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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 20 · Fortunata e Jacinta

Parte 3 — Capítulo II: A Restauração vitoriosa

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Parte 3 — Capítulo II: A Restauração vitoriosa

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Jacinta me contou que certa noite sua irritação chegou a tal grau, por causa dos ciúmes, da curiosidade insatisfeita e da reserva forçada, que esteve a ponto de explodir e descobrir-se, fazendo em pedaços a máscara de tranquilidade que punha diante dos sogros. Porque a pior de suas mortificações era ter de desempenhar o papel de mulher venturosa e ver-se obrigada a contribuir com seus risinhos para a felicidade de D. Baldomero e dona Bárbara, engolindo em silêncio a própria amargura. Já não lhe restava dúvida de que o marido mantinha, como agora se diz, uma mulher, e desses entretenimentos os bem-aventurados papais não tinham sequer suspeita. Sabia que a megera que lhe roubava o marido era a mesma com quem ele tivera amores antes de casar-se, a mãe do Pituso morto, a condenada Fortunata que lhe dera tantas dores de cabeça. Desejava vê-la... mas não; melhor seria não vê-la jamais, porque, se a visse, perderia sem dúvida todo o domínio de si.

Na noite a que Jacinta se referia ao contar essas coisas, noite tristíssima para ela por haver recebido recentemente notícias fidedignas da infidelidade do marido, houve na casa grande regozijo. Naquele dia entrara em Madri o rei Alfonso XII, e D. Baldomero estava com a Restauração como menino de sapatos novos. Barbarita também rebentava de alegria e dizia:

— Mas que rapaz tão gracioso e tão simpático!

Jacinta tinha de entusiasmar-se também, apesar daquela procissão que lhe ia por dentro, e pôr rosto de festa para todos os que entravam felicitando-se pelo acontecimento. O marquês de Casa-Muñoz oficiava de camareiro palatino. Tivera a imensa felicidade de estar no Palácio fazendo parte de uma das comissões, e o rei falara com ele... O marquês contava o caso, fazendo notar bem o tom familiar em que Sua Majestade se exprimira.

— Olá, marquês, como vai?

Nada, exatamente como se o tivesse tratado a vida inteira.

Aparisi sustentou pouco depois que previra tudo quanto estava acontecendo. Não era partidário da Restauração, mas era preciso respeitar os fatos consumados. D. Baldomero não cessava de exclamar:

Veremos se agora, que diabos!, fazemos alguma coisa; se esta nação entra nos eixos...

Jacinta indignava-se interiormente. Tinha um vulcão no peito, e a alegria dos demais a mortificava. Por seu gosto teria começado a chorar no meio da reunião; mas era-lhe necessário conter-se e sorrir quando o sogro a olhava. Torcendo no coração a corda com que a si própria se estrangulava, dizia consigo: “Mas a este bom senhor, que lhe importa o rei?... Que lhes importa!... Eu estou fora de mim e começaria a gritar aqui mesmo, se não temesse causar escândalo. Isto é horrível!...”

D. Alfonso era-lhe antipático, porque sua imagem se associava à horrível dor que a infeliz sofria. Naquela manhã, fora com Barbarita à casa de Eulalia Muñoz, que morava na Calle Mayor, para ver a entrada do rei. Amalia Trujillo tomou-a por sua conta e ficou adulando-a antes de lhe dar o grande susto. Achavam-se as duas sozinhas na varanda da alcova de Eulalia, e já soavam os clarins anunciando a proximidade do rei, quando Amalia, pum!, disparou-lhe o tiro:

— Seu marido mantém uma mulher, uma tal Fortunata, lindíssima... de cabelos negros... Pôs-lhe uma casa muito luxuosa, rua tal, número tantos... Em Madri todo mundo sabe, e convém que você também saiba.

Jacinta ficou gelada. É verdade que suspeitava; mas a notícia, dada assim com tantos detalhes, como os cabelos negros e o número da casa, era um golpe tremendo. Desde aquele funesto instante, já não percebeu o que acontecia na rua. O rei passou, e Jacinta viu-o confusa e vagamente entre a agitação da multidão e o tururu de tantas cornetas e músicas. Viu lenços agitando-se, e bem pode ter acontecido que ela agitasse o seu sem saber o que fazia... Todo o resto do dia esteve como sonâmbula.

Entrou Guillermina, que também teve de levar suas notas de alegria ao concerto geral.

— Já era tempo — disse antes de meter-se no canto onde costumava ficar. — Só espero que ele descanse da viagem para ir enfrentá-lo... Tem de me dar dinheiro para concluir o andar térreo. E dará, porque o trouxemos com essa condição: favorecer a beneficência e a religião. Deus o conserve.

Jacinta seguiu-a ao gabinete próximo, e ali ficaram as duas conversando durante mais de uma hora. Guillermina dizia:

— Paciência, filha, paciência, e tudo se arranjará; eu lhe prometo.

Já perto das doze entrou Juan, e a mulher o olhou com severidade sem dizer nada... “Vou acabar aborrecendo você”, pensou, “se não se corrigir. Pois só me faltava essa... E esta noite eu o devoro... Não me enganará com suas lisonjas.”

Juan, embora tivesse gostado de contradizer os otimismos do pai e dos amigos, não se atreveu, porque o impulso daquela opinião era forte demais para lutar contra ele. Até os últimos dias de 1874 defendera a Restauração. Depois de consumada, achou mal que os militares a tivessem feito e nisso fundou suas críticas ao acontecimento consumado.

— Aqui as mudanças sempre foram feitas desse modo — disse o senhor de Santa Cruz com patriarcal boa-fé. — É nossa maneira de matar pulgas. Pois quê, você queria que as Cortes...? Está bem arranjado.

Depois, o Delfim sustentou, com exemplos da França e da Inglaterra, que nenhuma Restauração prevalecera; mas todos se negaram a segui-lo pelos meandros históricos. D. Baldomero, sem entrar em desenhos, disse coisa muito sensata, fruto de sua longa observação:

— Não sei o que acontecerá daqui a vinte, daqui a cinquenta anos. Na sociedade espanhola nunca se pode confiar por tanto tempo. A única coisa que sabemos é que nosso país padece alternâncias ou febres intermitentes de revolução e de paz. Em certos períodos todos desejamos muita autoridade. Venha o pau! Mas cansamo-nos dela e todos queremos pôr o pé para fora do prato. Voltam os dias de folia, e já suspiramos outra vez para que a corda seja encurtada. Assim somos e assim creio que seremos até as rãs criarem barba.

— É a condição humana. Assim vivem e se educam as sociedades — disse o Delfim. — O que não me agrada é que isto se faça por outra via que não a da Lei.

“Patife, velhaco!”, pensava Jacinta, engolindo as palavras e, com elas, a bílis que lhe queria sair. “Que sabe você do que é lei? Farsante, demagogo, anarquista! Como se faz de puritano... Quem não o conhece...”

Quando se retiraram para a alcova, Jacinta esforçava-se por aumentar o furor; queria cultivá-lo ou alimentá-lo como se alimenta uma chama, lançando-lhe mais combustível. “Esta noite eu o devoro. Queria estar mais furiosa do que estou, para não me deixar adoçar. E já estou bastante. Mas ainda me faria bem um pouco mais de ira. É falso, hipócrita, e, se eu não o aborrecer, não tenho perdão de Deus.”

Nisso, sentiu Juan abraçá-la pela cintura.

— Saia, deixe-me... — gritou ela. — Estou muito zangada; não vê que estou muito zangada?

Juan viu-a trêmula e sem poder respirar.

— Perdoe a senhora — respondeu, brincando.

Jacinta já tinha na ponta da língua o sei de tudo; mas lembrou-se de que, noites antes, ela e o marido haviam rido muito dessa frase, observando-a repetida em todas as comédias de intriga. A esposa irritada julgou mais apropriado dizer:

— Vou aborrecer você; já estou aborrecendo.

Santa Cruz, que estava bem-humorado, repetiu com graça outra frase das comédias:

Agora compreendo tudo. Mas a verdade, menina, é que não compreendo nada.

Perturbada em seus propósitos de briga pelo bom humor e pelos modos carinhosos que o pérfido trazia naquela noite, Jacinta começou a chorar como criança. Juan fez-lhe muitas carícias, beijos aqui e ali, no pescoço e nas mãos, nas orelhas e no alto da cabeça; beijos num cotovelo e no queixo, acompanhados da linguagem mais finamente terna que se poderia imaginar.

— Não aguento mais, não posso aguentar mais — era a única coisa que ela dizia, com soluço angustioso, molhando-lhe o rosto e as mãos com tantas e tantas lágrimas.

Não encontrava consolo. Todo aquele pranto era o disfarce de muitíssimos dias, suspeitar calada, sentir-se ferida e não poder dizer sequer ai! “Isto é horrível, isto é espantoso; não há mulher mais desgraçada que eu... E agora vou aborrecer você de verdade, porque não posso amar quem não me ama. Eu o amava mais que à minha vida. Como fui tola! Aos homens é preciso tratar sem consideração... Nunca mais, nunca mais... Estou fora de mim, e esta eu não perdoo... digo que não perdoo.”

Custou algum trabalho a Santa Cruz fazer a mulher repetir o que uma amiga lhe dissera naquela manhã. E, quando ele negava, a esposa ofendida, que sentia na alma a convicção profundíssima da autenticidade do fato, irritava-se ainda mais:

— Não negue, não me negue, pois sei que é verdade. Há muito tempo percebi.

— Em quê?...

— Em muitas coisas.

— Diga-me — indicou ele, ficando sério.

— Se sempre há de negar... Mas não, já não me engana.

— Se não penso enganá-la...

— O que Amalia me disse — afirmou Jacinta com súbita ira, cheia de dignidade, pondo-se de pé e reforçando com gesto admirável sua asseveração — é verdade. Eu digo que é verdade, e basta.

Grave e olhando-a nos olhos, o anarquista respondeu em tom muito seguro:

— Pois bem, é verdade. Declaro-lhe que é verdade.

ii

Jacinta ficou como uma estátua e, afinal, virando as costas ao marido, fez menção de sair. Ele a pegou por uma mão e quis abraçá-la. Ela não deixou. No meio do abraço frustrado, a esposa só pôde articular muito vagamente estas palavras:

— Vou embora.

O que mais a irritava era que o velhaco, depois do que dissera, ainda tivesse humor para brincadeiras e pusesse aquela cara de malandro, como se se tratasse de coisa de jogo. Porque sorria e, tranquilo em aparência, disse-lhe em tom de seriedade cômica:

— Senhora, deite-se.

— Eu?...

— Estou mandando... Deite-se imediatamente.

Não lhe foi possível então livrar-se de um abraço apertado, e naquele segundo aperto ouviu estas carinhosas palavras:

— Não é melhor que nos expliquemos como bons amigos? Filhinha da minha alma, se ficar emburrada, não chegaremos a nos entender.

Jacinta foi bruscamente desarmada. Ficou como o combatente dos contos infantis a quem, por obra de magia, a espada se transforma em alfinete e o escudo em dedal.

Desde os últimos dias de 1874, o Delfim entrara naquele período sedativo que infalivelmente seguia seus desvarios. Na realidade, aquilo não era virtude, mas cansaço do pecado; não era o sentimento puro e regular da ordem, mas o fastio da revolução. Verificava-se nele o que D. Baldomero dissera do país: padecia febres alternadas de liberdade e de paz. Dois meses depois de uma das mais graves distrações de sua vida, a mulher começava a agradar-lhe exatamente como se fosse a mulher de outro. A bondade dela favorecia esse movimento centrípeto, que se manifestara pela quinta ou sexta vez desde que estavam casados. Já em outras ocasiões Jacinta pudera crer que o retorno aos deveres conjugais seria definitivo; mas enganara-se, porque o Delfim, que tinha no corpo o mau demônio da variedade, cansava-se de ser bom e fiel e tornava a deixar-se mover pela força centrífuga. Mas era tamanha a alegria da esposa ao vê-lo corrigido que não pensava que aquela emenda fosse como um descanso, para depois tornar a correr pelos mundos de Deus com maior brio. Também isso concordava com um pensamento de D. Baldomero, que dizia:

— Quando o país amaina e fortalece a autoridade com sua opinião, não é que ame verdadeiramente a ordem e a lei, mas que se põe em tratamento e sangra para depois saciar com maior gosto o apetite das embrulhadas.

Ficou, como disse, Jacinta tão desarmada quanto era possível. Mas, julgando que sua dignidade lhe ordenava continuar muito irada, disse todas as palavras necessárias para demonstrá-lo, por exemplo:

— Deito ou não deito, conforme me convier. Que lhe importa? Até parece que... Comigo não se brinca, estamos entendidos?... O que imaginou este tolo? Acabamos, estou dizendo que acabamos... Muito bem, deito porque quero, não porque você manda... Ora essa!...

Pouco depois ouvia-se na alcova o seguinte:

— Fique quieto... Não vá pensar que agora vou perdoá-lo. Não; você não me engana... nem há carinho que valha. Já são quinze, e basta. Os tempos não estão para perdões, cavalheirinho. Faça o favor, estou dizendo... Não quero vê-lo, não quero ouvi-lo, nem me importa se me ama ou não. Se me ama, sofra, sofra; melhor. Eu rirei vendo-o padecer. Portanto, está dito, deixe-me em paz. Tenho um sono espantoso... Não vê como meus olhos se fecham?

E era mentira. Longe de ter vontade de dormir, estava muito desperta e nervosa.

— Você não tem sono; aposto que não tem — dizia ele. — Aposto que a desperto e a deixo como um luzeiro.

— Aposto que não. Como?

— Contando-lhe toda a verdade sobre o que Amalia lhe disse, fazendo uma confissão geral para que veja que não sou tão mau quanto pensa.

— Ah, sim; venha, venha, filhinho — exclamou ela, estendendo os braços nus. — Confesse-me tudo, mas com nobreza. Nada de comédias... porque você sempre foi muito comediante. Ainda bem que já conheço suas manhas, e algumas mentiras engulo, mas outras não. É verdade que vai me contar tudo?

A ideia de perdoar eletrizava Jacinta, deixando-a tão nervosa que soltava faíscas. Não cabia em si de inquietação, pensando na grandeza do perdão que teria de dar em pagamento da enormidade da sinceridade que lhe era oferecida.

E sua ansiedade era tamanha que por pouco não se lançou da cama quando Juan se afastou dela para ir à sua própria...

“Mas o quê?”, pensou. “Este velhaco se arrependeu do que disse?... Não quer me contar nada?...”

— Adeus, homem — disse em voz alta, despeitada.

— Já volto, vou para aí imediatamente... Minha mulher tem um gênio muito vivo.

— É que, se vai contar, conte depressa; e, se não, diga, para eu dormir. Não estou aqui esperando que o senhorito tenha vontade de me deixar acordada a noite inteira.

— Cale-se, sua danada...

Dizendo isso, voltou para ela, sentou-se no leito e fez-lhe mil ternuras.

— Ah, isto está perdido — murmurou Jacinta nos intervalos que as carícias do marido lhe deixavam, sufocando-a. — Olhe, fique quieto e não me abafe. Não estou com vontade de brincadeiras.

— Vamos ao caso, minha menininha. Para eu lhe contar o que deseja saber, é preciso que antes me conte outra coisa. Diz que suspeitava do que aconteceu, melhor, que adivinhava. Em que se baseava para adivinhar?... O que observou e o que soube?

— Ai!... Veja só com que sai agora este bobo!... Pensa que uma mulher ciumenta precisa ver alguma coisa? Fareja, calcula e não se engana... O coração lhe diz.

— O coração não diz nada. Isso é uma frase.

— Quando você começa a faltar, a menor palavra, qualquer gesto seu me servem para ler seus pensamentos. E acha pouco dado ver como me trata? Até a maneira de entrar aqui é um dado. Até uma ternura, uma palavra carinhosa o vendem, porque logo se vê que são sobras de outra parte, trazidas aqui por dever e para cumprir tabela... Palavras e carícias vêm muito usadas.

— Quanto você sabe!

— Mais sabe você... Não, não, mais sei eu. Na desgraça se aprende... Muitas vezes me calo para não causar escândalo; mas por dentro sinto alguma coisa me ralando assim, assim... mói que mói... Pois tenho um faro!... Quando está faltando, se não percebesse por outras coisas, perceberia pelo perfume que traz às vezes na roupa... Outro dado: uma noite trazia no lenço de seda do pescoço, sabe o quê?, um cabelo negro e comprido. Tirei-o com as pontas dos dedos e fiquei olhando. Dava-me tanto nojo como se o tivesse encontrado na sopa. Não disse nada. Outra noite você falou dormindo palavras dessas que se dizem quando um homem briga com outro. Eu me assustei. Foi naquela noite em que entrou muito nervoso e com uma dor no braço. Tive de pôr arnica. Contou-me que, vindo não sei por onde, apareceu-lhe um bêbado e você teve de trocar socos com ele. Trazia terra no paletó azul. Passou a noite inteira muito inquieto, não se lembra?

— Lembro, sim — disse o Delfim, renovando na mente o episódio com Maximiliano.

— Pois vai ver. Outra noite, quando se despia, plim... caiu um botão no chão. Veio saltando até perto da minha cama. Parecia que me olhava. Era de níquel, trabalhado, com muitos arabescos. Quando você adormeceu, saltei da cama e peguei-o. Era botão de mulher, desses que agora se usam nos casaquinhos. Tenho-o guardado. Essas ignomínias são guardadas para, no devido dia, tirá-las e dizer: “Vai me negar isto?”... E você sempre tão comediante! Eu passava por umas aflições!... Mas nunca quis me rebaixar à espionagem. Ocorreu-me perguntar ao cocheiro. Com uma boa gorjeta, Manuel não me teria ocultado o que soubesse. Mas, por respeito a você, a mim mesma e à família, não fiz nada. Contar suas suspeitas à sua mãe!... Para quê? Para desgostá-la sem vantagem alguma?... Guillermina, a única com quem eu me abria, dizia-me sempre: “Paciência, filha, paciência.” E por fim eu chegava a tê-la, e o moinho que girava em meu coração moía, reduzindo-o a pó, e eu aguentava e aguentava, sempre calada, com rosto de festa e engolindo fel, engolindo fel. Esta manhã, quando Amalia me disse o que disse, todo o meu sangue se transformou em veneno, e eu me propus aborrecer você, mas aborrecer de verdade, não pense... e não perdoá-lo ainda que se pusesse de joelhos diante de mim. Mas a gente é tão fraca!... Se merecemos tudo o que nos acontece!... A maior desgraça é ser assim, tão simplória... Como estamos à mercê dessas... sequestradoras, que de tempos em tempos nos emprestam nossos próprios maridos para não fazermos alvoroço...

iii

Esta última queixa deixou o senhorito de Santa Cruz um tanto pensativo e desconcertado. Ele não desconhecia a situação pouco airosa em que estava diante de Jacinta, cuja grandeza moral se erguia ante seus olhos para lhe dar a medida de sua pequenez. Era muito soberbo, e o amor-próprio sobressaía nele à consciência e a todos os sentimentos; de modo que nada o incomodava tanto como ver-se e reconhecer-se inferior à mulher. Quando, meia hora antes, prometera confessar as faltas, fizera-o movido pelo orgulho, para enfeitar-se com a sinceridade, à maneira do fátuo que se dá importância com uma condecoração. A confissão da culpa sempre enobrece e, como ele sabia de sobra que tudo quanto era nobre encontrava eco no grande coração de Jacinta, disse consigo: “Aqui me convém um gesto.” Mas o momento da confissão se aproximava, e o pecador estava um tanto confuso, sem saber como haveria de sair dela. O que queria era ficar bem, elevar-se até a mulher e superá-la, se possível, apresentando suas faltas como méritos e retocando toda a história de modo que parecesse branco e até nobre aquilo que, pelos dados soltos do botão e do cabelo, era negro e desonroso. Não precisava aquecer muito os miolos para sair do aperto, porque seu entendimento tinha aptidão especial para semelhantes escamoteações. Sua imaginação despertíssima era mestra em fazer as ideias passarem de um copinho a outro. O que não podia suportar era ser tido por homem vulgar, um entre tantos. Até as ações mais triviais e comuns, se eram suas, queria que passassem por atos deliberadamente admiráveis e em nada semelhantes ao que faz todo mundo. Rapidamente, com aquela prontidão de juízo do artista improvisador, fez sua composição, e lá foram as confidências... Jacinta ficaria pequenininha. Veria que marido tinha, que ser superior, que pessoa tão extraordinária. Há uma moral grossa, que todo mundo compreende, inclusive crianças e mulheres. Há outra moral fina, requintada, inapreciável para o vulgo: aquela que só podem saborear paladares muito sensíveis... Vamos a ela.

— Preparemo-nos para ouvir suas bobagens — disse ela.

— De tudo quanto disse, parece deduzir-se que sou um miserável, um qualquer, um entre tantos. Pois agora veremos. Guardei reserva com você porque pensei que não me compreenderia. Veremos se agora compreende. É verdade que, há dois meses, encontrei outra vez a...

— Faça o favor de não nomeá-la — suplicou Jacinta com vivacidade. — Esse nome me produz o efeito da picada de uma víbora.

— Muito bem, vou ao ponto... Encontrei-a casada.

— Casada!

— Sim, com um simplório. Meteram-na num convento, depois a casaram quase de surpresa... Menina, uma história de intrigas, violências e atrocidades que causa horror.

— Pobre mulher! — exclamou ela, respondendo à intenção de Juan, que começava por tornar a outra digna de pena. — Mas bem merecido, por sua má conduta.

— Espere um pouco, filha. Não creio que tenha nascido mulher mais desgraçada.

— Nem mais má.

— Sobre isso há muito que dizer. O que existe nela não é maldade, é falta de ideias morais. Se nunca viu senão maus exemplos! Se sempre viveu com velhacos!... Ponho em seu lugar a mulher mais perfeita, para ver o que faria. Não, ela não é o que você pensa. Digo mais: seria muito boa se a dirigissem para o bem. Mas faça uma ideia: depois de andar de mão em mão, este a pega, aquele a solta, casam-na com um homem que não é homem, com um homem que não pode ser marido de ninguém...

Jacinta abriu a boca; tão grande era seu espanto.

— E esse imbecil a martirizava de tal modo desde o primeiro dia de casamento que a infeliz, preferindo a liberdade na ignomínia a uma escravidão insuportável, foge de casa e volta para a rua, como nos piores tempos. Nisso me encontra e pede meu amparo.

Jacinta ainda não fechara a boca.

— Em tal situação — prosseguiu Juan, já em plena posse de sua tese e com os copinhos na mão —, proponho o problema a você... vamos ver... Imagine que é homem; imagine que se encontra diante daquela infeliz mulher, que lhe pede socorro, defesa contra a miséria e a desonra, e, ao vê-la diante de si, reconhece-se autor de todas as suas desgraças, porque foi você quem a perdeu, porque de você lhe vêm todos os males. Quero que me diga lealmente o que faria, o que faria nesse transe. Mas feche essa boca; basta de assombro e responda.

— Pois eu... o que faria? Meteria a mão no bolso, daria quatro ou cinco duros e voltaria para casa.

— Essa foi minha primeira ideia. Mas certas dívidas, minha senhora — disse Santa Cruz triunfante —, não se pagam com quatro nem cinco duros.

— Pois mil, dois mil, cem mil reales, vá lá.

— Tampouco. Pensei que devia pôr aquela infeliz no caminho de adquirir uma situação decente e estável. Procurar-lhe um marido não podia; estava casada. Proporcionar-lhe uma maneira de viver com independência e honra... ah, isso é muito difícil. Não tem educação; não sabe trabalhar em coisa alguma que produza dinheiro. Não lhe resta outro recurso senão comer da própria beleza. Mas até nisso há diferentes graus de ignomínia. Não comece a fazer o sinal da cruz, filha. As coisas precisam ser tomadas como são; o contrário é empenhar-se em sustentar uma filosofia afetada. Eu lhe disse: “Muito bem, então lhe ponho uma casa, e arranje-se como puder...” Não é para fazer tantos sinais da cruz, repito. É preciso colocar-se na realidade, menininha. Não olhe para isto com olhos de mulher; ponha-se em meu caso; imagine que é homem...

— Estou assombrada com a volta que você dá a seus caprichos e com a habilidade com que faz passar por proteção desinteressada aquilo que na realidade é o amor que tinha ou tem por essa maldita.

— Pois é justamente a isso que vou agora. Aqui quero ver você... Atenção. Juro que ela não despertava em mim nem o amor mais insignificante, nem sequer um capricho momentâneo. Não há exemplo de frieza como a que eu sentia diante dela. Pode acreditar. Não só não me inspirava paixão, como até me repugnava.

— Isso — disse a esposa —, que acredite outro, porque eu...

— Como é tonta! Sua incredulidade nasce da ideia equivocada que tem dessa mulher. Imaginou-a como um monstro de seduções, como uma dessas que, sem ter um pingo de educação nem atrativo moral algum, possuem uma infinidade de artimanhas para enlouquecer os homens e escravizá-los, tornando-os estúpidos. Essa casta de perdidas, tão abundante na França, como se ali houvesse escola para formá-las, quase não existe na Espanha, onde são contadas... ainda, entenda-se, porque isso acabará chegando, como chegaram as estradas de ferro... Pois digo que Fortunata não é dessas; não possui outra educação senão o rosto bonito. No mais, é insossa, vulgar; não lhe ocorre nenhuma das malícias que transtornam os homens; e quanto às maneiras... não falo do corpo e da figura... continua tão rude como quando a conheci. Não aprende; nada lhe pega. E como para tudo é preciso talento, uma especialidade de talento, resulta que essa infeliz que lhe dá tanto que pensar não serve absolutamente para diabo, está entendendo? Se todas fossem como ela, quase não haveria escândalos no mundo, os casamentos viveriam em paz e teríamos muitíssima moralidade. Numa palavra, menina, não há nela constituição viciosa; tem todo o talhe de mulher honrada; nasceu para a vida obscura, para fazer meia e cuidar de crianças.

Ao chegar aqui, Juan assustou-se, julgando ter soltado um pouco demais a língua, e caiu na conta de que, se Fortunata era como ele dizia, se não tinha constituição viciosa, maior, muito maior era a responsabilidade dele por tê-la perdido. Jacinta deve ter pensado o mesmo e não tardou em manifestá-lo. Mas o prestidigitador acudiu a defender o lance com a presteza de seu engenho flexível.

— É verdade — disse-lhe —, e isso aumentava meus remorsos. Não tinha outro remédio senão fazer em benefício dela aquilo que não teria feito por outra. Ponha-se em meu caso, imagine que é eu e que lhe aconteceu tudo quanto me aconteceu. Pode compreender meu tormento e o que eu sofreria tendo de considerar e proteger, por escrúpulo de consciência, uma mulher que não me inspira afeto algum, nenhum, e que ultimamente me inspirava antipatia, porque Fortunata, acredite como no Evangelho, é de tal condição que o homem mais enamorado não a suporta um mês. Ao fim de um mês, todos se rendem, isto é, põem-se a correr...

Jacinta começara a dar pequenos pontapés, fazendo saltar o edredom que tinha aos pés. Era sua maneira de exprimir a alegria bulhenta quando estava deitada. Porque, sendo verdade o que Juan dizia, a temida rival era como os espantalhos postos no campo, dos quais até os pássaros riem quando os examinam de perto. Mas ainda lhe restava uma dúvida: aquilo era verdade ou não? Para mentira, estava bem demais alinhavado.

— E ela ainda ama você? — perguntou com a malícia de um juiz de instrução.

O marido fez com que repetisse a pergunta, sem outro objeto senão retardar a resposta, que precisava ser muito pensada.

— Pois vou lhe dizer... sim. Tem essa fraqueza. Outras mulheres, as de constituição viciosa, são em suas paixões tão veementes quanto inconstantes. Logo esquecem aquele que adoraram e mudam de ilusão como de moda. Esta, não.

— Esta, não — repetiu Jacinta, assustada de ver a inimiga tão diferente de como a imaginara.

— Não. Deu-lhe a tolice de amar-me sempre do mesmo modo, como antes, como na primeira vez. Aqui tem outra coisa que me esmaga, que me obriga a ser indulgente. Ponha-se em meu lugar, filha. Porque, se eu visse que flertava com outros homens, fosse com Deus. Mas não há quem a tire de uma fidelidade que não vem ao caso. Fiel a mim! Em nome de quê? Asseguro-lhe que essa sonsa me fez cismar muito! Passou por tantas mãos e sempre fiel, constante como um prego, que fica onde o cravam. Nem a desonra nem o casamento a curaram dessa mania. Não lhe parece que é mania?

Acudiram tantas ideias à mente de Jacinta que ela não sabia com qual ficar e permanecia perplexa e muda.

— Há tantos — exclamou Santa Cruz no tom que se dá às coisas muito filosóficas — a quem faz infelizes a inconstância das mulheres, e a mim faz sofrer uma fidelidade que não solicito, de que não preciso, que não me importa em coisa alguma!

Jacinta soltou um grande suspiro.

— Mas ter consciência, ter um sentido moral muito elevado — acrescentou o Delfim, dominando o lance —, como eu tenho, pôs-me numa situação equívoca diante de você. Eu precisava dar-lhe explicações. Já as dei, e por elas terá visto que não se devem julgar os atos dos homens pelo que parecem, mas que é preciso ir ao fundo, filha, ao fundo das coisas. Está compreendendo? Às vezes a gente sofre cada desengano!... Quantas vezes pensamos mal de um sujeito, baseando-nos em murmurações do vulgo ou em qualquer dado inseguro, como, por exemplo, um cabelo, um botão!... e, depois de examinar bem o fato, que resulta? Que um botão não basta para amostra, que quem se pendura por um cabelo cai; numa palavra, minha menina, que o aparentemente desonroso pode não o ser e que a realidade, em vez de lançar vergonha sobre o sujeito, faz é exaltá-lo e talvez honrá-lo.

— Devagar — disse prontamente a esposa —, porque para mim continua tudo turvo. Parece-me que em tudo quanto disse há composição demais. Eu não confio, não confio, porque para fabricar esses arcos triunfais de frases e entrar por eles cheio de importância você não precisa de ajuda. O certo é que pôs uma casa para ela, visitou-a e divertiu-se muito com ela. Que consciência a sua, que maneira de pagar-lhe a fidelidade, atirando ao chão a que deve a mim!... Que moral é essa? Não escamoteie a verdade. Essa mulher é uma velhaca, e você seria um simplório se não fosse também um solenissimo patife.

— Espere um pouco, camaradinha — respondeu Santa Cruz, algo desconcertado. — Que palavras usarei para pintar-lhe a situação em que me encontrava? É que o caso é dos mais raros que podem apresentar-se... Para que veja que sou sincero e leal, direi que houve em mim alguma fraqueza, sim, fraqueza nascida da compaixão. Não tive coragem de resistir às... como direi?... às sugestões apaixonadas de quem sente por mim uma idolatria que não mereço. Mas juro que o fiz sem ilusão, com fastio, como quem cumpre um dever, pensando em minha mulher, vendo você mais do que aquela que tinha tão perto e desejando que aquela comédia terminasse.

Ambos permaneceram calados por algum tempo. Jacinta acreditava naquelas coisas ou fingia acreditar, como Sancho nas lorotas que D. Quixote lhe contou da cova de Montesinos? A última coisa que Juan disse foi isto:

— Agora julgue como lhe parecer bem o que acabo de confessar e compare o que há de bom nisso com o mal que também haverá. Eu me entrego a você.

— Romper, romper para sempre toda espécie de relação com essa calamidade é o que importa — manifestou a Delfina, inquietíssima, dando voltas no leito. — Não voltar a vê-la, nem sequer cumprimentá-la se a encontrar na rua... Oh, que mulher! É meu pesadelo.

— Dê o rompimento por feito, mas definitivo, absoluto. Desejo-o tanto quanto você; pode acreditar.

Dizia-o com tal expressão de ingenuidade que Jacinta sentiu grande alegria.

— Sim, filha, não aguento mais. Que vá com sua constância para os quintos dos infernos.

— E se começar a persegui-lo?

— Serei capaz até de recorrer à polícia.

— Então não volta mais àquela casa?... Diga que não volta, diga que não a ama.

— Ora! Sabe de sobra. Não voltarei senão para despedir-me.

— Não; escreva-lhe uma carta. Despedidas cara a cara não são boas para romper.

— Farei o que quiser, o que mandar, menininha da minha alma, lindíssima... mais saborosa que o sal dos mares.

iv

Na manhã seguinte, Jacinta levantou-se muito alegre, com o espírito desperto e muita vontade de falar e rir sem motivo aparente. Barbarita, que entrou da rua às dez, disse-lhe:

— Como está brincalhona hoje!... Escute. Ao voltar de San Ginés, encontrei Manolo Moreno, que chegou ontem de Londres. Convidei-o para almoçar.

Jacinta foi à penteadeira. O marido ainda dormia, e ela começou a arrumar-se. Pouco depois entrou uma visita, que Jacinta recebeu no gabinete. Era Severiana, que duas vezes por semana levava Adoración para que sua protetora a visse. Já se sabe que a Delfina, não podendo adotar o Pituso e tomá-lo por filho, e sentindo mais forte e imperioso na alma o anseio da maternidade, começou a proteger a preciosíssima e carinhosa filha de Mauricia, a Dura. Para Jacinta não havia gozo maior e mais puro que acariciar uma criança, aquecê-la e comunicar-lhe aquele sentimento de bondade que lhe transbordava da alma. Gostava tanto daquela menina que a teria levado consigo se os sogros e o marido o permitissem; não sendo isso possível, consolava-se vestindo-a como senhorita, pagando-lhe o colégio e passando algum tempo com ela. Gozava vendo-lhe a beleza, aspirando a fragrância da inocência e examinando-a para certificar-se de seus progressos.

— Olá, venha cá, mulher, dê-me um beijo e um abraço — disse a senhorita, atraindo-a a si com carinho maternal.

Adoración esfregou bem o rosto e o corpo contra a cintura e a saia de sua protetora.

— Diz que o que pede à Virgem — declarou Severiana com essa adulação dos humildes muito favorecidos e que ainda querem sê-lo mais — é nunca, nunca separar-se da senhorita... para estar sempre olhando para ela.

— Já sei que me quer muito, e eu a quero, se for boa e estudar. Como está elegante!... Eu ainda não tinha visto o vestido novo.

— Ontem à noite sonhava com a roupa nova — disse Severiana —, e ontem, quando a vestiu, não fazia senão olhar-se no espelho. Se a tocávamos, ai!, queria nos bater... O que desejava era que a senhorita a visse tão bonita, não é, meu bem?

— Não gosto desse afã tão grande pelos enfeites. Agora o que quero é ver como andam essas lições... Hoje não tenho tempo de fazer perguntas; mas outro dia, na quinta-feira, veremos como está esse catecismo.

— Ah, senhorita, ela o sabe de cor. Deixa-nos tontos com aquilo que fizeram os que comiam o maná e com Noé na arca, com tantos animais que meteu nela. E ler? Lê melhor que meu marido.

— Isso me agrada... No mês que vem vamos colocá-la interna num colégio. Já está grandinha... é preciso que vá aprendendo boas maneiras... um pouco de francês, um pouco de piano... Quero educá-la para professorinha ou preceptora, não é?

Adoración olhava-a como em êxtase.

— E aquela mulher? — perguntou depois Jacinta a Severiana, referindo-se à mãe de Adoración.

— Senhora, não me fale nela. Pouco depois de sair das Micaelas, parecia um tanto corrigida. Voltou a negociar xales de Manila e algumas peças; estava em boa disposição, mas já a temos outra vez dançando com o maldito vício. Anteontem à noite recolheram-na dura de bêbada na calle de la Comadre... Que vergonha!...

Jacinta fez um gesto de pena.

— Pobrezinha minha! — exclamou, abraçando mais estreitamente a protegida.

— Por isso — acrescentou a outra — eu queria falar com a senhorita, para ver se dona Guillermina tinha meios de metê-la em algum lugar onde a segurassem. Nas Micaelas não pode ser, porque de lá tiveram de expulsá-la por escandalosa... Mas bem poderiam colocá-la, se fosse possível, num hospício ou casa de loucos, ao menos para que não desse maus exemplos.

— Veremos... — disse Jacinta distraída, levantando-se, porque ouvira o toque da campainha com que o marido chamava.

Faltava alguma coisa antes que Adoración se despedisse. Sua protetora sempre lhe dava um doce, e naquele dia devia ter esquecido. A menina ficou parada no meio do gabinete mesmo depois dos últimos beijos de despedida. Jacinta percebeu a distração.

— Espere um momento.

Pouco depois voltou com aquilo que a pequena desejava e, repetida a recomendação de portar-se bem e estudar muito, acompanhou-as até a porta. Quando Severiana e a sobrinha saíam, entrava Moreno-Isla, e Jacinta, que o viu subir, deteve-se no vestíbulo. Subia devagar e ofegante por causa da enfermidade do coração que padecia. Estava muito envelhecido, de má cor e com ar ainda mais estrangeiro que antes.

— Oh, porta do paraíso, que mãos a abrem!... Perdoe-me... Canso-me horrivelmente — disse Moreno, cumprimentando-a com tanta urbanidade quanto afeto.

Estupiñá, que entrava atrás, também lançou grande saudação a D. Manuel, permitindo-se abraçá-lo, porque eram antigos amigos.

— Está feito um rapaz — disse Moreno, dando-lhe palmadas nos ombros.

— Vamos levando... E o senhor?...

— Assim, assim.

— Sempre por essas terras estrangeiras!... Caramba, também é gosto, tendo aqui tantos que lhe querem bem...

O forasteiro respondeu-lhe com a benevolência um tanto fria que os superiores bem-educados sabem empregar. Separaram-se no corredor, porque Estupiñá tinha de ir para a sala de jantar. Moreno seguiu Jacinta até o salão e dali ao gabinete.

— Guillermina não me havia dito que o senhor estava em Madri. Soube hoje por mamãe — disse ela apenas para dizer alguma coisa.

— Guillermina? Ela tem a cabeça em bom estado para lembrar-se de anunciar-me! Sabe que, cada vez que venho à Espanha, encontro-a mais tresloucada? Ontem, quando entrei em casa, a primeira coisa que fez, enquanto me cumprimentava, foi revistar todos os bolsos de minha roupa. Depenou-me. É o que eu dizia: “Mal se põe o pé na Espanha, não se dá um passo sem tropeçar em bandoleiros.” Agora pretende que todos os parentes juntos lhe façamos um andar... pouca coisa.

— Pobrezinha! É uma santa.

Chegou então D. Baldomero, anunciando-se antes de entrar com estas alegres vozes:

— Onde está esse antipatriota?

Quando apareceu à porta, de braços abertos, Moreno foi deixar-se apertar neles.

— Bem, padrinho; o senhor está feito um moço.

— E você, perdido? Disseram-me que andava um pouco delicado.

— Canso-me horrivelmente — respondeu o forasteiro, tocando o coração. — Alguma coisa aqui... Mas dizem que é nervoso.

— Sim, sim, nervoso — afirmou Santa Cruz como se tivesse toda a medicina na ponta dos dedos.

— Nervoso, claro — repetiu Jacinta.

E Barbarita, que naquele momento entrava, também disse:

— Que há de ser, senão nervoso?...

— Ora, ora, este perdido — dizia D. Baldomero, olhando muito o amigo e parente e não se atrevendo a dizer que o encontrava bastante abatido. — Sempre tão estrangeirado.

— Não quer nada conosco — disse Barbarita, examinando-lhe a roupa. — Veja, veja esse fraque cinzento fechado... e botinas brancas... Mas, Manolo, que sapatões usam por lá! Essas luvas aqui passariam por luvas de cocheiro.

Moreno começou a rir. Sua pessoa tinha tal ar inglês que quem o visse o tomaria por um desses lordes entediados e milionários que andam pelo mundo sacudindo a melancolia que os consome. Até quando falava desmentia, não por afetação, mas por hábito, sua origem espanhola, porque arrastava um pouco os erres e esquecia alguns dos vocábulos menos usuais. Educara-se no célebre colégio de Eton; aos trinta anos voltou à Inglaterra e ali vivia continuamente, salvo as curtas temporadas que passava em Madri. Possuía a arte da boa educação em sua forma mais requintada e uma desenvoltura de maneiras que cativava. Era afilhado de D. Baldomero I e, por isso, continuava chamando padrinho a D. Baldomero II.

— Já sabem que não transijo com a pátria — disse sorrindo. — Quanto mais a visito, menos me agrada. Por respeito a meu padrinho, não me atrevo a dizer mais.

Os gostos estrangeiros daquele homem e o desamor que mostrava à pátria eram ocasião de encarniçadas disputas entre ele e D. Baldomero, que defendia tudo o do Reino com sincero entusiasmo. Às vezes o bom espanhol perdia as estribeiras, sustentando que em tudo o de fora havia muita farsa, e Moreno, extremando suas antipatias, sustentava que na Espanha não havia mais que três coisas boas: a Guarda Civil, as uvas albillo e o Museu do Prado.

— Vamos ver — disse D. Baldomero com alegria, que lhe saltava no rosto. — Que me diz do rei que trouxemos? Agora sim vamos ficar em grande. Verá como o país prospera e acabam as guerras.

— É um belo rapaz. Vários espanhóis residentes em Londres o acompanhamos no trem até Dover. Eu lhe dei um magnífico relógio... É rapaz muito vivo, mas muito vivo. Pena de rei! Eu lhe disse: “Vossa Majestade vai governar o país da ingratidão; mas Vossa Majestade vencerá a hidra.” Disse isso por cortesia; mas não creio que possa manejar esta gente. Ele quererá fazer bem; falta que o deixem.

Nisso entrou Juan, e ele e o parente deram os abraços de praxe. Para começarem a almoçar, não faltava senão Villalonga.

— Mas o quê? — disse o Delfim. — Vamos esperá-lo? Sabe Deus a que horas virá. Ontem à noite deve ter se retirado às três da roda do ministro da Governança e ainda estará na cama.

Concordaram, pois, em não esperar mais, e durante o cordial almoço, quisessem ou não, a conversa versou sobre se na Espanha tudo era ruim ou se na França e na Inglaterra era de boa qualidade tudo quanto admirávamos. Moreno-Isla não cedia uma polegada do terreno antipatriótico em que sua teimosia se encerrava.

— Vejam... falando agora com toda seriedade — disse, depois de esgotar bem o tema das comidas e passando a certas ideias de cultura geral. — Fiz uma observação que ninguém poderá desmentir. Desde que se atravessa a fronteira para lá e se entra na França, não nos pica uma pulga.

Risos.

— Mas que têm as pulgas a ver com isso?...

— E você sustenta que na França não há pulgas?

— Não há, acredite, padrinho, não há. É resultado do asseio geral, da limpeza das casas e das pessoas. Vá a San Sebastián. Comem-no vivo...

— Homem, por Deus, que argumentos!...

Soou a campainha.

— Aí está! — disseram todos.

E Barbarita olhou para o lugar vazio destinado a Villalonga à mesa. Este entrou muito alegre, cumprimentando a família e apertando a mão de Moreno.

— Indulgência, senhora. Vim voando para não me fazer esperar.

— Amigo, desde que está em evidência, não há quem o veja. Como está caro!

— É que não me deixam viver. Ontem à noite o jubileu durou até as três. Duzentas pessoas entrando e saindo. E nenhuma pretende coisa alguma...

— Preparando as eleições, não é?

— Oh, se passamos ao terreno político... — indicou Moreno.

— Não, não passe — respondeu Santa Cruz. — Nesse terreno, cedo, cedo...

Depois houve debate sobre queijos, dizendo D. Baldomero que os do Reino também eram muito bons. Em seguida trataram das casas, que Moreno qualificou de inabitáveis.

— Por isso todo mundo vive na rua.

— Pois veja — disse Villalonga —, as casas serão tão ruins quanto o senhor quiser; mas há nas do estrangeiro um costume que não tem graça alguma. Refiro-me à falta de folhas de madeira nas varandas e janelas, razão pela qual a luz entra desde que Deus amanhece e a gente não pode pregar os olhos.

— Mas o senhor pensa que por lá há alguém que fique dormindo até o meio-dia?

Falou-se muito sobre isso, e o forasteiro trouxe outras coisas à conversa.

— De mim sei dizer que, quando atravesso a fronteira para cá, recebo as mais tristes impressões. Haverá alguma coisa para admirar; a mim se esconde, e não vejo senão grosseria, maus modos, pobreza, homens que parecem selvagens, envolvidos em mantas; mulheres magras... O que mais me choca é a fraqueza da raça. Raras vezes se vê um homem robusto e uma mulher fresca. Não duvidem, nossa raça está mal alimentada, e não é de agora; passa fome há séculos... Meu país me é bastante antipático, e desde que entro no express de Irún já começo a resmungar. De manhã, quando desperto na Serra e ouço apregoar o pote de leite, sinto-me mal; acreditem... Ao chegar a Madri e ver a gente de capa, as mulheres de xale, as ruas mal calçadas e os cavalos dos coches como esqueletos, não vejo a hora de tornar a partir.

— Homem, em que tolices você repara! — observou D. Baldomero, continuando a apologia da pátria em termos calorosos que o outro ouvia com benevolência.

Quando tomavam o café, todos notaram que Moreno se sentia mal; mas ele dissimulava e, levando a mão ao coração, dizia outra vez:

— Alguma coisa aqui... Não é nada. Nervoso, talvez. O que mais me incomoda é o ruído da circulação do sangue. Por isso gosto tanto de viajar... Com o ruído do trem, não ouço o meu.

Houve um momento de silêncio e tristeza à mesa; mas aquilo passou, e continuaram conversando. Jacinta observou que alguém lhe fazia sinais da porta, levantando um pouco a cortina. Saiu: era Guillermina.

— Não, eu não entro. Tenho de ir agora mesmo à obra — disse-lhe em segredo. — Venho encarregar você de falar com ele. Puxe a conversa como puder e faça-o compreender bem a necessidade em que estamos.

— Moreno ajudará — disse-lhe a amiguinha, levando-a a outro aposento para falarem com maior liberdade.

— Não sei... está zangado comigo... Esta manhã brigamos... A verdade... eu me irritei, tive de me irritar. Imagine que desta vez vem mais herege do que nunca. Cada um é dono de condenar-se; mas por que vem dizer a mim coisas contra a religião?

— Que malvado!

— E foram tantas suas zombarias e sacrilégios que... Deus me perdoe... eu me irritei. Disse-lhe que não precisava de seu dinheiro para coisa alguma e que teria medo de tomá-lo nas mãos, por ser dinheiro de Satanás. Mas isso é modo de dizer, sabe?

— Claro.

— E aqui não falou de religião?

— Não; nem uma palavra. Mamãe não toleraria. Falou que na Espanha há mais pulgas que na França.

— Outra vez! Que importa haver pulgas, contanto que haja cristandade! As coisas que dizem esses hereges nos indignariam se não as tomássemos por riso. Você não imagina como vem protestante e calvinista agora. Fiquei horrorizada ouvindo-o. Mas enfim, lá se entenderá com Deus; e, entrementes, o que importa é que solte o dinheiro para minha obra. E isso lhe valerá para a alma, ainda que não queira... Vamos ver se você o catequiza.

— Farei o que puder... Veremos, direi alguma coisa...

— Não vá esquecer... Adeus, filha da minha alma. Vou-me; esta noite me contará o que ele disser. Creio que não nos deixará mal, porque no fundo é um bonachão. Basta raspar um pouco a crosta de herege para aparecer aquela massa de anjo dos outros tempos. Fique com Deus.

Jacinta voltou à sala de jantar. Se cumpriu ou não a incumbência de Guillermina, veremos a seu tempo. Mais que reunir dinheiro para o asilo, preocupava a dama ver resolvido segundo seu desejo aquilo que ela e o marido haviam tratado na noite anterior. Movida por esse afã, assim que Moreno e Villalonga se foram, tomou o Delfim por sua conta, e outra vez trataram ambos da questão do rompimento. Estavam de acordo no principal, divergindo apenas quanto ao procedimento mais adequado, pois ela opinava por uma carta e ele por uma entrevista de despedida. Afinal, depois de laboriosa discussão, prevaleceu este critério, como verá quem continuar lendo.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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