano tirar punhados de moedas diferentes e contar rapidamente a soma, separando o ouro da prata. À surpresa um tanto alegre da jovem logo se seguiu a suspeita de que o improvisado amigo houvesse adquirido aquele capital por meios pouco limpos. Julgou ver nele um filho de família que, arrastado pela paixão e cegado pela tolice, se apoderara do cofre paterno. Essa ideia a mortificou muito, fazendo-a perceber a cruel insistência com que seu destino a maltratava. Desde que fora lançada aos azares daquela vida, sempre se vira ligada a homens grosseiros, perversos ou trapaceiros, o pior de cada casa.
Não deixou transparecer a Maximiliano suas suspeitas sobre a origem do dinheiro, que, viesse de onde viesse, não podia ser mal recebido, e pouco a pouco foi se tranquilizando ao ver que o estimável rapaz fazia alarde de possuir ideias econômicas inteiramente contrárias às de seus predecessores. «Isto», disse, mostrando-lhe um pequeno grupo de moedas de ouro, «serve para você resgatar as roupas que forem mais necessárias... Os trajes de luxo, o casaco de veludo, o chapéu e as joias serão retirados mais adiante, e o empréstimo será renovado para que não se percam. Por enquanto, esqueça tudo o que é pura ostentação. Acabou a desordem. Só se gastará o que se tiver, para não fazer dívida alguma, mas nem uma única dívida. Preste muita atenção.» Aquela sensatez era coisa nova para Fortunata, e ela começou a corrigir um pouco suas primeiras ideias acerca do amante e a considerá-lo melhor do que os demais. Nos dias seguintes, Olmedo confirmou essa boa opinião, falando-lhe com vivos elogios da seriedade daquele rapaz e de como era comedido.
Fortunata e seu protetor combinaram tomar um aposento que estava desocupado na mesma casa. Rubín insistiu muito na modéstia e no baixo custo dos móveis que deveriam pôr, porque... para que se veja como era ajuizado, «convém começar com pouco». Depois se veria, e o humilde lar iria crescendo e se embelezando gradualmente. Ela aceitava tudo sem entusiasmo nem ilusão alguma, antes para experimentar. Maximiliano lhe era pouco simpático; mas, em suas palavras e ações, ela vira desde o primeiro momento uma pessoa decente, grande novidade para ela. Viver com uma pessoa decente despertava um pouco sua curiosidade. Passou dois dias ocupada com a instalação. Uma vizinha que desfizera a casa alugou-lhe os móveis, e Rubín cuidou de tudo com tamanho tino que Fortunata se espantava com seus admiráveis dotes administrativos, pois não tinha nem a mais remota ideia daquela engenhosa maneira de defender uma peseta, nem sabia como se corta uma despesa para reduzi-la de seis a cinco, além de outras artes financeiras que o excelente rapaz aprendera com dona Lupe.
Ao tentar medir o carinho que sentia pela amiga, Maximiliano achava pálida e inexpressiva a palavra gostar, precisando recorrer aos romances e à poesia em busca do verbo amar, tão usado nos exercícios gramaticais quanto esquecido na linguagem corrente. E até aquele verbo lhe parecia insípido para exprimir a doçura e o ardor de seu afeto. Adorar, idolatrar e outros cumpriam melhor a função de dar a conhecer a paixão exaltada de um jovem franzino de corpo e robusto de espírito.
Quando o enamorado ia para casa, levava consigo a impressão de uma Fortunata transfigurada. Porque jamais houve princesa de conto oriental nem dama do teatro romântico que se oferecesse à mente de um cavalheiro com atributos mais ideais ou traços mais puros e nobres. Duas Fortunatas existiam então: uma de carne e osso, outra aquela que Maximiliano levava estampada na mente. Os sentimentos do jovem Rubín se espiritualizaram de tal modo com aquele amor extraordinário que este lhe inspirava não apenas boas ações, entusiasmo e abnegação, mas também delicadeza levada até a castidade. Sua natureza pobre não tinha exigências; seu espírito as tinha grandes, e eram estas que mais o apressavam. Tudo quanto pode existir de nobre e belo na alma humana brotou na sua, como jorros de lava no vulcão ativo. Sonhava com redenções e regenerações, com lavagens de manchas e com tirar do passado negro da amada uma vida de méritos. O generoso galanteador via os mais sublimes problemas morais na fronte daquela infeliz mulher, e resolvê-los no sentido do bem lhe parecia a maior empresa da vontade humana. Porque seu louco entusiasmo o impelia à salvação social e moral de seu ídolo e a pôr naquela obra grandiosa todas as energias que lhe alvoroçavam a alma. As peripécias vergonhosas da vida dela não o desanimavam, e até media com alegria a profundidade do abismo do qual tiraria a amiga; e haveria de tirá-la pura ou purificada. Naquelas confidências que ambos trocavam, Maximiliano julgava perceber na pecadora certo fundo de retidão e menos corrupção do que parecia à primeira vista.
Estaria enganado nisso? Às vezes suspeitava; mas sua boa-fé triunfava imediatamente da suspeita. O que podia sustentar sem medo de errar era que Fortunata tinha vivos desejos de melhorar a própria pessoa, isto é, de tornar-se decente e polida. Sua ignorância era, como se pode supor, completa. Lia muito mal, aos tropeços, e não sabia escrever.
O essencial do saber, aquilo que sabem as crianças e os aldeões, ela ignorava, como ignoram outras mulheres de sua classe e até de classe superior. Maximiliano ria daquela incultura absoluta, levando a sério a tarefa de corrigi-la pouco a pouco. E ela não disfarçava a barbárie; ao contrário, manifestava com graciosa sinceridade seus ardentes desejos de adquirir certas ideias e aprender palavras finas e decentes. A todo instante perguntava o significado desta ou daquela palavra e se informava sobre mil coisas comuns. Não sabia o que eram Norte e Sul. Aquilo lhe soava como coisa de vento, nada mais. Acreditava que um senador era alguma coisa da Prefeitura. Tinha ideias muito estranhas sobre a imprensa, acreditando que os próprios autores punham nas páginas aquelas letras tão iguais. Jamais lera livro algum, nem sequer um romance. Pensava que Europa era uma povoação e Inglaterra, um país de credores. A respeito do sol, da lua e de tudo o mais no firmamento, suas noções pertenciam à ordem dos povos primitivos. Certo dia confessou não saber quem fora Colombo. Acreditava que era um general, como O'Donnell ou Prim. Na religião não estava mais adiantada do que na história. A pouca doutrina cristã que aprendera fora esquecida. Compreendia a Virgem, Jesus Cristo e São Pedro; considerava-os pessoas muito boas, mas nada além disso. A respeito da imortalidade e da redenção, suas primeiras ideias eram muito confusas. Sabia que, quando uma pessoa se arrepende, mas se arrepende de verdade, salva-se; disso não havia dúvida, e, por mais que dissessem, nada que se relacionasse com o amor era pecado.
Seus defeitos de pronúncia eram atrozes. Não havia força humana que a fizesse dizer fragmento, magnífico, enigma e outras palavras usuais. Esforçava-se para vencer aquela dificuldade, rindo e insistindo nela; mas não conseguia. Os esses finais transformavam-se-lhe em jotas, sem que ela mesma o notasse ou pudesse evitar, e engolia muitas sílabas. Se soubesse como ficava bonita sua boca ao engoli-las, não teria tentado corrigir a graciosa incorreção. Mas Maximiliano se erigira em mestre, com rigores de pedagogo e pretensões de acadêmico. Não a deixava viver e ficava à espreita dos solecismos para cair sobre eles como o gato sobre o rato. «Não se diz diferiência, mas diferença. Não se diz Jacometrenzo, nem Espíritui Santo, nem indilugências. Além disso, escamão e escamar-se são palavras muito feias, e chamar de tiologias tudo o que não se entende é uma barbaridade. Repetir a todo instante até parece é costume grosseiro», e assim por diante...
O que aquela mulher tinha de melhor era a ingenuidade. Repetidas vezes, Maximiliano trouxe à baila o caso da desonra dela, por ser ponto muito importante no plano de regeneração. O inspirado e entusiasta rapaz insistia em como os senhoritos eram maus e na necessidade de uma lei à inglesa que protegesse as moças inocentes contra os sedutores. Fortunata não entendia patavina daquelas leis. A única coisa que sustentava era que o tal Juanito Santa Cruz fora o único homem que amara de verdade, e que continuava amando-o. Por que dizer outra coisa? Reconhecendo, com cavalheiresca lealdade, que aquela coerência era louvável, o outro sentia na alma uma pontada de ciúme, que por um instante transtornava seus planos de redenção.
«E você o ama tanto que, se o visse em algum perigo, o salvaria?»
— Claro que sim... pode acreditar. Se o visse em perigo, eu o tiraria dele, ainda que me perdesse. Só sei dizer o que me sai de dentro de mim. Se isso não for verdade, que eu não chegue saudável ao anoitecer.
Ficou tão bonita ao fazer aquela declaração que Rubín olhou-a por muito tempo antes de dizer:
«Não, não jure; não precisa jurar. Acredito em você. Diga outra coisa. E se agora ele entrasse por aquela porta e lhe dissesse: “Fortunata, venha”, você iria?»
Fortunata olhou para a porta. Rubín engolia saliva e procurava, no lugar onde temos o bigode, alguma coisa para torcer; encontrando apenas pelos muito tênues, martirizava-os cruelmente.
«Isso... depende...», disse ela, franzindo as sobrancelhas. «Eu iria ou não iria...»
Maximiliano queria saber tudo. Era como o bom médico que pede ao enfermo as notícias mais insignificantes da enfermidade e de sua história para saber como há de curá-lo. Fortunata não escondia nada, essa qualidade tinha, e o doutor enamorado encontrava-se às vezes com mais informações do que talvez fossem necessárias para a prodigiosa cura. E como ficava horrorizado ao ouvir contar o mau comportamento do sedutor daquela beleza! O honestíssimo aprendiz de farmacêutico não compreendia que pudessem existir homens tão maus, e todas as penas do inferno lhe pareciam poucas para castigá-los. Criminoso mais perverso que assassinos e ladrões era, em sua opinião, o senhorito sedutor de moça pobre, que a fazia acreditar que se casaria com ela e depois a deixava plantada no meio da rua, com a criança ou às vésperas de tê-la. Por quanto faria aquilo ele, Maximiliano Rubín?... O tal Juanito Santa Cruz era, portanto, o homem mais infame, mais execrável e vil que se pudesse imaginar. Mas a própria ofendida não levava muito longe, como parecia natural, os anátemas contra o sedutor, razão pela qual Maximiliano teve de redobrar a fúria contra ele, chamando-o de monstro e outras coisas muito ruins. Fortunata via-se obrigada a repetir; mas não havia meio de fazê-la pronunciar a palavra monstro. Ela se lhe atravessava como tantas outras e, por fim, depois de mil tentativas que pareciam náuseas, soltava-a entre os belíssimos dentes e lábios como se a cuspisse.
Preferia contar particularidades da infância. Seu falecido pai tinha uma banca na pracinha e era homem honrado. Sua mãe exercia, como Segunda, a tia paterna, o comércio de ovos. Chamavam-na desde menina de Pitusa, porque fora muito raquítica e franzina até os doze anos; mas de repente dera um grande estirão e se transformara em mulher de estatura e garbo. Seus pais morreram quando ela tinha doze anos... Maximiliano ouvia aquelas coisas com muito prazer. Apesar disso, mandava-a ir ao ponto, às coisas graves, como o que dizia respeito ao filho que tivera. Quando parte daquela história foi contada, pouco faltou para o jovem começar a chorar. A terna criatura sem outro amparo além da mãe pobre, a aflição desta ao ver-se abandonada, eram de fato um quadro tristíssimo, de partir o coração. Por que ela não o citara perante os tribunais? Era o que deveria ter feito. Esses patifes devem ser tratados a toque de caixa. Outra coisa. Por que não lhe ocorrera fazer um escândalo, ir à casa com a criança nos braços, apresentar-se a dona Bárbara e a D. Baldomero e contar-lhes ali, muito claramente, a bela ação que o filho deles cometera?... Mas não, isso não teria sido muito conforme à dignidade. Era melhor desprezá-lo, entregando-o à própria consciência, sim, à consciência, que cedo ou tarde lhe armaria uma bela confusão.
Ao ouvir isso, Fortunata fixava os olhos no chão, repetindo como máquina que o melhor era o desprezo. Sim, desprezá-lo, repetia o outro, pois era ignomínia solicitar sua proteção. Nem que lhe dessem o que quer que fosse, Fortunata era capaz de dizer ignomínia. Maximiliano insistiu em que fora uma grande falta pedir amparo ao próprio Juanito Santa Cruz, àquele infame, quando ela voltara a Madri e o menino caíra doente.
«Mas, seu bobinho, se não fosse por ele, não teríamos com que enterrá-lo», disse Fortunata, saindo em defesa do próprio verdugo.
— Eu antes o deixaria sem sepultura do que recorreria... A dignidade, minha filha, vem antes de tudo. Preste muita atenção. O que quero saber agora é quem era esse sujeito a quem você se uniu depois, aquele que a tirou de Madri e a levou de povoação em povoação como os trastes de uma feira.
— Era um homem traiçoeiro e mau — disse Fortunata sem vontade, como se a lembrança daquela parte da vida lhe fosse muito desagradável. — Fui com ele porque me vi perdida e não tinha para onde me voltar. Era irmão de um vizinho nosso na Cava de San Miguel. Primeiro teve uma banca de miúdos na praça, depois abriu uma loja de quinquilharias; ia a todas as feiras com uma infinidade de arcas cheias de bugigangas e montava barracas. Chamavam-no Juárez, o Negro, por ter a pele muito morena. Vendo-me tão mal, prometeu-me mundos e fundos e disse que faria isso e aquilo. Minha tia me expulsou de casa e meu tio desapareceu. Eu estava doente, e Juárez disse que, se eu fosse com ele, me levaria a banhos. Dizia que ganhava montes e montanhas nas romarias e que eu viveria como uma rainha. Não podia se casar comigo porque era casado, mas, assim que morresse a mulher, que era uma beberrona, cumpriria, sim, senhor, cumpriria comigo.
E continuou relatando depressa aquela página feia, desejosa de terminá-la logo. O caso do senhorito Santa Cruz, embora tão desastroso, ela o referia com minúcia e até com certa amarga satisfação; mas o de Juárez, o Negro saía-lhe dos lábios como confissão forçada ou depoimento perante os tribunais, daqueles que vão queimando a boca à medida que saem. Como lhe doía ter-se posto nas mãos daquele homem! Era um devasso, um velhaco, uma pessoa ruim. Teria resistido a segui-lo se não a tivessem empurrado os parentes com quem vivia, que não tinham maldita vontade de sustentar-lhe a boca. Logo viu que tudo quanto Juárez, o Negro oferecia era conversa. Não ganhava um cuarto; armava briga com o mundo inteiro e descarregava sobre a amante todo o veneno que ia amassando na alma maldita por causa da má sorte... Enfim, ela nunca levara vida mais miserável, nem esperava tornar a levar... Com o dinheiro que Juanito Santa Cruz lhes dera quando estiveram em Madri e o menino morreu, o grande bruto de Juárez poderia ter posto em ordem o comércio; mas o que fez? Beber e beber. O vinho forte e a aguardente acabaram com ele. Certa manhã, ela despertou ouvindo-o dar grandes grunhidos... como se lhe apertassem a goela. O que era? Estava morrendo. Saltou apavorada da cama e chamou os vizinhos. Não houve tempo para ministrar-lhe o viático, e ele só recebeu a Unção. Isso acontecia em Lérida. Dois dias depois, ela vendeu seus quatro trastes e, com os cobres que conseguiu juntar, plantou-se em Barcelona. Jurara nunca mais lidar com animais. Liberdade, liberdade e liberdade era o que o corpo e a alma lhe pediam.
A verdade acima de tudo. Para que dizer uma coisa por outra? A franqueza é virtude quando não se têm outras, e a franqueza obrigava Fortunata a declarar que, na primeira temporada de anarquia moral, se divertira um pouco, esquecendo as penas como os bêbados as esquecem. Seu êxito foi grande, e a falta de educação ajudava a cegá-la. Chegou a acreditar que, afundando-se muito na lama, vingava-se daqueles que a haviam perdido, e costumava pensar que, se o patife Santa Cruz a visse transformada numa beldade esplêndida, tão elegante e triunfante, teria vontade de amá-la outra vez. Sim, como se ele estivesse à espera dela...! Contou em seguida tantas coisas que Maximiliano se sentiu ferido. Precisou lançar um véu, como dizem os retóricos, sobre aquela parte da história da amada. O véu tinha de ser muito denso, porque a franqueza de Fortunata lançava luz vivíssima sobre os acontecimentos referidos, e sua linguagem pitoresca os fazia reverberar... Ela então deu alguns cortes em seu relato, engolindo não mais letras, mas parágrafos e capítulos inteiros, e eis, em substância, o que disse: Torrellas, o célebre paisagista catalão, era tão ciumento que não a deixava viver. Inventava mil tormentos, armando-lhe ciladas para ver se caía ou não. Aquele homem se tornou tão odioso para ela que, por fim, ela se deixou cair. Meteu-se de propósito na cilada, conhecendo-a, pelo gosto de pregar uma peça no grande imbecil, porque assim se vingava das muitas que lhe haviam pregado. E nada mais... Em suma, por pouco o maldito pintor de árvores não a matou... O que mais o queimava era a infidelidade ter sido com um amigo íntimo seu, também pintor, autor do quadro de Davi olhando para... Fortunata não se lembrava do nome, mas era uma mulher que se banhava... Ela não amava nenhum dos dois artistas; por nenhum dos dois teria dado dois cuartos, se fossem comprados com dinheiro. Os quadros deles valiam mais. Desde que enganou o primeiro com o segundo, meteu na cabeça a ideia de enganar os dois com outro, e um empregado jovem, pobre e um pouco simpático, que se parecia muito com Juanito Santa Cruz, proporcionou-lhe a satisfação daquele desejo.
Outro véu... Maximiliano viu-se obrigado a lançar outro véu... «Cale-se, faça-me o favor de calar-se», disse-lhe, pensando que, pelo modo como a história ia saindo, precisaria de pelo menos uma peça inteira de tule. Mas ela continuou narrando. Pois, como ia dizendo, o tal jovem também se revelou uma bela peça. Certa manhã, enquanto ela dormia, empenhou todas as suas joias para jogar. E aqui paz... Veio depois um velho que lhe dava muito dinheiro e a levou a Paris, onde ela se enfeitou e refinou extraordinariamente o gosto para vestir-se. Que velho mais astuto!... Fora general carlista na outra guerra e convivia muito com gente de batina. Era muito vicioso e dava-lhe muitas dores de cabeça com as tantíssimas ocupações que tinha. Certo dia, ela se encheu e o pôs na rua. Sucessor: Camps, que lhe montou casa com grande luxo. Parecia homem muito rico, mas depois se revelou um trambiqueiro de longo curso. Antes de virem a Madri, ela sentiu cheiro de temporal, e pouco depois de chegarem aqui viu a tempestade cair-lhes em cima. Camps trazia recomendações para o diretor do Tesouro e quis cobrar umas promissórias falsas de fuzis supostamente comprados pelo Governo. Certa noite, entrou em casa muito enfurecido, pegou uma mala pequena, encheu-a de roupa, pediu a Fortunata todo o dinheiro que ela tinha e disse que ia ao Escorial. Escorial coisa nenhuma, porque nunca mais apareceu. O resto Maximiliano sabia muito bem... O sucessor de Camps fora ele, e já se percebia, em certo brilho dos olhos, o orgulho que a herança lhe produzira. Porque Fortunata o dissera com toda a clareza. Graças a Deus, encontrava em seu caminho uma pessoa decente!
Maximiliano sentia-se possuidor de uma força redentora, irmã das forças criadoras da Natureza. O mundo ainda veria a irradiação de bondade e verdade que ele lançaria sobre aquela infeliz vítima do homem!
Desde que a conhecera e sentira o Céu entrar-lhe na alma, tudo nele fora idealismo, nobreza e boas ações. Que diferença entre ele e os dissolutos em cujas mãos estivera aquela pobrezinha! Por mais que se procurasse na vida de Rubín, não se encontrariam mais que dores de cabeça e outros incômodos físicos; mas tentassem tirar-lhe algum ato ignominioso, nem sequer uma falta.
Uma das coisas a que Maximiliano dava maior importância para pôr em execução seu plano redentor era que Fortunata o amasse, porque, sem isso, a sublime obra teria dificuldades. Se Fortunata se apaixonasse por ele, ainda que se apaixonasse pelo aspecto moral, que é a menor quantidade possível de amor, não seria tão difícil convertê-la ao bem pela atração de sua alma. Dessa necessidade de amor prévio emanava a insistência com que Maximiliano perguntava a seu ídolo se já gostava um pouco dele, se começava a gostar. Algumas vezes ela respondia que sim com aquela facilidade mecânica e rotineira das crianças aplicadas que sabem a lição; outras vezes, mais sincera e reflexiva, respondia que o afeto não depende da vontade, muito menos da razão, e por isso acontece que uma mulher, que não tem nada de tola, se apaixona por qualquer pelagatos e dá o fora nas pessoas decentes. Assegurava estar muito agradecida a Maximiliano por ele ter se comportado tão bem com ela, e daquela gratidão surgiria, com a convivência, o amor. Segundo Rubín, a ordem natural das coisas no mundo espiritual estabelece que o amor nasça da gratidão, embora também nasça de outros pais. O coração lhe dizia, como costuma dizer as coisas, em silêncio, que Fortunata haveria de amá-lo de verdade; e ele esperava com paciência o cumprimento daquela doce profecia. Apesar disso, não se sentia inteiramente seguro, porque, como há casos em que falha aquilo que o coração anuncia, o pobre rapaz passava horas de verdadeira angústia e, sozinho em casa, metia-se em cálculos muito profundos para averiguar o estado dos sentimentos da amada. Passava rapidamente da dúvida mais cruel às afirmações categóricas. Ora pensava que ela não gostava nem um pouquinho dele, ora que começava a gostar, e tudo era discutir e analisar palavras, gestos e atos dela, interpretando-os de uma maneira ou de outra. «Por que me disse isto ou aquilo? O que queria exprimir com aquela reticência?... E aquela risadinha, o que significava?... Ontem, quando abriu a porta, não me disse nada... Mas, quando fui embora, mandou que eu me agasalhasse bem.»
A casa ficava num dos muitos recantos da antiga calle de San Antón. No portal havia uma relojoaria entre vidraças, restando tão pouco espaço para a entrada que os gordos precisavam passar de lado; no andar térreo e loja, uma confeitaria inundava a casa de emanações de canela e açúcar. No primeiro andar funcionava uma casa de penhores, com um grande lampião voltado para a rua, e em certos dias havia nas varandas ventilação de capas empenhadas. Mais acima, os andares estavam divididos em moradias estreitas e baratas. Havia direita, esquerda e duas internas. Os vizinhos eram de duas classes: mulheres livres ou famílias que tinham comércio no próximo mercado de San Antón. Vendedoras de ovos e verduras povoavam aqueles aposentos reduzidos, mandando os filhos para a escada a fim de que brincassem. Num dos segundos andares externos vivia Feliciana, e Fortunata, num terceiro interno. Rubín alugara-o por encontrá-lo tão à mão, com intenção de tomar moradia melhor quando as circunstâncias mudassem.
Maximiliano passava ali todo o tempo de que podia dispor. À noite ficava até as doze, às vezes até a uma, e não faltava nem mesmo quando era acometido de suas terríveis enxaquecas. Não é preciso dizer a surpresa e a confusão que isso causava a dona Lupe, que não se satisfazia com as explicações do sobrinho. «Aqui há gato escondido», dizia a astuta senhora, «ou, em termos mais claros, gata escondida.»
Quando Maximiliano ia com enxaqueca à casa da amante, esta cuidava dele quase tão bem quanto a própria dona Lupe e fazia o impossível para que os filhos da vendedora de ovos não fizessem barulho. O enfermo agradecia tanto que seu amor aumentava, caso fosse capaz de aumentar aquilo que já era tão grande. Observou com satisfação que Fortunata saía à rua o mínimo possível. Pela manhã, descia para fazer as compras, com a cesta no braço, e voltava quinze minutos depois. Ela mesma fazia a comida e limpava a casa, operações nas quais passava quase todo o dia. Não recebia visitas de mulheres de conduta duvidosa, e a sua ajustava-se estritamente às práticas de uma vida regular. «Ela tem a honradez na medula dos ossos», dizia Maximiliano, transbordando de alegria. «Gosta tanto de trabalhar que, quando termina uma coisa, desfaz e torna a fazer para não ficar ociosa. O trabalho é o fundamento da virtude. Como eu digo, esta mulher foi má à força.»
Em meio àqueles dulcíssimos devaneios de sua alma arrebatada, Maximiliano sentia umas flechadas que o faziam voltar sobressaltado à realidade. Era como a picada feroz de um mosquito quando começamos a adormecer docemente... Por mais que se esticasse o dinheiro tirado do cofrinho, ele acabaria, porque tudo é finito neste mundo, e o dinheiro metálico é precisamente uma das coisas mais finitas que se podem imaginar... Maria Santíssima!, quando chegasse o momento temido... quando a última peseta do último duro fosse trocada...! Se o mosquito picava Maximiliano quando estava na cama, dormindo ou preparando-se para dormir, ele se erguia tão desperto como se fossem doze horas do dia, ou começava a dar voltas no leito e aquecê-lo com o ardor de sua febril inquietação. Às vezes invocava o Céu com íntimo fervor de oração. Esperava que a obra generosa que empreendera contasse muito nas recônditas intenções da Providência, para que esta o tirasse do atoleiro em que os amantes cairiam. Ele não era um canalha; ela se comportava bem e, com sua conduta, lançava véus e mais véus sobre o passado. Se a Providência não levasse essas circunstâncias em consideração, para que serviria a uma pessoa comportar-se bem e ser modelo de ordem e boa-fé? Isso era claro como água. Fortunata pensava o mesmo quando ele lhe confiava seus temores. Tinha de ser assim, ou tudo o que se dizia da Providência era mentira. Logo direi como conseguiram o que queriam, demonstrando-se com isso que tinham lá em cima, nos próprios céus, alguma influência importante que os protegia. Bem mereciam aquela proteção, porque ele, enobrecido pelo afeto, ela, aspirando à honradez e ensaiando praticá-la, eram dois seres que valiam qualquer dinheiro, ou, em outros termos, dignos de que lhes facilitassem os meios de continuar a campanha virtuosa.
A única visita que recebiam era a de Feliciana e Olmedo. Nem um nem outro agradavam muito a Maximiliano: ela, por ser grosseira e ter sentimentos ignóbeis, incapaz de desejar a honradez como estado permanente; ele, por ser muito atropelado, muito falador, muito amigo de contar histórias sujas e dizer palavras indecentes. Entrava sempre com o chapéu atirado para trás, afetando uma grosseria de maneiras que não possuía, imitando os modos e até o andar dos bêbados, arrastando as palavras, mas abstendo-se de beber com a desculpa de dor de estômago, na verdade porque ficava tonto e embrutecido na segunda taça. Em confiança, Maximiliano disse a Fortunata que deveriam mudar-se de casa para não terem vizinhos tão contrários ao método de pessoas decentes que se haviam imposto.
De tudo quanto o enamorado pensava fazer para a redenção da amada, nada lhe parecia tão urgente quanto ensiná-la a escrever e a ler bem. Todas as manhãs fazia-a passar meia hora traçando riscos. Fortunata desejava aprender; mas nem com paciência nem com atenção sustentada se desenvolviam seus talentos caligráficos. Aqueles dedos já estavam muito endurecidos para tais primores. O hábito do trabalho na infância dera robustez às mãos, que eram bonitas, embora grosseiras, como mãos de operária. Não tinha firmeza para escrever, manchava os dedos de tinta e suava muito, ficando ofegante e fazendo com os lábios uma graciosa trombeta no momento de traçar o risco.
«Nada de fazer beicinho, filha da minha alma; isso é muito feio», dizia o professor, acariciando-lhe a cabeça. «Não enrijeça os dedos... É coisa simplicíssima, das mais fáceis...»
Claro, para ele era fácil; mas ela, que nunca na vida enfrentara coisa semelhante, encontrava na escrita uma dificuldade invencível. Dizia com tristeza que jamais aprenderia e lamentava que na infância não a houvessem mandado à escola. A leitura também a cansava e aborrecia soberanamente, porque, depois de passar algum tempo tirando as sílabas como quem tira água de um poço, verificava que não entendia patavina do que o texto dizia. Atirava com desprezo o livro ou jornal, dizendo que Madalena já não estava para tafetás.
Se na ordem literária não mostrava aplicação alguma, no que dizia respeito à arte social não apenas era aplicadíssima, mas revelava aptidões notáveis. As lições que Maximiliano lhe dava referentes a coisas de urbanidade e aos conhecimentos rudimentares exigidos pela boa educação eram tão proveitosas que às vezes bastavam leves indicações para que ela assimilasse uma ideia ou conjunto de ideias. «Embora a escuridão a atrapalhe», dizia-lhe ele, «parece-me que você tem talento.» Em pouco tempo ensinou-lhe todas as fórmulas usadas numa visita de cerimônia, como se cumprimenta ao entrar e ao despedir-se, como se oferece a casa e muitas outras particularidades do trato fino. E ela também aprendeu coisas tão importantes quanto a sucessão dos meses do ano, que ignorava, e qual tem trinta, qual trinta e um dias. Embora pareça mentira, esse é um dos traços característicos da ignorância espanhola, mais nas cidades do que nas aldeias e mais nas mulheres do que nos homens. Gostava muito dos trabalhos domésticos e nunca se cansava. Seus músculos eram de aço, e seu sangue fogoso combinava mal com a quietude. Sempre que podia, cuidava mais de prolongar os trabalhos do que de abreviá-los. Passar e lavar agradavam-lhe extremamente, e ela se entregava a essas tarefas com deleite e ardor, desenvolvendo sem fadiga a força dos punhos. Tinha as carnes duras e firmes, e nela a robustez combinava-se com a agilidade, a graça com a rudeza, compondo a mais bela figura de selvagem que se pudesse imaginar. Seu corpo não precisava de espartilho para ser esbeltíssimo. Vestida, enchia de orgulho as modistas; nua ou vestida pela metade, quando andava pela casa estendendo roupa na varanda, limpando os móveis ou carregando os colchões como se fossem almofadas para pô-los ao ar, parecia figura de outros tempos; pelo menos assim pensava Rubín, que só vira beleza semelhante em pinturas de amazonas ou coisa parecida. Em outras ocasiões, parecia-lhe mulher da Bíblia, aquela Betsabé do banho, Rebeca ou a Samaritana, senhoras que vira numa obra ilustrada e que, apesar de tão magníficas, ainda ficavam dois dedos abaixo da beleza saudável e do garbo de sua amiga.
No começo daquela vida, Maximiliano abandonou muito os estudos; mas, quando foi metodizando seu amor, a consciência da missão moral que se propunha cumprir estimulou-o a estudar, para logo se tornar homem formado. E era muito singular o que lhe acontecia. Percebia-se mais desperto, mais perspicaz para compreender, mais curioso dos segredos da ciência, e já lhe interessava o que antes o aborrecia. Em suas meditações, costumava dizer que lhe entrara talento, como se dissesse que lhe entrara febre. Indubitavelmente, já não era o mesmo. Em meia hora aprendia uma lição que antes lhe tomava duas horas e que, no fim, continuava sem saber. Sua admiração cresceu ao perceber-se em aula respondendo com relativa facilidade às perguntas do professor e ao notar que lhe ocorriam apreciações muito sensatas; o professor e os alunos espantavam-se de Rubinius vulgaris ter despertado como por encanto. Ao mesmo tempo, encontrava vivo prazer em certas leituras estranhas à Farmácia e que antes pouco o cativavam. Alguns companheiros costumavam levar para a aula, a fim de ler às escondidas, obras literárias das mais famosas. Rubín nunca fora dado a introduzir clandestinamente na aula, entre as páginas da Farmácia químico-orgânica, o Werther de Goethe ou os dramas de Shakespeare. Mas, depois daquele abalo que o amor lhe dera, entrou-lhe tamanho gosto pelas grandes criações literárias que se embevecia lendo-as. Devorou o Fausto e os poemas de Heine, com a particularidade de que a língua francesa, que antes o atrapalhava, logo se tornou fácil. Enfim, meu homem passara por uma grande crise. O cataclismo amoroso modificou-lhe a configuração interior. Considerava-se alguém que estivera dormindo até o momento em que o destino lhe pusera diante dos olhos aquela mulher e o problema da redenção.
«Quando eu era tolo», dizia, sem esconder de si mesmo o desprezo com que olhava para aquela época, que bem poderia ser chamada antediluviana, «quando eu era tolo, era porque carecia de objetivo na vida. Porque os tolos são isso: pessoas que não têm missão alguma.»
Fortunata não tinha criada. Dizia bastar e sobrar para todos os afazeres de casa tão reduzida. Muitas tardes, enquanto ela estava na cozinha, Maximiliano estudava as lições, deitado no sofá da sala. Não fosse o espectro do cofrinho aparecer-lhe de vez em quando, anunciando o fim do dinheiro tirado dele, como teria sido feliz o pobre rapaz! Apesar disso, a felicidade o dominava. Entrava-lhe uma embriaguez de amor que o fazia ver todas as coisas tingidas de otimismo. Não havia dificuldades, perigos nem tropeços. O dinheiro viria de algum lugar. Fortunata era boa, e seus propósitos de decência já estavam muito claros. Tudo corria às mil maravilhas, e faltava apenas concluir a carreira e... Ao chegar aí, um pensamento que desde o princípio daqueles amores guardava muito bem, porque não queria manifestá-lo senão em ocasião oportuna, veio-lhe aos lábios. Não conseguiu reter por mais tempo aquele segredo que saía com ímpeto e, se não o dissesse, explodiria, sim, explodiria; porque aquele pensamento era todo o seu amor, todo o seu espírito, a expressão de tudo quanto nele havia de novo e sublime, e não se pode encerrar coisa tão grande na estreiteza da discrição. A pecadora entrou na sala, que também servia de sala de jantar, para pôr a mesa, operação extremamente simples, concluída em cinco minutos. Maximiliano lançou-se à amada com aquela espécie de vertigem de respeito que às vezes o acometia e, beijando castamente um braço que ela trazia meio nu, tomando depois sua mão grosseira e apertando-a contra o coração, disse-lhe:
«Fortunata, eu me caso com você.»
Ela começou a rir com incredulidade; mas Rubín repetiu o eu me caso com você com tanta solenidade que Fortunata começou a acreditar. «Há muito tempo», acrescentou ele, «eu tinha pensado nisso... Pensei quando a conheci, há um mês... Mas me pareceu bom não lhe dizer nada antes de conhecê-la um pouco... Ou me caso com você ou morro. Esse é o dilema.»
— Tem graça... E o que quer dizer dilema?
— Quer dizer isto: ou me caso ou morro. Você há de ser minha diante de Deus e dos homens. Não quer ser honrada? Pois, com o desejo de sê-lo e um nome, a honradez está feita. Propus-me a transformá-la numa pessoa decente, e você será, será, se quiser...
Inclinou-se para pegar os livros que haviam caído no chão. Fortunata saiu para buscar o que faltava à mesa e, ao entrar, disse-lhe:
— Essas coisas precisam ser bem calculadas... não por mim, mas por você.
— Ah, já pensei nisso; mas pensei muito bem... E você, já tinha imaginado isso?
— Não... nem me passava pela cabeça. Sua família fará oposição.
— Em breve serei maior de idade — afirmou Rubín com brio. — Oponham-se ou não, tanto me faz...
Fortunata sentou-se ao lado dele, deixando a mesa pela metade e a comida quase queimando. Maximiliano deu-lhe muitos abraços e beijos, e ela estava como atordoada... pouco risonha, na verdade, espalhando olhares de um lado para outro. A generosidade do amigo não lhe era indiferente, e ela respondeu aos apertos de mão com outros não tão fortes, e às carícias de amor com outras de amizade. Levantou-se para voltar à cozinha, e ali seu pensamento oscilou sobre aquela ideia do casamento, enquanto mecanicamente punha a sopa na terrina... «Eu me casar!... Até parece...! E com este franzino...! Viver sempre, sempre com ele, todos os dias... de dia e de noite!... Mas pense bem, mulher... ser honrada, ser casada, senhora Fulana... pessoa decente...!»
Maximiliano costumava contar algumas particularidades da família Rubín, razão pela qual ela tinha notícias de dona Lupe, Juan Pablo e do padre. Com os detalhes que o jovem ia dando sobre os parentes, Fortunata já os conhecia como se tivesse convivido com eles. Naquela noite, excitado pelo entusiasmo produzido pela decisão de casar-se, deixou escapar, a respeito da tia, alguma coisa talvez indiscreta. Dona Lupe emprestava dinheiro, por intermédio de certo Torquemada, a militares, empregados e a todo aquele que caísse em suas mãos. Falando com completa sinceridade, Maximiliano não era favorável àquela maneira de constituir uma renda; mas o que ele tinha a ver com os atos da senhora sua tia? Ela o amava muito e provavelmente o faria herdeiro. Tinha uma escrivaninha antiga, negra e muito grande, de ferro, diante da cama, onde guardava o dinheiro e as promissórias dos empréstimos. Gastava apenas o necessário e, mês a mês, sua fortuna aumentava, sabe Deus quanto. Devia ser muito rica, mas muito rica, porque ele via Torquemada levar-lhe resmas de notas. Quanto ao irmão Juan Pablo, já se sabia com certeza que estava com os carlistas e, se estes triunfassem, ocuparia posição muito elevada. Seu irmão Nicolás acabaria cônego e, quem sabe, talvez bispo... Enfim, por todos os lados se ofereciam ao jovem casal horizontes róseos. Nessas e noutras conversas passaram a primeira noite, até que Maximiliano se retirou para casa, ficando Fortunata tão pensativa e preocupada que adormeceu muito tarde e passou uma noite inquieta.
O amante também estava pouco disposto ao sono; mas era porque o entusiasmo lhe fazia cócegas no epigástrio, atravessando-lhe um volume no vértice dos pulmões, o que tornava difícil respirar, e além disso acendia-lhe velas no cérebro. Por mais que soprasse para apagá-las e conseguir dormir, não podia. A tia estava um pouco séria com ele. Sem dúvida suspeitava de alguma coisa e, como pessoa de grande perspicácia, já não engolia aquelas histórias de estudar fora de casa e de amigos doentes que era preciso velar. Dois dias depois daquele em que o exaltado rapaz se lançara a prometer sua mão, dona Lupe teve com ele uma conferência grave. O semblante da senhora não revelava apenas desconfiança, mas profunda tristeza, e, quando chamou o sobrinho para se fechar com ele no gabinete, este sentiu a coragem desvanecer. A senhora tirou o manto e pôs sobre a cômoda, bem dobrado. Depois de cravar nele os alfinetes, olhando para o sobrinho de um modo que o fez estremecer, disse-lhe: «Tenho de falar com você longamente». Sempre que a tia empregava aquele longamente, era para aplicar-lhe uma reprimenda.
«Você está com enxaqueca hoje?», perguntou depois dona Lupe.
Maximiliano estava muito bem da cabeça; mas, para se colocar em boa situação, disse que sentia o começo de uma enxaqueca. Assim dona Lupe teria compaixão dele. Deixou-se cair numa poltrona e comprimiu a testa.
«Pois se trata de uma notícia ruim», afirmou a viúva de Jáuregui, «quero dizer, ruim, precisamente ruim, não... embora tampouco seja boa.»
Rubín, sem compreender a que a tia poderia referir-se, suspeitou que aquilo nada tinha a ver com seus amores clandestinos e respirou. A opressão no epigástrio tornou-se mais leve e ele se tranquilizou por completo ao ouvir isto:
«A notícia não deve afetá-lo muito. Para que tantos rodeios? Sua tia dona Melitona Llorente passou para melhor vida. Veja a carta em que o pároco de Molina de Aragón me conta. Morreu como santa, recebeu todos os Sacramentos e deixou trinta mil reales para missas.»
Maximiliano conhecia muito pouco a tia materna. Vira-a apenas duas ou três vezes, quando era muito pequeno, e ela só vivia em sua imaginação pelas rosquinhas e pelo xarope de uva que mandava de presente todos os anos enquanto D. Nicolás Rubín viveu. A notícia do falecimento daquela boa senhora pouco o afetou.
«Seja tudo por Deus», murmurou para dizer alguma coisa.
Dona Lupe voltou-se de costas para abrir a gaveta da cômoda e, naquela posição, disse-lhe:
«Você e seus irmãos herdam Melitona, que, segundo minhas contas, devia ter um capitalzinho sólido de vinte ou vinte e cinco mil duros.»
Maximiliano não ouviu bem porque a tia estava de costas, e aquilo o interessava tanto que se levantou, pôs um cotovelo sobre a cômoda e ali a fez repetir a ideia para compreendê-la bem.
«Essas são minhas contas», acrescentou dona Lupe, «mas você sabe que, nas povoações, não se sabe o que se tem e o que não se tem. Provavelmente a falecida empregaria algum dinheiro em empréstimos, o que é como atirá-lo ao vento. Cobra-se tarde e mal, quando se cobra. Portanto, não alimentem muitas ilusões. Quando Juan Pablo vier a Madri, irá a Molina de Aragón informar-se do testamento e recolher o que é de vocês.»
— Pois que vá imediatamente — disse Maximiliano, dando uma palmada na cômoda. — Mas chegar e, na própria estação, comprar a passagem e zás... outra vez no trem.
— Homem, não tanto. Seu irmão está em Bayonne. O melhor é passar por Molina antes de vir a Madri. Escreverei hoje mesmo. Acalme-se; você é assim, ou a própria apatia andando ou pura pólvora... Isso agora, porque antes, para mover um pé, pedia licença ao outro. Ficou muito precipitado.
Olhou-o de maneira tão investigadora que o pobre rapaz tornou a perder o ânimo. Era homem de caráter sempre que a tia não lhe cravava a flecha de seus olhinhos castanhos e sagazes, e viu-se tão perdido que se apressou em mudar de conversa, perguntando quantos anos dona Melitona tinha. A senhora de Jáuregui passou algum tempo fazendo contas, com o lábio inferior esticado, a cabeça oscilando como pêndulo e os olhos voltados para o teto, até chegar a um número ao qual Maximiliano não prestou atenção. Dona Lupe tornou depois a falar da metamorfose do sobrinho, deixando escapar umas brincadeirinhas que lhe souberam a chifre queimado. «Claro, com esses estudos que agora faz na casa dos amigos, você deve ter virado um poço de ciência... Não venha me contar histórias. Passa o dia e metade da noite em alguma conspiração... porque, pelo lado das mulheres, francamente, não temo nada. Nem você gosta disso, nem pode, ainda que gostasse...»
Aquele nem pode incomodava tanto o jovem e lhe parecia tão humilhante que pouco faltou para dar à tia um desmentido do tamanho de uma casa. Mas não passou disso, pois dona Lupe teve de ocupar-se de coisas mais graves que averiguar se o sobrinho podia ou não podia. Papitos foi quem o salvou naquele dia, atraindo para si toda a atenção da dona da casa. Porque aquela macaquinha tinha seus dias. Em alguns, fazia tudo tão bem e com tamanha diligência e asseio que dona Lupe dizia ser uma pérola. Em outros, não havia quem a suportasse. Aquele dia começou entre os bons e terminou como um dos piores. Pela manhã, cumprira admiravelmente; estivera muito solta de língua e de mãos, fazendo trejeitos e dando pulos assim que a senhora tirava os olhos dela. Semelhante febre era sinal de próximos transtornos. De fato, à tarde partiu em dois a tampa de uma terrina, e desde então tudo foi puro desastre. Quando se enfurecia, parecia fazer as coisas mal de propósito. Mandavam isto e ela saía com aquilo. Não se podem contar as faltas que cometeu em uma hora. Bem dizia dona Lupe que ela tinha os demônios metidos no corpo e era má, mas má de verdade, uma sem-vergonha, mal-educada e uma calamidade... em toda a extensão da palavra. E, quanto mais puxões lhe davam, pior ficava. Passou tanta água da panela de água quente para a panela dos legumes que estes ficaram alagados. Os grãos-de-bico queimaram e, quando foram comê-los, amargavam como demônios. Não havia cristão capaz de engolir a sopa, de tanto sal que a maldita pusera. Depois era insolente, porque, em vez de reconhecer as próprias trapalhadas, dizia que a senhora tinha culpa e que ela, a grande piolhenta, não ficaria ali nem mais um dia, porque veja só... em qualquer lugar tratariam ela melhor.
Dona Lupe discutia violentamente com ela, argumentando com cruéis beliscões e acrescentando que estava autorizada pela mãe a esquartejá-la, caso fosse preciso. Ao que Papitos respondia, lançando fogo pelos olhos: «Ai, minha senhora, não me esquarteje tanto!» Esse costumava ser o ponto culminante da disputa, que terminava com a senhora dando uma grande bofetada na criada e a outra começando a chorar... Os disparates continuavam e, ao servir a mesa, ela punha os pratos sobre ela sem considerar que não eram de ferro. Dona Lupe ameaçava mandá-la para a galera ou chamar uma dupla de guardas, pô-la em escabeche e em salmoura, e pouco a pouco a ferinha ia se acalmando até ficar mansa como uma luva.
Maximiliano, contente ao ver que a tia, com toda aquela confusão, não se ocupava dele, punha-se do lado da autoridade e contra Papitos. Sim, sim; ela era muito má, muito atrevida, e precisava ser mantida sob rédea curta. Atiçava a cólera de dona Lupe para que esta não se voltasse contra ele, falando de sua mudança de hábitos e do que fazia fora de casa.
Dona Lupe foi naquela noite à casa das de la Caña e ficou por lá horas a fio. Maximiliano entrou às onze. Deixara Fortunata deitada e quase adormecida e voltou decidido a enfrentar as provocações da tia e explicar-se com ela. Porque, depois do caso da herança, já não podia duvidar de que a Providência o favorecia, abrindo-lhe o caminho. Nunca fora muito religioso; mas naquela noite lhe parecia desrespeito e até ingratidão não consagrar à divindade um pensamento, já que não uma oração. Estava como demente. Pelo caminho, olhava para as estrelas e as achava mais belas que nunca, muito observadoras e falantes. A Fortunata, sem mencionar a herança por respeito à falecida, disse alguma coisa sobre suas propriedades em Molina de Aragón e sobre o dinheiro em hipotecas ser o melhor dinheiro do mundo. Às vezes sua imaginação ampliava os números da herança, acrescentando-lhes zeros, «porque essa gente das povoações não gasta um cuarto e não faz outra coisa senão acumular, acumular...»
Os lampiões da rua lhe pareciam astros; os transeuntes, pessoas excelentes, movidas pelos melhores desejos e pelos sentimentos mais nobres. Entrou em casa decidido a abrir-se espontaneamente com a tia... «Terei coragem?», pensava. «Se tivesse... E o que há de ruim nisso? Em último caso, o que minha tia pode fazer? Por acaso vai me comer? Se negar meu direito de casar com quem eu quiser, direi a ela quantos paus fazem uma canoa. Não se conhece o gênio das pessoas antes de chegar a ocasião de mostrá-lo.» Apesar daquelas disposições belicosas, quando Papitos lhe disse que a senhora ainda não voltara, sentiu grande alívio, porque, na verdade, a revelação do segredo e a confusão que se seguiria eram de intimidar o mais valente. Não o assustava o medo de ser vencido, porque seu amor e sua missão certamente lhe dariam coragem; mas convinha proceder com tato e diplomacia, pensar bem no que diria para não ofender a tia e, se possível, pô-la de seu lado naquele tremendo litígio.
Foi à cozinha atrás de Papitos, seguindo antigo costume de fazer tertúlia e entreter-se em conversas saborosas quando se encontravam sozinhos. Um ano antes, a criadinha e o estudante passavam horas na cozinha, contando histórias um ao outro ou propondo adivinhações. Nestas, a menina era forte. Suas gargalhadas se ouviam da rua quando repetia a charada sem que o outro conseguisse decifrá-la. Maximiliano coçava a cabeça, aguçando o entendimento; mas a solução não saía. Papitos o chamava de idiota, bruto e outras coisas piores sem que ele se ofendesse. Vingava-se nas histórias, pois conhecia muitas, e ela as ouvia embevecida, de boca escancarada e olhos cravados no narrador. Naquela noite, Papitos estava de péssimo humor por causa da surra que levara e tinha muita raiva do senhorito porque ele não ficara ao lado dela na disputa, como em outras ocasiões. «Feio, tolo», disse-lhe, afinando o focinho quando o viu sentar-se na mesinha de pinho da cozinha. «Acusador, desajeitado... imbecil em pó.»
Maximiliano procurava uma fórmula para pedir-lhe perdão sem prejuízo da dignidade de senhorito. Sentia impulsos de protegê-la. Era verdade que haviam brincado juntos; que, no ano anterior, apesar da diferença de idade, eram tão crianças um quanto o outro e se entretinham com travessuras inocentes. Mas as coisas haviam mudado. Ele era homem, e que homem!, e Papitos, uma menina travessa sem um pingo de juízo. Mas tinha boa índole e, quando criasse juízo e desse um estirão, seria criada inestimável. Depois de lhe dizer todos aqueles insultos, a menina começou a cerzir uma meia, na qual enfiara a mão esquerda como numa luva. Sobre a mesa estava seu estojo de costura, que era uma caixa de charutos. Dentro havia carretéis, fitinhas, um tubo de agulhas muito enferrujado, um pedaço de cera branca, botões e outras coisas pertinentes à arte da costura. A cartilha em que Papitos aprendia a ler também estava ali, com as folhas sujas e retorcidas. O lampião da cozinha, com o tubo enfumaçado e sem quebra-luz, iluminava o rosto cigano da criada, dando-lhe um tom de bronze avermelhado, e o rosto pálido e seroso do senhorito, com suas olheiras violáceas e granulações ao redor dos lábios.
«Quer que eu tome sua lição?», disse Rubín, pegando a cartilha.
— Nem precisa... franzino, espátula, parece um gancho... Não quero que tome minha lição — replicou a menina, imitando-lhe a voz e o tom.
— Não seja selvagem... É preciso aprender a ler para ser mulher completa — disse Rubín, esforçando-se por parecer sensato. — Hoje você esteve um pouco fora de si, mas isso já passou. Se tiver juízo, sempre será considerada parte da família.
— Olha ele!... Eu engulo a família... — gritou a outra, imitando-o e fazendo os trejeitos diabólicos de sempre.
— Nunca vamos abandoná-la — declarou o jovem, cheio de desejos de proteção. — Sabe o que lhe digo?... Para que saiba, menina, para que saiba, fique entendendo que, quando eu me casar... quando eu me casar, levarei você comigo para ser a criada de quarto de minha senhora.
Ao soltar a gargalhada, Papitos inclinou-se para trás com tanta força que o espaldar da cadeira rangeu como se fosse quebrar.
— Ele se casar, vosmecê!... Imbecil, mais que imbecil, casar-se! — exclamou. — A senhorita diz que vosmecê não pode se casar... Sim, dizia isso a dona Silvia na outra noite.
A indignação que Maximiliano sentiu ao ouvir aquela ideia foi tão viva que, se se manifestasse em atos, teria ocorrido uma catástrofe. Porque tamanho ultraje só podia ser respondido agarrando Papitos pelo pescoço e estrangulando-a. O inconveniente era Papitos ter muito mais força que ele.
— Você é a coisa mais animal e mais grosseira... — balbuciou Rubín — que vi em minha vida. Se não se curar dessas tolices, nunca será nada.
Papitos esticou o braço esquerdo em que tinha a meia e, pondo os dedos para fora pelos buracos, agarrou o nariz do senhorito e puxou-o.
— Fique quieta!... ora essa!... Você nunca levou uma boa surra, e sou eu quem vai dar... E por que essas risadas estúpidas?... Porque eu disse que vou me casar? Pois sim, senhor, vou me casar porque tenho vontade.
Havia muito que Maximiliano desejava falar daquela maneira com alguém e manifestar o pensamento livremente, sem perturbação. A confidência tão difícil com outra pessoa tornava-se fácil com a cozinheirinha, e o homem cresceu depois de dizer as primeiras palavras.
«Você é uma inocente», disse-lhe, pondo a mão sobre seu ombro. «Não conhece o mundo nem sabe o que é uma verdadeira paixão.»
Ao chegar àquele ponto, Papitos não entendeu patavina do que o senhorito lhe dizia... Era linguagem nova, como eram novas a expressão dele e a seriedade do rosto. Não fazia aquele rosto quando contava histórias.
«Porque veja», prosseguiu Rubín, exprimindo-se com a alma, «o amor é a lei das leis, o amor governa o mundo. Se encontro a mulher de quem gosto, que é a metade, senão a totalidade de minha vida, uma mulher que me transforma, inspirando-me ações nobres e dando-me qualidades que antes eu não tinha, por que não haveria de casar-me com ela? Vamos, que me digam; que me deem uma razão, meia razão sequer... Porque você não vai me aparecer com argumentos tolos; você não há de participar desses preconceitos pelos quais...»
Ao chegar aí, o orador se embaraçou um pouco, e certamente não por medo da dialética da adversária. Papitos, depois de se espantar muito com a solenidade com que o senhorito falava e com as coisas incompreensíveis que lhe dizia, começou a se entediar. Maximiliano continuou esvaziando o coração, pois outra oportunidade de desabafo como aquela não voltaria a se apresentar; por fim, a menina estendeu o braço esquerdo sobre a mesa e, como estava muito cansada da agitação daquele dia e dos cascudos, fez do braço um travesseiro e reclinou nele a cabeça. Naquele momento, Maximiliano, exaltado pela própria eloquência, deixou escapar: «A única razão que me dão é se ela foi ou não foi isto ou aquilo. Respondo que é falso, falsíssimo. Se há em sua existência dias vergonhosos, e não direi tanto quanto vergonhosos, dias tempestuosos, dias desventurados, foi por lei da necessidade e da pobreza, não por vício... Os homens, os senhoritos, essa raça de Caim, corrompida e miserável, têm culpa... Digo e repito. A responsabilidade por tantas mulheres se perderem recai sobre o homem. Se se castigassem os sedutores e os janotas... a sociedade...»
Papitos dormia como um anjo, com a face apoiada no braço rígido e conservando nele a meia, por cujos buracos saíam os dedos. Dormia com plácido repouso, o rosto sério, como se aprovasse inconscientemente as coisas ruins que o outro dizia dos sedutores e aproveitasse a lição para quando chegasse sua vez. O próprio calor das palavras levou Maximiliano a uma exaltação que parecia insana. Não conseguia ficar quieto nem calado. Levantou-se e foi pelos corredores, falando sozinho em voz baixa ou fazendo gestos. O corredor estava escuro; mas ele conhecia tão bem todos os cantos que andava por eles sem hesitação nem tropeço. Entrou na sala, também às escuras, penetrou no gabinete da tia, que em trevas se igualava à própria boca do lobo, e ali redobrou-se sua facúndia, e a energia de suas declamações raiava o frenesi. Sustentando as orações com gesto enfático, ocorriam-lhe frases de admirável efeito contundente, frases capazes de derrubar de costas todos os membros da família se as ouvissem. Que pena a tia não estar ali...! Como se a estivesse vendo, lançou-lhe estas atrevidas expressões: «E, para que a senhora saiba de uma vez, eu não cedo nem posso ceder, porque sigo nisso o impulso de minha consciência, e contra a consciência não valem bobagens, nem esse acúmulo, esse acúmulo, sim, senhora, de... preconceitos rançosos que a senhora me opõe. Eu me caso, me caso e me caso, porque sou senhor de meus atos, porque sou maior de idade, porque minha consciência ordena, porque Deus manda; e, se a senhora aprovar, ela e eu lhe abriremos nossos braços amorosos, e a senhora será nossa mãe, nossa conselheira, nossa guia...»
Ora, ele realmente lamentava não ter diante de si, na poltrona de oleado, a própria viúva de Jáuregui em corpo e carne, porque certamente lhe diria o mesmo que dizia diante de sua imagem figurada e suposta. Depois saiu novamente para o corredor, onde continuou a peroração, passeando de uma extremidade à outra e gesticulando ao abrigo da escuridão. A solidão, o silêncio da noite e a pouca luz favorecem os tímidos em sua comédia de ousados e faladores, tomando a si mesmos como público e encorajando-se com o fácil êxito. Maximiliano falava baixinho; seus fortes gestos com as mãos não correspondiam ao diapasão baixo das palavras, cuja veemência abafada fazia-as parecer um ensaio.
Quando dona Lupe chamou à porta, o sobrinho abriu, e ela se espantou de ele ainda estar acordado. «Como o senhorito está desperto!», disse a senhora com certa ironia que fez o jovem estremecer, limpando subitamente seu espírito de toda ideia de independência, como se limpam as sombras de um lampião quando aparece dentro dele a chama do gás. Ao ouvir a campainha, a menina acorreu aos tropeços, esfregando os olhos. Dona Lupe disse apenas: «Todo o mundo para a cama». Era muito tarde, e Papitos precisava madrugar. O sobrinho e a cozinheirinha entraram sem ruído em suas respectivas tocas, como coelhos quando ouvem os passos do caçador.
A declaração de Maximiliano deixara Fortunata em grande e penosa perplexidade. Naquela noite e nas seguintes, dormiu mal pela vivacidade do pensamento e pelas ideias contraditórias que lhe ocorriam. Depois de se deitar, precisou levantar-se e atirou-se, enrolada num cobertor, sobre o sofá da sala; mas as cismas não ficavam entre os lençóis, acompanhavam-na aonde quer que fosse. Na primeira noite, depois de longo debate, as ideias afirmativas acabaram vencendo. «Eu me casar, e me casar com um homem de bem, com uma pessoa decente...!» Era o máximo que podia desejar... Ter um nome, não lidar mais com gentinha, mas com cavalheiros e senhoras! Maximiliano era um bem-aventurado e certamente a faria feliz. Isso pensava pela manhã, depois de se lavar e acender o fogo, quando pegou a cesta para ir às compras. Pôs o manto e o lenço na cabeça e desceu à rua. Bastou pôr o pé na via pública para suas ideias mudarem.
«Mas viver para sempre com este rapaz... feio como é! Ele chega ao meu ombro, e eu o levanto como uma pluma. Um marido que tem menos força que a mulher não é, não pode ser marido. O pobrezinho é um bendito de Deus; mas não conseguirei amá-lo, ainda que viva com ele mil anos. Isso será ingratidão, mas o que se há de fazer? Não posso evitar...»
Estava tão distraída que o açougueiro lhe perguntou três vezes o que queria sem obter resposta. Por fim, ela se deu conta. «Hoje só vou levar meia libra de fraldinha para o cozido e uma costeletinha de lombo. Senhor Paco, pese bem.»
— Aqui está, simpatia, às suas ordens.
Também comprou duas onças de toucinho; depois, uma cabeça de brócolis na banca de verduras do açougue e, na loja da esquina, arroz, quatro ovos e uma lata de pimentões vermelhos. Ao voltar para casa, examinou o fogo e começou a limpar e varrer. Enquanto tirava o pó dos móveis, voltou ao tema: «Não se encontra todos os dias um homem disposto a assumir um encargo como este».
Fez a cama e depois começou a pentear-se. Ao ver no espelho seu lindo rosto pálido, deu-lhe vontade de empregar argumentos comparativos: «Porque, Maria Santíssima!, se Maximiliano disputasse o prêmio de feio, ninguém ganhava dele... E como as boticas cheiram mal! Deveria ter seguido outra carreira... Deus me favoreça... Se eu tivesse algum filho, ele me faria companhia; mas... ah, isso não!...»
Depois daquela reticência, que por ser tão categórica parecia filha de profunda convicção, continuou contemplando e admirando a própria beleza. Orgulhava-se dos olhos negros, tão bonitos que, segundo seu próprio juízo, apunhalavam o Espíritui Santo. A tez era uma preciosidade por sua pureza fosca, transparência e tom de marfim recém-trabalhado; a boca, um pouco grande, mas fresca e tão graciosa no riso quanto na raiva... E depois, aqueles dentes! «Tenho os dentes», dizia, mostrando-os, «como pedacinhos de leite coalhado».
O nariz era perfeito. «Narizes como o meu, poucos se veem...» E, por fim, arrumando a cabeleira negra e abundante como os maus pensamentos, dizia: «Que belo cabelo Deus me deu!» Quando terminava, veio-lhe à mente uma observação que não fazia pela primeira vez. Fazia-a todos os dias, e era esta: «Como estou mais bonita agora do que... antes! Melhorei muito».
Depois ficou muito triste. Os pedacinhos de leite coalhado desapareceram sob os lábios franzidos, e entre as sobrancelhas formou-se como uma nuvem densa. O raio que lhe passava por dentro dizia: «Se ele me visse agora...!» Dominada por aquela consideração, permaneceu muito tempo quieta e muda, o olhar independente de tão fixo. Por fim despertou daquilo que parecia letargia e, tornando a se olhar, animou-se com a reflexão sobre sua bela figura no espelho. «Digam o que quiserem, o melhor que tenho são as sobrancelhas... Até quando me zango ficam bonitas... Vejamos como fico quando me zango. Assim, assim... Ah, estão chamando!»
A campainha da porta obrigou-a a deixar o toucador. Saiu para abrir com o pente numa das mãos e a toalha sobre os ombros. Era o redentor, que entrou muito contente e disse-lhe que terminasse de se pentear. Como faltava tão pouco, logo tudo ficou pronto. Maximiliano elogiou-a por decidir não contratar penteadeiras.
Por que as mulheres não haveriam de pentear-se sozinhas? A que não sabe, aprenda. Era exatamente o que Fortunata dizia. O pobre rapaz não deixava de exprimir a admiração pela boa organização e economia da futura esposa, fazendo com as próprias mãos a tarefa que aquelas tratantes e ladras chamadas criadas faziam mal. Fortunata assegurava que aquele costume seu não tinha mérito, porque gostava de trabalhar. «Você é uma joiazinha», dizia-lhe o amante com orgulho. «Quanto às penteadeiras, todas são grandes alcoviteiras, e na casa em que entram não pode haver paz.»
Mais adiante contratariam alguma criada, porque tampouco convinha que ela se matasse de trabalhar. Certamente estariam em boa situação, e talvez alguns dias tivessem convidados à mesa. A criadagem era necessária, e com certeza chegaria o dia em que não poderiam viver sem uma ama. Ao ouvir isso, Fortunata por pouco não soltou uma gargalhada; mas se conteve, limitando-se a dizer interiormente: «Para que este desgraçado vai querer amas...!»
Em seguida, o jovem trouxe à baila o tema do casamento e disse coisas tais que Fortunata não pôde deixar de render o espírito a tanta generosidade e nobreza de alma. «Seu comportamento decidirá sua sorte», afirmou ele, «e, como seu comportamento será bom, porque sua alma tem todos os mecanismos do bem, o assunto está resolvido. Ponho sobre sua cabeça a coroa de mulher honrada; você cuidará para que não caia e para usá-la dignamente. O passado passou, e o arrependimento não deixa nem vestígio de mancha, mas nem vestígio. Não nos importe o que o mundo diga. O que é o mundo? Observe bem e verá que não é nada quando não é a consciência.»
Os olhos de Fortunata se umedeceram, porque ela era muito acessível à emoção e, sempre que lhe falavam com solenidade e sentido generoso, comovia-se, embora não compreendesse bem certos conceitos. Enterneciam-na o tom, o estilo e a expressão dos olhos. Julgou então ser questão de consciência fazer uma observação ao amigo.
«Pense bem no que está fazendo», disse-lhe, «e não comprometa por minha causa sua...»
Queria dizer dignidade, mas não encontrou a palavra pelo pouco uso que fizera em sua vida de vocábulos daquela natureza. Mas arranjou-se para exprimir grosseiramente a ideia, dizendo: «Pense que aqueles que me conhecem vão chamá-lo de marido da Fortunata, em vez de chamá-lo pelo nome de batismo. Agradeço muito o que faz por mim; mas, como gosto de você, não quero vê-lo com...»
Queria dizer com um estigma na testa; mas não conhecia a palavra e, ainda que conhecesse, não teria conseguido pronunciá-la corretamente. «Não quero que zombem de você por minha causa», foi o que disse, ficando muito satisfeita e esperando convencê-lo. Mas Maximiliano, firme em sua ideia e consciência como dentro de uma dupla fortaleza inexpugnável, começou a rir. Semelhantes argumentos eram para ele como seria, para os possuidores de Gibraltar, ver um inimigo armado com uma vara tentar assaltá-los. Que importância dava ele às estupidezes do vulgo!... Quando sua consciência lhe dizia: «Veja, filho, este é o caminho do bem; siga por ele», todo o gênero humano podia aparecer para detê-lo; podiam apontar-lhe um canhão raiado. Porque ele ia desenvolvendo um caráter do qual as pessoas ainda não haviam tomado conhecimento, um caráter de aço, e tudo o que se dizia de sua timidez era conversa. «O que importa é você ser boa, honrada e leal; o resto fica por minha conta. Deixe comigo, deixe comigo.»
Pouco depois, Fortunata almoçava e Maximiliano estudava, trocando de vez em quando algumas palavras. Durante toda aquela tarde, as ideias otimistas dominaram o espírito da jovem, porque ele deixou escapar alguma coisa sobre sua herança, sobre terras e hipotecas em Molina de Aragón, assegurando que suas vinhas podiam render tanto ou quanto. À noite, mandaram buscar café, e o empregado de la Paz o trouxe. Olmedo e Feliciana entraram para a tertúlia. Estavam amuados e mal falavam um com o outro, sinal inequívoco de briga doméstica. E é que, se os Estados mais sólidos se quebram quando a fazenda não anda com perfeita regularidade, aquela casa, lar, família ou o que quer que fosse não podia deixar de sofrer as anomalias de um orçamento cujo caráter permanente era o déficit. Feliciana já empenhara o melhor de suas roupas, e Olmedo perdera o crédito de maneira absoluta. Por falta de crédito perdem-se as repúblicas tanto quanto as monarquias. E o bom Olmedo já não alimentava ilusões sobre a catástrofe próxima. Seus amigos, que o conheciam bem, descobriam nele menos firmeza para desempenhar o papel de libertino e, com frequência, a boa índole transparecia através da máscara. Contaram a Maximiliano que haviam surpreendido Olmedo no Retiro estudando às escondidas. Quando os amigos o viram, escondeu os livros entre a folhagem, porque lhe desagradava que descobrissem aquela fraqueza. Dava muita importância à coerência dos atos humanos e considerava desonra largar de repente a casaca e as insígnias de devasso. O que diria a gente, o que diriam os amigos, o que diriam os fedelhos mais jovens que o tomavam como modelo? Encontrava-se na situação de uma daquelas crianças que, para assumir ares de homem, acendem um charuto muito forte, começam a fumá-lo e ficam tontas; mas tentam dominar a náusea para que não se diga que se embriagaram. Olmedo já não suportava o horrível mal-estar, o enjoo e a vertigem que sentia; mas continuava com o charuto na boca, fingindo tragar, embora quase não sugasse nada.
Feliciana, por sua vez, começara a agir por conta própria. Como já se disse, a honradez e o amor eram coisas muito boas, mas não davam de comer. O libertino profissional não se permitiu naquela noite nenhuma barbaridade. Apenas ao entrar, quando os quatro se sentaram para tomar café, disse com seu habitual desembaraço: «Raios, já está reunido aqui todo o Demi-Monde». Fortunata e Feliciana não compreenderam; mas Rubín ficou vermelho e muito incomodado, porque aplicar aqueles vocábulos a pessoas dispostas a unir-se em santo vínculo lhe parecia falta de respeito, grosseria e imundície, sim, senhor, uma imundície... Mas calou-se para não armar briga nem tirar da reunião seus tons de circunspecção e formalidade. Lembrou-se de que nada dissera ao amigo sobre o casamento projetado, sendo evidente que Olmedo falara em termos tão liberais por ignorância. Decidiu, portanto, revelar-lhe o pensamento na primeira ocasião, para que no futuro medisse e avaliasse melhor as palavras.
Aquela noite também foi ruim para Fortunata, pois passou quase toda cismando, pensando se o outro se lembraria ou não dela. Era muito estranho nunca o haver encontrado na rua. E não era, certamente, por falta de olhar bem para todos os lados. Estaria doente, estaria fora de Madri? Mais tarde, quando soube que em fevereiro e março Juanito Santa Cruz estivera doente de pneumonia, lembrou-se de que naquela noite sonhara com ele. E foi verdade que sonhou de madrugada, quando seu cérebro aquecido adormeceu, cedendo a uma espécie de embriaguez de cismas. Ao despertar já de dia, o repouso profundo, embora breve, virara de avesso as imagens e os pensamentos em sua mente. «Fico com meu pequeno boticário», disse depois de rezar o Pai-Nosso pelas almas, do qual nunca se esquecia. «Viveremos tão ajeitadinhos.» Levantou-se, acendeu o fogo, desceu para fazer as compras e, de loja em loja, pensava que Maximiliano podia dar um estirão, criar mais peito e mais carnes, ser mais homem, numa palavra, e curar-se daquele maldito resfriado crônico que o obrigava a assoar o nariz constantemente. Da bondade de seu coração não havia nada a dizer, porque era um santo e, se realmente se casasse, a mulher faria dele o que quisesse. Com quatro palavrinhas de mel, ele já ficava contente e quieto. O importante era não contrariá-lo em tudo aquilo da consciência e das missões... aqui um adjetivo de que Fortunata não se lembrava. Era sublimes; mas dava no mesmo, já se sabia que era coisa muito boa.
Naquele dia, as compras demoraram um pouco mais, pois, tendo Maximiliano anunciado que almoçaria com ela, pensava fazer um prato de que ambos gostavam muito e que era a especialidade culinária de Fortunata: arroz com miúdos. Preparava-o tão deliciosamente que era de lamber os dedos. Pena não ser tempo de alcachofras, porque as teria levado para o arroz. Mas levou um pouco de cordeiro, que dava muito sabor àquele prato. Comprou costeletas de vitela, dois reales de miúdos e umas sardinhas em escabeche para o segundo prato.
De volta a casa, pôs as três panelas no fogo com o minucioso cuidado exigido pela cozinha espanhola e começou a preparar o arroz na caçarola. Naquele dia, não houve utensílio na cozinha que não funcionasse. Depois de fritar a cebola, socar o alho e picar os miúdos, quando nenhuma coisa importante ficava esquecida, a pecadora lavou as mãos e foi pentear-se, tomando mais cuidado do que nos outros dias. O tempo passou; a cozinha exalava múltiplos e confundidos aromas. Deus, que atividade havia ali! Quando Rubín chegou, ao meio-dia, a amiga saiu para abrir-lhe com semblante risonho. A mesa já estava posta, porque aquela mulher multiplicava o tempo e, querendo, fazia tudo com facilidade e rapidez. O enamorado disse estar com muita fome, e ela recomendou-lhe uma pontinha de paciência. Esquecera uma coisa muito importante, o vinho, e desceria para buscá-lo. Mas Maximiliano se ofereceu para cumprir aquele serviço doméstico e desceu mais depressa que a vista.
Meia hora depois, estavam sentados à mesa, em amor e companhia; mas naquele instante Fortunata viu-se bruscamente acometida por pensamentos tão estranhos que não sabia o que lhe acontecia. Ela mesma comparava sua alma naqueles dias a um catavento. Ora apontava para um lado, ora para outro. De repente, como se um vento forte se levantasse, o catavento dava uma volta completa e punha a ponta onde antes estivera a cauda. Ela sentira muitas dessas mudanças; mas nenhuma como a daquele momento, o momento em que meteu a colher no arroz para servir o futuro marido. Não saberia dizer como foi nem como aquele sentimento veio à alma, ocupando-a inteira; só soube que olhou para ele e sentiu uma antipatia tão horrível pelo pobre rapaz que precisou violentar-se para disfarçá-la.
Sem perceber nada, Maximiliano elogiava o tempero perfeito do arroz; mas ela se calou, engolindo, com as primeiras colheradas, aquela mistura amarga que queria sair-lhe do coração. Muito consigo mesma, disse: «Primeiro me fazem em pedacinhos como estes do que me caso com semelhante homem... Mas não veem, não veem que ele nem sequer parece homem?... Até cheira mal... Não quero dizer o que sinto quando imagino que passarei a vida inteira olhando diante de mim esse nariz de rabadilha».
«Parece que está triste, coquinho», disse-lhe Rubín, que costumava dar-lhe aquele apelido carinhoso.
Ela respondeu que o arroz não ficara tão bom quanto desejava. Quando comiam as costeletas, Maximiliano disse-lhe com certa pedanteria de professor: «Uma das coisas que tenho de lhe ensinar é comer com garfo e faca, não apenas com garfo. Mas tenho tempo para instruí-la nisso e em outras coisas».
Toda aquela correção também a aborrecia. Desejava falar bem e ser pessoa fina e decente; mas como as lições seriam mais bem aproveitadas se o mestre fosse outro, sem aquele nariz destilando, sem aquele rosto apagado e morto, sem aquele corpo que não parecia de carne, mas de miúdos!
Aquela antipatia de Fortunata não impedia a estima, e à estima misturava-se profunda compaixão por aquele desgraçado, cavaleiro da honra e da virtude, moralmente tão superior a ela. A consideração que lhe tinha, a gratidão e aquela comiseração inexplicável, porque não se costuma compadecer dos superiores, eram causa de conter sua repugnância. Ela não era muito forte em dissimular, e outro menos iludido que Rubín teria percebido que as belíssimas sobrancelhas ocultavam alguma coisa. Mas ele via as coisas pela lente das próprias ideias e, para ele, tudo era como devia ser, não como era. Fortunata alegrou-se muito quando o almoço terminou, porque aquilo de sustentar conversa séria e ouvir advertências e correções não a divertia muito. Gostava mais da atividade de recolher a louça e levantar a mesa, operação em que pôs mãos à obra assim que tomaram o café. E, para ficar mais tempo na cozinha do que na sala, examinou as panelas e começou a picar a salada quando ainda não era preciso. De vez em quando, dava uma volta pela sala, onde Maximiliano se pusera a estudar. Naquele dia, não lhe era fácil fixar a atenção nos livros. Estava muito distraído, e, toda vez que a amiga entrava, toda a ciência farmacêutica se desvanecia da mente. Apesar disso, queria que ela ficasse ali, e até se zangou um pouco porque prolongava demais os períodos na cozinha. «Menina, não trabalhe tanto, vai se cansar. Traga sua costura e sente-se aqui.»
«É que, se eu ficar aqui, você não estuda, e o que lhe convém é estudar para não perder o ano», replicou ela. «Pois, se perder e tiver de estudá-lo outra vez...!»
Aquela razão produziu grande efeito no ânimo de Rubín. «Não importa que fique aqui. Contanto que não fale comigo, estudarei. Vendo-a, parece que compreendo melhor as coisas e se abrem as comportas do entendimento. Fique aqui, você com sua costura, eu com meus livros. Quando me sinto muito lerdo, pim!, olho para você e imediatamente desperto.»
Fortunata riu um pouco e, ausentando-se por um instante, trouxe a costura.
«Sabe?», disse-lhe Rubín assim que ela se sentou. «Meu irmão Juan Pablo foi a Molina resolver aquilo da herança da tia Melitona. Minha tia Lupe escreveu para ele e, antes de vir a Madri, ele se plantou lá. Escreveu dizendo que não haverá grandes dificuldades.»
— É mesmo? Ora!... Melhor assim.
— Como está ouvindo. Ainda não posso dizer quanto caberá a cada irmão. O que lhe asseguro é que me alegro por sua causa, exclusivamente por sua causa. Depois você ainda vai se queixar da Providência. Porque, quanto mais garantidas estão as materialidades da vida, mais segura é a conservação da honra. Metade das desonras que existem na vida não passam de pobreza, menina, pobreza. Acredite que Deus veio nos visitar, e, se agora não nos comportarmos bem, merecemos ser arrastados.
Fortunata teria dito consigo: «Que moralista me apareceu!»; mas não conhecia aquela palavra, e o que disse foi: «Já estou de missionário até aqui», usando a palavra missionário em sentido duplo, isto é, o de pregador e o de agente daquilo que Rubín chamava de sua missão.
Maximiliano comunicou a Olmedo seus planos de casamento, recomendando-lhe o maior sigilo, pois não convinha que se divulgassem antes da hora, a fim de evitar maledicências tolas. O grande devasso julgou o amigo louco e, no fundo da alma, compadecia-se dele, embora admirasse o atrevimento de Rubín para cometer a maior e mais escandalosa devassidão que se pudesse imaginar. Casar-se com uma...! Aquilo era o cúmulo, o cúmulo do bom fim, e em semelhante ato havia uma mistura horrenda de ignomínia e abnegação sublime, um não sei quê de ousadia e, ao mesmo tempo, de baixeza, que elevou o bom Rubín, aos olhos dele, daquele fundo de vulgaridade em que se encontrava. Porque Rubín podia ser tolo; mas não era tolo vulgar, era um daqueles tolos que tocam o sublime com a ponta dos dedos. É verdade que não chegam a agarrá-lo; mas o fato é que o tocam. Olmedo, ao mesmo tempo que sondava a imensa gravidade do propósito do amigo, não pôde deixar de reconhecer que a ele, Olmedo, ao dissoluto profissional, jamais passara pela cabeça uma estupidez daquele calibre.
«Fique tranquilo, rapaz, por mim ninguém saberá, raios! Sou seu amigo, sim ou não? Então basta, raios! Dou minha palavra de honra; fique sossegado.»
A palavra de Ulmus sylvestris, quando se tratava de alguma coisa compreendida na jurisdição da malandragem, era sagrada. Mas naquela ocasião o prurido da fofoca pôde mais que o foro da honra picaresca, e o grande segredo foi revelado a Narciso Puerta, Pseudo-Narcissus odoripherus, com a maior reserva e depois de juramento de não transmiti-lo a ninguém. «Conto em confiança, porque sei que ficará entre nós dois.»
«Fique tranquilo, rapaz, só faltava essa... Você me conhece.»
De fato, Narciso não o contou a ninguém, com uma única exceção. Porque, na verdade, que importância tinha confiar o pequeno segredo a uma só pessoa, a uma só, que certamente não o propagaria?
«Conto apenas a você, porque sei que é muito discreto», murmurou Narciso ao ouvido do amigo Encinas, Quercus gigantea. «Muito cuidado com o que lhe peço... mas muito cuidado. Só você sabe. Não vamos ter um desgosto.»
— Homem, não seja tolo... Parece que me conheceu ontem. Sabe que sou um túmulo.
E o túmulo se abriu na casa das de la Caña, com a maior reserva, entenda-se, e depois de fazer todos jurarem, da maneira mais solene, que guardariam aquele profundo arcano. «Mas que coisas o senhor tem, Encinas! Não faça tão pouco caso de nós. Como se fôssemos menininhas, para sair contando a história e comprometê-lo...»
Mas uma daquelas senhoras acreditava que era pecado mortal não dar alguma indicação a dona Lupe, porque afinal ela teria de saber, e era melhor prepará-la para golpe tão tremendo. Pobre senhora! Dava pena vê-la com aquela tranquilidade, tão alheia à desonra que a ameaçava. Em suma, a notícia chegou ao ouvido sutil de dona Lupe três dias depois de sair dos lábios tímidos de Rubinius vulgaris.
Contam que dona Lupe ficou um bom tempo como quem vê assombrações. Depois deu a entender que suspeitava de alguma coisa, por causa da conduta anormal do sobrinho. Casar-se com uma mulher que tivera relações com muitos homens! Bah!, talvez não fosse verdade. E, se fosse, logo se saberia; porque, isso sim, dona Lupe não deixaria a bomba explodir dentro do corpo, e naquela mesma noite ou na manhã do dia seguinte Maximiliano e ela se veriam frente a frente... Que a senhora viúva de Jáuregui estava fora de si provou-o a insegurança de seus passos ao percorrer a distância entre a casa das de la Caña e a sua. Falava sozinha, deixou o guarda-chuva cair duas vezes e, quando se abaixou para apanhá-lo, caiu-lhe o lenço; por fim, em vez de entrar no portal de sua casa, entrou no seguinte. Se o grande hipócrita estivesse em casa, a tia lhe diria poucas e boas! Mas certamente não estaria, porque eram onze da noite e o senhorito já nunca entrava antes das doze ou da uma... Quem haveria de dizer, mas quem haveria de dizer...!, aquele coitado, aquela calamidade de rapaz, aquela inutilidade, tão insignificante e imprestável que não tinha fôlego para apagar uma vela e que aos dezoito anos, sim, dona Lupe bem podia assegurar, não sabia o que eram mulheres e acreditava que as crianças que nasciam vinham de Paris; aquele homem falhado apaixonar-se daquele modo, e por quem!, por uma mulher perdida... mas perdida... em toda a extensão da palavra.
«O senhorito chegou?», perguntou à criada e, como esta respondesse que não, franziu os lábios em sinal de impaciência.
A inquietação e a ira teriam chegado sabe-se lá aonde se não houvessem desabafado um pouco sobre a inocente cabeça de Papitos; e diz-se cabeça porque foi ela que mais padeceu naquele aperto. É preciso saber que Papitos era um tanto vaidosa e que, sendo sua principal beleza o cabelo negro e abundante, nele punha os cinco sentidos. Penteava-se com arte precoce, fazendo cachinhos e costeletas, e, para enrolar a franja, como não tinha pinça, empregava um pedaço de arame grosso, aquecendo-o até ficar em brasa. Teria querido fazer aquelas coisas pela manhã; mas, como a patroa se levantava antes dela, não era possível. A noite, quando estava sozinha, era a melhor ocasião para se dedicar com inteira liberdade ao penteado elegante. Um pedaço de espelho, um pente desdentado, um pouco de goma de tragacanto e o arame grosso bastavam-lhe. Para castigo de seus pecados, naquela noite trabalhara o cabelo com tamanha perfeição que... «Minha filha, parece que você vai a um baile!», dissera a si mesma, com riso convulsivo, ao se olhar no espelho por partes do rosto, porque não podia vê-lo inteiro de uma vez.
«Porca, fantasiosa, espantalho», gritou dona Lupe, destruindo com uma manotada furibunda todos aqueles perfis que a menina fizera na cabeça. «É nisso que passa o tempo... Não tem vergonha de andar com a roupa cheia de buracos e, em vez de pôr-se a costurar, dedicar-se a arrumar a crina? Vaidosa, sem-vergonha! E a cartilha? Nem sequer deve ter olhado... Sim, sim, eu lhe darei cabelinhos. Vou levá-la à barbearia e raspar sua cabeça, deixando-a como um ovo.»
Se lhe houvessem dito que cortariam sua cabeça, a menina não teria sentido mais terror.
«Isso, agora o nariz escorrendo e a lagriminha; depois você me envenena o sangue com seus penteados indecentes. Parece a macaca do Retiro... Está bonita... sim... Mas o quê, também passou pomada?»
Dona Lupe cheirou a mão com que destruíra impiedosamente a franja criminosa. Ao aproximá-la do nariz, fê-lo com gesto tão majestoso que é pena nenhum bom mestre da escultura o ter reproduzido.
«Porquinha... você lambuzou minha mão... Ui, que fedor!... De onde tirou esta porcaria?»
— Foi o senhorito Maxi quem me deu — respondeu Papitos com humildade...
Isso levou bruscamente as ideias de dona Lupe à verdadeira causa de sua ira. Ocorreu-lhe fazer uma busca no quarto do sobrinho, o que Papitos agradeceu muito, porque daquele modo terminava imediatamente o sufoco por que passava. «Vá para a cozinha», disse-lhe a senhora; e não precisou repetir, porque ela escapuliu como ratinho que ouve ruído. Dona Lupe acendeu a luz no quarto de Maximiliano e começou a observar. «Se eu encontrasse alguma carta!», pensou. «Mas qual! Agora me lembro de que me disseram que aquela megera não sabe escrever. É um animal em toda a extensão da palavra.»
Procura aqui, procura ali, nada encontrava que servisse de comprovação da notícia horrível. Abriu a cômoda, valendo-se das chaves da sua, e ali tampouco havia nada. O cofrinho estava no lugar e cheio, talvez mais carregado do que antes. Retratos, não viu em parte alguma. Dona Lupe estava mergulhada em sua investigação policial, sem descobrir vestígio do crime, quando Maximiliano entrou. Papitos abriu-lhe a porta; ele se dirigiu ao quarto, surpreendido de ver luz ali, e, ao se deparar com a tia remexendo a terceira gaveta da cômoda, compreendeu que seu segredo fora descoberto e sentiu calafrios de morte por todo o corpo. Dona Lupe soube conter-se. Era pessoa de bom juízo e muito oportuna, quero dizer que não gostava de fazer coisa alguma fora de hora, e meia-noite não era momento bom para esquentar as orelhas do sobrinho. Porque certamente levantaria a voz, e não convinha o escândalo. Também era provável que o rapaz tivesse forte enxaqueca caso fosse sufocado em hora tão imprópria, e dona Lupe não queria martirizá-lo. O estudante estava pasmo e mudo à porta do quarto quando a tia se voltou para ele e, lançando-lhe olhar muito significativo, disse:
«Entre; eu vou sair. Durma tranquilo, e amanhã acertarei as contas com você...» Foi em direção ao aposento; mas não dera dez passos quando voltou, irada, ameaçando-o com a mão e um grito: «Grandíssimo patife!... Mas calemos a boca. Isso fica para amanhã... Está mandado dormir.»
Maximiliano não dormiu, pensando na cena que teria com a tia. Sua imaginação às vezes ampliava o conflito, tornando-o tão belamente terrível quanto uma cena de Shakespeare; outras vezes reduzia-o a proporções miúdas. «E daí, senhora minha tia, e daí?», dizia, levantando os ombros dentro da cama como se estivesse de pé. «Conheci uma mulher, gosto dela e quero me casar. Não vejo motivo para tanta... Ora essa... Sou alguma máquina?... Não tenho livre-arbítrio?... O que a senhora imaginou de mim?» Em certos momentos, sentia-se tão firme em seu direito que lhe dava vontade de levantar-se, correr ao aposento da tia, puxá-la por um pé, despertá-la e lançar-lhe este golpe: «Saiba que danço conforme a música que tocam. Se minha família insiste em me tratar como criança, provarei à minha família que sou homem». Mas ficou gelado ao imaginar a resposta da tia, que certamente seria esta: «Como você haveria de ser homem, como haveria...?»
Quando o bom rapaz se levantou no dia seguinte, que era domingo, dona Lupe já voltara da missa. Papitos trouxe-lhe o chocolate e, na verdade, ele não conseguiu engolir, porque se instalara no epigástrio aquela tensão angustiosa, sintoma infalível de todas as situações apertadas, tanto por causa de exames quanto por outro medo ou sobressalto qualquer. Estava lívido, e a senhora deve ter sentido pena quando o viu entrar no gabinete, como criminoso que entra na sala do julgamento. A janela estava aberta, e dona Lupe a fechou para que o pobrezinho não se resfriasse, pois uma coisa é a saúde e outra, a justiça. O delinquente vinha com as mãos nos bolsos e um gorrinho escocês na cabeça, as botas novas e a roupa de ficar em casa, tão murcho e abatido que era preciso ser de bronze para não se compadecer. Dona Lupe usava uma saia comum com muitos e grandes remendos admiravelmente postos, avental azul xadrez, chale escuro envolvendo o busto altivo, lenço negro na cabeça, mitenes vermelhas e botinas de feltro grossas e macias, tão macias que seus passos eram como os de um gato. O pequeno gabinete era um cômodo muito limpo. Uma cômoda e um guarda-roupa de espelho de forma vulgar eram os principais móveis. O sofá e as cadeiras tinham capas de crochê ao estilo de pensão, tudo feito pela senhora da casa.
Mas o que dava certo aspecto grandioso ao gabinete era o retrato do falecido marido de dona Lupe, pendurado no lugar presidencial, um enorme quadrado a óleo, perverso, que representava D. Pedro Manuel de Jáuregui, aliás o dos Perus, vestido de comandante da Milícia Nacional, com o morrião numa das mãos e o bastão de comando na outra. Pintura mais ordinária não era possível imaginar. O autor devia ser especialista em tabuletas de casas de vacas e de jumentas leiteiras. Dona Lupe sustentava, contudo, que o retrato de Jáuregui era obra-prima e, a todos quantos o contemplavam, fazia notar duas coisas extraordinárias naquela pintura, a saber: onde quer que o espectador se pusesse, os olhos do retrato olhavam para quem o olhava; e a corrente do relógio, a gola, os botões, a jugular e a placa do morrião, numa palavra, toda a parte metálica estava pintada de maneira extraordinária e magistral.
As fotografias que montavam guarda de honra à tela eram muitas, mas penduradas com tão pouco senso de simetria que se acreditaria serem seres animados andando por vontade própria pela parede.
«Muito bem, senhor D. Maximiliano, muito bem», disse dona Lupe, olhando severissimamente para o sobrinho. «Sente-se, porque isto vai demorar.»
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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