Universo da obra
Universo da obra
Passados alguns dias, quando Estupiñá já andava por aí restabelecido, embora um pouco manco, Barbarita começou a notar no filho novas inclinações e alguns hábitos que lhe desagradaram. Observou que o Delfim, cuja idade se aproximava dos vinte e cinco anos, tinha horas de alegria infantil e dias de tristeza e sombrio recolhimento. E as novidades não pararam aí. A perspicácia materna julgou descobrir uma mudança notável nos costumes e nas companhias do jovem fora de casa, e descobriu-a por indícios observados em certas inflexões muito particulares de sua voz e linguagem. Dava ao lh um som arrastado, quase de i consonantal, próprio da gente baixa, e haviam-se-lhe pegado modos de dizer pitorescos e expressões grosseiras que não faziam a menor graça à mamãe. Ela daria qualquer coisa para poder segui-lo à noite e ver com que espécie de gente se juntava. Que essa gente não era fina, percebia-se a uma légua.
E aquilo que Barbarita não hesitava em qualificar de aviltamento começou a manifestar-se nas roupas. O Delfim enfiou uma capa de sobrecapa curta, com muitas bordas, muitos galões e passamanaria. À noite punha o chapéuzinho pavero, que, na verdade, lhe caía muito bem, e penteava-se com as mechas afofadas sobre as têmporas. Certo dia apresentou-se na casa um alfaiate com aspecto de sacristão, desses que fazem roupas justas para toureiros, janotas e matachines; dona Bárbara, porém, não o deixou tirar a fita métrica, e pouco faltou para que o pobre homem saísse rolando escada abaixo.
— É possível — disse ao filho, sem dissimular a ira — que também lhe tenha dado vontade de usar essas calças justas com as quais as pernas dos homens parecem pernas de cegonha?
E, uma vez aberto o fogo, a senhora rompeu em acusações contra o filho por aqueles novos modos de falar e vestir. Ele ria, procurando meios de esquivar-se da questão; a inflexível mamãe, porém, cortava-lhe a retirada com perguntas contundentes. Aonde ia à noite? Quem eram seus amigos? Ele respondia que eram os de sempre, o que não era verdade, pois, salvo Villalonga, que saía com ele também muito bem instalado em sua capinha curta e seu pavero, os antigos condiscípulos já não apareciam por casa. E Barbarita citava Zalamero, Pez, o rapaz dos Tellería. Como não fazer comparações? Zalamero, aos vinte e sete anos, já era deputado e subsecretário de Gobernación, e dizia-se que Rivero queria dar a Joaquinito Pez o governo de uma província. Gustavito escrevia cada artigo de crítica e cada estudo sobre as Origens disto ou daquilo que era uma bênção; enquanto isso, ele e Villalonga passavam o tempo em quê?, em quê? Em adquirir hábitos vulgares e conviver com zangões de rabicho. Para completar, naquela época de 70 desenvolveu-se de tal maneira no Delfim a paixão pelas touradas que não perdia uma corrida, não deixava de ir um único dia ao apartado e às vezes plantava-se no pasto dos touros. Dona Bárbara vivia na maior intranquilidade e, quando alguém lhe contava que vira seu ídolo na companhia de um indivíduo da arte dos chifres, ela subia pelas paredes.
— Veja, Juan, acho que você e eu vamos romper relações. Se me trouxer para casa um desses brutamontes de calção justo, jaqueta curta e botinha de cano claro, eu lhe bato; sim, faço o que nunca fiz, pego uma vassoura e os dois saem daqui voando...
Esses furores costumavam terminar em risadas, beijos, promessas de emenda e reconciliações carinhosas, porque Juanito não tinha rival na arte de desarmar a irritação da mamãe.
Quando soube, certo dia, que o filho frequentava os bairros de Puerta Cerrada, Calle de Cuchilleros e Cava de San Miguel, a dama encarregou Estupiñá de vigiá-lo, e este o fez de muito boa vontade, levando-lhe relatos em voz baixa e melodramática:
— Ontem à noite ele jantou na confeitaria do sobrinho de Botín, na Calle de Cuchilleros... a senhora sabe? Também estavam o senhor Villalonga e outro que não conheço, um tipo assim... como direi?, desses de chapéu redondo e capa com sobrecapa debruada. Tanto pode passar por um ladrão quanto por um jovem senhor disfarçado.
— Mulheres?... — perguntou Barbarita com ansiedade.
— Duas, senhora, duas — disse Plácido, corroborando com igual número de dedos muito esticados aquilo que a voz denunciava. — Não pude ver-lhes as caras. Eram dessas de xale pardo, avental azul, boa bota e lenço na cabeça... enfim, um par de reses muito bravas.
Na semana seguinte, outra delação:
— Senhora, senhora...
— O quê?
— Ontem e anteontem o menino entrou numa loja da Concepción Jerónima, onde vendem filigranas e corais dos que as amas de leite usam...
— E daí?
— Passa ali longas horas da tarde e da noite. Sei disso por Pepe Vallejo, o da cordoaria em frente, a quem encarreguei de ficar muito atento.
— Loja de filigranas e corais?
— Sim, senhora; uma dessas ourivesarias de quinta categoria, em que tudo o que existe não vale seis duros. Não a conheço; abriu há pouco, mas vou informar-me. Aspecto de pobreza. Entra-se por uma porta envidraçada que também é a entrada do prédio, e no vidro puseram um letreiro que diz: Especialidade em presentes para amas... Antes ficava ali um relojoeiro chamado Bravo, que morreu de miserere.
De repente, os relatos de Estupiñá cessaram. Barbarita não fazia senão perguntar e tornar a perguntar, e o bendito falador nada sabia. E veja-se que tinha mérito a discrição daquele homem, pois constituía para ele o maior dos sacrifícios; dizer «não sei nada, absolutamente nada» equivalia a cortar a própria língua. Às vezes parecia que suas revelações insignificantes e inseguras queriam ocultar a verdade em vez de esclarecê-la.
— Pois nada, senhora; vi Juanito num fiacre, sozinho, pela Puerta del Sol... digo... pela Plaza del Ángel... Ia com Villalonga... os dois riam muito... de alguma coisa que lhes fazia graça...
E todas as denúncias eram assim: bobagens, subterfúgios, evasivas... Das duas, uma: ou Estupiñá nada sabia, ou, se sabia, não queria dizê-lo para não desgostar a senhora.
Dez meses se passaram desse modo, Barbarita interrogando Estupiñá e este não querendo ou não tendo o que responder, até que, por volta de maio de 70, Juanito começou a abandonar aqueles mesmos hábitos grosseiros que tanto desagradavam à mãe. Esta, que o observava com extrema atenção, notou os sintomas da lenta e feliz mudança numa infinidade de pequenos acidentes da vida do jovem. Não é preciso dizer quanto a senhora se regozijava com isso. E, embora tudo fosse inexplicável, chegou um momento em que Barbarita deixou de ser curiosa e não se importava em ignorar os desvarios do filho, contanto que ele se reformasse. Lentamente, pois, o Delfim recuperava sua personalidade normal. Depois de uma noite em que entrou tarde e muito afogueado e teve dor de cabeça e vômitos, a mudança pareceu mais acentuada. A mamãe entrevia naquela página ignorada da existência do herdeiro amores um tanto libertinos, orgias de mau gosto, brincadeiras e talvez brigas; mas perdoava tudo, tudo, tudinho, contanto que aquele transtorno passasse, como passam as indispensáveis crises das idades.
— É um sarampo de que nenhum rapaz destes tempos escapa — dizia. — O meu já está saindo dele, e queira Deus que saia bem.
Notou também que o Delfim se preocupava muito com certos recados ou bilhetinhos que levavam à casa para ele, mostrando-se mais temeroso de recebê-los do que desejoso deles. Muitas vezes ordenava aos criados que dissessem não estar e que não aceitassem carta nem recado. Andava um pouco inquieto, e sua mamãe disse a si mesma, contente: «Temos perseguição; mas ele parece querer cortar toda espécie de comunicação. Isto vai bem.» Falando disso com o marido, dom Baldomero, em quem o progressismo não eliminava o autoritarismo, emblema dos tempos, este propôs um plano defensivo que mereceu a aprovação dela.
— Veja, minha filha, o melhor é eu falar hoje mesmo com o Governador, que é nosso amigo. Ele mandará para cá uma dupla da ordem pública e, assim que chegar homem ou mulher de má aparência com papel ou recadinho, agarram-no e o enfiam de cabeça no Saladero.
Melhor que esse plano era o que ocorrera à senhora. Haviam alugado uma casa em Plencia para passar a temporada de verão, marcando a partida para 8 ou 10 de julho. Barbarita, porém, com aquela segurança do talento superior que num instante concebe e executa resoluções salvadoras, encarou Juanito e, sem mais nem menos, disse-lhe:
— Amanhã mesmo vamos para Plencia.
E, ao dizê-lo, prestou atenção à expressão que ele fez. A primeira coisa que o Delfim demonstrou foi alegria. Depois ficou pensativo.
— Mas me dê dois ou três dias. Tenho de resolver vários assuntos...
— Que assuntos você tem, meu filho? Conversa, conversa. E, caso tenha algum, acredite em mim: é melhor deixá-lo como está.
Dito e feito. Pais e filho partiram para o Norte no dia de São Pedro. Barbarita ia muito contente, julgando-se já vencedora, e dizia a si mesma pelo caminho: «Agora vou pôr uma peia em meu frango para que não torne a escapar.» Instalaram-se em sua residência de verão, que era como um palácio, e não há palavras com que exagerar o contentamento e a saúde de todos. O Delfim, que fora um tanto abatido, não tardou a recuperar-se, recobrando a boa cor, a palavra jovial e a plenitude das carnes. A mamãe guardava-lhe uma surpresa. Esperava a ocasião propícia e, assim que ela chegou, soube empreender aquela operação da peia como pessoa esperta e conhecedora das manhas da ave que era preciso aprisionar. Deus sem dúvida a ajudava, pois o frango não parecia muito disposto a resistir.
— Pois sim — disse ela depois de uma conversa preparada com graça. — É preciso que você se case. Já escolhi a mulher. Você é uma criança, e é preciso dar-lhe tudo pronto. Que será de você no dia em que eu lhe faltar? Por isso quero deixá-lo em boas mãos... Não ria, não; é verdade, tenho de cuidar de tudo, tanto de pregar o botão que caiu quanto de escolher a que será sua companheira por toda a vida, a que o mimará quando eu morrer. Cabe em sua cabeça que eu possa propor-lhe alguma coisa que não lhe convenha?... Não. Então cale-se e ponha seu futuro em minhas mãos. Não sei que instinto temos nós, as mães, algumas, quero dizer. Em certos casos não nos enganamos; somos infalíveis como o Papa.
A esposa que Barbarita propunha ao filho era Jacinta, sua prima, a terceira das filhas de Gumersindo Arnaiz. E que coincidência! No dia seguinte à mencionada conferência, chegavam a Plencia e instalavam-se numa casinha modesta Gumersindo e Isabel Cordero com toda a sua caterva miúda. Candelaria não saíra de Madri, e Benigna fora para Laredo.
Juan não disse sim nem não. Limitou-se a responder, por formalidade, que pensaria no assunto; mas uma voz de sua alma declarava-lhe que aquela grande mulher e mãe mantinha entendimentos com o Espírito Santo e que seu projeto era um verdadeiro caso de infalibilidade.
Porque Jacinta era uma moça de excelentes qualidades, modestinha, delicada, carinhosa e, além disso, muito bonita. Seus lindos olhos já declaravam a maturidade da alma, ou o ponto em que se começa a amar e a despertar amor. Barbarita gostava muito de todas as sobrinhas, mas adorava Jacinta; tinha-a quase sempre consigo e derramava sobre ela mil atenções e cuidados, sem que ninguém, nem sequer a própria mãe de Jacinta, pudesse suspeitar que a criava para nora. Toda a parentela supunha que os senhores Santa Cruz tinham os olhos postos em alguma das moças de Casa-Muñoz, de Casa-Trujillo ou de outra família rica e titulada. Barbarita, porém, não pensava em semelhante coisa. Quando revelou seus planos a dom Baldomero, ele sentiu grande alegria, pois a mesma ideia também lhe ocorrera.
Já disse que o Delfim prometeu pensar no assunto, mas isso significava, sem dúvida, a necessidade que todos sentimos de não parecermos desprovidos de vontade própria nas ocasiões graves; em outros termos, seu amor-próprio, que o governava mais que a consciência, exigia-lhe, já que não uma escolha livre, ao menos o simulacro dela. Por isso Juanito não apenas dizia que pensaria, como parecia estar pensando, saindo sozinho para passear por aqueles penhascos e enganando a si mesmo com a frase: «Como estou pensativo!» Porque essas coisas são muito sérias, ora essa!, e é preciso revolvê-las bastante na cabeça. O que aquele farsante fazia era saborear antecipadamente o que se aproximava e imaginar de que maneira diria à mãe, com o ar mais grave e filosófico do mundo: «Mamãe, meditei profundissimamente sobre esse problema, pesando com escrúpulo as vantagens e os inconvenientes, e a verdade é que, embora o caso tenha seus prós e contras, aqui me tem dispostíssimo a satisfazê-la.»
Tudo isso era comédia e vontade de fazer-se passar por homem reflexivo. Sua mãe recuperara sobre ele aquela ascendência absoluta que tivera antes das trapalhadas já mencionadas e, como o filho pródigo a quem os reveses fazem compreender quanto o prejudica agir e pensar por conta própria, Juanito descansava de suas funestas aventuras pensando e agindo com a cabeça e a vontade maternas.
O pior do caso era que nunca lhe passara pela cabeça casar-se com Jacinta, a quem sempre considerara mais irmã que prima. Quando ambos eram muito pequenos, ela tinha um ano e alguns meses menos que ele, haviam dormido juntos, derramado lágrimas e acusado um ao outro porque ele sequestrara as bonecas dela e ela lançara ao fogo, para que derretessem, os soldadinhos dele. Juan a fazia enfurecer, desarrumando-lhe a casa de bonecas, ora essa!, e Jacinta vingava-se atirando os cavalos de Juan em sua bacia de água, para que se afogassem... ora essa! Por causa de um rei mago, negro por sinal, houve dramas que acabaram em pancadaria dupla, isto é, Barbarita açoitava alternadamente um par e outro de nádegas como quem toca tímpanos; e tudo porque Jacinta cortara a cauda do camelo do rei negro, cauda de cerda, não pensem outra coisa... «Invejosa.» «Dedo-duro»... Já tinham ambos chegado à idade em que um respeito misterioso lhes proibia dar-se beijos, e tratavam-se com vivo carinho fraternal. Jacinta ia todas as terças e sextas-feiras passar o dia inteiro em casa de Barbarita, e esta não via inconveniente em deixar por longos períodos o filho e a sobrinha sozinhos, pois, embora cada um, considerado isoladamente, tivesse o desenvolvimento moral próprio dos vinte anos, um diante do outro continuavam na idade do peru, muito longe de suspeitar que o destino os aproximaria quando menos esperassem.
A passagem daquela situação fraternal à de amantes não parecia fácil ao jovem Santa Cruz. Ele, tão atrevido longe do lar paterno, sentia-se intimidado diante daquela flor criada em sua própria casa e considerava impossível que os berços de ambos, reunidos, se transformassem em leito nupcial. Mas para tudo há remédio, menos para a morte, e Juanito viu com assombro, pouco depois de tentar a metamorfose, que as dificuldades se dissolviam como sal na água, que aquilo que lhe parecia uma montanha era liso como a palma da mão e que a passagem da fraternidade ao namoro se fazia com toda a suavidade. A priminha, fingindo-se também surpreendida nos primeiros momentos e até envergonhada, disse igualmente que aquilo precisava ser pensado. Há motivos para acreditar que Barbarita já a fizera pensar. Seja como for, quatro dias depois de romperem o gelo já não havia nada a lhes ensinar sobre namoro. Poder-se-ia pensar que nunca haviam feito outra coisa na vida senão trocar carinhos o santo dia inteiro. A região e o ambiente eram propícios à nova existência. Rochas formidáveis, ondas, praia com pequenas conchas, prados verdes, sebes, ruelas cheias de arbustos, samambaias e líquens, veredas cujo fim não se conhecia, casarios rústicos que, ao cair da tarde, soltavam de seus telhados amassados fumaças azuis, céus cinzentos, raios de sol dourando a areia, velas de pescadores cruzando a imensidão do mar, ora azul, ora esverdeado, liso num dia, encrespado no outro, um vapor no horizonte tisnando o céu com sua fumaça, uma chuva forte na montanha e outros acidentes daquele admirável fundo poético favoreciam os amantes, dando-lhes a cada instante novo exemplo daquela grande lei da Natureza que estavam cumprindo.
Jacinta era de estatura mediana, com mais graça que beleza, aquilo que na linguagem corrente se chama uma mulher encantadora. Sua pele finíssima e seus olhos, que irradiavam alegria e sentimento, compunham um rosto extremamente agradável. E, quando falava, seus atrativos eram maiores que quando permanecia calada, por causa da mobilidade do rosto e da expressão variadíssima que sabia imprimir-lhe. A relativa estreiteza em que vivia a numerosa família Arnaiz não lhe permitia variar os adornos; mas sabia vencer o artificialismo com arte, e qualquer enfeitezinho anunciava nela uma mulher que, se quisesse, estava destinada a ser elegantíssima. Veremos depois. Pela cintura delicada e pela figura e rosto de porcelana, revelava ser uma dessas belezas às quais a Natureza concede pouco tempo de esplendor e que murcham depressa, assim que lhes toca a primeira tristeza da vida ou a maternidade.
Barbarita, que a criara, conhecia bem suas notáveis qualidades morais, os tesouros de seu coração amoroso, que sempre pagava com abundância o carinho recebido, e por tudo isso orgulhava-se da escolha. Até certas obstinações de caráter, que na infância eram defeito, agradavam-lhe quando Jacinta se tornou mulher, pois não é bom que as mulheres sejam todas mel, e convém que guardem uma reserva de energia para determinadas ocasiões difíceis.
A notícia do casamento de Juanito caiu na família Arnaiz como uma bomba que rebenta e espalha, não desastres e mortes, mas esperanças e felicidades. É preciso considerar que o Delfim, por sua fortuna, suas qualidades e seu talento, era considerado um ser descido do céu. Gumersindo Arnaiz não sabia o que lhe acontecia; via a coisa diante dos olhos e ainda lhe parecia mentira; e, embora o enlevo amoroso dos noivos fosse bastante meloso, ele achava que ainda faziam pouco e deviam comportar-se muito mais como pombinhos. Isabel era tão feliz que, já de volta a Madri, dizia que teria alguma coisa e que sua natureza empobrecida certamente não conseguiria suportar tanta felicidade. Aquele casamento fora a ilusão de sua vida nos últimos anos, ilusão que, de tão bela, não cabia na realidade. Nunca ousara falar disso à cunhada, por temor de parecer excessivamente ambiciosa e atrevida.
A boa senhora não tinha tempo a perder para comunicar às amigas o feliz acontecimento; não sabia falar de outra coisa e, embora já alquebrada e sem forças por causa do trabalho e dos partos, adquiria novo vigor para entregar-se com delirante atividade aos preparativos do casamento, ao enxoval e a tudo o mais. Que projetos fazia, que coisas inventava, que previdência a sua! Mas, em meio à imensa tarefa, não cessava de ter pressentimentos pessimistas e exclamava com tristeza:
— Parece mentira!... Eu não hei de ver isso!...
E esse pressentimento, por ser de coisa ruim, acabou por cumprir-se, pois a alegria inquieta foi como uma combustão oculta que devorou a pouca vida que ainda lhe restava. Numa manhã dos últimos dias de dezembro, Isabel Cordero, encontrando-se na sala de jantar de casa, caiu estendida no chão como se atingida por um raio. Acometida por violentíssimo ataque cerebral, faleceu naquela mesma noite, cercada pelo marido e pelos filhos consternados e amorosos. Não recuperou a consciência depois do ataque, não disse uma palavra nem se queixou. Sua morte foi dessas que vulgarmente se comparam à de um passarinho. Vizinhos e amigos diziam que ela rebentara de alegria. Aquela grande mulher, heroína e mártir do dever, autora de dezessete espanhóis, embriagou-se de felicidade apenas com o cheiro dela e sucumbiu à primeira embriaguez. Na morte, perseguiam-na as datas célebres, assim como a haviam perseguido nos partos, como se a História a rondasse desejosa de ter alguma relação com ela. Isabel Cordero e dom Juan Prim expiraram com poucas horas de diferença.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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