Universo da obra
Universo da obra
De todas as pessoas que entravam naquela casa, a mais festejada por toda a família Santa Cruz era Guillermina Pacheco, que morava na casa vizinha, tia de Moreno-Isla e prima de Ruiz-Ochoa, os dois principais sócios do antigo banco Moreno. As galerias envidraçadas dos dois prédios ficavam tão próximas que dona Bárbara se comunicava por elas com a amiga, e um toquezinho nos vidros bastava para estabelecer a correspondência.
Guillermina entrava naquela casa como se fosse a sua, sem etiqueta nem cerimônia alguma. Já tinha lugar fixo no gabinete de Barbarita, uma cadeira baixa; bastava sentar-se para começar a tricotar ou costurar. Levava sempre consigo um grande embrulho ou cesto de trabalho, enfiava os óculos, pegava as ferramentas e não parava mais a noite inteira. Houvesse ou não gente de cerimônia nos outros aposentos, ela não saía dali nem precisava ver ninguém. Os amigos assíduos da casa, como o marquês de Casa-Muñoz, Aparisi ou Federico Ruiz, já a olhavam como se olha aquilo que está sempre no mesmo lugar e não pode estar em outro. Os de fora e os de dentro tratavam com respeito, quase com veneração, a ilustre senhora, pequenina e graciosa como figura de presépio, com bastantes cabelos brancos, embora não tantos quanto os de Barbarita, as faces rosadas, a boca risonha, a fala tranquila e agradável e o vestido humildíssimo.
Em alguns dias ia jantar ali, isto é, sentar-se à mesa. Tomava um pouco de sopa e, no restante, não fazia mais que beliscar. Dom Baldomero costumava zangar-se e dizia-lhe:
— Filha de minha alma, quando quiser fazer penitência, não venha à minha casa. Observo que não prova justamente aquilo de que mais gosta. Não venha contar histórias para mim. Tenho boa memória. Ouvi você dizer muitas vezes, na casa de meu pai, que gostava de codornas, e agora as tem aqui e não as prova. Que não está com fome!... Para isso sempre há fome. E vejo que não toca no pão... Vamos, Guillermina, assim perdemos a amizade...
Barbarita, que conhecia bem a amiga, não insistia como dom Baldomero, deixando-a comer o que quisesse ou não comer nada. Se por acaso o gordo Arnaiz estava à mesa, permitia-se algumas brincadeiras de bom gosto sobre aqueles antiquissimos estilos de santidade, consistentes em não comer.
— Aquilo que entra pela boca não prejudica a alma. Quem disse foi nada menos que São Francisco de Sales.
A senhora Pacheco, que sabia responder, não ficava calada e replicava com graça a todas as brincadeiras, sem jamais se irritar. Terminada a refeição, os comensais se dispersavam, alguns para tomar café no escritório e jogar tresillo, outros para formar grupos mais ou menos animados e fofoqueiros, e Guillermina para a cadeirinha baixa e o movimento incessante das agulhas. Jacinta sentava-se ao lado dela e com muita frequência participava daqueles trabalhos, tão agradáveis a seu coração. Guillermina fazia camisolas, calções e casaquinhos para seus cento e tantos filhos de ambos os sexos.
Aquilo que se refere a essa insigne dama ninguém conhece melhor que Zalamero, casado com uma das moças de Ruiz-Ochoa. Prometeu-nos escrever a biografia da excelsa parente quando ela morrer e, enquanto isso, não tem escrúpulo em fornecer todos os dados solicitados nem em corrigir com segurança as versões que o juízo vulgar pôs em circulação sobre as causas que, vinte e cinco anos antes, determinaram em Guillermina a paixão pela beneficência. Alguém disse que amores infelizes a empurraram primeiro para a devoção e depois para a caridade propagandista e militante. Zalamero, porém, assegura que essa opinião é tão tola quanto falsa. Guillermina, que fora bonita e até um pouco vaidosa, nunca teve amores e, se os teve, absolutamente nada se sabe deles. É segredo guardado com reserva sepulcral em seu coração. Aquilo que a família admite é que a morte da mãe a impressionou tão vivamente que ela deve ter-se proposto, como aquele outro, não servir mais a senhores que pudessem morrer.
Aquela mulher sem igual não nascera para a vida contemplativa. Tinha temperamento sonhador, ativo e empreendedor, espírito com ideias próprias e iniciativas varonis. A disciplina no terreno espiritual não lhe parecia difícil, mas sim no material, razão pela qual nunca pensou em filiar-se a nenhuma das ordens religiosas mais ou menos severas existentes no mundo católico. Não se julgava paciente o bastante para encerrar-se e passar o santo dia bocejando o gori-gori, nem para ser soldado nos valentes esquadrões das Irmãs da Caridade. A chama vivíssima que lhe ardia no peito não lhe inspirava submissão passiva, mas atividades iniciadoras que precisavam desenvolver-se em liberdade. Tinha caráter inflexível e um tesouro de dons de comando e faculdades de organização que alguns dos homens responsáveis pelo destino do mundo bem desejariam para si. Era mulher que, quando decidia alguma coisa, ia direto ao objetivo como uma bala, com perseverança grandiosa, sem jamais se desviar nem desanimar por um instante, inflexível e serena. Se encontrava espinhos naquele caminho reto, pisava-os e seguia adiante, com os pés ensanguentados.
Começou unindo-se a algumas senhoras nobres amigas suas, que haviam criado associações de auxílio domiciliar, e em pouco tempo Guillermina superou as companheiras. Elas agiam por vaidade, às vezes de má vontade; ela trabalhava com energia ardente e nisso se foi metade de sua herança legítima. Depois de dois anos vivendo assim, viram-na renunciar por completo a vestir-se e enfeitar-se como a moda manda que as senhoras se enfeitem. Adotou o vestido simples de merino preto, o manto, o xale escuro quando fazia frio e uns sapatos de pano folgados e feios. Esse seria seu aspecto pelo restante dos dias.
A associação beneficente à qual pertencia não se ajustava ao ânimo empreendedor de Guillermina, pois ela queria mirar mais alto, tentando coisas verdadeiramente difíceis e consideradas impossíveis. Seus talentos de fundadora revelaram-se então, assustando toda aquela gente ilustre que não sabia sair de certas rotinas. Algumas amigas asseguraram que estava louca, pois era demência pensar na fundação de um asilo para pequenos órfãos e maior loucura ainda dotá-lo de recursos permanentes. A infatigável iniciadora, porém, não desanimava, e o asilo foi feito, sustentando-se nos três primeiros anos de sua difícil existência com parte da renda que ainda restava a Guillermina e com as doações de seus parentes ricos. De repente, porém, a instituição começou a crescer; inchava e se alastrava como as misérias humanas, e suas necessidades subiam em proporções aterradoras. A dama penhorou o restante da herança; depois precisou vendê-lo. Graças aos parentes, não se viu no transe fatal de mandar os internos para a rua, a fim de que pedissem esmola para si e para a fundadora. Ao mesmo tempo, distribuía periodicamente esmolas consideráveis entre os pobres dos distritos da Inclusa e Hospital; vestia muitas crianças, dava roupa aos velhos, remédios aos enfermos, alimentos e auxílios diversos a todos. Para não suspender essas ajudas e continuar sustentando o asilo, era indispensável procurar novos recursos. Onde e como? As amizades e parentescos já estavam tão explorados que, se puxasse mais a corda, seria fácil rompê-la. Os mais generosos começavam a fazer cara feia, e os avarentos, quando iam cobrar-lhes a contribuição, diziam não estar em casa.
— Chegou um dia — contou Guillermina, suspendendo o trabalho para narrar o caso a vários amigos de Barbarita — em que a situação ficou muito feia. Aquele dia amanheceu, e as vinte e três criancinhas de Deus que eu recolhera, instaladas como coelhos numa casinha baixa e úmida da Calle de Zarzal, não tinham o que comer. Puxando daqui e dali, podiam passar aquele dia; mas e o seguinte? Eu já não tinha dinheiro nem quem me desse. Devia não sei quantas fanegas de feijão, doze dúzias de alpargatas, tantas arrobas de azeite; não me restava para penhorar ou vender senão o rosário. Os primos, que me tiravam de tantos apuros, já haviam feito o impossível... Eu tinha vergonha de voltar a pedir-lhes. Meu sobrinho Manolo, que costumava ser meu consolo, estava em Londres. E, supondo que meu primo Valeriano tapasse minhas vinte e três bocas, e a minha, vinte e quatro, por alguns dias, como eu me arranjaria depois? Nada, nada, era indispensável arranhar a terra e procurar dinheiro de outra maneira e por outros meios.
— Aquele foi um dia de provações para mim. Era uma sexta-feira das Dores, e as sete espadas, meus senhores, estavam fincadas aqui... passavam-me como raios pela testa. Uma ideia era aquilo de que eu precisava e, mais que uma ideia, coragem, sim, coragem para lançar-me... De repente senti que aquela coragem tão desejada entrava em mim, mas uma coragem tremenda, como a dos soldados quando se atiram sobre os canhões inimigos... Agarrei a mantilha e saí para a rua. Já estava decidida e, não pensem, alegre como na Páscoa, pois sabia o que tinha de fazer. Até então eu pedira aos amigos; daquele momento em diante pediria a todo ser vivente, iria de porta em porta com a mão assim... De primeira, plantei-me na casa de uma duquesa estrangeira a quem nunca vira. Recebeu-me com certa desconfiança, tomou-me por uma embusteira; mas o que me importava? Deu-me a esmola e, em seguida, para animar-me e esvaziar o cálice de uma vez, passei dois dias sem parar, subindo escadas e tocando campainhas. Uma família me recomendava a outra, e não quero contar as humilhações, as portas batidas e os desfeitas que recebi. Mas o bendito maná ia caindo gotinha por gotinha... Em pouco tempo vi que o negócio andava melhor do que eu esperava. Alguns me recebiam quase sob um pálio; a maioria, porém, ficava fria, murmurando desculpas e procurando pretextos para não me dar um centavo. «A senhora compreende, são tantos compromissos... não se recebe... o Governo leva tudo nas contribuições...» Eu os tranquilizava. «Um perro chico, um perro chico é tudo de que preciso.» E aqui me davam o perro, ali o duro, em outra parte a cédula de cinco ou dez... ou nada. Mas eu continuava impassível. Ah, senhores, este ofício tem muitos tropeços. Um dia subi a um segundo andar que não sei quem me recomendara. A tal recomendação era uma brincadeira estúpida. Pois bem, bato, entro, e vêm ao meu encontro três ou quatro megeras... Ai, meu Deus, eram mulheres de má vida!... Eu, vendo aquilo... a primeira coisa que me ocorreu foi sair correndo. «Mas não», disse comigo, «não vou embora. Veremos se lhes arranco alguma coisa.» Minha filha, encheram-me de insultos, e uma delas foi para dentro e voltou com uma vassoura para me bater. O que vocês acham que fiz? Acovardei-me? Qual o quê. Entrei mais para dentro e disse-lhes quatro verdades... mas bem ditas... bonito gênio tenho eu!... Pois acreditem que lhes arranquei dinheiro! Espantem-se, espantem-se... a mais desavergonhada, aquela que apareceu com a vassoura, foi à minha casa dois dias depois levar-me um napoleão.
— Pois bem... vocês verão. O hábito de pedir foi-me dando esta bendita cara de sola que tenho agora. Desfeitas não valem comigo, e já nem sei o que é corar. Perdi a vergonha. Minha pele já não sabe ruborizar-se, nem meus ouvidos se escandalizam com uma palavra mais ou menos delicada. Podem me chamar de cadela judia; será igual a me chamarem de pérola do Oriente; tudo me soa do mesmo modo... Só vejo meu objetivo e vou diretamente a ele, sem ligar para nada. Isso me dá tanto ânimo que enfrento qualquer pessoa. Peço tanto ao Rei quanto ao último dos operários. Escutem esta: um dia disse «Vou ver dom Amadeo». Peço audiência, chego, entro, ele me recebe muito sério. Eu, imperturbável, falei de meu asilo e disse que esperava algum auxílio de sua munificência real. «Um asilo de velhos?», perguntou. «Não, senhor, de crianças.» «São muitas?» E não disse mais nada. Olhava-me com afabilidade. Que homem! Que bocarra! Mandou que me dessem seis mil gueales... Depois vi dona María Victoria, que excelente senhora! Fez-me sentar ao lado dela, tratava-me como igual; precisei dar-lhe mil notícias do asilo, explicar tudo... Queria saber o que as crianças comiam, que roupa eu lhes punha... Enfim, ficamos amigas... Ela insistia para que eu fosse lá todos os dias... Na semana seguinte mandou montes de roupa, peças de tecido e passou a contribuir mensalmente para seus meninos.
— Portanto, já veem como, assim, pouco a pouco e quase sem perceber, o pão de cada dia veio ao meu asilo. A contribuição fixa cresceu tanto que, depois de um ano, pude alugar a casa da Calle de Alburquerque, que tem grande pátio e muito espaço. Instalei uma sapataria para os meninos maiores trabalharem e duas escolas para aprenderem. No ano passado eram sessenta e já chegam a cento e dez. Passamos apertos, mas vamos vivendo. Num dia estamos mal e no outro chovem provisões. Quando vejo a despensa vazia, lanço-me à rua, como dizem os revolucionários, e à noite já levo para casa o necessário para tantas bocas. E há dias em que não lhes falta a refeição especial, o que pensavam? Hoje dei-lhes um arroz-doce que os que me escutam não comem melhor. Veremos se por fim consigo aquilo que quero, uma coisinha insignificante, nada menos que levantar para eles um prédio novo, um verdadeiro palácio, com o espaço e a distribuição convenientes, tudo muito próprio, com setor disto, setor daquilo, de modo que ali caibam duzentos ou trezentos órfãos, possam viver bem, educar-se e ser bons cristãos.
— Um prédio ad hoc — disse com incredulidade o marquês de Casa-Muñoz, um dos que estavam ali.
— Ad... hoc, sim, senhor — replicou Guillermina, acentuando as duas palavras latinas. — Pois o senhor está atrasado nas notícias. Não sabe que tenho o terreno e as plantas e que já estão fazendo a escavação? Sabe o lugar? Mais abaixo daquele que as Micaelas ocupam, essas que recolhem e corrigem as mulheres perdidas. O arquiteto e os desenhistas trabalham para mim de graça. Agora não peço apenas dinheiro, mas tijolo recozido e malcozido. Portanto, vamos ver...
— A senhora já tem o memorial da cantaria? — perguntou com vivo interesse Aparisi, homem forte no negócio de granito.
— Tenho, senhor. Quer me dar alguma coisa?
— Dou-lhe — disse Aparisi, acompanhando a generosidade de um gesto imperial — a bagatela de sessenta metros cúbicos de pedra lavrada que tenho na Guindalera.
— A quanto? — perguntou Guillermina, olhando-o com os olhos semicerrados e apontando-lhe a agulha de tricô.
— A nada... A pedra é sua.
— Obrigada, que Deus lhe pague. E o marquês, o que me dá?
— Pois eu... A senhora quer duas vigas de ferro de duplo T que sobraram da casa da Carrera?
— Como não haveria de querer? Eu aceito tudo, até uma chave velha, para quando o prédio estiver pronto. Sabem o que levei ontem para casa? Quatro azulejos de cozinha, uma torneira e três pacotinhos de argolas. Tudo serve, amigos. Se em alguma olaria me dão quatro tijolos, aceito-os e mando para a obra. Vocês veem como os pássaros fazem os ninhos? Pois construirei meu palácio de órfãos apanhando aqui uma palhinha e ali outra. Já disse a Bárbara que não jogue fora nem um prego, ainda que torto, nem uma tábua, ainda que quebrada. Selos postais vendem-se, caixas de fósforos também... Com o que vocês acham que comprei o grande lavatório que temos no asilo? Juntando pontas de vela e vendendo-as por peso. Outro dia ofereceram-me uma cigarreira de couro da Rússia. «Para que isso lhe serve?», dirão estes senhores. Pois serviu-me para dar um presente a um dos desenhistas que trabalham no projeto... Estão vendo este marquês de Casa-Muñoz, que me escuta e me ofereceu duas vigas de duplo T? Pois bem, quanto apostam que lhe arranco mais alguma coisa? Ora, vocês pensam que o senhor marquês tem suas grandes fábricas de gesso em Vallecas para ver estes meus apertos e não acudir a eles?
— Guillermina — disse Casa-Muñoz, um tanto comovido —, conte com duzentos quintales, e do branco, que custa nove reales.
— O que eu disse? Muito bem. E este senhor Ruiz, o que fará por mim?
— Filha de minha alma, não tenho nem um prego nem uma lasca, mas juro por minha salvação que num domingo saio pelos arredores e roubo uma telha para levar-lhe... roubarei duas, três, uma dúzia de telhas... E há mais. Se quiser minhas duas comédias, meus folhetos sobre a União Ibérica e sobre a Organização dos Bombeiros na Suíça, minha obra sobre os Castelos, tudo está à sua disposição. Dez exemplares de cada coisa para fazerem lotes numa rifa.
— Estão vendo? O maná cai, cai. Nessas coisas, basta pôr mãos à obra... Meu amigo Baldomero também dará alguma coisa.
— Os sinos — disse o insigne comerciante — e, se me apertarem, o para-raios e os cataventos. Quero terminar o prédio, já que o amigo Aparisi quer começá-lo.
— A primeira pedra ninguém me tira — declarou Aparisi com todo o inchaço de seu amor-próprio.
— Daremos mais alguma coisa, não é, Baldomero? — sugeriu Barbarita. — Por exemplo, a capela inteira, com órgão, altares, imagens...
— Tudo o que você quiser, minha filha. E veja que as Micaelas já nos levaram uma boa quantia. Fizemos quase metade do prédio delas. Agora, porém, é a vez de Guillermina. Ela sabe onde estamos.
O grupo que rodeava a fundadora foi-se desfazendo. Alguns, sem dúvida acreditando que aquilo de que se tratava ali era mais brincadeira que outra coisa, foram ao salão falar seriamente de política e negócios. Dom Baldomero, que desejava jogar uma partida de mus naquela noite, o jogo clássico e tradicional dos comerciantes de Madri, esperou Pepe Samaniego entrar, pois ele era mestre consumado, para organizar a partida. Durante um longo período, no salão não se ouvia senão «aposto no menor... aposto nos pares... órdago».
As três senhoras ficaram sozinhas por um momento, falando daquele projeto de Guillermina, que continuava costurando sem parar, ajudada por Jacinta. Havia algum tempo despertara nesta um vivo entusiasmo pelas empresas de Pacheco e, além de reservar-lhe todo o dinheiro que podia, furava os dedos costurando para ela durante longas horas. É que sentia certo consolo em confeccionar roupas infantis e imaginar que aquelas mangas aqueceriam pequenos braços nus. Já fizera duas visitas ao asilo da Calle de Alburquerque e acompanhara Guillermina uma vez em suas excursões aos miseráveis chiqueiros onde viviam os pobres da Inclusa e de Hospital.
Era preciso ouvi-la quando voltou daquela primeira visita aos bairros do Sul.
— Que desigualdades! — dizia, tocando sem saber no problema social. — Uns com tanto e outros com tão pouco. Falta equilíbrio, e o mundo parece cair. Tudo se resolveria se os que têm muito dessem aquilo que lhes sobra aos que não possuem nada. Mas o que é que sobra?... Vá saber.
Guillermina assegurava que é preciso muita fé para não desanimar diante dos espetáculos oferecidos pela miséria.
— Porque se encontram almas boas, sim — dizia —, mas também muita ingratidão. A falta de educação é para o pobre uma desvantagem maior que a pobreza. Depois, a própria miséria ataca o coração de muitos e o corrompe. Já me insultaram, jogaram em mim punhados de esterco e talos de couve, chamaram-me de tia bruxa...
Barbarita dera naquela noite para falar de arquitetura e não perdia uma palavra. Moreno-Isla entrou naquele momento e foi recebido com exclamações de alegria. A senhora chamou-o e perguntou:
— O senhor tem entulho?
As três riam ao ver a surpresa e a confusão de Moreno, excelente pessoa de cerca de quarenta e cinco anos, solteiro e riquíssimo, de inclinações tão inglesas que passava em Londres a maior parte do ano; alto, magro e de péssima cor, porque tinha saúde muito delicada.
— Se tenho entulho. É para a senhora?
— Responda e não seja como os galegos, que respondem a uma pergunta com outra. Já que está fazendo demolições, tem entulho, sim ou não?
— Tenho, sim... e magnífica pedra de sílex. A sessenta reales a carroça, tudo o que quiser. O entulho, a oito reales... Ah, que tolo sou! Já sei do que se trata. A santarrona está embaucando vocês com as fantasmagorias do asilo que vai construir... Cuidado, muito cuidado com os golpes. Antes de assentar a primeira pedra, levará todos nós a San Bernardino.
— Cale-se, que todos já sabem como você é avarento. Não lhe peço nada, sovina, miserável.
Guarde suas carroças de sílex, que ainda as porão na balança no dia do grande acerto final, você sabe, quando soarem aquelas trombetas; sim, e então, quando vir a balança cair para o lado da avareza, dirá: «Senhor, tire de cima de mim estas carroças de pedra e entulho que me afundam no Inferno», e todos nós diremos: «Não, não, não... ponham mais carga, que ele é muito ruim.»
— Basta pôr no outro prato os perros grandes e pequenos que você me arrancou, e estou salvo — disse Moreno, rindo e apertando-lhe o rosto.
— Não venha me fazer carinhos, sobrinhezinho. Se pensa que isso lhe serve, grande miserável, usurário, recozido em dinheiro — repetiu Guillermina com tom e sorriso de brincadeira benévola. — Que homens! Ainda quer mais e está demolindo um quarteirão de casas velhas para construir casas luxuosas e arrancar as entranhas dos pobres.
— Não deem atenção a esta rata eclesiástica — indicou Moreno, sentando-se entre Barbarita e Jacinta. — Ela está me arruinando. Vou ter de mudar para uma aldeia, porque não me deixa viver. Não posso me descuidar. Estou em casa me vestindo... ouço um murmúrio, qualquer coisa parecida com passos de ladrões; olho, vejo um vulto, dou um grito... É ela, a rata que entrou e vai-se esgueirando entre os móveis. Nada; por mais depressa que eu chegue, minha querida tia já revistou a roupa no cabide e levou tudo o que havia no bolso do colete.
A fundadora, acometida por hilaridade convulsiva, ria com toda a alma.
— Mas venha cá, tratante — disse, enxugando as lágrimas que o riso lhe fizera brotar dos olhos —, com você os bons meios não valem. Ora, meu filho, quem rouba você... já conhece o ditado... quem rouba você vai direto para o Céu.
— Aonde você vai é para a prisão Modelo...
— Cale a boca, bobão, e não me denuncie, porque o prejuízo será maior para você...
Esse diálogo, que prometia render muito, não continuou porque do salão chamaram Moreno com insistência enérgica. Ouvia-se do gabinete o rumor de uma conversa viva e a agitação misturada de várias vozes, entre as quais se distinguiam claramente as de Juan, Villalonga e Zalamero, que acabavam de entrar.
Moreno foi até lá, e Guillermina, que ainda não terminara de rir, dizia às amigas:
— É um anjo grandalhão... Vocês não fazem ideia da matéria celestial de que é formado o coração desse homem.
Barbarita não sossegava enquanto não descobrisse a causa daquele tumulto no salão. Foi ver e voltou com a notícia:
— Minhas filhas, o rei vai embora.
— O que está dizendo, mulher!
— Dom Amadeo, cansado de lutar com essa gente, joga a coroa pela janela e diz: «Vão vocês marcar encontro com o Diabo.»
— Tudo seja por Deus! — exclamou Guillermina, soltando um suspiro e tornando imperturbável ao trabalho.
Jacinta passou ao salão, mais para ver o marido, que não jantara em casa naquele dia, do que para inteirar-se das notícias.
— Escute — disse Guillermina em segredo, detendo-a, e as duas se olharam com malícia —, vinte duros que você lhe arranque já bastam.
— Na Bolsa não se soube de nada. Eu soube no Bolsín às dez — disse Villalonga. — Fui ao Casino levar a notícia. Quando voltei ao Bolsín, o consolidado estava sendo negociado a vinte.
— Ainda o veremos a dez, senhores — disse o marquês de Casa-Muñoz em tom de Hamlet.
— O Banco a cento e setenta e cinco!... — exclamou dom Baldomero, passando a mão pela cabeça e lançando para o chão um olhar fúnebre.
— Perdoe-me, amigo — corrigiu Moreno-Isla. — Está a cento e setenta e dois e, se quiser comprar as minhas a cento e setenta, largo-as agora mesmo. Não quero mais papel da querida pátria. Amanhã volto para Londres.
— Sim — disse Aparisi, assumindo semblante profético —, porque a confusão que vai armar-se agora aqui será de órdago.
— Senhores, não sejamos impressionáveis — indicou o marquês de Casa-Muñoz, que gostava de dominar as situações com olhar altivo. — Aquele bom senhor cansou-se, e não era para menos; disse: «Isto fica aqui.» Eu, no lugar dele, teria feito o mesmo. Teremos algum transtorno; haverá um pouco de República; mas vocês sabem que as nações não morrem...
— O golpe vem de fora — manifestou Aparisi. — Eu já via isso chegando. A França...
— Não misturemos as questões, senhores — disse Casa-Muñoz, fazendo uma cara muito parlamentar. — E, se devo falar com franqueza, direi a vocês que a República não me assusta; o que me assusta é o republicanismo.
Olhou para todos a fim de ver como a frase fora recebida. Não se podia duvidar de que o murmúrio de acolhida era elogioso.
— Senhor marquês — declarou Aparisi, picado pela rivalidade —, o povo espanhol é um povo digno... que, nos momentos de perigo, sabe colocar-se...
— E o que uma coisa tem a ver com a outra?... — saltou o marquês, incomodado, fulminando o adversário com um olhar. — Não misture as questões.
Aparisi, proprietário e vereador por profissão, era homem que se gabava de pôr os pingos nos is; com o marquês de Casa-Muñoz, porém, sua suficiência não valia, porque este não tolerava imposições e era capaz de pôr pingos até nos agás. Havia entre ambos uma rivalidade tácita, manifestada na competição para lançar observações sintéticas sobre todas as coisas. Um olhar de profunda antipatia era a única coisa que às vezes deixava entrever o pugilato espiritual daqueles dois atletas do pensamento. Villalonga, observador muito malicioso, assegurava ter descoberto entre Aparisi e Casa-Muñoz um antagonismo ou competição no emprego de palavras escolhidas. Desafiavam-se para ver quem falava com maior refinamento e, se o marquês dava muitas voltas ao misturar, ao ad hoc, ao sui generis e a outros termos latinos, logo se via o outro pondo o cérebro na prensa para obter frases tão selecionadas quanto a concatenação das ideias. Às vezes Aparisi parecia triunfante, dizendo que tal ou qual coisa era o belo ideal dos povos; Casa-Muñoz, porém, tomava impulso e, dizendo o desiderato, reduzia o adversário a pó.
Conta Villalonga que, anos antes, Casa-Muñoz falava de modo disparatado e sustenta e jura tê-lo ouvido dizer, quando ainda não era marquês, que as portas estavam hermeticamente abertas; mas isso não chegou a ser comprovado. Deixando as brincadeiras de lado, convém dizer que o marquês era pessoa estimabilíssima, muito simples, muito afável no trato e excelente para a família e os amigos. Tinha a mesma idade de dom Baldomero, mas não carregava os anos tão bem. Sua dentadura era artificial, e as costeletas tingidas tinham um reflexo carmim que contrastava com a cabeça sem pintura. Aparisi era muito mais jovem, homem que se orgulhava do pé pequeno e das mãos bonitas, com o rosto avermelhado, o bigode castanho caindo à chinesa, os olhos grandes e, na cabeça, uma dessas calvas que são para os donos um diploma de talento. O mais característico no vereador perpétuo era a expressão do rosto, semelhante à de quem sente cheiro muito desagradável, o que provinha de certa contração dos músculos nasais e do lábio superior. De resto, boa pessoa, que nada devia a ninguém. Tivera um armazém de madeiras, e contava-se que, em certa época, pusera os pingos nos is dos pinhais de Balsain. Era homem sem instrução e... acontece o que acontece... justamente por não tê-la, gostava de aparentá-la. Conta o tratante do Villalonga que, anos atrás, Aparisi usava o e pur si muove de Galileu; o pobrezinho, porém, não lhe dava a interpretação verdadeira e acreditava que o célebre dito significava por via das dúvidas.
Assim, ouviram-no mais de uma vez dizer:
— Parece que não vai chover, mas levarei o guarda-chuva, e pur si muove.
Jacinta agarrou o marido pelo braço e levou-o um pouquinho à parte:
— E então, nenê, há barricadas?
— Não, minha filha, não há nada. Fique tranquila.
— Você não tornará a sair esta noite?... Veja que vou ficar muito assustada se sair.
— Pois não sairei... O quê... o que está procurando?
Rindo, Jacinta deslizava a mão pelo forro da sobrecasaca, procurando o bolso do peito.
— Ah, eu queria ver se conseguia tirar sua carteira sem que sentisse...
— Veja só a batedora de carteira...
— Qual o quê, não sei fazer... Quem faz isso bem é Guillermina, que tira as pesetas do bolso do colete de Manolo Moreno sem que ele perceba... Vamos ver...
Já de posse da carteira, Jacinta abriu-a.
— Você ficaria zangado se eu tirasse esta cédula de vinte duros? Precisa dela?
— De modo algum. Pegue o que quiser.
— É para Guillermina. Mamãe deu-lhe duas e falta uma quantia para ela poder pagar amanhã o trimestre do aluguel do asilo.
O Delfim respondeu apertando-lhe as duas mãos com grande efusão e amassando a cédula que estava entre elas.
Assim que Guillermina pescou o que lhe faltava para completar a quantia, largou a costura e pôs o manto. Despedindo-se brevemente das duas senhoras, atravessou o salão depressa.
— Peguem essa, peguem essa! — gritou Moreno. — Sem dúvida leva alguma coisa. Cavalheiros, vejam se o relógio de vocês está no lugar. Bárbara, debaixo da mantilha da rata eclesiástica vejo um volume... Não havia aqui castiçais de prata?
Em meio à jovial algazarra produzida por essas brincadeiras, Guillermina saiu, espalhando sobre todos um sorriso inefável que parecia uma bênção.
Em seguida, todos se lançaram com fúria sobre o tema suculento da partida do Rei, e cada qual expunha suas opiniões com ares de profecia, como se nunca houvesse feito outra coisa na vida senão vaticinar com acerto. Villalonga já via dom Carlos entrando em Madri, e o marquês de Casa-Muñoz falava das exagerações liberticidas da demagogia vermelha e da demagogia branca como se as visse pintadas na parede da frente; o ex-subsecretário de Gobernación, Zalamero, lia com toda a clareza no futuro o nome do rei Alfonso, e o vereador dizia que o alfonsismo ainda estava na nebulosa do desconhecido. O próprio Aparisi e Federico Ruiz profetizaram depois em uníssono... Ora, diabos! Eles não se assustavam com a República. Como se a estivessem vendo... nada aconteceria. É que aqui somos muito impressionáveis e, por qualquer contratempo, parece-nos que o Céu vai cair sobre a cabeça.
— Eu lhes garanto — dizia Aparisi, com a mão sobre o peito — que não acontecerá nada, absolutamente nada. Aqui ninguém faz ideia do que é o povo espanhol... Eu respondo por ele, atrevo-me a responder com a cabeça, ora...
Moreno não fazia vaticínios; limitava-se a dizer:
— Caso as coisas deem errado, amanhã vou para Londres.
Aquele ricaço solteiro alardeava não ter absolutamente nenhum sentimento patriótico e estava tão estrangeirado que nada espanhol lhe parecia bom. Os autores dramáticos e as comidas, as ferrovias e as pequenas indústrias, tudo lhe parecia de inferioridade lamentável. Costumava dizer que aqui os lojistas não sabem embrulhar em papel uma libra de coisa alguma.
— O senhor compra alguma coisa e, depois de medirem mal e cobrarem caro, o embrulho de papel que lhe dão se desfaz no caminho. Não adianta procurar explicação; somos uma raça inábil até não poder mais.
Dom Baldomero dizia com tristeza uma coisa muito sensata:
— Se dom Juan Prim estivesse vivo...!
Juan e Samaniego afastaram-se do grupo e conversavam com Jacinta e dona Bárbara, procurando livrá-las do medo. Não haveria tiros nem confusão... não seria preciso fazer provisões... Ah! Barbarita já sonhava em fazer provisões. Na manhã seguinte, se não houvesse barricadas, ela e Estupiñá se ocupariam disso.
Pouco a pouco, todos foram saindo. Era meia-noite. Aparisi e Casa-Muñoz foram ao Bolsín saber as notícias, não sem antes darem nova demonstração de sua rivalidade. O vereador por profissão estava tão excitado que a contração do focinho se acentuava, como se aquele cheiro imaginário fosse o da assa-fétida. Zalamero, que ia à Gobernación, quis levar o Delfim; mas este, a quem a mulher segurava pelo braço, recusou-se a sair.
— Minha mulher não deixa.
— Minha xará — disse Villalonga — está ficando muito anticonstitucional.
Por fim, ficaram apenas os moradores da casa. Dom Baldomero e Barbarita beijaram os filhos e foram deitar-se. Jacinta e o marido fizeram o mesmo.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
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