Universo da obra
Universo da obra
Por fim, ficou decidido que Fortunata sairia do convento para casar-se na segunda quinzena de setembro. O dia marcado já estava muito próximo e, embora o pensamento da reclusa ainda não se tivesse familiarizado de modo definitivo com a nova vida que a esperava, não duvidava de que lhe convinha casar, compreendendo que não devemos aspirar ao melhor, mas aceitar o bem possível que nos cabe nos sábios lotes da Providência. Nas últimas visitas, Maxi só falava da proximidade de sua felicidade. Um dia contou-lhe que já alugara a casa, um belo apartamento na calle de Sagunto, perto da tia; em outro, entretinha-a relatando pormenores deliciosos da instalação. Quase todos os móveis já haviam sido comprados. Dona Lupe, que para essas coisas não precisava de mestre, percorria diariamente os leilões anunciados em La Correspondencia, adquirindo uma pechincha após outra. A cama de casal foi a única coisa comprada em armazém; mas Dona Lupe conseguiu-a tão em conta que parecia de segunda mão. E já não tinham apenas casa e móveis, mas também criada. Torquemada recomendara-lhes uma que servia para tudo e cozinhava muito bem, mulher de meia-idade, séria, limpa e sossegada. Bem se podia dizer que ela também era pechincha como os móveis, porque o serviço doméstico estava muito ruim em Madri, mas muito ruim mesmo. Chamava-se Patricia; Torquemada, porém, chamava-a Patria, pois era homem tão econômico que poupava até as letras e gostava muito de abreviações, para economizar saliva quando falava e tinta quando escrevia.
Noutra tarde, Maxi deu-lhe bela surpresa. Quando Fortunata entrara no convento, as cautelas das joias e roupas de luxo empenhadas haviam ficado em poder do jovem, que fizera o propósito de resgatar aqueles objetos assim que tivesse meios. Pois bem, já podia anunciar à amada, com alegria indizível, que, ao entrar na nova casa, encontraria as peças de vestuário e adorno que a infeliz lançara ao mar no dia do naufrágio. As joias haviam agradado muito a Dona Lupe, por serem ricas e elegantes; quanto ao casaco de veludo, dissera que, com pequenas reformas, seria peça esplêndida. Isso levou Maxi naturalmente a falar da herança. Já recebera sua parte e, com uma quantia paga em dinheiro, resgatara as peças empenhadas. Era agora proprietário de imóveis, e isso valia mais que dinheiro vivo.
A propósito da herança, contou também que entre o irmão mais velho e Dona Lupe haviam surgido ruidosas desavenças. Juan Pablo empregara toda a sua parte em pagar as dívidas que o devoravam e um desfalque deixado na administração carlista. Não lhe bastando o capital da herança, tivera o atrevimento de pedir emprestada certa quantia a Dona Lupe, que se enfureceu e lhe disse tantas coisas!... Em resumo, tiveram forte briga; desde então tia e sobrinho não se falavam, e ele fora viver com uma amante.
— Viva a moralidade! E eu que sou tradicionalista!
Em outro dia falaram da casa, encantadora e com ótimas vistas. Da varanda do gabinete alcançava-se a ver um pedacinho do Depósito de Águas; papéis de parede novos, alcova estucada, rua tranquila, pouca vizinhança, dois apartamentos por andar, e só havia primeiro e segundo pavimentos. A tantas vantagens somava-se a de estar tudo à mão: embaixo, carvoaria; a quatro passos, açougue; na esquina próxima, armazém de secos e molhados.
Não podiam esquecer o importante assunto da carreira de Rubinius vulgaris. Em meados de setembro, prestara exame da única disciplina que lhe faltava para concluir o último ano e, assim que possível, tomaria o grau. Entraria desde logo como praticante na farmácia de Samaniego, que estava gravemente enfermo; se morresse, a viúva teria de confiar a dois licenciados a exploração do estabelecimento. Maxi entraria certamente como segundo; com o tempo chegaria a primeiro e, por fim, a dono da farmácia. Enfim, tudo ia bem e o futuro lhes sorria.
Essas coisas davam alegria e esperança a Fortunata, avivando os sentimentos de paz, ordem e regularidade doméstica que haviam nascido nela. Com auxílio da razão, estimulava na própria vontade essa direção e alegrava-se de ter casa, nome e decoro.
Dois dias antes da saída, confessou-se com o padre Pintado; longa expurgação, exame geral de consciência desde os tempos mais remotos. A preparação foi como a de um exame de grau, e o capelão tomou o caso com grande solicitude e atenção. Onde a penitente não chegava com a sinceridade, chegava o penitenciário com suas perguntas de gancho. Era cão velho naquele ofício. Como não tinha nada de falso pudor, a confissão acabou sendo diálogo de amigos. Deu-lhe conselhos sãos e práticos, mostrou-lhe com exemplos evidentes, alguns de ordem humorística, a perdição que traz à criatura deixar-se mover pelos sentidos, e pintou-lhe as vantagens de uma vida de continência e modéstia, renunciando à soberba, à desordem e aos apetites.
Descendo das alturas espirituais ao terreno da filosofia utilitária, D. León demonstrou à penitente que portar-se bem é sempre vantajoso; que, a longo prazo, o mal, embora acompanhado de triunfos brilhantes, acaba por infligir à criatura certo grau de pena sem esperar pelas da outra vida, que são infalíveis.
— Faça de conta — disse-lhe também — que é outra mulher, que morreu e ressuscitou em outro mundo. Se algum dia encontrar por aí as pessoas que naquela vida passada a arrastaram à perdição, imagine que são fantasmas, sombras, exatamente assim, e nem sequer olhe para elas.
Por fim recomendou-lhe a devoção à Santíssima Virgem, como exercício saudável do espírito e predisposição às boas ações. A penitente ficou muito alegre e, no dia em que comungou, mostrou tranquilidade que nunca antes possuíra.
A despedida das monjas foi muito sentida. Fortunata pôs-se a chorar. Suas companheiras Belén e Felisa deram-lhe beijos, presentearam-na com estampinhas e medalhas e garantiram que rezariam por ela. Dona Manolita mostrou-se invejosa e desconsolada. Também sairia, pois só estava ali por engano; logo as coisas se esclareceriam, e o asno do marido viria pedir-lhe perdão e tirá-la daquele cárcere. Sor Marcela, Sor Antonia, a Superiora e as demais madres mostraram-se muito afáveis com Fortunata, assegurando que ela era das recolhidas que menos trabalho lhes haviam dado. Despediram-na com tristeza de vê-la sair, mas felicitando-a pelo casamento e pelo bom fim que tivera sua reclusão.
Na sala esperavam Maximiliano e Dona Lupe, que a recolheram e levaram num coche de aluguel. Combinara-se de antemão conduzi-la à casa do noivo, coisa na verdade um pouco irregular; mas, como ela não tinha em Madri parentes, pelo menos conhecidos, Dona Lupe não viu solução melhor para o problema da hospedagem. O casamento se realizaria na segunda-feira, 1º de outubro, dois dias depois da saída das Micaelas.
A senhora de Jáuregui sentia o gozo inefável do escultor eminente a quem entregam um pedaço de cera e dizem que modele o melhor que puder. Suas aptidões educativas tinham enfim matéria macia em que empregar-se. De uma selvagem em toda a extensão da palavra, formaria uma senhora, fazendo-a à sua imagem e semelhança. Tinha de ensinar-lhe tudo: modos, linguagem, conduta. Quanto maior a pobreza de educação revelada pela aluna, mais gozava a mestra com as perspectivas e ilusões de seu plano.
Naquela mesma manhã, enquanto almoçavam, teve ocasião, com tanta alegria na alma como dignidade no semblante, de começar a aplicar seus ensinamentos.
— Não se diz armeijoas, e sim amêijoas. Filha, é preciso acostumar-se a falar como Deus manda.
Dona Lupe queria que Fortunata a reconhecesse como diretora de suas ações no terreno moral e social e mostrava, desde os primeiros momentos, severidade não isenta de tolerância, como convém a professores que conhecem perfeitamente a obrigação.
Destinaram-lhe um aposento contíguo à alcova da senhora, que o usava como guarda-roupa. Havia ali tantos cacarecos e trastes que a hóspede mal podia mover-se; mas dois dias passam de qualquer maneira. Durante aqueles dois dias, a jovem ficou muito constrangida diante da futura tia, porque esta não descia do trípode nem cessava de corrigi-la; Fortunata raramente abria a boca sem que a outra lhe advertisse alguma coisa, ora referente à pronúncia, ora à maneira de conduzir-se, mostrando-se sempre autoritária, embora com suavidade estudada.
— Nos conventos — dizia — corrigem-se muitos defeitos, mas também se adquirem modos acanhados. Solte-se e, quando cumprimentar as visitas, faça-o com serenidade, sem atropelar-se.
Essas coisas punham Fortunata de mau humor e aumentavam seu acanhamento.
Considerava que, quando estivesse em sua casa, se emanciparia daquela tutela incômoda, sem choque, naturalmente, porque Dona Lupe lhe parecia, além disso, mulher de grande utilidade, que sabia muito e aconselhava coisas bastante razoáveis.
Incomodavam Fortunata as visitas que, segundo ela, só iam por curiosidade. Dona Silvia não pudera resistir e aparecera em casa no mesmo dia em que a noiva saíra do convento. No dia seguinte foi Paquita Morejón, esposa de D. Basilio Andrés de la Caña; ambas pareceram a Fortunata impertinentes e intrometidas. Sua delicadeza pareceu-lhe afetada, como a de pessoas ordinárias empenhadas em não parecê-lo.
As visitas davam-lhe completas felicitações pelo casamento. Lia-se-lhes nos olhos este pensamento: “Que bela pechincha a senhora conseguiu!” A esposa de D. Basilio repetiu a visita no segundo dia. Ia vestida com farrapos de seda mal arranjados, querendo aparentar. Tornou-se muito pegajosa; queria intimidade e elogiava a beleza da noiva como meio indireto de exprimir as deficiências morais dela.
Outra visita notável foi a de Juan Pablo, levado pelo irmão. Dona Lupe e o mais velho dos Rubín não se falavam depois da grande briga que tiveram na partilha da herança. Para grande surpresa da noiva, Juan Pablo foi afetuoso com ela. Dir-se-ia que tentava fazer a tia morrer de raiva, concedendo benevolência à pessoa de quem ela dissera tantas maldades. Durante a visita, que não foi breve, Fortunata sentou-se na beirada de uma cadeira como uma camponesa, um tanto aturdida e sem saber o que dizer para sustentar a conversa com homem que se exprimia tão bem. Ao despedir-se, Juan Pablo apertou-lhe fortemente a mão e disse que assistiria ao casamento.
Depois, tia e sobrinha foram ver a casa conjugal. Dona Lupe mostrou-lhe um por um os móveis, fazendo notar como eram bons e como sua disposição, determinada por ela, não podia ser mais acertada. O juízo sobre cada parte da casa, sobre os trastes e sua distribuição, Dona Lupe já o dava antecipadamente, de modo que à outra não restasse dizer mais que:
— Sim... é verdade...
De volta, já avançada a tarde, à calle de Raimundo Lulio, ocuparam-se em preparar várias coisas para o dia seguinte. Maximiliano fora convidar alguns amigos, e Dona Lupe também saiu, dizendo que voltaria antes do anoitecer. Fortunata ficou sozinha e pôs-se a fazer alguns pequenos ajustes no vestido de gorgorão preto que usaria na cerimônia. Não tinha outra companhia além de Papitos, que escapava da cozinha para pôr-se ao lado da senhorita, cuja beleza tanto admirava. O penteado era a principal causa do espanto da menina, que daria um dedo da mão para poder imitá-lo. Sentou-se a seu lado e não se cansava de contemplá-la, enchendo-se de alegria quando a outra lhe pedia ajuda, ainda que para a coisa mais insignificante. Nesse momento chamaram à porta; a macaquinha correu a abrir, e Fortunata não soube o que lhe acontecia ao ver Mauricia, a Dura, entrar na sala.
O sentimento que aquela mulher lhe inspirara nas Micaelas, a inexplicável mistura de terror e atração, produziu-se naquele instante em sua alma com força ainda maior. Mauricia infundia-lhe medo e, ao mesmo tempo, uma simpatia irresistível e misteriosa, como se lhe sugerisse a ideia de coisas condenáveis e, ao mesmo tempo, gratas ao coração. Olhou a amiga sem falar, e esta se aproximou sorrindo, como se quisesse dizer: “A última coisa que você esperava era ver-me aqui agora...”
— É mesmo você?...
Observou que Mauricia usava sapatos muito bonitos de couro amarelo, atados com cordões azuis terminados em pompons.
— E como está bem calçada!...
— O que pensava?
Depois olhou-lhe o rosto. Estava muito pálido; os olhos pareciam maiores e mais traiçoeiros, espreitando nas profundas cavidades violáceas sob as sobrancelhas retas e negras. O nariz parecia de marfim, a boca mais acentuada e as duas pregas que a limitavam mais enérgicas. Todo o semblante revelava melancolia e profundidade de pensamento; ao menos assim o considerou Fortunata, sem saber exprimir por quê. Mauricia trazia um xale novo e, na cabeça, lenço de seda com faixas azul-turquesa e vermelho vivo; avental aos quadrinhos, saia de tartã e, na mão, um embrulho atado pelas quatro pontas de um lenço.
— Dona Lupe não está? — perguntou, sentando-se sem cerimônia.
— Já disse que não — replicou Papitos de mau modo.
— Não perguntei a você, intrometida, mete-se-em-tudo. Vá para sua cozinha e deixe-nos em paz.
Papitos saiu resmungando.
— Que traz por aqui? — perguntou Fortunata, que desde que a vira entrar sentia palpitações muito fortes.
— Nada... Voltei a vender peças por comissão, e trouxe uns xales para aquela tia confeiteira ver...
— Que maneira de falar! Corrija-se, mulher... Já esqueceu o que fez no convento? Que escândalo! Senti muito por você. Naquele dia passei mal.
— Menina, nem me fale... Pois é, transtornei-me de verdade. Mas qualquer uma tem uma tentação. E então, disse muitas barbaridades? Não me lembro. Não estava em mim, não sabia o que fazia. Só me lembro de ter visto a Pura e Imaculada; depois quis entrar na igreja e pegar o Santíssimo Sacramento... sonhei que comia a hóstia... Nunca me deu um acesso tão forte, menina... Que coisas ocorrem à gente quando o demônio sobe à cabeça! Acredite porque eu digo: quando o juízo se serenou, fiquei envergonhada... O único de quem guardei rancor foi o tio capelão. Eu o teria comido aos bocados. Das senhoras, não. Tive vontade de ir pedir-lhes perdão; mas, por causa da dignidá, não fui. O que mais me doía era ter atirado um tijolo em Dona Guillermina. Isso não consigo perdoar em mim, não consigo... Peguei-lhe tanto medo que, quando a vejo vindo pela rua, toda a cor me sobe ao rosto e tomo outro caminho para que não me veja. Disse à minha irmã que me perdoa, veja só, e que ainda pretende fazer alguma coisa por mim.
— É que você é terrível — disse Fortunata. — Se não perder esse vício, vai acabar mal.
— Deixe, mulher, e não diga nada... Desde que saí das Micaelas não tornei a provar. Agora sou, por assim dizer, outra. Não quero morar com minha irmã, porque Juan Antonio e eu não nos damos; mas ninguém me ganha em decência agora. Acredite porque eu digo. Não torno a provar. Se não, você verá... Mudando de assunto, já sei que casa amanhã.
— Como soube?
— Ora, eu cá... Tudo se sabe — replicou a Dura com malícia. — A loteria lhe caiu no colo. Fico contente, porque gosto de você.
Nesse momento Mauricia inclinou-se bruscamente e apanhou do chão um objeto pequeno. Era um botão.
— Bom presságio, olhe — disse, mostrando-o a Fortunata. — Sinal de que será feliz.
— Não acredite em bruxarias.
— Não acreditar?... Parece boba. Quando a gente encontra um botão, quer dizer que alguma coisa vai acontecer. Se for como este, branco e com quatro buraquinhos, é bom sinal; se for preto e tiver três, é mau.
— Isso é disparate.
— Menina, é o Evangelho. Já experimentei um mundo de vezes. Agora você vai ficar por cima. Sabe de uma coisa?
Disse estas últimas palavras com tal intenção que Fortunata, cuja ansiedade crescia sem saber por quê, percebeu por trás daquele sabe de uma coisa? uma confidência de extraordinária gravidade.
— O quê?
— Você está queimando.
— Como assim, queimando?
— Nada, mulher; está queimando porque o tem muito perto. Gosta das coisas claras, não é? Pois lá vai. Voltou de Valência muito bem e muito apaixonado por você. O que eu dizia, menina: bastou saber que você estava nas Micaelas fazendo-se de católica para o zelo dele acender; todas as tardes passava por ali no faetonte. Os homens são assim: desprezam o que têm; aquilo que veem guardado a chave e cadeados, isso, isso é que lhes dá vontade.
— Deixe disso, deixe disso... — disse Fortunata, querendo parecer serena. — Não venha com histórias.
— Você verá.
— Como assim, verei? Ora, você tem cada uma...
Mauricia pôs-se a rir com aquele desembaraço que à amiga parecia o humor de um belo e tentador demônio. No meio do riso infernal brotava esta frase, que punha os cabelos de Fortunata em pé:
— Digo?... Digo?...
— Mas o quê?
Olharam-se. Dentro das cavidades côncavas e arroxeadas dos olhos, as pupilas de Mauricia espreitavam com ferocidade de ave de rapina.
— Digo?... Pois o tal sabe tomar o caminho mais curto. É esperto e decidido. Armou-lhe uma cilada, e você vai cair... Já pôs uma perninha dentro.
— Eu?...
— Sim, você. Alugou o apartamento da esquerda na casa onde vai morar; o seu é o da direita.
— Bah!... Não diga desatinos — replicou Fortunata, querendo bancar a valente.
A saia de gorgorão preto que ajustava deslizou-lhe dos joelhos ao chão.
— Como ouviu, menina... Está ali. Assim que entrar em casa, sentirá a respiração dele.
— Deixe, deixe... Não quero ouvir.
— Eu sei o que digo. Para você saber: há meia hora estive falando com ele na casa de uma amiga. Se você não cair na armadilha, creio que o pobrezinho estoura... de tão transtornado por você.
— O apartamento ao lado... à esquerda quando entramos... o meu fica desta mão; de modo que... Não me enlouqueça...
— Quem o alugou por conta dele foi uma chamada Cirila... Você não a conhece; eu, sim. Também foi corretora de joias e teve pensão. É casada com um homem que trabalhou na polícia secreta, e agora seu senhor conseguiu colocá-lo na estrada de ferro.
Fortunata sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. A cabeça ardia.
— Tudo isso é história... Pensa que vou acreditar nessas bolas?... Como se ele se lembrasse de mim!... Nem me faz falta.
— Você verá. Ai, que rapaz! Dá pena vê-lo... louquinho por você... e arrependido da partida serrana que lhe pregou. Se pudesse reparar, reparava. Acredite porque sou eu que digo.
Nesse momento entrou Papitos, sob pretexto de perguntar alguma coisa à senhorita, mas realmente com o único fim de bisbilhotar. Assim que Mauricia a viu, repreendeu-a da maneira mais despótica.
— Olhe, menina, se não for embora, verá.
Ameaçou-a com um movimento do braço, precursor de grande bofetada; mas a macaquinha rebelou-se, gritando:
— Não estou com vontade... E a senhora com isso?... Ora essa!
Fortunata disse:
— Papitos, vá para a cozinha.
A menina obedeceu, embora de muito má vontade.
— Pois eu... — prosseguiu Fortunata —, se for verdade, direi a meu marido que alugue outra casa.
— Terá de cantar-lhe o motivo.
— Cantarei... ora.
— Bela escandalheira armaria... Nada, filha, onde quer que vá, põem-lhe a armadilha, e pum!... dá na mesma.
— Pois então... não caso — disse a noiva, já no cúmulo da confusão.
— Ora! Por mais tola que queira ficar, não fará isso... Pensa que semelhantes figos maduros caem todos os dias? Tire essa ideia da cabeça... Casadinha, pode fazer o que quiser, guardando as aparências da conveniência. Mulher solteira é escrava; não pode nem se mexer. Quem tem um pente de marido tem bula para tudo.
Fortunata calava-se, olhando vagamente o chão, o queixo apoiado na mão.
— Que está olhando? — perguntou a Dura, inclinando-se. — Ah, outro botão... e este é preto, com três buracos... Mau sinal, menina. Quer dizer que, se você não casar, merece ser açoitada.
Apanhando o botão, examinava-o de perto. Anoitecia, e a sala ficava escura. Pouco depois Fortunata só via o vulto da amiga e os sapatos amarelos. Começava a ter medo dela; mas não desejava que partisse, e sim que falasse mais e mais do mesmo assunto temeroso.
— Digo que não caso — repetiu a jovem, sentindo renovar-se na alma o horror ao casamento com o rapaz Rubín.
E as ideias tão trabalhosamente construídas nas Micaelas desconjuntaram-se de repente. Aquele pequeno altar levantado à força de meditações e exercícios da razão rachava como se o chão tremesse.
— O apartamento da esquerda... de modo que... Isso é estar vendida... Uma porta aqui, outra ali...
— Como lhe digo: uma perninha na armadilha; só falta meter a outra.
Tornou a rir com aquela franqueza insolente que, coisa estranha, agradava a Fortunata, despertando-lhe na alma instintos de doce perversidade.
— Nada, eu não caso, não caso, e pronto! — declarou a noiva, levantando-se e caminhando de um lado para outro, como se quisesse, com o movimento, infundir-se a energia que lhe faltava.
— Se disser isso outra vez... — acrescentou Mauricia, fazendo gesto de ameaça burlesca. — Pensa que uma pechincha dessas se encontra atrás de cada esquina? Nada, menina, é hora de casar. Muitas queriam ver-se nesse espelho. E, para acabar, case e trate de não cair na armadilha. Vamos, ponha-se a ser honrada, que Deus já fez mais difícil... Escute o que digo, que é o Evangelho, menina, o puro Evangelho.
Fortunata parou diante da amiga, e esta obrigou-a a sentar-se novamente a seu lado.
— Nada, você casa... porque casar é sua salvação. Senão, vai passar de mão em mão até a consumação dos séculos. Não seja boba; se quiser ser honrada, seja, filha. Não se preocupe: ninguém lhe porá um punhal no peito para fazê-la pecar.
— Pois sim — disse Fortunata, animando-se —, que me importa a armadilha? Se eu não quiser cair...
— Claro... O outro ali ao lado... que um raio o parta. Que tem você com isso? Diga: “Sou honrada”, e ninguém a tira daí. Poucos dias depois, diz ao esposo de sua alma que não gosta da casa e vocês alugam outra.
— Diga que sim... alugamos outra, e acaba-se a armadilha — observou a noiva, levando a sério os conselhos da amiga.
— Verdade é que ele não se acovardará; onde você for, ele irá atrás. Acredite que está louco. E digo mais: a criada que você tem, essa Patricia que o senhor de Torquemada recomendou a Dona Lupe, está comprada.
— Comprada!... Ah!... — exclamou Fortunata com novo terror. — Eis por que aquela mulher não me agradou quando a vi esta manhã. É muito aduladora, muito afetada, e tem todo o ar de uma serpente... Pois bem, direi a meu marido que não gosto dela e amanhã mesmo a despeço.
— Isso... e viva o caráter. Veja bem o que digo: sempre que quiser ser honrada, seja; mas desistir de casar, desistir de casar!, não deixe isso passar pela cabeça, filha de minha alma.
Fortunata parecia recuperar a calma com a exortação da amiga, expressa de maneira carinhosa e fraternal.
— Ocorre-me outra coisa — indicou depois, com a alegria do náufrago que vê uma tábua flutuando perto. — Direi a meu marido que estou doente e que me leve para viver naquele povoado onde recebeu a herança.
— Povoado!... E que vai fazer num povoado? — disse Mauricia com expressão de desconsolo, como mãe que cuida do futuro da filha. — Veja e acredite porque eu digo: é mais difícil ser honrada num povoado pequeno que nestas cidades grandes, onde há muita gente, porque nos povoados a gente se aborrece; e, como só existem dois ou três sujeitos finos e você está sempre vendo-os, que pente!, acaba apaixonando-se por algum. Conheço bem os povoados de pouca gente. Acontece que o prefeito, ou se não o prefeito o médico, ou se não o juiz, se houver, fazem seu coração bater, e nem lhe conto. Em último caso, você se aborrece tanto que lhe dá um acesso e cai com o senhor padre...
— Deixe, deixe, que nojo!
— Pois, menina, não pense em sair de Madri — acrescentou a fera, pegando-a por um braço, puxando-a para si e sentando-a nos joelhos. — Filha de minha vida, de quem eu gosto? Só de você. O que digo é para seu bem.
Deixe-se levar; case, e, se houver armadilha, que haja. O que deve acontecer, acontece... Deixe correr e faça caso de mim, que tomei carinho por você e sou exatamente como sua mãe.
Fortunata ia responder alguma coisa, mas a campainha anunciou que Dona Lupe se aproximava.
Quando esta entrou na sala, já sabia por Papitos quem estava ali.
— Onde está aquela louca? — entrou dizendo. — Mas que escuridão! Não vejo nada. Mauricia...
— Aqui estou, minha senhora Dona Lupe. Bem podiam trazer-nos uma luz.
Fortunata foi buscar a luz, e enquanto isso a viúva disse à corretora:
— Que traz por aqui? Quanto tempo!... E então? Emendou-se? Porque o padre Pintado contou a Nicolás horrores a seu respeito...
— Não faça caso, senhora. D. León é muito fabulista e fala mais do que deve. Foi um impulso que tive.
— Belos impulsos!... E que traz aí?
Fortunata entrou com a lâmpada acesa, e a fera começou a mostrar xales de Manila, uma tapeçaria japonesa, uma colcha de malha e chenille.
— Olhe, olhe que primores. Este xale é da senhora marquesa de Tellería. Dá-o por um pedaço de pão. Anime-se, senhora, para fazer amanhã um presente à sobrinha, e que assim seja o começamento de todas as felicidades.
— Deixe disso!... Para que esta quer xales? Belos tempos! E qual é o preço?... Cinquenta duros! Ah, ah... que graça! Tenho alguns do próprio Senquá, muito mais floridos que esse, e vendo por vinte e cinco.
— Gostaria de vê-los... Sabe o que digo? Que eu caia morta aqui mesmo se não é verdade que me ofereceram trinta e oito e não quis dar... Olhe, por estas cruzes.
E, fazendo a cruz com dois dedos, beijou-os.
— Veio ao lugar certo!... Se eu estou cheia de xales...
— Mas não serão como este.
— Melhores, cem vezes melhores... Mas alegro-me que tenha vindo: vou dar-lhe um conjunto de joias para vender por mim.
Continuaram regateando desse modo até que entrou Maximiliano, e Dona Lupe mandou servir a sopa. O noivo, sabendo que havia visita na sala, aproximou-se devagar da porta para ver quem era.
— É Mauricia — disse-lhe a prometida, saindo ao seu encontro.
Ambos foram para a sala de jantar e esperaram ali que a tia despachasse a corretora. Quando esta saiu, Fortunata não quis ir despedir-se, por medo de que dissesse alguma coisa capaz de comprometê-la.
Maximiliano falou à futura esposa dos convites que fizera, e ela o ouvia como quem ouve chover; o jovem, porém, não reparou na distração, de tão exaltado que estava. Como era muito idealista, queria desempenhar o papel de noivo segundo todas as regras recomendadas pelo costume; embora se visse sozinho com a amada na sala de jantar, tratava-a com as atenções impostas pelo pudor mais requintado. Nem sequer se decidia a beijá-la, deleitando-se com a ideia de poder fazê-lo à vontade depois de recebidas as bênçãos da Igreja, e até de fazer-lhe outras carícias com a falsa ilusão de nunca as ter feito antes.
Enquanto comiam, Fortunata sentiu-se inundada por uma tristeza que lhe custava dissimular. O estado próximo inspirava-lhe tanto medo e repugnância que lhe passou pela cabeça a ideia de fugir da casa, e disse consigo: “Não me levam à igreja nem amarrada.” Dona Lupe, que gostava tanto de representar papéis e de pôr em todos os atos a correção social, não queria que os noivos ficassem sozinhos nem um instante. Era necessário empregar uma ficção moral como tributo à própria moral e como prova da importância que devemos dar à forma em todas as nossas ações.
Fortunata passou muito desperta aquela noite. Às vezes chorava como Madalena; depois punha-se a recordar tudo quanto lhe dissera o padre Pintado e o remédio da devoção à Santíssima Virgem. Por fim adormeceu rezando e sonhou que a Virgem a casava, não com Maxi, mas com seu verdadeiro homem, com aquele que era seu apesar de todos os pesares. Despertou sobressaltada, dizendo:
— Não foi isso o combinado.
No delírio de sua insônia febril, pensou que D. León a enganara e que a Virgem passava para o lado do inimigo. “Pois para isso não eram necessários tantos Padres-Nossos e tantas Ave-Marias...” Pela manhã ria desses disparates, e suas ideias ficaram mais serenas. Viu claramente que era loucura não seguir o caminho por onde a conduziam, sem dúvida o melhor.
— Vamos!, honrada a todo custo. Já me defenderei de quantas ciladas quiserem armar-me.
Dona Lupe deixou as penas ociosas às cinco da manhã, quando ainda não clareara, e arrancou Papitos da cama, puxando-lhe uma orelha, para que acendesse o fogo. Pequena tarefa a daquele dia: almoço para doze pessoas! Chamou Fortunata para começar a arrumar-se, e concordaram em deixar Maxi dormir até a hora exata, porque madrugar lhe fazia mal. Deu várias ordens à noiva para que trabalhasse na cozinha e foi ao mercado com Papitos, levando o maior cesto da casa.
O que Dona Lupe chamava as miudezas era excelente: rins salteados, miolos, pescada ou pargos, se os houvesse, costeletas de vitela, filé à inglesa... Isso ficava por conta da viúva, e Fortunata comprometeu-se a fazer uma paella. Às oito Dona Lupe já estava de volta, e parecia pólvora, tamanha era sua atividade. Às dez deviam ir à igreja.
— Mas não, não irei, porque, se for, Papitos certamente me fará alguma desgraça.
A sorte foi Patricia aparecer; então a senhora decidiu assistir à cerimônia.
A noiva vestiu o traje de seda preta, e Dona Lupe empenhou-se em plantar-lhe no peito um ramo de flor de laranjeira. Houve discussão: que sim, que não. Mas a esposa de D. Basilio trouxera o ramo, e não se podia desfeiteá-la. Era, aliás, o mesmo que usara no dia do próprio casamento. Fortunata estava lindíssima, e Papitos procurava mil pretextos para ir ao gabinete admirá-la, nem que fosse por um instante.
“Esta sim não tem algodão na frente”, pensava.
A senhora de Jáuregui pôs seu vestido de visita adornado com contas, e Dona Silvia apareceu com xale de Manila, o que não agradou muito à viúva, porque parecia casamento de aldeia. Torquemada estava muito elegante; usava chapéu-coco novo, a gola da camisa um pouco suja, gravata preta desfiada e nela um alfinete com magnífica pérola que pertencera à marquesa de Casa-Bojío. A bengala de rotim e as enormes joelheiras das calças terminavam de caracterizá-lo. Era homem muito humorista e tinha um baralho de piadas sobre o tempo. Quando chovia torrencialmente, entrava dizendo:
— Que poeira terrível!
Naquele dia fazia muito calor e secura, motivo suficiente para que meu homem se exibisse:
— Que nevada está caindo!
Só Dona Silvia e Dona Lupe riam dessas graças.
Maxi vestia a sobrecasaca nova e a cartola que pôs pela primeira vez naquele dia. Estranhava muito aquele desusado aparelho e, quando via a própria sombra, parecia-lhe que tinha três ou quatro palmos de altura. Dentro de casa, pensava tocar o teto com o chapéu. Em matéria de cartolas, porém, a mais notável era a de D. Basilio Andrés de la Caña, atrasada pelo menos catorze modas e datada do tempo em que Bravo Murillo o nomeara ordenador de pagamentos. As botas olhavam com inveja o lustro do chapéu. Nicolás Rubín apresentou-se menos desasseado que de costume, lamentando não ter podido trazer D. León. Ulmus Sylvestris, Quercus gigantea e Pseudo Narcissus odoripherus apareceram muito elegantes, de sobrecasaca curta, alguns com luvas recém-compradas, e cercaram a noiva, felicitaram-na e até lhe fizeram brincadeiras, deixando-a muito apertada para responder. Por fim Dona Lupe deu a voz de comando, e todos para a igreja.
Fortunata tinha a boca extraordinariamente amarga, como se mastigasse pedacinhos de quina. Ao entrar na paróquia, sentiu medo horrível. Imaginava que seu inimigo estava escondido atrás de um pilar. Se ouvia passos, julgava que eram os dele. A cerimônia realizou-se na sacristia e durou pouco. Os símbolos do Sacramento impressionaram muito a noiva, que por pouco não caiu redonda no chão. Ao mesmo tempo, sentia dentro de si uma luz nova, algo como um abalo, o choque da dignidade que entrava. A ideia do senhorio endireitou-lhe o espírito, semelhante a coluna inclinada e prestes a perder o equilíbrio. Casada! Honrada, ou em condições de sê-lo! Reconhecia-se outra. Essas ideias, talvez procedentes de fenômeno espasmódico, confortaram-na; mas ao sair tornou a ser acometida pelo medo. E se o inimigo aparecesse? Mauricia dissera que ele rondava, rondava, rondava... Virgem, valei-me! Mas que coisas! A Santíssima Maria agora protegia o inimigo! Não conseguia expulsar essa ideia extravagante. Como era possível que a Virgem defendesse o pecado? Tremendo disparate; mas, disparate ou não, não havia meio de destruí-lo.
De volta à casa, Dona Lupe não cabia em si; de tal modo crescia e se multiplicava para atender a tantas e tão diferentes coisas. Ora recomendava em voz baixa a Fortunata que não fosse tão displicente com Dona Silvia; ora corria à sala de jantar para arrumar a mesa; ora se envolvia em questões com Papitos e Patricia, parecendo estar ao mesmo tempo na cozinha, na sala, na despensa e nos corredores. Dir-se-ia haver na casa três ou quatro viúvas de Jáuregui funcionando simultaneamente. Sua mente se aquecia diante da temerosa possibilidade de o almoço sair mal. Mas, se saísse bem, que triunfo! O coração batia-lhe com força, comunicando calor e febre a toda a pessoa, e até a bola de algodão parecia receber sua parcela de vida, palpitando e permitindo-se doer.
Por fim, tudo ficou pronto. Juan Pablo, que não fora à igreja, mas se juntara à comitiva no regresso, procurava pretexto para retirar-se. Entrou na sala de jantar quando soava o arrastar das cadeiras em que os comensais se acomodavam e contou-os.
— Vou-me embora — disse — para não fazer treze.
Alguns protestaram contra semelhante superstição; outros aplaudiram. A D. Basilio isso parecia incompatível com as luzes do século, e Dona Lupe pensava o mesmo; mas cuidou muito de não deter o sobrinho, pela aversão que lhe tinha. Juan Pablo foi-se, ficando à mesa os comensais no tranquilizador número de doze.
Durante o almoço, longo e fastidioso, Fortunata continuou muito acanhada, sem se atrever a falar, ou fazendo-o com grande desajeito quando não havia outro remédio. Temia não comer com suficiente finura e revelar demais sua pouca educação. O medo de parecer ordinária fazia as palavras deterem-se em seus lábios no instante de serem pronunciadas. Dona Lupe, sentada a seu lado, estava pronta para auxiliá-la se fosse preciso e, na maioria dos casos, respondia por ela quando lhe perguntavam alguma coisa ou soprava discretamente o que devia dizer.
Fortunata e Dona Lupe notaram ao mesmo tempo que Maximiliano não se sentia bem. O pobrezinho queria enganar a si mesmo, fazendo-se de valente; mas por fim se rendeu.
— Você está com enxaqueca — disse-lhe a tia.
— Estou — replicou ele com desânimo, levando a mão aos olhos —, mas queria esquecê-la, para ver se, não lhe dando atenção, passava. É inútil; já não escapo. Parece que a cabeça se abre. Claro, a agitação de ontem, a noite ruim; às três da manhã despertei pensando que era a hora e não tornei a dormir.
Houve à mesa um coro compassivo. Todos dirigiam ao pobre enxaquecoso olhares de pena, e alguns propunham remédios extravagantes.
— É mal de família — observou Nicolás — e nada o tira. As minhas foram tão terríveis que, no dia em que me tocava, não podia deixar de comparar-me a São Pedro Mártir, com o machado cravado na cabeça. Há algum tempo, porém, aliviam-se com presunto.
— Como assim?... Aplicando uma fatia na cabeça?
— Não, filha... comendo.
— Ah, uso interno...
— É melhor retirar-se — disse Fortunata ao marido, cujo sofrimento crescia a cada instante.
Dona Lupe foi da mesma opinião, e Maximiliano pediu licença para sair, concedida com outro coro de lamentações. O almoço já tocava ao fim. Fortunata levantou-se para acompanhar o marido e, embora lamentasse o motivo, alegrou-se de abandonar a mesa, livrando-se da etiqueta e do suplício dos olhares de tanta gente. Maxi deitou-se; a mulher cobriu-o bem e, fechando as folhas da janela, foi à cozinha preparar chá. Ali encontrou Dona Lupe, que lhe disse:
— Primeiro o café. Já estão esperando. Ajude-me e depois fará o chá para seu marido. O que ele mais precisa é descanso.
A conversa depois da refeição foi longa. D. Basilio e Nicolás começaram a discutir o carlismo, a guerra e sua provável solução; armou-se grande confusão, porque intervieram os farmacêuticos, atrozmente liberais, e por pouco não atiraram os pratos à cabeça uns dos outros. Torquemada procurava pacificar, e entre todos incomodavam muito o doente com o barulho. Por fim, por volta das quatro, foram saindo em fila; a recém-casada teve de ouvir as felicitações melosas que lhe dirigiam, misturadas com brincadeiras de mau gosto, e responder a tudo como Deus lhe permitia.
Maxi passou muito mal a tarde; teve vômitos e foi acometido daquele formigamento epiléptico que mais o incomodava. Ao anoitecer, cismou que devia ir para a casa nova, e a mulher e a tia não conseguiam tirar-lhe a ideia da cabeça.
— Veja que vai piorar. Durma aqui, e amanhã...
— Não, não quero. Sinto algum alívio. O pior período já passou. Agora a dor está como indecisa e, dentro de meia hora, aparecerá do lado direito, deixando livre o esquerdo. Vamos para casa; deito-me entre os lençóis e ali passarei o que resta.
Fortunata insistia para que não se movesse, mas ele levantou-se e vestiu a capa. Não houve outro remédio senão partir para a outra casa.
— Tia — disse Maxi —, não se esqueça do frasco de láudano. Pegue-o você, Fortunata, e leve. Quando me deitar, tentarei dormir; se não conseguir, porá seis gotas, cuidado... só seis gotas desse remédio num copo d’água e me dará para beber.
Muito agasalhado, com a cabeça bem envolvida para não apanhar frio, levaram-no à casa conjugal, estreada em condições pouco lisonjeiras. A distância entre os dois domicílios era muito curta. Ao atravessar a calle de Santa Feliciana, Fortunata julgou ver... juraria... Uma rajada fria percorreu-lhe o corpo. Não se atreveu, porém, a olhar para trás a fim de certificar-se. Provavelmente não passava de delírio e perturbação de sua alma, motivados pelas mil histórias que Mauricia lhe contara.
Chegaram e, como tudo estava preparado para passar a noite, não sentiram falta de nada. Só haviam esquecido umas velas, e Patricia desceu para buscá-las. Depois de Maxi se deitar, aconteceu o que se temia: piorou, e tornaram os vômitos e a agitação espasmódica.
— Você não quer me ouvir... Quanto melhor teria sido dormir em casa esta noite! Aí está o resultado da teimosia.
Depois de exprimir dessa maneira sua opinião autoritária, Dona Lupe, vendo o sobrinho mais tranquilo e como vencido pelo torpor, começou a dar instruções a Fortunata sobre o governo da casa. Não aconselhava; dispunha. De tanto dar ordens, chegou a dizer o que devia mandar trazer do mercado no dia seguinte, no outro e no outro.
— E cuidado para não deixar de conferir a conta da moça, até o último cêntimo, pois Torquemada diz que não responde por ela e não se deve confiar... Se faltar algum utensílio na cozinha, não compre; eu o comprarei, porque a você cobram o dobro... Nada de comprar querosene em latas; o fogo me horroriza. Desde amanhã virá o vendedor de querosene de casa, e você toma o que se gastar no dia... Batatas e sabão, uma arroba de cada. Cuidado para não ultrapassar um diário de dezesseis reais, no máximo... No dia em que convier um extraordinário, avise-me... Irei com Papitos à plaza de San Ildefonso e trarei o que me parecer bom... Amanhã dê a Maxi dois ovinhos passados, já sabe, e um caldinho. Nos outros dias, sua costeletinha com batatas fritas. Nunca compre pescada em Chamberí. Papitos trará. Muito cuidado com este açougueiro, que é mais ladrão que Judas. Se tiver alguma questão com ele, diga meu nome e o verá tremer...
E por aí continuou admoestando e prevenindo, com ares de verdadeira senhora e chanceler de toda a família. Por sorte foi-se embora.
Eram cerca de dez horas quando a recém-casada ficou sozinha com o marido e Patricia. Maxi não acabava de tranquilizar-se, e foi preciso recorrer ao remédio heroico. O próprio doente o pediu, deixando ouvir uma voz queixosa entre os lençóis, voz que, por sua tenuidade, não parecia corresponder à grandeza do leito. Fortunata pegou o conta-gotas e, aproximando a luz, preparou a poção. Em vez de sete gotas, não pôs mais que cinco. Tinha medo daquele remédio. Maxi tomou-o e, pouco depois, adormeceu de boca aberta, fazendo uma careta que podia ser tanto de dor quanto de ironia.
Ao ver o marido adormecido, pareceu a Fortunata que ele se afastava; encontrou-se só, cercada por um silêncio traiçoeiro e uma quietude pérfida. Deu várias voltas pela casa sem afastar o pensamento nem os olhos das paredes que separavam seu apartamento do vizinho, e essas paredes lhe pareceram transparentes, como gazes finas que permitissem ver tudo quanto se passava do outro lado. Caminhando nas pontas dos pés pelos corredores e pela sala, percebeu rumor de vozes. Se aplicasse o ouvido à parede, talvez escutasse claramente; mas não se atreveu. Pela janela da sala de jantar, que dava para um pátio comum, via-se outra janela igual, com cortininhas nos vidros. Ali brilhava uma lâmpada de cúpula verde, e ao redor dela passavam vultos, sombras, imagens imprecisas de pessoas cujos rostos não se distinguiam.
Depois dessas observações, foi à cozinha, onde a criada preparava os utensílios para o dia seguinte. Era tão laboriosa e tão experimentada no ofício que a própria Dona Lupe se surpreendia ao vê-la trabalhar, pois despachava tudo num dizer Jesus, sem atrapalhar-se. Fortunata, porém, sentia antipatia por aquela amabilidade enjoativa, atrás da qual entrevia a traição.
— Patricia — disse-lhe a patroa, fingindo curiosidade indiferente. — Sabe que gente é essa do apartamento ao lado?
— Senhorita — replicou a criada, sem deixá-la concluir —, como estou aqui desde a véspera de a senhora sair do convento, já conheço toda a vizinhança... sabe? Nesse apartamento mora uma senhora muito fina chamada Dona Cirila. O marido é não sei o quê da estrada de ferro. Usa um boné com galões e letras. Esta noite, quando desci para buscar as velas, encontrei a vizinha na loja, e ela me perguntou pelo senhorito. Disse que, se precisássemos de alguma coisa... sabe? É muito amável. Ontem entrou aqui para ver a casa, e eu passei à dela... Diz que tem muita vontade de fazer-lhe uma visita.
— A mim! — replicou Fortunata, sentando-se numa cadeira da cozinha junto à mesa de pinho branco. — Como anda atrevido o mundo! E a senhora, para que se meteu lá sem mais nem menos?... Como sabia se eu queria ou não queria relações com essa gente?...
— Eu... senhorita... calculei que...
“Pronto, estou vendida”, pensou Fortunata, “e esta mulher é o próprio demônio.”
Ficou algum tempo meditando, até que Patricia, enquanto punha o grão-de-bico de molho, tirou-a da abstração com estas palavras manhosas:
— Dona Cirila me disse que a senhora é muito bonita, sabe?... que a viu esta manhã na igreja e achou-a muito simpática. Quando a tratar, verá que ela também se faz gostar. Diz que ficará muito contente se a senhora passar à casa dela quando quiser... com confiança; à noite jogam bisca até meia-noite.
— Eu passar lá!... Eu!
— Claro... e esta mesma noite pode passar, pois o senhorito dorme e ainda são só dez horas... Digo, se quiser distrair-se um pouco.
— Mas que está dizendo? Eu me distrair!
Fortunata teria cedido ao primeiro impulso de cólera se em sua alma não nascesse outro impulso de tolerância, unido a certo relaxamento da consciência. Calou-se, e naquele instante chamaram à porta.
— Estão chamando!... Não abra, não abra — disse, com pressentimento de perigo próximo.
— Por quê, senhorita?... Para que esses medos? Vou olhar pelo postigo.
Foi à entrada. Da cozinha, Fortunata ouviu cochichos à porta. Duraram pouco, e a criada voltou dizendo:
— Os vizinhos... Foi a própria senhorita Cirila quem chamou. Nada, queria saber se por acaso tínhamos torrões de açúcar... Disse que não. Perguntou como estava o senhorito. Respondi que dorme como um arganaz.
Fortunata saiu da cozinha sem dizer nada, a testa franzida e os lábios trêmulos. Foi à alcova e observou o marido, que dormia profundamente, pronunciando no delírio do ópio palavras amorosas entremeadas com termos de farmácia:
— Ídolo... De acetato de morfina, um centigrama... Céu da minha vida... Cloridrato de amônio, três gramas... dissolva-se...
Voltando à cozinha, mandou a criada deitar-se; mas a senhora Patria não tinha sono.
— Enquanto a senhorita não se deitar, para que hei de me deitar? Pode ser preciso alguma coisa.
E a muito marota queria entabular conversa com a patroa; esta, porém, não lhe respondia. De súbito, o ouvido alerta de Fortunata, cujo pensamento estava concentrado na cilada que julgava armada contra si, pareceu ouvir ruído na porta. Era como se lá fora experimentassem cautelosamente chaves para abri-la. Foi até lá morta de medo, e o ruído cessou quando se aproximou; não estava segura e chamou Patria:
— Juraria que há alguém na porta... Mas como, a senhora não passou o ferrolho?
Observou então que o ferrolho não estava corrido e o deslizou com muito cuidado para não fazer ruído.
— Ora, se eu confiasse na senhora para guardar a casa!... Veja, atenção... Não ouve um barulhinho, como se alguém estivesse mexendo na fechadura?... Vê? Agora empurram... O que é isso?
— Senhorita... sabe?, é o vento remexendo na escada. Não seja tão medrosa...
O mais particular era que a própria Fortunata, ao correr o ferrolho com tanto cuidado, sentira, no mais afastado esconderijo da alma, uma travessa vontade de tornar a abri-lo. Podia ser ilusão, mas acreditava ver, como se a porta fosse de vidro, a pessoa que julgava estar do outro lado. Reconhecia-o, coisa mais estranha!, na maneira de empurrar, de arranhar a fechadura, de experimentar uma chave que não servia. Por algum tempo, senhora e criada não se olharam. À primeira tremiam as mãos, e dentro do crânio andava um tumulto confuso. A criada fixava na senhora seus olhos de gata, e o sorriso irônico podia ser tanto o único aspecto cômico da cena como o mais terrível e dramático.
De repente, sem saber como, os olhares de criada e patroa se cruzaram, e num único olhar pareceram entender-se. Patria dizia com os olhinhos que arranhavam: “Abra, tola, e deixe de cerimônias.” A senhora dizia: “Acha bom que eu abra?... Pensa que...?”
Mas Fortunata foi de súbito vencida pelo decoro e sentiu um recuo de honra e dignidade.
— Se isto continuar — disse —, acordarei meu marido. Ah, já parece que o ladrão se retira; ladrão deve ser...
Tocou o ferrolho para certificar-se de que estava corrido e foi para a sala. Patricia voltou à cozinha.
“Em todo caso, é cedo demais”, pensou Fortunata, sentando-se numa cadeira e começando a cismar. Foi como uma concessão às ideias más que brotavam com tanta prontidão de seu cérebro, como saem do formigueiro as formigas em longa procissão negra e diligente. Depois tratou de recompor-se:
“Decididamente, amanhã digo a meu marido que não gosto da casa e que precisamos mudar. E ponho esta sem-vergonha na rua.”
Que coisas acontecem! De improviso, obedecendo a um movimento irresistível, quase puramente mecânico e fatal, Fortunata levantou-se, saiu da sala e aproximou-se da porta. Naquele ato, tudo quanto constitui a entidade moral desaparecera com o eclipse total da alma da infeliz mulher; havia apenas o impulso físico, e o pouco de espiritual que nele existia enganava-se a si próprio, julgando ser simples curiosidade. Aplicou o ouvido à grade... Sim, a pessoa, o ladrão ou o que fosse, continuava ali. Instintivamente, como o suicida põe o dedo no gatilho, levou a mão ao ferrolho; mas, assim como o suicida, também instintivamente, se assusta e não dispara, afastou a mão do ferrolho, cuja alavanca se erguia para a frente como dedo que aponta.
Então, pelas aberturas da grade, de fora para dentro, penetraram estas palavras, afinadas pela voz como se devessem passar por peneira finíssima:
— Nena, nena... agora sim você não me escapa.
Fortunata não fez movimento algum. Transformara-se em estátua. Julgava estar só, e viu Patria aproximar-se passo a passo, pisando como os gatos. Não com palavras, mas com aquele rosto felino e aquela boca que parecia estar sempre se lambendo, dizia:
“Senhorita, abra e deixe de representar. Se no fim abrirá amanhã, por que não abre esta noite?”
Como se isso tivesse sido dito em voz alta, em voz alta respondeu a senhora:
— Não, não abro.
— Seja por Deus...
Seguiu-se longo e temeroso silêncio. Depois ouviram abrir-se e fechar-se a porta do apartamento vizinho. Fortunata respirou. O outro, cansado de esperar, retirava-se.
— Seja por Deus — repetiu Patria, como se dissesse: “Tanta afetação para depois cair...”
Passado um quarto de hora, ouviram abrir-se novamente a porta da esquerda. Fortunata correu ao postigo, olhou com cuidado e... o outro saía envolto na capa de reviras vermelhas. A emoção que sentiu ao vê-lo foi tão grande que ficou gelada, sem saber onde estava. Fazia três anos que não o via... Observou um fato muito desagradável: ao sair, ele não olhara para a porta da direita, como pareceria natural. Estava zangado, sem dúvida...
Movida pelo mesmo impulso mecânico, a senhora de Rubín correu à varanda da sala e abriu silenciosamente a folha de madeira. Com efeito, viu-o atravessar a rua e dobrar a esquina da calle de Don Juan de Austria. Tampouco olhara para as varandas da casa, como é natural que olhe, ao retirar-se dos muros, o assaltante frustrado de uma praça.
Patricia permitiu-se a confiança de pôr a mão no ombro da patroa:
— Agora sim podemos deitar. Que susto passamos!
Fortunata respondeu:
— Susto, eu?... Ora!
Tudo isso era dito em cochicho cauteloso, e o diriam do mesmo modo ainda que não houvesse ali um enfermo cujo sono era preciso respeitar. A criada deslizou suavemente pelos corredores escuros, e a patroa entrou na alcova. Ao ver o marido, sentiu como se aquilo que está a cem mil léguas de nós se pusesse de repente ao nosso lado. Maxi se revolvera no leito e dormia como os pássaros, com a cabeça debaixo da asa. O corpo mirrado perdia-se na largura daquela cama enorme, e ali o esposo podia passear em sonhos como pelos espaços incomensuráveis do Limbo.
A esposa não se deitou. Aproximou uma poltrona da cama, lançou-se nela e fechou os olhos. Pela madrugada, o sono a venceu, e em seu cérebro armou-se um penoso tumulto de ferrolhos que se abriam, portas que se franqueavam, paredes transparentes e homens que entravam na casa filtrando-se através dos muros.
Na manhã seguinte, Maxi estava melhor, mas inteiramente prostrado. Dava pena vê-lo. Tinha a palidez de um morto, a língua branca, muita fraqueza e nenhum apetite.
Deram-lhe alguma coisa para comer, e Fortunata opinou que devia ficar na cama até a tarde. Isso não desagradava a Maxi, que sentia certo contentamento infantil por se ver naquele leito tão grande e poder rolar por ele. A mulher cuidava dele como se cuida de uma criança, e de sua mente se apagara a ideia de que ele era um homem.
Dona Lupe chegou muito cedo e, informada de que Maxi estava melhor, começou a dar ordens sobre ordens e a irritar-se porque certas coisas não haviam sido feitas como mandara. Ia da sala à cozinha e da cozinha à sala, ditando regras e pragmáticas de bom governo. Maxi queixava-se de que a mulher passava mais tempo fora da alcova que dentro dela, e chamava-a a todo instante.
— Graças a Deus, filha, que você aparece por aqui. Nem sequer me deu um beijo. Que dia de casamento, filha, e que noite! Esta maldita enxaqueca... mas já passou, e agora, pelo menos durante quinze dias, não tornará a me dar... Ora, você já quer voltar para a cozinha. Não está lá essa senhora Patria?
— Foi às compras. Quem está lá é sua tia, dando, por sinal, tantíssimas ordens que a gente não sabe a qual atender primeiro.
— Pois deixe-a. Você diga sim a tudo e depois faça o que quiser, pombinha. Venha cá... Que Patria trabalhe; para isso está aqui. Como serve bem, não é? É uma mulher muito esperta.
— Nem me fale...
— Vai mesmo?
— Vou, porque, se não, sua tia começa a me repreender.
— Pois essa é boa!... Então me levanto e também vou para a cozinha. Quero ficar olhando para você até me fartar. Agora você é minha; sou seu único dono e mando em você.
— Volto já, meu bem...
— Esses “já” me aborrecem — disse ele, nadando nos lençóis como se fossem ondas.
Durante toda a manhã, Fortunata teve o pensamento fixo na casa vizinha. Enquanto almoçava sozinha, olhava pela janela do pátio, mas não viu ninguém. Parecia uma moradia desabitada. Sempre que passava pela sala, a esposa de Rubín lançava olhares furtivos para a rua. Nem uma alma. Sem dúvida a armadilha só se armava à noite.
À tarde, achando-se a sós com Patricia na cozinha, chegou a ter na boca as palavras para perguntar: “E os vizinhos?”. Mas não abriu os lábios. Aquele maldito gato devia ter penetrado no pensamento da patroa, pois, como se respondesse a uma pergunta, disse-lhe de repente:
— Pois agora mesmo, quando desci ao açougue, sabe?, encontrei a senhorita Cirila. Perguntou-me pelo senhorito e disse que passaria para visitá-la, sem dizer quando nem deixar de dizer.
— Não venha me contar histórias dessa... gente toda — respondeu Fortunata, cujo ânimo já estava bastante sossegado para que pudesse adotar aquela atitude correta. — Nem me importa... está me entendendo?
Maximiliano levantou-se e deu algumas voltas; mas estava tão fraco que teve de tornar a deitar-se. Ela, entretanto, continuava observando. Não se ouvia rumor algum na vizinhança. À noite, o mesmo silêncio. Parecia que dona Cirila, o marido, aquele do boné com letras, e os amigos que os visitavam haviam sido engolidos pela terra. À noite, Fortunata sentiu tamanha tristeza e inquietação que não sabia o que lhe acontecia. Poder-se-ia crer que a contrariava não ver ninguém da casa próxima, não ouvir passos, ruído de portas, nada. Maximiliano, que desde o meio da tarde voltara a nadar entre os lençóis agitados do leito e estava tão impertinente como uma criança enferma que começa a convalescer, disse à esposa, já perto das dez, que se deitasse, e ela obedeceu. Mas a repugnância e o enfado que lhe inundavam a alma naquele instante eram tão imperiosos que lhe custou muito não os deixar transparecer. E o pobre rapaz não estava em condições de exprimir-lhe seu amor desmedido de outro modo que por manifestações relacionadas exclusivamente com o pensamento e o coração. Palavras ardentes sem eco em cavidade alguma da máquina humana, impulsos de carinho propriamente ideais, e dali ele não saía, isto é, não podia sair. Fortunata disse-lhe com expressão fraternal e consoladora:
— Olhe, durma, descanse e não se agite. Ontem à noite você esteve muito mal e precisa de alguns dias para se recompor. Faça de conta que eu não estou aqui e durma.
Não se sabe se o tranquilizou; o fato é que ela adormeceu e só despertou às sete da manhã.
Maxi permaneceu mais tempo na cama, fartando-se de sono, reparação que sua constituição franzina reclamava. Fortunata pôs-se a arrumar a casa e mandou Patricia às compras, quando eis que entra dona Lupe toda transtornada:
— Você não sabe o que aconteceu? Pois uma ninharia. Deixe-me sentar, que venho sufocada. Veja só o trabalho que me dão meus ditosos sobrinhos. Ontem à noite prenderam Juan Pablo. D. Basilio veio me contar agora mesmo. A polícia entrou na casa dessa mulher com quem ele vive, está entendendo?, e depois de revistar tudo e apreender os papéis, agarraram meu sobrinho, e lá está ele no Saladero... Vamos ver, e o que faço eu agora? Francamente, ele tem se portado muito mal comigo; é um ingrato e um perdulário. Se fosse apenas para passar alguns dias na cadeia, eu até me alegraria, para que aprendesse e não voltasse a meter-se onde não é chamado. Mas D. Basilio me disse que todos os presos de ontem à noite... prenderam muita gente... serão mandados nada menos que para as ilhas Marianas; e embora Juan Pablo tenha merecido muito bem esse passeio, francamente, é meu sobrinho, e farei tudo quanto puder para que o ponham em liberdade.
Maxi, que ouvira da alcova algumas palavras desse relato, chamou, e dona Lupe repetiu tudo diante dele, acrescentando:
— É preciso que você se levante agora mesmo e vá ver todas as pessoas que possam interessar-se por seu irmão, que mereceu muito bem esse aperto, mas que havemos de fazer!... Você procurará D. León Pintado para que o apresente ao doutor Sedeño, que por sua vez o apresentará a D. Juan de Lantigua, o qual, embora seja um senhor muito neo, tem influência por sua respeitabilidade. Eu pretendo ver Casta Moreno para que interceda junto a D. Manuel Moreno-Isla, e este fale a Zalamero, que é casado com a filha de Ruiz Ochoa. Cada um por seu lado, moveremos céus e terra para impedir que o plantem nas ilhas Marianas.
O jovem vestiu-se às pressas, e dona Lupe, nesse meio-tempo, determinou que não se fizesse almoço na cozinha de Fortunata e que ela e o marido almoçassem em sua casa, para que estivessem reunidos num dia de tanto vaivém. Maxi saiu depois de tomar o desjejum, e sua mulher e sua tia foram para a outra casa. Pelo caminho, dona Lupe dizia:
— É pena que Nicolás tenha ido a Toledo há dois dias, pois, se estivesse aqui, faria diligências por seu irmão e com toda a certeza o tiraria hoje mesmo da cadeia, porque os padres são os que mais conspiram e os que mais podem contra o Governo... Eles armam a coisa e depois sabem muito bem atar as mãos dos ministros quando chega a hora do castigo. Assim está o país, que dá pena... tudo tão perdido... Há uma miséria!... e as batatas a seis reales a arroba, coisa que nunca se viu.
A viúva pôs-se em movimento com aquela atividade corajosa que tantos êxitos lhe proporcionara na vida, e Fortunata e Papitos ficaram encarregadas de fazer o almoço. À hora deste, voltou dona Lupe sufocada, dizendo que Samaniego, marido de Casta Moreno, estava em perigo de morte e que por aquele lado nada se podia fazer. Casta não tinha condições de acompanhá-la a parte alguma. Bateria, pois, a outra porta, indo diretamente ver o senhor Feijoo, que era seu amigo e fora seu pretendente, e tinha grande amizade com D. Jacinto Villalonga, íntimo do ministro da Governança. Pouco depois chegou D. Basilio dizendo que Maxi não viria almoçar.
— Foi com D. León Pintado ver não sei que personagem, e vão demorar.
Fortunata resolveu voltar para casa, pois tinha ali alguma coisa que fazer, e, repetindo a Papitos as várias determinações ditadas pela autocrata no momento de sua segunda saída, pôs o xale e ganhou a rua. Não tinha pressa e foi dar um passeio, recreando-se na beleza do dia e dando voltas ao pensamento, que estava como um carrossel, gira que gira, torna e retorna... Ia devagar pela calle de Santa Engracia e deteve-se um instante numa loja para comprar tâmaras, de que gostava muito. Prosseguindo depois seu caminho errante, saboreava o prazer íntimo da liberdade, de estar sozinha e solta, ainda que por pouco tempo. A ideia de poder ir aonde quisesse excitava-a, fazendo-lhe circular o sangue com maior vivacidade. Essa disposição de espírito traduziu-se num sentimento filantrópico, pois toda a moeda miúda que tinha ia dando aos pobres que encontrava, e não eram poucos... E, andando sempre, veio a considerar que não sentia a menor vontade de meter-se em casa. Que iria fazer em casa? Nada. Convinha-lhe sacudir-se, tomar ar. Bastante escravidão tivera dentro das Micaelas. Que gosto poder percorrer de ponta a ponta uma rua tão comprida como a de Santa Engracia! O principal prazer do passeio era ir sozinha, livre. Nem Maxi, nem dona Lupe, nem Patricia, nem ninguém podiam contar-lhe os passos, vigiá-la ou detê-la.
Teria ido assim... sabe Deus até onde. Olhava tudo com a curiosidade jubilosa que as coisas mais insignificantes inspiram a quem acaba de sair de um longo cativeiro. Seu pensamento se enfeitava naquela doce liberdade, recreando-se com as próprias ideias. Como era bonita, por exemplo, a vida sem cuidados, ao lado de pessoas que nos querem e a quem queremos!... Reparou nas casas do bairro de las Virtudes, pois as moradas dos pobres sempre lhe inspiravam carinhoso interesse. As mulheres malvestidas que saíam às portas e os meninos esfarrapados e sujos que brincavam na rua atraíam-lhe os olhos, porque aquela existência tranquila, embora obscura e apertada, lhe causava inveja. Vida semelhante não podia ser para ela, porque estava fora de seu centro natural. Nascera para mulher trabalhadora; não lhe importava trabalhar como uma condenada, contanto que possuísse aquilo que tinha por seu. Mas alguém a tirara daquele primeiro molde para lançá-la numa vida diferente; depois, mãos diversas a trouxeram e levaram. E, por fim, outras mãos empenharam-se em convertê-la em senhora. Punham-na num convento para moldá-la de novo, depois a casavam... e assim por diante. Figurava-se uma boneca viva, com a qual brincava uma entidade invisível, desconhecida, à qual não sabia dar nome.
Ocorreu-lhe se algum dia teria ela coragem, isto é, iniciativa... se algum dia faria o que lhe saísse de dentro de si. Absorta nessa reflexão, chegou ao Campo de Guardias, junto ao Depósito. Havia ali muitos blocos de cantaria e, sentando-se sobre um deles, começou a comer tâmaras. Sempre que atirava um caroço, parecia lançar na imensidão do pensamento geral uma ideia sua, ainda quentinha, como se lança uma faísca ao monte de palha para incendiá-lo.
— Tudo dá errado para mim... Deus não me dá atenção. Veja só como me põe as coisas pelo avesso... O homem que eu quis, por que não era um pobre pedreiro? Pois não; havia de ser senhorito rico, para me enganar e não poder casar comigo... Depois, o natural era que eu o aborrecesse... pois não, senhor, sai sempre o pior, sai que o quero ainda mais... Depois, o natural era que me deixasse em paz, e assim isso me passaria; pois não, senhor, o pior outra vez: anda me rondando e armou uma cilada para mim... Também era natural que nenhuma pessoa decente quisesse casar comigo; pois não, senhor, aparece Maxi e... zás!, põe-me na situação de casar, e nada, quando mal penso nisso, já vem a bênção... Mas será verdade que estou casada?...
Olhava o caroço da tâmara que acabara de comer e, como se o caroço lhe dissesse que sim, fez um gesto afirmativo, um tanto desconsolado...
— E como estou!
Ficou tão profundamente ensimesmada que esqueceu onde se achava. Mas, levantando-se de repente, pôs-se a descer, como aqueles que trazem no cérebro esse guizo chamado ideia fixa. Subira a longa rua com ares de passeante, distraída, alegre, o olhar vago; descia-a como os monomaníacos. Ao chegar diante da igreja, tirou-a daquele enlevo o ruído de passos que ouviu atrás de si. “Esses passos são os dele”, pensou. “Pois eu não olho para trás. Que faço? Depressa, depressa.”
A curiosidade pôde mais que tudo, e Fortunata olhou. Não era ele. Mais adiante, ouviu novamente passos persistentes e viu uma sombra que se estendia pela rua, paralela à sua. Aquele sim era... Olharia? Não; melhor fingir que não percebera... Por fim, a maldita curiosidade... Olhou, e tampouco era ele. Ao chegar a casa, estava mais tranquila. Quando Patria abriu a porta, perguntou-lhe:
— Veio alguém? O senhorito está?...
— O senhorito só volta à noite. Mandou recado para que a senhora não o esperasse.
E a gata manhosa sorria de modo tão adulador que Fortunata não pôde deixar de perguntar:
— Quem está aí?
Patricia tornou a sorrir com infernal malícia, e...
— O quê?... Mas o quê?... — balbuciou a senhora, aproximando-se na ponta dos pés da porta da sala.
Empurrou-a suavemente até abrir uma fresta. Não via nada. Abriu mais, mais... Estava pálida, como se todo o sangue lhe tivesse fugido... Abriu mais... e pronto. No sofá da sala, tranquilamente sentado... Deus!, o outro. Fortunata esteve a ponto de perder os sentidos. Passou-lhe diante dos olhos não sabia o quê, algo como um véu que desce ou um véu que sobe. Não disse nada. Ele, também pálido, levantou-se e disse claramente:
— Entre, nena.
Fortunata não dava um passo. De repente, só o demônio poderia explicar aquilo, sentiu uma alegria insensata, uma explosão das infinitas ânsias que sua alma continha. E precipitou-se nos braços do Delfim, soltando este grito selvagem:
— Nene!... Deus bendito!
Esquecidos de tudo, os amantes ficaram abraçados por muito tempo. Foi ela quem primeiro falou:
— Nene, morro por você...
— Venha cá — disse Santa Cruz, tomando-a por um braço.
Ela se deixava levar como se fosse a coisa mais natural do mundo. Atravessaram a porta da casa, que estava aberta. E a do apartamento da esquerda, que casualidade!, também aberta.
Assim que passaram, alguém fechou. Naquela morada reinava uma discrição traiçoeira. Juan levou-a a uma saleta muito bem-arranjada, junto à qual havia uma alcova perfeitamente preparada. Sentaram-se no sofá e tornaram a abraçar-se. Fortunata estava como embriagada, com certo delírio na alma, perdida a memória dos acontecimentos recentes. Toda ideia moral desaparecera como um sonho apagado do cérebro ao despertar; seu casamento, seu marido, as Micaelas, tudo aquilo se afastara e se pusera a milhões de léguas, num ponto aonde nem sequer o pensamento podia segui-lo. O amante disse-lhe com voz simpática:
— Quanto temos para conversar!
E ela foi tomada de um riso convulsivo, que mal podia articular:
— Hi, hi, hi... três anos!... Não, mais anos, mais, porque... hi, hi, hi... Vê como estou tremendo? Não sei o que me acontece... Pois sim, mais tempo, porque quando estive aqui com... hi, hi, hi... Juárez, o Negro, eu via você e não via... e ele sempre na frente; e um dia, quando lhe disse que amava você, tirou uma faca enorme, hi, hi, hi... e quis me matar... Eu morrendo por falar com você, e ele não... não... Nosso nenenzinho morto, e eu mais morta ainda, hi, hi... E em Barcelona eu me lembrava de você e mandava beijos pelo ar, e em Zaragoza... beijos pelo ar... hi, hi, e em Madri a mesma coisa. E quando me meteram no convento, também... hi, hi, hi... beijos pelo ar... e você sem se lembrar de mim, malvado...
— Sem me lembrar! Desde que voltei de Valencia estou caçando você... O que passei, filha! Depois lhe conto. E afinal peguei você... Ah, bela peça! Agora você me pagará tudo de uma vez... Como me fez sofrer!... Quantas maldições lancei sobre aquele bendito convento!... Mas como está bonita, nena.
— Xi.
— Está lindíssima.
— Xi... para você.
Aquele frio de febre transformou-se de repente num calor violentíssimo, e o riso convulsivo, numa explosão de pranto.
— Hoje não é dia de chorar, mas de ficar alegre.
— Sabe de quem me lembro? Do meu nenenzinho, tão engraçadinho... Se tivesse vivido, você teria gostado dele, não é? Parece que ainda o vejo, quando o levaram naquela caixinha azul... Foi nessa mesma noite que Juárez, o Negro, puxou uma faca deste tamanho e me disse com aquela vozona: “Brr... são oito horas; reze o que tiver de rezar, porque antes das nove eu mato você.” Estava furioso de ciúme... Ai, que medo terrível!
— Quanto temos para contar!... Eu a você, você a mim. Já sei que se casou. Fez bem.
Aquele fez bem caiu-lhe no coração como uma gota fria, trazendo-a bruscamente de volta à realidade. Enxugando as lágrimas, lembrou-se de Maxi, de seu casamento; e sua casa, que se afastara centenas de milhares de léguas, pôs-se ali, a quatro passos, fúnebre e antipática. A repulsa de sua alma diante daquele fenômeno secou-lhe num instante todas as lágrimas.
— E por que fiz bem?
— Porque assim é mais livre e tem um nome. Pode fazer o que quiser, contanto que o faça com discrição. Ouvi dizer que seu marido é um bom rapaz, desses que veem visões...
Ao ouvir isso, Fortunata viu erguer-se em seu espírito a imagem ideal, ou antes o espectro, de sua perversidade. O que acabara de fazer era coisa que mal tinha nome, por ser extraordinária e anormal, no registro das maldades humanas. O lugar e a ocasião davam maior fealdade ao ato, e assim o compreendeu num rápido exame de consciência; mas a antiga e sempre nova paixão tinha tamanho ímpeto e vigor que o espectro fugiu sem deixar vestígio. Fortunata considerava-se, naquele caso, um mecanismo cego que recebe impulso de mão sobrenatural. O que fizera, fizera-o, a seu juízo, por disposição das misteriosas energias que ordenam as maiores coisas do universo, o nascer do Sol e a queda dos corpos graves. Não podia deixar de fazê-lo, nem discutia o inevitável, nem procurava atenuar a própria responsabilidade, porque não a via com muita clareza; e, ainda que a visse, era pessoa tão firme em sua direção que não se detinha diante de consequência alguma e conformava-se, tal era sua ideia, em ir para o inferno.
— Essa história de alugar o apartamento junto ao seu — disse Santa Cruz — é uma loucura que só pode ser desculpada pelo estado de demência em que eu estava, minha menina, e pelo furor de ver você e falar-lhe. Quando soube que tinha vindo a Madri, entrei em delírio!... Tinha para com você uma dívida do coração, e o carinho que lhe devia pesava-me na consciência. Fiquei louco, procurei-a como se procura aquilo que mais queremos no mundo. Não a encontrei; na volta de uma esquina, uma pneumonia estava à minha espreita para me dar o golpe... e caí.
— Pobrezinho!... Eu soube, sim. Também soube que me procurou. Deus lhe pague! Se eu soubesse antes, você teria me encontrado.
Espalhou o olhar pela sala, mas a relativa elegância com que estava arranjada não lhe causou impressão alguma. Numa miserável taberna, num porão cheio de teias de aranha, em qualquer lugar subterrâneo e fétido, teria estado contente, contanto que tivesse ao lado aquele que agora tinha. Não se fartava de olhá-lo.
— Como está bonito!
— E você? Está encantadora!... Agora está muito melhor que antes.
— Ah, não — respondeu ela, com certa coqueteria. — Diz isso porque me civilizei um pouco? Ora! Não acredite: eu não me civilizo, nem quero; sou sempre povo. Quero ser como antes, como quando você me lançou o laço e me pegou.
— Povo! É isso — observou Juan com um pouco de pedantismo. — Em outros termos, o essencial da humanidade, a matéria-prima, porque, quando a civilização deixa perder os grandes sentimentos, as ideias matrizes, é preciso ir buscá-los no bloco, na pedreira do povo.
Fortunata não compreendia bem os conceitos, mas tinha alguma ideia vaga daquilo.
— Parece mentira — disse ele — que eu tenha você aqui, presa outra vez pelo laço, minha ferinha, e que possa lhe pedir perdão por todo o mal que lhe fiz...
— Ora, perdão!... — exclamou a jovem, inundando-se na própria generosidade. — Se você me ama, que importa o passado?
No mesmo instante levantou a fronte e, com satânica convicção, que tinha certa beleza por ser convicção e por ser satânica, deixou escapar estas arrogantes palavras:
— Meu marido é você... todo o resto... bobagem!
Elástica era a consciência de Santa Cruz, mas não tanto que ele deixasse de sentir certo terror ao ouvir expressão tão atrevida. Para corresponder, ia dizer minha mulher é você; mas embainhou a mentira, como o homem prudente que reserva para os casos graves o uso das armas.
Já de noite, Fortunata passou para sua casa. O marido ainda não chegara. Enquanto o esperava, a pecadora tornou a ver aquele espectro de sua perversidade; mas então o viu com maior clareza e não pôde expulsá-lo tão facilmente do espírito. “Enganaram-me”, pensava. “Levaram-me ao casamento como levam uma rês ao matadouro, e quando fui perceber já estava degolada... Que culpa tenho eu?” A casa estava às escuras, e ela acendeu uma luz. Ao atirar o fósforo no chão, este caiu ainda aceso, e Fortunata olhou-o com vivo interesse, lembrando uma das superstições que lhe haviam ensinado na juventude. “Quando o fósforo cai aceso”, disse consigo, “e a chama fica voltada para a gente, é boa sorte.”
Maxi entrou cansado e pensativo; mas, ao ver a mulher, alegrou-se. Um dia inteiro sem vê-la! Trouxera-lhe um pacote de rosquilhas. E Juan Pablo? No fim tudo se resolveria. Com certeza não iria para as ilhas Marianas, mas talvez o conservassem no Saladero quinze ou vinte dias.
— E bem merecido, filha. Para que se mete a procurar pelo em ovo?
Enquanto comiam, Fortunata contemplava o marido, mais dentro de si que na realidade, e desse exame surgiam um tédio esmagador e a antiga antipatia, mas tão aumentada, tanto, que já não podia crescer mais. E a perversa não procurou combater aquele sentimento; recreava-se nele como numa monstruosidade que tem alguma coisa de sedutora.
— Minha alma — disse-lhe o marido ao terminarem de comer —, vejo com gosto que não lhe falta apetite. Quer que vamos agora a um café?
— Não — respondeu ela secamente. — Estou exausta. Não vê que minhas pálpebras se fecham? O que quero é dormir.
— Está bem, melhor; eu também quero.
Deitaram-se, e o tempo em que ainda permaneceu desperta Fortunata empregou em fazer comparações. O corpo mirrado de Maxi, ao tocar o seu, produzia-lhe crispamentos nervosos. E também se pôs a pensar em como era incômodo e difícil para ela ter de viver duas vidas diferentes, uma verdadeira, outra falsa, como as vidas dos que trabalham no teatro. Representar e fingir eram-lhe coisas muito difíceis, e por isso seu tormento crescia consideravelmente. “Não poderei, não poderei”, pensava ao adormecer, “representar esta comédia por muito tempo.” De madrugada, despertou depois de um sono profundíssimo e reparador, e então começou a chorar, fazendo cálculos, figurando com grande força da mente cenas prováveis e condoendo-se de não poder ver o amante a todas as horas.
Nos dias seguintes, as escapadas ao apartamento vizinho ocorriam em horas diversas, quando Maxi saía. Ia estudar com um amigo para obter o grau e também costumava ir à farmácia de Samaniego. Já estava acertado que teria um lugar no estabelecimento. Embora suas ausências fossem seguras, os dois criminosos decidiram instalar o ninho mais longe. Enquanto isso, Patricia fazia o que lhe dava na cabeça. As determinações de Fortunata e até as da própria dona Lupe eram letra morta. Roubava descaradamente, e a patroa não se atrevia a repreendê-la. Santa Cruz, autor de toda aquela embrulhada, não sabia como resolvê-la quando a amiga o consultava. O plano mais prudente era alugar outro apartamento e depois despedir Patricia, dando-lhe boa gratificação para que se calasse.
Alguns dias, o Delfim oferecia presentes e dinheiro à amante; mas ela não queria aceitar nada. Metera-se-lhe na cabeça uma mania extravagante, de que ambos riam muito quando ela a contava. A mania era que Juanito não devia ser rico. Para que as coisas estivessem em ordem, devia ser pobre, e então ela trabalharia como uma negra para sustentá-lo.
— Se você tivesse sido pedreiro, carpinteiro ou, por exemplo, guarda da alfândega, outro galo me cantaria.
— Veja só a ideia que lhe deu agora.
— E nada mais.
Não havia meio de tirar-lhe da cabeça aquela correção das obras da Providência.
— Em resumo — dizia-lhe ele —, você é uma inocente. Mas diga, não gosta do luxo?
— Quando não estou com você, gosto um pouco, não muito. Nunca fui louca por trapos. Mas, quando tenho você, tanto me faz ouro como cobre; seda e chita são a mesma coisa.
— Fale com franqueza. Não precisa de nada?
— Nada; pode acreditar.
— Aquela alma de Deus lhe dá tudo de que precisa?
— Tudo; pode acreditar.
— Quero lhe dar um vestido.
— Não vou usá-lo.
— E um chapéu.
— Vou transformá-lo em cesto.
— Fez voto de pobreza?
— Não fiz voto de coisa nenhuma. Amo você porque amo, e não sei mais nada.
“Nada, inteiramente primitiva”, pensava o Delfim. O bloco do povo, no qual é preciso ir buscar os sentimentos que a civilização deixa perder de tanto refiná-los.
Um dia falavam de Maximiliano.
— Infeliz rapaz! — dizia Fortunata. — O ódio que tomei dele não é ódio verdadeiro, mas pena. Sempre me foi muito antipático. Deixei que me metessem nas Micaelas e deixei que me casassem... Sabe como foi tudo isso? Pois como aquilo que contam, que magnetizam uma pessoa e fazem dela o que querem; exatamente assim. Eu, quando não se trata de amar, não tenho vontade. Trazem-me e levam-me como uma boneca... E agora, acredite, sinto remorso por enganar esse pobre rapaz. É um anjão sem pena nem glória. Às vezes tenho vontade de desenganá-lo e dizer a verdade... Porque acariciá-lo, isso eu não posso; alguma coisa em mim resiste, não está na minha natureza. Peço à Virgem que me dê forças para falar claramente.
— À Virgem!... Mas você acredita? — disse Santa Cruz, espantado, pois tinha Fortunata por heterodoxa.
— E por que não hei de acreditar? O que a Virgem me aconselha, sempre que rezo a ela de olhos fechados, é que ame muito você e me deixe amar por você... Você a tem do seu lado, rapaz... De que se espanta? Pois digo: rezo à Virgem, e ela me protege, embora eu seja má. Quem sabe o que sairá de tudo isso e se as coisas não se tornarão algum dia aquilo que devem ser! E, se falo com franqueza, às vezes duvido que eu seja má... sim, tenho minhas dúvidas. Pode ser que não seja. Minha consciência vira agora para cá, depois para lá; estou sempre duvidando e, por fim, faço esta conta: amar a quem se ama não pode ser coisa má.
— Escute uma coisa — disse o Delfim, que se recreava nas singularíssimas noções daquele espírito. — E se seu marido descobrisse isto e quisesse me matar?
— Ai, não me diga... nem por brincadeira. Eu me lançaria sobre ele como uma leoa e o despedaçaria... Vê como se pega um camarão, arrancam-se as pernas, torce-se o corpo e tira-se o que tem dentro? Pois assim.
— Mas vamos ver, nena: não me guarda rancor por eu tê-la abandonado, deixando-a na miséria, às vésperas de ter um filho e nas mãos de Juárez, o Negro?
— Não lhe guardo rancor algum. Naquele tempo eu estava furiosa. A raiva e a miséria me levaram para Juárez, o Negro. Acredita no que vou lhe dizer? Pois fui com ele porque o aborrecia muito. Coisa estranha, não é?... E como eu não tinha um triste pedaço de pão para levar à boca, e ele me dava, aí está... Eu disse: “Vou me vingar indo com este animal.” Quando tive meu filho, consolava-me com ele; mas depois morreu. E quando Juárez morreu, como pensei que você já não me amava, disse: “Pois agora vou me vingar sendo tão má quanto puder.”
— Mas que ideias você tem sobre as maneiras de se vingar?
— Não me pergunte nada... não sei... Vingar-se é fazer o que não se deve... o mais feio, o mais...
— E de quem se vinga assim, criatura?
— Pois de Deus, de... de que sei eu... Não me pergunte, porque, para explicar, teria de ser sábia como você, e eu não sei coisa alguma, nem aprendo nada, embora dona Lupe e as monjas, esfrega que esfrega, tenham me dado algum lustro... ensinando-me a não dizer tantos disparates.
Santa Cruz permaneceu longo tempo pensativo.
Um dia falaram também de Jacinta... Juan não gostava que a conversa fosse levada a esse terreno; mas Fortunata, sempre que tinha ocasião, ia direto a ele. Às perguntas dela, o outro respondia evasivamente.
— Olhe, nena; deixe minha mulher na casa dela.
— Pois me assegure que não a ama.
— Amo, sim... para que enganá-la?... mas de modo muito diferente de como amo você. Guardo-lhe todas as considerações que ela merece, porque... você não pode imaginar como é boa.
Fortunata continuou indagando, com incômoda curiosidade, tudo quanto queria saber a respeito da intimidade dos esposos; mas o outro escapava galhardamente, deixando a salvo, até onde era possível naquele colóquio criminoso, a personalidade sagrada da mulher.
— A pobrezinha — disse ele afinal — tem uma paixão que a domina; melhor dizendo, uma mania que a traz transtornada.
— Qual?
— A mania dos filhos. Deus não quer, e ela insiste que sim. Pela tristeza que lhe causa a esterilidade, tem piorado, emagreceu e há algum tempo começa a encher-se de cabelos brancos. Já é paixão do espírito. Soube do que aconteceu? Pois lhe deram o grande golpe. Seu tio José Izquierdo, de conluio com outro louco, fez-lhe acreditar que um menino de três anos que tinha consigo era nosso Juanín. Minha mulher perdeu a cabeça, quis adotá-lo e nada menos que levá-lo para nossa casa. Por mais depressa que se descobrisse a trama, não se pôde evitar que seu tio lhe arrancasse seis mil reales.
— Tem graça. Eu já sabia essa história. Esse menino deve ser o de Nicolasa, enteada do tio Pepe. Nasceu seis dias depois do nosso e era filho de um homem que acendia os lampiões de gás... Mas não compreendo uma coisa. Parece-me que sua mulher devia querer esse menino por julgá-lo seu e aborrecê-lo por ser de outra mãe. Julgo por mim.
— Cale-se, tonta. Minha mulher enlouquece por todas as crianças do universo, sejam de quem forem. E ao suposto Juanín bastava tê-lo por meu para adorá-lo. Ela é assim; você não faz ideia de como é boa. E se desse à luz...! Santo Cristo, não quero pensar. Com certeza perdia o juízo e nos fazia perder a todos. Amaria meu filho mais que a mim e mais que ao mundo inteiro.
Ao ouvir isso, Fortunata ficou sorridente e pensativa. Que tramava aquela cabeça cheia de extravagâncias? Pois isto:
— Escute, nenenzinho da minha vida, o que me ocorreu. Uma grande ideia; vai ver. Vou propor um trato à sua mulher. Será que ela aceita?
— Vejamos do que se trata.
— Muito simples. Veja o que acha. Eu cedo a ela um filho seu, e ela me cede o marido. No total, trocar um menino pequeno pelo menino grande.
O Delfim riu daquele singular acordo, expresso com certa graça.
— Será que aceita?... O que você acha? — perguntou Fortunata com a maior boa-fé, passando depois da candura ao entusiasmo para dizer: — Pois olhe, você pode rir quanto quiser, mas esta é uma grande ideia.
O ilustrado jovem mergulhou num mar de meditações.
As visitas à casa de Cirila prosseguiram durante duas semanas; mas a prática demonstrou claramente que aquilo não podia continuar, e alugaram outro apartamento. Patricia tornara-se insuportável, e dona Lupe, aparecendo na casa em horas impróprias, levada por seu afã de mandar em tudo, dificultava as escapadas da sobrinha. Entretanto, Fortunata não tratava Maximiliano com desconsideração; mas sua frieza seria capaz de gelar o próprio fogo. Ele teria preferido mil vezes que a mulher lhe atirasse os trastes à cabeça a ser tratado com aquela cortesia desdenhosa e glacial. Raríssimas vezes acontecia que ela lhe fizesse uma carícia; para obtê-la, Maxi tinha de apresentar-lhe súplicas, e o que conseguia parecia esmola. É que Fortunata não servia para cortesã, e seus fingimentos eram tão desajeitados que dava pena vê-la fingir.
O jovem farmacêutico tinha momentos de horrível tristeza e cismava muito. Desse estado passou à observação, desenvolvendo-se nele essa faculdade de modo espantoso. Sempre que estava em casa, não tirava os olhos da mulher, estudando-lhe os movimentos, os olhares, os passos e até a respiração. Quando comiam, examinava-lhe a maneira de comer; quando estavam no leito, a maneira de dormir.
Fortunata nunca olhava para ele. Esse fato, cuidadosamente observado, produziu no infeliz rapaz indizível melancolia. Ter comprado aqueles olhos com sua mão, sua honra e seu nome para que fossem empregados em olhar uma cadeira antes de olhá-lo! Isso era tremendo, mas tremendo mesmo, e certo dia agitou-lhe a alma um furor insano; não quis, porém, manifestá-lo, e desabafou a sós, mordendo os punhos.
— Por que não olha para mim? — perguntou-lhe uma noite, de semblante fechado.
— Porque...
Não disse mais; engoliu o resto da frase. Deus sabe o que ia dizer.
O desgraçado rapaz fazia tudo para se fazer amar, inventando quantas sutilezas pode dar de si a mania ou enfermidade do amor. Investigava com febril exame as causas recônditas do agrado e, não podendo obter coisa útil no terreno físico, esquadrinhava o mundo moral em busca do remédio. Imaginou enamorar a esposa por meios espirituais. Estava disposto, ele que já era bom, a tornar-se santo, e estudava tudo o que era grato à mulher na ordem do sentimento para realizá-lo como pudesse. Ela gostava de dar esmola a todos os pobres que encontrava; pois ele daria mais, muito mais. Costumava admirar casos de abnegação; ele procuraria uma ocasião de ser heroico. A ela agradava o trabalho; ele se mataria de trabalhar. Desse modo, o infeliz devastava a própria alma, arrancando tudo o que nela havia de bom, nobre e belo para oferecê-lo à ingrata, como quem derruba um jardim para apresentar num só ramo todas as flores possíveis.
— Já não me ama — disse-lhe um dia com imensa tristeza. — Seu coração já voou, como o passarinho a quem deixam aberta a gaiola. Já não me ama.
E ela respondia que sim; mas de que maneira! Mais valeria que dissesse terminantemente que não.
— Por que se afasta tanto de mim? Parece que lhe causo horror. Quando entro, fica séria; quando pensa que não reparo em você, fica ensimesmada e sorri como se falasse em espírito com alguém.
Outra coisa o mortificava. Quando saíam juntos a passeio, todos reparavam em Fortunata, admirando-lhe a beleza; depois olhavam para ele. Maxi supunha que todos faziam a observação de que não era homem para semelhante mulher. Alguns se permitiam examiná-lo de maneira insolente. Se iam ao café, ficavam pouco tempo, porque os amigos se aglomeravam ao redor de Fortunata sem fazer o menor caso do marido, e este engolia muita bílis. O que mais desorientava Maxi era que ela não dava confiança a ninguém e, sempre que ele dizia vamos embora, estava disposta a retirar-se.
O farmacêutico procurava alguma coisa em que fundar as conjecturas que começavam a devorá-lo, e não a encontrava. Pensou em consultar o caso com a tia; mas não quis dar o braço a torcer e tremia de que dona Lupe lhe dissesse: “Está vendo? Por não me dar ouvidos!” Ciúmes! E de quem? Fortunata mostrava-se com todos tão fria quanto com ele. Costumava espalhar melancolicamente os olhos pela rua, entre a multidão, sem fixá-los em ninguém, como se procurassem alguém que não queria deixar-se ver. Depois, os olhos voltavam para ela mesma com maior tristeza.
Também atormentavam o jovem os elogios que os amigos lhe faziam da mulher.
— Que mulher você tem! — dizia-lhe Pseudo-Narcissus odoripherus.
E Quercus gigantea assobiava-lhe ao ouvido estas fúnebres palavras:
— É mulher demais para você, valentão. Ande com muito cuidado.
Mas dona Lupe lhe infundia ideias otimistas. Parecia mentira! A perspicaz, sábia e experimentada senhora de Jáuregui disse mais de uma vez ao sobrinho:
— Como sua mulher é trabalhadora! Sempre que venho aqui, encontro-a passando ou lavando. Francamente, não pensei... Ela vai ajudá-lo, vai ajudá-lo. E depois, tão caladinha... Há dias em que nem lhe ouço o timbre da voz.
Com umas coisas e outras, o pobre rapaz mal podia estudar e, com grande trabalho, preparava-se para a licenciatura. A questão de seu emprego já se resolvera, porque, tendo Samaniego falecido no fim de outubro, a viúva organizou o pessoal da farmácia e deu um lugar a Maximiliano. Ficou acertado entre dona Casta Moreno e dona Lupe que, quando o rapaz obtivesse o grau, seria fixado um salário e que, passado um ano de prática, teria participação nos lucros. Pelo lado econômico, tudo corria às mil maravilhas, pois, enquanto não chegava o dia de ganhar com a profissão, podia viver bem com a pequena renda da herança. O mal era que, a partir do momento em que entrasse na farmácia, teria de ausentar-se de casa dias inteiros, e isso o punha em brasas. Ocorreu-lhe então o que ocorre a qualquer ciumento: sair um dia dizendo que ia à farmácia e voltar em seguida. Fez isso uma vez e não surpreendeu nada: Fortunata estava na cozinha. Repetiu o ardil, e o mesmo: estava costurando. Na terceira vez, Fortunata havia saído. Duas horas depois entrou trazendo um pacote na mão.
— Quer saber de onde venho? Pois de comprar umas coisinhas. Não me disse que queria uma gravata? Veja.
Uma noite, Maximiliano entrou bastante excitado. Tomou a mão da mulher e, fazendo-a sentar-se a seu lado, disse-lhe sem rodeios:
— Hoje conheci aquele patife que desonrou você.
Fortunata ficou como morta.
— Mas... ele não está doente?
Escapou-lhe aquela espontaneidade e, quando quis contê-la, já era tarde. Havia uma semana que Santa Cruz não ia aos encontros e lhe mandara, por intermédio de Cirila, um recadinho. Caíra do cavalo na Casa de Campo e machucara ligeiramente um braço.
— Doente? — disse Maxi, cravando nela seus olhos de iluminado. — Com efeito, tinha um braço na tipoia. Mas como você sabe?...
— Não, não, eu não sabia de nada — respondeu Fortunata, inteiramente aturdida.
— Você mesma disse! — exclamou Rubín com olhar terrível. — Como sabe?
Ela ficou cor de escarlate; depois tornou a empalidecer. Procurava uma saída para aquele aperto e, por fim, encontrou-a:
— Ah!
— O quê?
— Pergunta como sei, seu bobinho?... Pois é muito simples. Veio no jornal... Sua tia leu ontem à noite. Veja, aqui está: caiu do cavalo enquanto passeava pela Casa de Campo.
E, recobrando a serenidade, remexeu a mesa e pegou El Imparcial, que, com efeito, trazia a notícia.
— Veja... está vendo?... convença-se.
Maxi, depois de ler, continuou:
— Eu o vi no Saladero; ali devia ficar aquele canalha pelo resto da vida. Olmedo, que ia comigo, mostrou-me quem era. Foi ver meu irmão; ele ia visitar um tal Moreno Vallejo, que também está preso por conspirar. E esse Santa Cruz é dos mais insuportáveis!...
Fortunata tapava o rosto com o jornal, fingindo que lia. Maxi arrancou-lhe o papel com um manotaço.
— Você ficou assim como... estupefata.
— Deixe-me em paz — respondeu ela com um desdém que feriu o marido na alma.
— Que modos, filha! Já nem consideração.
Fortunata parecia ter a boca selada. Comeram sem dizer palavra; ele pôs-se depois a estudar, e ela a costurar, sem que se rompesse o fúnebre silêncio. Deitaram-se, e a mesma coisa. Ela voltou as costas ao marido, insensível aos suspiros que ele dava. Ambos permaneceram despertos por longo tempo, cada qual para seu lado, materialmente muito próximos, mas em espírito Fortunata havia partido para os antípodas.
Dois ou três dias depois, voltando do Saladero, aonde fora dizer ao irmão que em breve seria solto, Maximiliano viu Santa Cruz guiando um faetonte pela calle de Santa Engracia acima. O braço já estava bom. Olhou para Maxi, e este olhou para ele. De longe, porque o coche ia bastante depressa, Rubín observou que ele entrava pela calle de Raimundo Lulio. Passaria depois à de Sagunto? Nunca como naquele momento o exaltado rapaz sentira desejo de ter asas. Apressou o passo quanto pôde e, ao chegar à sua rua... Deus!... aquilo que temia... Fortunata na varanda, olhando pela calle del Castillo em direção ao paseo de la Habana, por onde certamente seguira o coche. O jovem farmacêutico subiu a escada tão depressa que, ao chegar em cima, não podia respirar. É que, para ser ciumento, são necessários bons pulmões. Mais caiu que se sentou numa cadeira, e a mulher e Patricia acudiram a ele, julgando que lhe dava algum ataque. Não podia falar e batia na cabeça com os punhos. Quando ficou a sós com a mulher, Rubín sentiu aquela cólera furibunda transformar-se numa dor covarde. A alma se lhe despedaçava e sacudia, resistindo a abrigar a ira. Os olhos encheram-se de lágrimas, os joelhos se dobraram. Caindo aos pés da mulher, cobriu-lhe as mãos de beijos.
— Tenha piedade de mim — disse-lhe com aflição mais de criança que de homem. — Por sua vida... a verdade, a verdade. Aquele senhor... você à espera dele... ele passou para vê-la. Você não me ama, está me enganando... ama-o outra vez... encontrou-se com ele em algum lugar. A verdade... Antes quero morrer de tristeza que de vergonha. Fortunata, eu a tirei da sujeira da rua, e você me cobre de lama. Eu lhe dei minha honra limpa, e você a devolve suja. Dei-lhe meu nome, e você faz dele uma caricatura. Peço-lhe um último favor... a verdade, diga-me a verdade.
Fortunata moveu a língua e agitou os lábios. Na ponta daquela estava a verdade, e por alguns instantes hesitou entre soltá-la ou torná-la a meter para dentro. A verdade queria sair. As palavras alinharam-se mudas e diziam: “Sim, é verdade que aborreço você. Viver com você é a morte. E a ele amo mais que à minha vida.” A batalha foi breve, e Fortunata devolveu a terrível verdade aos recessos do espírito. A aflição de Maxi exigia a mentira, e a mulher teve de dizê-la... mentiras dessas que inspiram viva compaixão a quem as diz e consolam pouco quem as ouve. Expelia-as como enfermeira que administra ao agonizante um remédio inútil.
— Diga de outro modo, e acreditarei — declarou Rubín. — Diga com um pouco de calor, ao menos como me dizia antes. Você não sabe o mal que me faz. Está me fazendo acreditar que Deus não existe, que portar-se bem e portar-se mal é tudo a mesma coisa.
A compaixão venceu a delinquente, e ela se mostrou tão afável naquela tarde e naquela noite que Maximiliano teve de se tranquilizar. O pobrezinho estava destinado a não ter um momento bom, pois, justamente quando seu espírito recebia algum alívio, começou-lhe a enxaqueca. A noite foi cruel, e Fortunata esmerou-se em cuidar dele. Em meio às dores da cabeça, o infeliz jovem aquecia ainda mais a mente, inventando remédios ou paliativos para a ansiedade que o dominava. Pouco depois de vomitar, disse à mulher:
— Ocorreu-me uma ideia que resolverá as dificuldades... Iremos para Molina de Aragón, onde tenho minhas propriedades. Abandono a carreira e me dedico à lavoura... Você quer, sim ou não? Ali viverei com tranquilidade.
Fortunata mostrou-se de acordo, embora se lembrasse do que Mauricia lhe dissera sobre a vida nos povoados. Só esquartejada iria viver no campo; mas naquela noite não tinha outro remédio senão dizer sim a tudo.
Nos dias seguintes, o pobre Maxi notava que seu abatimento aumentava de maneira alarmante, como se lhe estivessem tirando o sangue, e, assustadíssimo, foi consultar Augusto Miquis. Este lhe disse que teria sido melhor consultá-lo antes de casar, pois nesse caso lhe teria ordenado terminantemente o celibato. Isso redobrou suas tristezas; mas, quando Miquis lhe propôs como único remédio de seu mal a vida no campo, recobrou esperanças, confirmando-se na ideia de abandonar a corte e sepultar-se para sempre em suas terras de Molina.
Na segunda vez que falou disso à mulher, não a encontrou tão bem-disposta.
— E seus estudos, e sua carreira? Aconselhe-se com sua tia, e ela lhe dirá que isso que está pensando é um disparate.
Maxi estava muito cismado por certas coisas que notava na mulher. Havia dias que ela quase não levantava os olhos do chão, e seu olhar revelava grande tristeza. De repente, certa tarde em que Rubín voltava da farmácia, ouviu-a cantar ao subir a escada. Entrou, e o rosto de Fortunata resplandecia de contentamento e animação. Que acontecera? Maxi não pôde penetrá-lo, embora seus ciúmes, que aguçavam a inteligência, lhe apontassem suspeitas capazes de conter a verdade. Esta era que a mulher recebera, por intermédio de Patria, um bilhetinho anunciando-lhe a reabertura do curso amoroso, interrompido durante quinze dias. “Esta alegria”, pensava Maxi, “por que será?” E, compreendendo por instinto de ciumento que despejava um jarro de água fria sobre aquele contentamento, disse a Fortunata:
— Já está decidido que iremos para o povoado. Consultei minha tia, e ela aprova.
Não era verdade que tivesse consultado dona Lupe, mas dizia isso para dar à proposta autoridade indiscutível.
— Você irá... — disse ela sorrindo.
— Não — acrescentou ele, contendo a amargura que lhe transbordava da alma —, nós dois.
— Você ficou louco — observou Fortunata, rindo com certo descaramento. — Eu pensei... Mas está falando sério?
— Ora!... E você não me disse que iria também e que queria ser mulher de pedreiro?
— Sim, mas foi porque pensei que era conversa. Eu, fechada num povoado! Que juízo você tem!
O rosto do jovem mudou de tal modo que Fortunata, que já começava a fazer algumas brincadeiras sobre o assunto, recolheu-se em si. Maxi não disse palavra e, de repente, saiu disparado da casa, fechou a porta com estrondo e desceu a escada de quatro em quatro degraus. Fortunata assustou-se e, aparecendo à varanda, viu-o percorrer apressadamente a calle de Sagunto e depois tomar a de Santa Engracia, para baixo. Ela saiu depois, pela mesma rua, mas para cima, em direção a Cuatro Caminos.
Seriam seis da tarde quando Rubín voltou para casa. Estava lívido, e de lívido passou a verde quando Patricia lhe disse que a senhorita saíra para fazer compras. Deixando-se levar por seu insensato receio, interrogou a criada, procurando descobrir alguma coisa por ela. Mas escolhera boa fonte. Patricia tinha a discrição do traidor, e tudo o que disse destinava-se a introduzir no cérebro de Maxi a convicção de que sua mulher era pouco menos que digna de canonização. Quando a criminosa entrou, o marido mandara acender a luz e estava sentado junto à mesa da sala.
— De onde vem? — perguntou-lhe.
— Parece-me — respondeu ela — que lhe disse que ia comprar este retor.
Mostrou um embrulho, depois um pacotinho e outro.
— Está vendo?... A sopa Juliana de que você tanto gosta...
— Eu também — disse Maximiliano de modo sinistro — comprei esta tarde um presentinho para você... Veja.
Estendeu o braço para tirar debaixo da mesa alguma coisa que escondera ao entrar. Era um objeto envolto em papéis, que desembrulhou lentamente enquanto ela se inclinava, sorridente, para vê-lo.
— Deixe-me ver... o que é?... Ai, um revólver...
— Sim, para matar você e me matar — disse Maxi num tom que não pôde ser tão lúgubre quanto desejava, pois a arma começou a lhe causar medo, visto que nunca na vida tivera nas mãos um engenho daquela espécie.
— Que coisas você inventa! — disse ela, empalidecendo. — Você não sabe o que faz... Parece tolo... Matar a mim, e por quê?...
Lançou-lhe um olhar doce e penetrante, o mesmo olhar com que o fizera seu escravo. O pobre rapaz sentiu como se lhe pusessem um grilhão na alma.
— Veja só os disparates que lhe ocorrem, filho... Sou muito medrosa e, só de ver isso, começo a tremer. Bela maneira de fazer com que eu o ame, sim senhor, bela maneira.
Aproximou timidamente a mão do cabo da arma.
— Pode pegá-la, está descarregada — disse Maxi, que de um salto caíra do furor na piedade.
— Você é uma criança — declarou ela, tomando a arma —, e como criança deve ser tratado. Dê-me cá este troço: vou guardá-lo para o caso de entrarem ladrões em casa.
E levou-o sem que ele oferecesse resistência. Depois de trancá-lo num baú cheio de coisas velhas, voltou para junto do marido, que ficara absorto, medindo sem dúvida, com pensamento assustado, a enorme distância que havia em seu ser entre os arrancos da vontade e a ineficácia da ação desfalecida.
Naquela noite nada ocorreu; mas, na tarde seguinte, Pseudo-Narcissus odoripherus foi procurá-lo na farmácia de Samaniego e disse-lhe que Fortunata tinha encontros com um senhor numa casa do paseo de Santa Engracia, um pouco acima dos Armazéns da Villa.
Maxi tomou um coche para ir a Chamberí e à sua casa. Depois de entrar e informar-se de que a senhorita não estava, subiu lentamente em direção à igreja. Ao passar diante dela e ver uma cruz de ferro que havia no átrio, ocorreu-lhe que devia ter trazido o revólver. Retrocedeu e, no meio do caminho, lembrou-se de que a mulher guardara a arma. Como fora tolo em permiti-lo! Tornou a tomar a direção norte, sentindo na alma o suplício indizível produzido pela conjunção de dois sentimentos tão opostos como o anseio da verdade e o terror dela. Ao distinguir o motor da nora que se destacava sobre a casa das Micaelas, não pôde reprimir um aperto de tristeza que o fez soluçar. O disco não se movia.
O jovem passou além dos Armazéns da Villa e examinou as casas de um único andar que ali existiam. Como ignorava qual delas servia de abrigo aos adúlteros, resolveu vigiar todas. A noite caía, e Maxi desejava que caísse mais depressa, para deixar de ver o disco, que lhe parecia o olho de um bufão testemunha, exprimindo todo o sarcasmo do mundo. Uma maldição sacrílega escapou-lhe dos lábios, e ele renegou o fato de terem vindo ficar tão próximos sua desonra e o santuário onde lhe haviam dourado a infame pílula da ilusão. Em outros termos: fora ali em busca de uma hóstia e lhe haviam dado uma mó de moinho... e o pior era que a engolira.
Depois de muito passear, viu o faetonte de Santa Cruz, guiado lentamente pelo lacaio, como para que os cavalos não esfriassem. Já não restava dúvida. O coche esperava por ele. Viu-o subir até Cuatro Caminos, onde parou para acender as lanternas. Depois desceu e, ao chegar aos Armazéns da Villa, tornou a subir. Maxi não o perdia de vista. O cocheiro deixava perceber seu aborrecimento e impaciência. Numa das voltas do veículo, Rubín surpreendeu naquele homem um olhar dirigido a uma das casas. “É aqui... aqui está.” Fixou-se perto dali, reduzindo o espaço de seu passeio vigilante. Eram sete horas.
Por fim, num momento em que Maxi ia do sul para o norte, viu, a bastante distância, um homem saindo da casa. Era ele, Santa Cruz, o próprio, vestido de paletó e chapéu-coco. Deteve-se à porta procurando com os olhos a carruagem. As duas lanternas brilhavam lá em cima. Dirigiu-se para Cuatro Caminos... Atrás, apressando o passo, o ódio personificado em Maximiliano.
O caminho estava solitário. Passava pouquíssima gente, e fazia bastante frio. O Delfim ouviu aqueles passos atrás de si, e uma misteriosa apreensão, talvez a consciência, disse-lhe de quem eram. Voltou-se justamente quando a voz trêmula do outro dizia:
— Escute, senhor.
Santa Cruz parou firme e, embora não o conhecesse bem, tomou-o por quem era sem hesitar um instante.
— Que deseja o senhor?
— Canalha!... indecente! — exclamou Rubín com mais ferocidade no tom que na atitude.
Santa Cruz não esperou ouvir mais, nem seu amor-próprio lhe permitia dar explicações, e com um movimento vigoroso do braço direito repeliu o antagonista. Mais que bofetada, foi um empurrão; mas o débil esqueleto de Rubín não pôde resistir. Ao recuar, pisou em falso e caiu no chão, dizendo:
— Vou matar você... e a ela também.
Revolveu-se na terra; por um instante foi visto esperneando de quatro e dizendo entre mugidos:
— Ladrão, gatuno... vai ver!...
Santa Cruz ficou algum tempo contemplando-o com a calma fria do assassino ofuscado e, quando viu que afinal conseguia levantar-se, foi para ele e agarrou-o pelo pescoço, apertando-o com sanha, como se de fato quisesse afogá-lo. Mantendo-o contra o chão, gritava:
— Estúpido... sapo... quer que eu o pisoteie?...
Da garganta oprimida do desgraçado jovem saía um gemido, estertor de asfixia. Seus olhos saltados cravavam-se no verdugo com o centelhar elétrico dos olhos de um gato raivoso e moribundo. A única defesa do que estava por baixo era cravar as unhas, afiando-as com o pensamento, nos braços, nas pernas, em tudo quanto alcançava do vencedor; e, conseguindo erguer-se um pouco com coragem nervosa, tentou girá-lo para derrubá-lo. Caídos os dois, talvez lutassem em condições mais proporcionadas. Pobre razão esmagada pela soberba! Onde está a justiça? Onde está a vingança do fraco? Em parte alguma.
O furor do Delfim não foi tão grande que lhe ocultasse o perigo de chegar ao homicídio, abusando de sua superioridade. “Afinal, este é um homem, embora pareça um inseto”, pensou. E, com desdém em que havia alguma piedade, teve de soltar a presa, que caiu inerte a um lado do caminho, numa espécie de cova ou sulco. Ao vê-lo como um embrulho, Juan sentiu algum medo. “Será que o matei sem querer?... Em todo caso... foi em legítima defesa.” Mas a vítima soltou um mugido e, revolvendo-se como os epilépticos, repetiu:
— Ladrão... assassino.
O Delfim aproximou-se e, pondo-lhe um pé sobre o peito, com cuidado para não apertar, disse:
— Se não se calar, barata, eu o esmago.
Rubín levantou-se de um salto. Era todo unhas e dentes; sacava as armas do fraco, mas com tamanha ferocidade que, se apanhasse o outro, arrancaria sua pele. Santa Cruz acudiu depressa à defesa.
— Estou dizendo que o pisoteio... se voltar...
Levantou-o como uma pena e lançou-o violentamente onde caíra antes. Era um terreno baldio ou campo mal lavrado, além da última casa. A vítima não dava acordo de si, e, aproveitando aquele momento, o bárbaro senhorito viu passar o coche, deteve-o, montou de um salto e, avante!, os cavalos partiram a galope.
Um homem se detivera diante dos combatentes no último instante da briga. Aproximou-se de Maxi e olhou-o com receio. Julgando-o mortalmente ferido, não queria meter-se em complicações com a justiça. Quando o ouviu falar, chegou mais perto.
— Meu bom homem, que é isso?... Pobre rapaz! Nem parece rapaz, mas um velho... Veja só, bater assim num pobre ancião!
Chegou depois outro homem, destacando-se de um grupo de operários que subiam. Auxiliado por ele, Maxi conseguiu levantar-se e correu um bom trecho pelo caminho abaixo, gritando:
— Ladrão!... Peguem aquele!... o assassino!...
Mas o coche já estava além da igreja. Formou-se ao redor da vítima um círculo de quatro, seis, dez pessoas de ambos os sexos. Ele as olhava como se fossem amigos que lhe dariam razão, reconhecendo nele a justiça pisoteada e a humanidade escarnecida. Parecia um insensato. Seu rosto descomposto dava medo, e sua voz afilada causava a maior estranheza.
Porque o ardor da luta produzira como que um relaxamento da laringe, de modo que a voz lhe ficara inteiramente em falsete. As palavras saíam de sua garganta com o timbre de um impúbere.
— Onde se meteu?... Onde?... Não é verdade, senhores, que é um miserável?... um sequestrador?... Tirou-me o que era meu, roubou-me... Ele a lançou ao lixo... eu a recolhi e limpei... ele a tirou de mim e... tornou a lançá-la... tornou a lançá-la. Infame!... Mas eu tenho de fazer duas mortes. Irei ao patíbulo... não me importa ir ao patíbulo, senhores... digo que quero ir à forca... mas eles primeiro, eles primeiro...
Os que o rodeavam tinham pena dele. Ignorando o motivo da zaragata, cada qual dizia o que lhe parecia.
— Sobre vinho houve uma pendência.
— Não, questão de saias, não é?
— Ora essa! Não vê que é efeminado?
As mulheres olhavam-no com maior interesse.
— O senhor tem sangue na testa — disse-lhe uma.
Era uma escoriação de que o jovem não se dera conta. Levou a mão à cabeça e retirou-a manchada de sangue. Notou que o braço direito lhe doía horrivelmente.
— Vamos, vamos — disse-lhe um —, venha à Casa de Socorro.
— Gatuno... miserável...
— Vamos; isso já acabou... Onde está seu chapéu?
Maxi não disse nada nem cuidou do chapéu. De repente rompeu em uivos, pois outra coisa não pareciam os esforços de sua voz para falar aos gritos. Os circunstantes mal conseguiam ouvir estas ideias:
— Partir-lhe o coração é pouco; é preciso... esmagá-lo.
Dois homens o levavam rua abaixo, cada qual segurando-o por um braço, e ele, olhando estupidamente para os condutores, repetia:
— Esmagá-lo!
Às vezes parava e prorrompia em risadas de demente. Já perto da igreja apareceram dois agentes da Ordem Pública, que, vendo Maxi naquele estado, o receberam muito mal. Pensaram que era um malandro e que os golpes recebidos eram muito bem merecidos. Agarraram-no pela gola do paletó com aquela paternal garra da justiça das ruas.
— Que tem o senhor? — perguntou-lhe um deles, mal-humorado.
Maxi respondeu com a mesma risada insana e delirante. Vendo isso, o policial apertou a garra, como expressão dos rigores que a justiça humana deve empregar com os criminosos.
— E o agressor?
— Esmagá-lo!...
Chegou à Casa de Socorro já com uma procissão de gente atrás. O médico de plantão conhecia Maxi e, depois de cuidar da contusão da cabeça, que não tinha importância, mandou-o para casa sob os cuidados dos guardas da Ordem Pública.
Quando o desventurado rapaz entrou em casa, Fortunata ainda não aparecera. Assim que Patricia o viu naquele estado lastimável, correu a avisar dona Lupe, que não tardou em chegar, alvoroçada e aflita. A primeira coisa que fez, de acordo com seu grande caráter, foi sobrepor-se aos acontecimentos, não se acovardar diante do sangue e ditar acertadas providências preliminares, como deitar Maximiliano, trazer boa quantidade de arnica, examinar-lhe bem as contusões e chamar um médico.
— Mas e Fortunata?
— Saiu para fazer umas compras — disse Patricia.
— É extraordinário! Oito e meia da noite.
Em vão tentou dona Lupe saber dos próprios lábios do jovem o que ocorrera. Ele não dizia senão “Esmagá-lo!”, com aquela voz de falsete, que era outra novidade para a tia. Deitaram-no com não pouco trabalho e cobriram-no de emplastros. Veio o médico da Casa de Socorro e ordenou repouso. Temia que houvesse alguma comoção cerebral; mas provavelmente tudo terminaria numa forte enxaqueca. Também lhe administrou brometo de potássio em grandes doses, e com a primeira tomada o ferido adormeceu, pronunciando palavras soltas, das quais a senhora de Jáuregui não pôde entender nada. E, durante tudo isso, a outra sem aparecer!
Por fim, cerca de nove e meia, quando o médico se foi, dona Lupe ouviu um rebuliço e depois cochichos no corredor. Fortunata entrara e falava muito baixo com Patria. A mente da viúva, na qual até então tudo era confusão e vagueza, começou a produzir os juízos mais estranhos, ideias de alcance atrevido e de aterrador pessimismo. Saiu passo a passo para a sala, desejosa de surpreender aquele segredo. Fortunata entrou pálida como um círio, os olhos aterrados; mas dona Lupe não lhe disse nada. Viu-a avançar para o gabinete, dar alguns passos em direção à alcova, deter-se à porta e, dali, inclinar o corpo para olhar o marido. Por que não entrou? Que temor a detinha? A alcova estava quase às escuras, pois mal lhe chegava a claridade da lâmpada acesa na sala. Dona Lupe levou a luz ao gabinete. Queria observar o que fazia a sobrinha, e logo lhe chamou a atenção aquela atitude estranha, pouco conforme aos sentimentos naturais de uma esposa em situação tão aflitiva. Depois de olhar bem para o marido de longe, Fortunata, sem fazer o menor caso de pessoa tão respeitável como sua tia por afinidade, voltou à sala, que já estava meio escura, e sentou-se numa cadeira. Ainda não tirara o manto e parecia que voltaria à rua. Com a face apoiada na mão, permaneceu imóvel cerca de um quarto de hora. O silêncio que reinava nos três aposentos só era interrompido por alguma palavra confusa pronunciada por Maxi e pelo passo de gato da criada, que atravessava a sala para receber ordens da única pessoa que naquela noite mandava na casa. Se o estado do enfermo permitisse levantar a voz, ai!, dona Lupe faria a casa estremecer com o estrondo de sua palavra autoritária e fiscalizadora; mas não podia ser. Que coisas sua sobrinha haveria de ouvir! A tia resolveu, pois, deixar a discussão para o dia seguinte; mas a curiosidade e o enojo apertaram-na tanto que não pôde deixar de apresentar-se, passinho a passinho, na sala e dizer a Fortunata, com voz oprimida:
— Explique-me isto.
— Isto?... — murmurou ela, levantando o rosto como quem desperta.
— Isto, sim... Maximiliano espancado... você entrando em casa tão tarde e com esses modos de traidora de melodrama.
Fortunata, depois de olhar fixamente para dona Lupe durante cerca de um minuto, tornou a apoiar a face no punho sem dizer palavra.
— Pois estou entendendo... Muito bonito...
E foi à alcova, porque ouviu a voz de Maxi chamando. Pouco depois, ouviu-se que vomitava. Fortunata prestou atenção ao que ali se passava, mas sem abandonar sua postura de esfinge.
Quando a viúva voltou à sala, já passava das dez.
— Dez horas dadas! — disse com aquela voz tão severa que faria uma pedra estremecer. — E você ainda não tirou o manto. Pretende voltar... às compras? O pobre Maxi, ao despertar há pouco, perguntou-me se você havia chegado, e eu lhe disse que não. Tive vergonha de dizer que sim, porque seria preciso acrescentar que, só pela maneira como entrou, você se declara culpada... Ele disse: “Melhor que não venha...” E você não compreende que assim não se pode continuar?... que é preciso me explicar isto? Fale, filha, fale, ou eu verei o que tenho de fazer.
Fortunata, depois de fitá-la com uma emoção que dona Lupe não saberia definir, tornou a apoiar o rosto na mão e, soltando um grande suspiro, couraçou-se naquele silêncio lúgubre, capaz de desesperar a própria paciência.
— Isto é para enlouquecer! — expressou dona Lupe com gesto irado. — Você pensa, a senhora pensa, que comigo valem manhas? Saiba a senhora que...
A ira transbordava-lhe, e para contê-la voltou à alcova. Sua mente aquecida revolvia estas ideias: “Saiu o que eu temia... Se eu disse, se essa mulher acabaria por nos dar um desgosto... Ai, que olhos tenho! A mim ela não convencia, não convencia; sempre disse: ‘nem com Micaelas nem sem Micaelas conseguiremos fazer de uma mulher má uma esposa decente’. Aí está, aí está, aí a têm. Vejam se acertei; vejam se eram preocupações minhas...”
O que mais ensoberbecia dona Lupe era o logro que sofrera, pois, embora dissesse outra coisa, a verdade é que acreditara Fortunata radicalmente reformada. Não pôde conter o ímpeto e voltou à sala.
— Mas a senhora vai se explicar, sim ou não?...
Reparou então que falava com uma sombra. Fortunata não estava ali. Dona Lupe saiu ao corredor e viu luz num quartinho interior onde a mulher de Maxi guardava suas roupas. Empurrou a porta. Ali estava ela, já sem mantilha, tirando roupas do armário e metendo-as num baú.
— Mas afinal a senhora quer me tirar das dúvidas? — disse, já sem se preocupar em levantar a voz. — Isto é vergonhoso. Se insiste em calar-se, acreditarei que a causadora de toda esta tragédia é a senhora e somente a senhora.
Fortunata voltou-se para ela. Sua palidez era a de um morto.
— Vamos ver — acrescentou a de Jáuregui, gesticulando. — Se meu sobrinho tornar a me perguntar se a senhora entrou, que lhe digo?
— Diga-lhe — respondeu a esposa em voz mais baixa, exprimindo-se com grande dificuldade —, diga-lhe que não vim, porque irei embora assim que amanhecer.
— Não entendo uma palavra... Que aconteceu, Santo Deus!... Quem espancou Maxi?
Fortunata soltou um grande suspiro.
— Que farsa! Vou dar parte à justiça. Veremos se responde desse modo ao juiz. Que a senhora é culpada, está bem à vista. Senão, por que vai embora?
— Porque devo ir — respondeu a outra olhando para o chão.
Não disse mais. Fora de si, dona Lupe agarrou-a por um braço e, sacudindo-a com força, soltou esta imprecação:
— Ah, maldita... Vê-se claramente que a senhora é uma velhaca... uma velhaca em toda a extensão da palavra... que sempre o foi e o será enquanto viver... Enganou a todos, menos a mim... a mim, não... Eu já a via chegar.
Esmagada pela própria consciência, Fortunata não pôde responder. Se dona Lupe se tivesse lançado sobre ela para bater-lhe, teria deixado que a castigasse.
— Faz muito bem em ir embora — acrescentou a outra, já à porta. — Não serei eu quem a detenha... Ar fresco. Que casa esta, que casamento! Nada me surpreende... porque, repito, a senhora enganou a todos, menos a mim.
E era mentira, porque a primeira enganada fora ela. Belo fiasco haviam sofrido suas faculdades educadoras! A ideia daquele fracasso inflamava-lhe mais o furor que o próprio delito que suspeitava na sobrinha.
Voltando à sala, a senhora de Jáuregui foi tomada pelo frenesi das providências. A primeira foi decidir que ficaria ali naquela noite. Depois mandou Patricia à sua casa com um recado, chamando Nicolás, que naquele dia chegara de Toledo.
— Que meu sobrinho venha imediatamente e, se estiver dormindo, encarregue Papitos de despertá-lo.
Fortunata continuava no quarto das roupas, mas avançava muito pouco no arranjo da bagagem, porque de repente ficava imóvel, sentada sobre um baú, olhando o chão ou a vela, que ardia com pavio muito comprido e negro, derramando grandes gotas de sebo. Desde que começara a faltar, nunca sentira remorsos como os daquela noite. O espectro de sua maldade até então não fizera mais que apresentar-se como em brincadeira, e era-lhe muito fácil espantá-lo; agora, porém, não acontecia o mesmo. O espectro vinha e se sentava com ela, levantava-se com ela; quando se punha a guardar roupa, ajudava-a; quando suspirava, suspirava também; os olhos dela eram os dele e, enfim, as duas pessoas pareciam uma só. E atormentavam-na, juntamente com as convulsões da consciência, ânsias de amor, desejos vivíssimos de regularizar sua vida dentro da paixão que a dominava. Lembrou-se de que o amante lhe oferecera pôr-lhe uma casa e estabelecer entre ambos uma familiaridade regular dentro da irregularidade. Mas seria isso possível? As ânsias amorosas cruzavam-se em seu espírito com vagos temores e, por fim, ela vinha a considerar-se a pessoa mais desgraçada do mundo, não por culpa própria, mas por disposição superior, por aquela mecânica espiritual que a empurrava de modo irresistível. Não pensou em dormir naquela noite e ansiava que chegasse o dia para partir, porque ouvir a voz dolorida do marido lhe produzia atroz martírio. Teria dado dez anos de sua vida para que o ocorrido não tivesse ocorrido. Mas, já que não podia remediá-lo, oxalá as feridas de Maxi fossem de pouca importância! Depois disso, seu desejo mais vivo era tomar a porta e fugir para sempre daquela casa. Antes morrer que continuar a farsa de um casamento impossível.
Dessas meditações tirou-a dona Lupe, que depois da meia-noite tornou a entrar no quarto. Estava toda envolta numa manta, o que lhe dava certo aspecto medonho e lúgubre de alma do outro mundo.
— O pobre Maxi — disse — agora deu para chorar... Não para de me perguntar se a senhora veio... Francamente, não sei o que lhe responder.
— Diga-lhe que morri — respondeu Fortunata.
— E positivamente seria o melhor... Já arrumou seus baús?
— Falta pouco... Veja, veja... Não levo nada que não seja meu.
— E suas joias? — perguntou a viúva, que guardava em sua casa as de maior valor.
— Minhas joias? — observou a outra, primeiro vacilando e depois decidindo-se. — Não são minhas. São dele, de Maxi, que as resgatou. Deixo todas.
— Então não leva senão suas roupas?
— Nada mais. Até o porta-moedas, com o último dinheiro que ele me deu, deixo aqui sobre a cômoda. Veja.
A prudente senhora pegou o porta-moedas, ainda bem cheio, e guardou-o.
Há motivos para crer que, quando Papitos entrou à meia-noite no quarto de Nicolás Rubín e, sacudindo-o com força, disse: “Senhor, senhor, sua tia manda que vá lá agora mesmo”, o santo varão soltou um bramido, deu meia-volta e tornou a cair em sono profundo. É provável que, ao segundo assalto de Papitos, o clérigo se espreguiçasse e afugentasse a macaca com outro berro, acolhendo em seu cérebro enevoado a ideia de que a tia devia esperar até a manhã seguinte. E o fundamento dessas apreciações é que Nicolás só apareceu na casa do irmão Maxi depois das sete horas. Tanta pachorra tirava dona Lupe do sério, e ela, pondo o grito no Céu, dizia:
— Estou destinada a ser vítima destes três idiotas... Cada um por seu lado me consome a vida, e os três juntos vão acabar comigo... Que família, Senhor, que família! Se meu Jáuregui me visse, outro galo me cantaria. Mas, homem de Deus, que calma você tem! Não sei como, com ela e com o que come, não está mais gordo... Mando chamá-lo às onze da noite, e esta é a hora em que aparece... Você sabe o que aconteceu?
Dizia isso na sala, ao ver entrar Nicolás, cujos olhos ainda traziam sinais evidentes de como dormira bem. Ao ouvir o colóquio, a pecadora saiu do esconderijo e, aproximando-se da porta da sala, tentou escutar. Mas tia e sobrinho continuaram falando muito baixo, e nada pôde perceber. Depois, o clérigo, a instâncias da tia, saiu ao corredor, e Fortunata meteu-se depressa no esconderijo para esperá-lo ali.
O quarto estava quase inteiramente às escuras nas primeiras horas do dia. Quem entrava não via a pessoa que estivesse dentro. A vela, que ardera grande parte da noite, consumira-se. Lá de dentro, Fortunata viu o padre, sombra negra no quadro luminoso da porta, e esperou que entrasse ou dissesse alguma coisa. Como quem receia penetrar na toca de uma fera, Nicolás permaneceu à porta e, dali, lançou no meio da escuridão estas palavras:
— Mulher, a senhora está aí?... Não vejo nada.
— Aqui estou, sim senhor — murmurou ela.
— Minha tia — acrescentou o clérigo — contou-me os horrores desta noite... Meu irmão espancado, ferido; a senhora entrando em casa a desoras, e entrando para recolher suas roupas e partir, rompendo a harmonia conjugal e deixando-nos a todos na maior confusão. Quer me explicar esta embrulhada?
— Sim senhor — respondeu a voz, com medo e perturbação indizíveis.
— E se a senhora teve parte nesta infâmia?
— Eu... na questão dos golpes não tive parte — apontou rapidamente a voz.
— Vamos às contas — disse o clérigo, avançando um pouco, precedido pelas mãos que tateavam nas trevas. — Há alguns dias... soube ontem por acaso... meu irmão suspeitava que a senhora não lhe era fiel; eis a questão. Tinha fundamento essa suspeita?
A voz não disse nada, e houve um breve momento de temerosa expectativa.
— Mas a senhora não responde? — interrogou Nicolás com acento irado. — Por quem me toma? Faça de conta que está no confessionário. Não faço a pergunta como pessoa da família nem como juiz, mas como sacerdote. Tinha fundamento a suspeita?
Depois de outro instante, que ao padre pareceu mais longo que o primeiro, a voz respondeu tenuemente:
— Sim senhor.
— Já vejo — afirmou Rubín com ira — que a senhora enganou a todos nós, a mim em primeiro lugar, às senhoras Micaelas, ao meu amigo Pintado e depois a toda a minha família. A senhora é indigna de ser nossa irmã. Veja que belo papel fizemos. E eu que respondi pela senhora!... Nunca me aconteceu outra assim. Julguei-a extraviada, não corrompida, e agora vejo que a senhora é o que se chama um monstro.
Deu então mais um passo, fechando um pouco a porta, e tateou a parede para ver se encontrava cadeira ou banco em que sentar-se.
— Falando claramente, a senhora não ama meu irmão... Abra-se, consciência.
— Não senhor — disse a voz prontamente, sem esforço algum.
— Nunca o amou... esta é a questão.
— Não senhor.
— Mas a senhora me disse que esperava tomar-lhe carinho à medida que o tratasse.
— Sim, eu disse.
— Mas não resultou... Não resultou. Uma decepção dessas!... Há casos... Então, nada.
— Nada.
— Perfeitamente! Mas a senhora esquece que é casada e que Deus lhe ordena amar o marido e, se não o ama, ser-lhe fiel de corpo e pensamento. Que belo papel, sim senhor, belo mesmo!... Nunca me aconteceu outra. E a senhora, pisoteando a honra e a lei de Deus, apaixonou-se por qualquer pelintra... está claro: seu passado licencioso lhe envenena a alma, e a purificação foi uma farsa. Não ter visto isto, Senhor, não ter visto!
O padre estava tão furioso por lhe ter saído tão mal aquele conserto, e seu amor-próprio de arranjador sofria tanto, que não pôde deixar de desabafar o despeito com estas coléricas razões:
— Pois saiba a senhora que está condenada, e não há que dar voltas: condenada.
Não se sabe se esse processo de terror produziu efeito, porque Fortunata não respondeu. A expressão de seus sentimentos diante do tremendo anátema perdeu-se na escuridão daquela caverna.
— Ao menos, desgraçada, confesse seu delito — disse Rubín, que, deslizando nas trevas, encontrara uma caixa em que se sentar. — Não me esconda nada. Quantas vezes, quantas vezes faltou a seu marido?
A resposta demorava. Nicolás repetiu a pergunta até três vezes, suavizando o tom, e afinal ouviu um sussurro que dizia:
— Muitas.
Conta o padre Rubín que aquele muitas lhe deu calafrios e lhe pareceu o rumor que fazem as baratas quando, em tropel, escorrem pelas paredes.
— Com quantos homens?
— Com um só...
— Com um só!... De verdade? Conheceu-o depois de casada?
— Não senhor. Conheço-o há muito tempo... sempre o amei.
— Ah! Já... a velha história... perfeitamente — disse o padre, cujo amor-próprio se erguia ao encontrar um modo de parecer previdente. — Isso eu já temia. O primeiro amorzinho!... Não disse, não lhe disse? É aí que mora o perigo. Vi muitos casos. Muito bem. E esse pelafustão é o de antes?
Fortunata respondeu que sim, sem compreender o que queria dizer “de antes”.
— E foi esse miserável que, abusando da força, espancou o pobre Maxi, fraco e enfermiço... Ai, mundo amargo!
— Foi ele... mas Maxi o provocou... — disse a voz. — Essas coisas acontecem sem se saber como... Eu vi tudo da janela.
— De que janela?
— Daquela casa.
— Temos casinha?... Sim... sim, o de sempre. Eu já previra. Não pense que isso me apanha de surpresa. Casinha e tudo!... Quanta infâmia! E não sente remorsos? Qualquer pessoa que tivesse alma estaria, num caso desses, cheia de tribulação... mas a senhora, tão tranquila.
— Eu sinto... sinto... Queria que isso não tivesse acontecido.
— Isso, que não tivesse acontecido a briga, para continuar pecando quietinha. E que prossiga o fandango. Também conheço de cor essa espécie de perversidade.
Fortunata calou-se. Fosse porque os olhos do clérigo se acostumavam à escuridão, fosse porque entrava no quarto mais luz, o fato é que Nicolás começou a distinguir a cunhada sentada sobre o baú, com um lenço na mão. Às vezes levava-o ao rosto como para enxugar as lágrimas. É verdade que Fortunata chorava; mas, algumas vezes, a causa de aproximar o lenço da face era a necessidade de proteger o olfato contra o cheiro desagradável que as roupas negras e muito usadas do clérigo exalavam.
— Essas lágrimas que a senhora derrama são de arrependimento sincero? Quem sabe!... Se a senhora se arrependesse de verdade, mas de verdade, com contrição ardente, isto ainda poderia ser consertado. Mas seria preciso submeter-se a provas duras e conclusivas... esta é a questão. Voltaria às Micaelas?
— Oh, não senhor — respondeu prontamente a pecadora.
— Pois então que o diabo a leve! — gritou o clérigo com gesto de desprezo.
— Vou lhe dizer... eu me arrependo; mas...
— Que “mas” nem que coisa alguma! — manifestou Rubín, gesticulando com modos grosseiros. — Renegue seu infame adultério; renegue também o homem mau que a tem endemoniada.
— Isso...
— Isso o quê?... Veja só a...! E diz assim, com esse cinismo.
Fortunata não sabia o que queria dizer cinismo e calou-se.
— Tudo leva a crer que a senhora se prepara para reincidir e que não há quem lhe tire da cabeça essa maldita ilusão.
O grande suspiro da outra confirmou a suposição melhor que as palavras.
— Então, mesmo vendo-se perdida e desonrada por esse miserável, ainda o ama. Bom proveito lhe faça.
— Não posso remediar. Isso está dentro de mim, e não posso vencê-lo.
— Sim... a história de sempre. Conheço-a de cor... Que só querem aquele e não podem expulsá-lo do pensamento, e isto e aquilo... Enfim, tudo não passa de falta de consciência, podridão do coração, subterfúgios do pecado. Ai, que mulheres! Sabem que é preciso vencer e arrancar as paixões pela raiz; pois não, senhor, sempre agarradas à ilusãozinha... têm de fazer o contrário... Em resumo, a senhora não quer salvar-se. Pusemo-la no caminho da regeneração, e faltou-lhe tempo para meter-se pelas veredas da cabra. Ao monte, filha, ao monte! Muito bem; lá se entenderá com Deus. Já estou rindo da decepção que vai sofrer. Porque agora, como se eu estivesse vendo, tornará a lançar-se à vida livre. Divertir-se... vamos!... De início haverá um arranjo, e esse velhaco lhe dará alguma proteção; terá uma casa onde viver... E agora que me lembro, esse homem é casado?
— Sim senhor — disse Fortunata com tristeza.
— Ave Maria Puríssima! — exclamou o padre, levando as duas mãos à cabeça. — Que horror, que sociedade! Outra vítima; a esposa desse senhor... E a senhora, tão tranquila, semeando mortes e extermínios por onde passa...
Essa frase de sermão aterrorizou um pouco Fortunata.
— Terá seu castigo, e depressa. A história de sempre... Que mulheres, Senhor, que mulheres! Vá correr aventuras, desonre seu marido, perturbe dois casamentos; já virá, já virá a explosão. Não lhe invejo o ganho. O concubinato agora, depois a prostituição, o abismo. Sim, aí está, veja-o já aberto, com sua boca negra, mais feia que a boca de um dragão. E não há remédio, para lá a senhora vai de cabeça... porque esse homem há de abandoná-la... Isso é certo como dois e dois são quatro.
Fortunata tinha a cabeça quase nos joelhos. Estava encolhida como um novelo, e os soluços declaravam a agitação de sua alma.
— Ah, mulher infeliz! — acrescentou o clérigo com solenidade, levantando-se. — A senhora não é apenas uma velhaca, mas uma idiota. Todas as enamoradas o são, porque lhes seca o entendimento. Tira-se uma do purgatório do prazer, e lá vai ela outra vez. Você quis, pois tenha. No Inferno ajustarão suas contas. Vá depois com sofismas e lisonjas de amor... Acabou-se. Nem eu tenho o que fazer com a senhora, nem a senhora tem o que fazer nesta casa. Conta encerrada. Para a rua, filha; vá divertir-se. A senhora sai daqui e, quando for, defumaremos a casa, sim, defumaremos... Perfei... tamente.
Disse isso à porta e retirou-se sem acrescentar palavra. Dona Lupe esperava-o na sala para saber se fora mais afortunado que ela na averiguação da verdade, e ali ficaram conversando por bom tempo. Depois ouviram ruído, ouviram a voz de Fortunata falando baixinho com Patricia, talvez lhe dizendo como e quando mandaria buscar as roupas. Tia e sobrinho chegaram então aos vidros da varanda e viram-na atravessar a rua apressada e dobrar a esquina sem dirigir um olhar à casa que abandonava para sempre.
Nicolás repetia uma figura de que estava satisfeito:
— Defumar, defumar e defumar.
E, a propósito de alfazema, fisicamente também não lhe faria mal algum... isto sem ofender ninguém.
Madri, maio de 1886.
FIM DA SEGUNDA PARTE
* * * * *
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.