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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 11 · Fortunata e Jacinta

Parte 1 — Capítulo XI: Final, que vem a ser princípio

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Parte 1 — Capítulo XI: Final, que vem a ser princípio

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Quem manda, manda. A questão do Pituso resolveu-se conforme o disposto por D. Baldomero, e a própria Guillermina levou-o certa manhãzinha ao asilo, onde ficou instalado. Jacinta ia vê-lo com muita frequência, e a sogra quase sempre a acompanhava. O menino estava tão mimado que a fundadora do estabelecimento precisou tomar providências, admoestando severamente as amigas e fechando-lhes a porta não poucas vezes. Nos últimos dias daquele infausto ano, Jacinta foi tomada por melancolias, e não era para menos, pois o desairoso e risível desfecho do romance pitusiano teria abatido até o mais valente. Vieram depois outras coisinhas, miudezas, se quiserem, mas, como caíam sobre um espírito já quebrantado, produziam tristeza maior do que traziam por si mesmas. Porque Juan, depois que sarou e voltou à rua, deixou de ser tão expansivo, apalpador e dengoso quanto nos dias do confinamento, e acabaram aquelas cenas noturnas em que a intimidade imitava a linguagem da inocência. O Delfim afetava uma gravidade e um juízo próprios de seu talento e reputação, mas acentuava tanto a pose que parecia querer apagar, com uma conduta sensata, as criancices do período catarral. Com a mulher mostrava-se sempre afável e atento, mas frio e, às vezes, um tanto desdenhoso. Jacinta engolia aquele fel sem contar nada a ninguém. Seus antigos temores começavam a condensar-se e, juntando indícios e observando pormenores, procurava dar um rosto às distrações do marido. Pensou primeiro na preceptora das meninas de Casa-Muñoz, por certas coisinhas que vira por acaso e duas ou três frases, apanhadas no ar, de uma conversa entre Juan e seu confidente Villalonga. Depois julgou aquilo um disparate e fixou-se numa amiga sua, casada com Moreno Vallejo, lojista de novidades de capital muito reduzido. A senhora em questão ostentava um luxo estrondoso e dava muito que falar. Havia, portanto, um amante. Jacinta meteu na cabeça que este era o Delfim e andava desesperada atrás de uma palavra, de uma inflexão, de qualquer detalhe que o confirmasse. Mais de uma vez sentiu as cócegas daquela raivinha infantil que lhe vinha de súbito, bateu os pés no chão e precisou conter-se muito para não correr até ele, puxar-lhe os cabelos e dizer-lhe patife... farsante, com tudo o mais que se costuma numa briga conjugal. O que mais a atormentava era amá-lo ainda mais quando ele se punha tão ajuizado, desempenhando o belíssimo papel de pessoa que está na sociedade para dar exemplo de moderação e bom critério. E Jacinta nunca sentia mais ciúmes do que quando o marido assumia aqueles ares de formalidade, porque a experiência lhe ensinara a conhecê-lo, e já se sabia: quando o Delfim se mostrava muito pródigo em frases sensatas, envolvendo a família no incenso de sua argumentação paradoxal, eram escapadas amorosas garantidas.

Vieram dias marcados na história pátria por acontecimentos retumbantes, e aquela família feliz discutia esses acontecimentos como todos nós os discutíamos. O dia 3 de janeiro de 1874!... O golpe de Estado de Pavía! Não se falava em outra coisa, nem havia assunto melhor. Um teatral câmbio de instituições agradava ao temperamento espanhol, assim como derrubar uma situação política do mesmo modo que se vira uma panela eleitoral. Fora admiravelmente executado, segundo D. Baldomero, e o Exército salvara mais uma vez a desgraçada nação espanhola. O consolidado chegara a 11 e as ações do Banco, a 138. O crédito estava arruinado. A guerra e a anarquia não terminavam; havíamos chegado ao período agudo do incêndio, como dizia Aparisi, e em breve, muito em breve, quem tivesse uma peseta a mostraria como coisa rara.

Todos desejavam que Villalonga fosse à casa para contar-lhes a memorável sessão da noite de 2 para 3, porque a presenciara nos bancos vermelhos. Mas o representante do país não aparecia por lá. Por fim, surgiu na manhã do Dia de Reis. Jacinta passava pela antessala quando o amigo da casa entrou.

«Xará, bom-dia... como vão todos por aqui? E o monstro, já se levantou?»

Jacinta não suportava o bendito xará. Essa antipatia se fundava na crença de que Villalonga era o corruptor do marido e aquele que o arrastava à infidelidade.

«Papai saiu», disse-lhe, não muito risonha. «Como lamentará não vê-lo para que lhe conte aquilo!... O senhor teve muito medo? Juan diz que se meteu debaixo de um banco.»

— Ai, que graça! Juan também saiu?

— Não, está se vestindo. Entre.

E foi atrás dele, porque, sempre que os dois amigos se fechavam num aposento, ela fazia o impossível para ouvir o que diziam, encostando a orelhinha rosada na fresta da porta mal fechada. Jacinto esperou no gabinete, e sua xará entrou para anunciá-lo.

«O quê, aquele pelagatos já veio?»

— Sim... engraçadíssimo... aqui estou.

— Entre, seu danado... Benditos olhos...

O amigão entrou. Jacinta notava nos olhos dele alguma intenção maliciosa. De bom grado se esconderia atrás de uma cortina para roubar os segredos àquela dupla de tunantes. Infelizmente, precisava ir à sala de jantar cumprir certas ordens que Barbarita lhe dera... Mas daria uma voltinha e tentaria pescar alguma coisa...

«Conte, homem, conte. Estávamos morrendo de vontade de vê-lo.»

Villalonga começou seu relato diante de Jacinta; mas, assim que ela saiu, o semblante do narrador inundou-se de malícia. Ambos olharam para a porta; o comparsa certificou-se de que a esposa se retirara e, voltando-se para o Delfim, disse com a voz receosa que empregam os conspiradores domésticos:

«Homem, você não sabe... a notícia que lhe trago...? Se soubesse quem eu vi! Sua mulher estará ouvindo?»

— Não, homem, fique tranquilo — replicou Juan, abotoando a frente da camisa. — Desembuche logo.

— Pois vi quem você menos pode imaginar... Ela está aqui.

— Quem?

— Fortunata... Mas você não faz ideia da transformação. Que mudança! Está lindíssima, elegantíssima. Homem, fiquei pasmo quando a vi.

Ouviram-se os passos de Jacinta. Quando ela apareceu, levantando a cortina, Villalonga deu uma brusca torção no discurso: «Não, homem, você não entendeu; a sessão começou à tarde e foi suspensa às oito. Durante a suspensão, tentou-se chegar a um entendimento. Eu me aproximava de todos os grupos para farejar aquele cozido... Hum, mau, mau; o ministério Palanca ia sendo preparado, ia sendo preparado... Enquanto isso... imagine como aqueles homens estavam cegos!... enquanto isso, fora das Cortes, preparava-se a máquina para lhes dar uma rasteira. Zalamero e eu entrávamos e saíamos por turnos para levar notícias a uma casa da calle de la Greda, onde estavam Serrano, Topete e outros. “Meu general, eles não se entendem. Aquilo é um mar de azeite... fervendo. Derrubam Castelar. Enfim, agora veremos.” “Volte para lá. Haverá votação?” “Creio que sim.” “Traga-nos o resultado.”»

— O resultado da votação — observou Santa Cruz — foi contrário a Castelar. Diga uma coisa: e se tivesse sido favorável?

— Nada teria sido feito. Pode ter certeza. Pois, como eu dizia, Castelar falou...

Jacinta prestava muita atenção àquilo; mas Rafaela entrou para chamá-la e ela teve de se retirar.

«Graças a Deus estamos sozinhos outra vez», disse o comparsa depois de vê-la sair. «Será que ela nos ouve?»

— Como haveria de ouvir?... Como você ficou medroso! Conte logo. Onde a viu?

— Pois ontem à noite... fiquei no Suizo até as dez. Depois fui um pouco ao Real e, ao sair, ocorreu-me passar por Praga para ver se Joaquín Pez estava lá, pois eu precisava dizer-lhe uma coisa. Entro, e a primeira coisa que vejo é um casal... nas mesas da direita... Fiquei olhando como um bobo... Eram um senhor e uma mulher vestida com uma elegância... como direi?, com uma elegância improvisada. «Eu conheço esse rosto», foi a primeira coisa que me ocorreu. E imediatamente compreendi... «Mas é aquela maldita Fortunata!» Por mais que eu lhe diga, você não pode formar ideia da metamorfose... Teria de vê-la com os próprios olhos. Está de dar água na boca. Com certeza esteve em Paris, porque certas transformações não se fazem sem passar por lá. Coloquei-me o mais perto possível, esperando ouvi-la falar. «Como falará?», dizia comigo. Porque o talhe e o espartilho, quando há matéria-prima dentro, os modistas arranjam facilmente; mas a linguagem... Homem, você precisava vê-la e ficaria abobalhado, como eu. Diria que sua elegância é de ocasião e que ela não tem ares de senhora... De acordo; não tem ares de senhora, nem precisa... mas isso não impede que tenha um ar sedutor, capaz de... Enfim, se a vir, você atira pedras. Há de lembrar daquele corpo sem igual, daquele busto de estátua, desses que surgem no povo e morrem na obscuridade quando a civilização não os procura e os apresenta. Quantas vezes dissemos: «Se este busto soubesse explorar-se...!». Pois pronto, aí o tem em perfeita exploração. Lembra-se do que você sustentava?... «O povo é a pedreira. Dele saem as grandes ideias e as grandes belezas. Depois vem a inteligência, a arte, a mão de obra, retira o bloco, talha-o»... Pois, homem, aí a tem bem lavrada... Que linhas primorosas!... Naturalmente, ao falar, é certo que mete os pés pelas mãos. Eu me aproximava com disfarce. Compreendi que ela me reconhecera e que meus olhares a constrangiam... Pobrezinha! A elegância não lhe retirava o ordinário, aquele não sei quê de povo, certa timidez que se combina não sei como com o descaramento, a consciência de valer muito pouco, mas muito pouco, moral e intelectualmente, unida à segurança de escravizar... ah, tratantes!, os que valemos mais do que elas... digo, não me atrevo a afirmar que valhamos mais, salvo pela forma... Em resumo, homem, ela está de soltar fumaça. Eu pensava na quantidade de água que precedera a transformação. Mas ah, as mulheres aprendem isso depressa. São o próprio demônio para assimilar tudo o que pertence ao reino da toilette. Em compensação, eu apostaria que ela não aprendeu a ler... São assim; depois dizem que somos nós que as pervertemos. Voltando ao assunto, a metamorfose é completa. Água, figurinos, o fácil costume de enfeitar-se; depois seda, veludo, o chapeuzinho...

— Chapéu! — exclamou Juan no cúmulo da estupefação.

— Sim; e você não imagina como lhe cai bem. Parece que o usou a vida inteira... Lembra-se do lencinho na cabeça, com a ponta para cima e o laço?... Quem diria! Que transições!... É o que digo... As que têm talento aprendem num abrir e fechar de olhos. A raça espanhola é tremenda, homem, na assimilação de tudo quanto pertence à forma... Mas se você a visse...! Eu, confesso, estava pasmo, absorto, embebe...

Ai, meu Deus! Jacinta entrou, e Villalonga precisou dar uma guinada violentíssima...

«Digo que eu estava embevecido. O discurso de Salmerón foi admirável... mas das coisas mais admiráveis... Ainda me parece ver aquele rosto de filho do deserto, aquele movimento horizontal dos olhos e a galhardia dos gestos. Grande homem; mas eu pensava: “Suas filosofias não lhe servirão; você se meteu numa bela, e já verá o que lhe preparamos”. Depois falou Castelar. Que discurso! Que coragem de homem! Como crescia! Parecia-me que tocava o teto. Quando terminou: “À votação, à votação...”»

Jacinta tornou a sair sem dizer nada. Talvez suspeitasse que, durante sua ausência, os tunantes falavam de outro assunto, e afastou-se com intenção de voltar e aproximar-se cautelosamente.

«E aquele homem... quem era?», perguntou o Delfim, sentindo o ardor de uma curiosidade febril.

ii

Vou lhe dizer... assim que o vi, disse comigo: «Eu conheço esse rosto». Mas não consegui lembrar quem era. Pez entrou e conversamos... Ele também queria reconhecê-lo. Quebrávamos a cabeça. Por fim nos lembramos de que havíamos visto aquele sujeito dias antes no escritório do diretor do Tesouro. Creio que conversava com ele sobre o pagamento de uns fuzis encomendados à Inglaterra. Tem sotaque catalão, usa bigode e cavanhaque... cinquenta anos... bastante antipático. Pois veja; como Joaquín e eu olhávamos tanto para ela, aquele sujeito ficou desconfiado. Ela não correspondia aos olhares... parecia envergonhada... e como estava bonita com sua vergonha! Lembra-se daquela figurinha desbotada, de cabelos e olhos negros? Pois melhorou muito, porque está mais gorda, com o rosto e o corpo mais cheios.

Santa Cruz estava um pouco atordoado. Ouviu-se a voz de Barbarita, que entrava com a nora.

«Saí disparado...», prosseguiu Villalonga, «para anunciar aos amigos que a votação começara... Aos seus pés, Barbarita... Eu estou bem, e a senhora? Aqui eu contava... Pois dizia que saí correndo...»

— Rumo à calle de la Greda.

— Não... os amigos haviam se transferido para uma casa da calle de Alcalá, a de Casa-Irujo, que tem janelas para o parque do Ministério da Guerra... Subo e os encontro muito desanimados. Debrucei-me com eles nas janelas que dão para Buenavista e não vi nada... «Mas até quando vão esperar? Em que estão pensando?...» Francamente, achei que o golpe fracassara e que Pavía não se atrevia a pôr as tropas na rua. Serrano, impaciente, limpava os vidros embaçados para olhar, e lá embaixo não se via nada. «Meu general», eu lhe disse, «vejo uma faixa negra, que assim de repente, na escuridão da noite, parece um rodapé... Olhe bem, não será uma fileira de homens?» «E o que fazem ali, grudados à parede?» «Veja, veja, o rodapé se move. Parece uma serpente que rodeia o edifício inteiro e agora se desenrosca... Está vendo?... a ponta se estende rumo às rampas.» «São soldados», disse o general em voz baixa; e no mesmo instante entrou Zalamero com a língua quase no chão, dizendo: «A votação continua: a vantagem que Salmerón levava no começo agora é de Castelar... nove votos... Mas ainda falta votar metade do Congresso...» Ansiedade em todos os rostos... Cabia a mim ir então até lá para trazer o resultado final da votação... Trás, trás... tomo a calle del Turco e, entrando no Congresso, encontro um jornalista que saía: «A proposta tem dez votos de vantagem. Teremos ministério Palanca». Pobre Emilio!... Entrei. No plenário, as fileiras de cima já votavam. Dei uma olhada e saí. Contornei a curva, pensando no que acabara de ver em Buenavista, a fita negra enrolada no edifício... Figueras saiu pela escadinha do relógio e me disse: «O que acha, haverá confusão esta noite?» Respondi: «Vá tranquilo, mestre, que não haverá nada...» «Parece-me», disse com malícia, «que o diabo vai levar isto.» Eu ri. E pouco depois passa um contínuo e me diz, com a maior tranquilidade do mundo, que havia tropas na calle del Florín. «É mesmo? Visões suas. Que tropas, nem que menino morto!» Eu me fazia de desentendido. Enfiei a cara pela porta do relógio. «Não saio daqui», pensei, olhando para a mesa. «Agora vocês verão o que é coisa fina...» Estavam lendo o resultado da votação. Liam os nomes de todos os votantes, sem omitir um só. De repente, aparecem pela porta do canto de Fernando el Católico vários recrutas comandados por um oficial e plantam-se junto à escada da mesa. Pareciam figurantes de teatro. Pela outra porta entrou um velho coronel da Guardia Civil.

«O coronel Iglesias», disse Barbarita, desejosa de que o relato terminasse. «O país escapou por pouco... Bem, Jacinto, suponho que almoçará conosco.»

— Claro que sim — disse o Delfim. — Hoje não o solto; e depressa, mamãe, que está tarde.

Barbarita e Jacinta saíram. «E o que Salmerón fez?»

— Concentrei toda a atenção em Castelar e vi quando levou a mão aos olhos e disse: «Que ignomínia!» Na mesa armou-se uma confusão espantosa... gritos, protestos. Do relógio, vi uma massa de gente, todos de pé... Não distinguia o presidente. Os recrutas, imóveis... De repente, pum!, soou um tiro no corredor...

— E começou a debandada... Mas diga-me outra coisa, homem. Não consigo tirar do pensamento... Você dizia que ela usava chapéu?

— Quem?... Ah, aquela!

— Sim, chapéu, e de muitíssimo bom gosto — disse o comparsa, com tanta ênfase como se continuasse narrando o acontecimento histórico —, e um vestido azul elegantíssimo e casaco de veludo...

— Você está zombando? Casaco de veludo.

— Ora... e com peles, um casaco soberbo. Ficava-lhe tão bem... que...

Jacinta entrou sem se anunciar, sem ruído de passos nem de maneira alguma. Villalonga girou sobre a última ideia como um catavento impelido por forte rajada.

«O casaco que eu usava... meu sobretudo de peles... quero dizer, naquela barafunda arrancaram-me uma lapela... a pele de uma lapela, quero dizer...»

— Quando o senhor se meteu debaixo do banco.

— Eu não me meti debaixo de banco nenhum, xará. O que fiz foi pôr-me a salvo, como os outros, para o caso de a coisa estourar.

— Olhe, olhe, querida esposa — disse Santa Cruz, mostrando à mulher o colete que tirara mal acabara de vestir. — Veja como está pendurado este último botão de baixo. Faça-me o favor de pregá-lo, ou diga a Rafaela que o pregue, ou, em último caso, chame o coronel Iglesias.

— Dê-me isso — disse Jacinta de mau humor, saindo outra vez.

— Em que aperto me vi, camaradinha — disse Villalonga, contendo o riso. — Será que percebeu? Pois veja outro detalhe. Ela usava uns brincos de turquesa, que eram a própria graça divina sobre aquela pele morena e pálida. Ai, que orelhinhas de Deus e que turquesas! Você as teria comido. Quando os vimos levantar-se, decidimos seguir o casal para descobrir onde morava. Toda a gente que havia em Praga olhava para ela, e ela parecia mais constrangida do que orgulhosa. Saímos... trás, trás... calle de Alcalá, Peligros, Caballero de Gracia, eles na frente, nós atrás. Por fim lançaram âncora na calle del Colmillo. Chamaram o vigia noturno, ele abriu, entraram.

Numa casa que fica na calçada do Norte, entre a loja de figuras de gesso e o estabelecimento de jumentas leiteiras... ali.

Jacinta entrou com o colete.

— Pronto... vejamos... Vossa Senhoria manda mais alguma coisa?

— Nada mais, filhinha; muito obrigado. Este monstro diz que não teve medo e saiu tranquilamente... eu não acredito.

— Mas medo de quê?... Eu estava por dentro de tudo... Vou lhes contar o último detalhe, para que se espantem. Os canhões que Pavía pôs nas bocas das ruas estavam descarregados. E já viram o que aconteceu lá dentro. Dois tiros para o alto e, do mesmo modo que os pássaros pousados numa árvore debandam quando damos duas palmas debaixo dela, assim debandou a Assembleia da República.

— O almoço está na mesa. Já podem vir — disse a esposa, que saiu à frente deles, muito preocupada.

— Estômagos, defendam-se!

A Delfina apanhara no ar algumas palavras que, em sua opinião, não tinham relação alguma com aquilo das Cortes, do coronel Iglesias e do ministério Palanca. Sem dúvida havia mouros na costa. Era preciso descobrir, perseguir e aniquilar o corsário a todo custo. À mesa, a conversa versou sobre o mesmo assunto, e Villalonga, depois de tornar a contar o caso com todos os pormenores para que D. Baldomero o ouvisse, acrescentou diferentes detalhes que davam colorido à história.

— Ah! Castelar teve respostas admiráveis. «E a Constituição federal?...» «Vocês a queimaram em Cartagena.»

— Muito bem dito!

— O único que resistiu a deixar o local foi Díaz Quintero, que começou a gritar e a lutar com os guardas civis... Os deputados e o presidente abandonaram o plenário pela porta do relógio e esperaram na biblioteca que os deixassem sair. Castelar foi embora com dois amigos pela calle del Florín e retirou-se para casa, onde teve um forte ataque de bílis.

Essas referências ou notícias soltas eram, naquela triste história, como os bagos de uva que ficam no fundo do cesto depois de retirados os cachos. Eram os mais maduros e talvez, por isso mesmo, os mais saborosos.

iii

Nos dias seguintes, a observadora e desconfiada Jacinta notou que o marido entrava em casa fatigado, como homem que caminhara muito. Era a perfeita imagem do corretor que vai e vem, sobe escadas e percorre ruas sem encontrar o negócio que procura. Andava de cabeça baixa como os que perdem dinheiro, como o caçador impaciente que arrebenta as pernas de monte em monte sem ver passar animal que possa caçar; como o artista esquecido a quem escapa do fio do entendimento a ideia feliz ou a imagem que para ele vale um mundo. A mulher tentava sondá-lo, lançando-lhe a sonda da curiosidade, cujo chumbo eram os ciúmes; mas o Delfim guardava os pensamentos muito no fundo e, quando percebia tentativas de sondagem, descia ainda mais.

O pobre Juanito Santa Cruz estava submetido ao horrendo suplício da ideia fixa. Saiu, investigou, vasculhou, e aquela mulher, visão inverossímil que transtornara Villalonga, não aparecia em parte alguma. Teria sido sonho, ou vã ficção dos sentidos do amigo? A porteira da casa indicada por Jacinto dispôs-se a dar todas as notícias que lhe pedissem, mas a única informação útil que Juan obteve de sua complacente indiscrição foi que, na pensão do segundo andar, haviam morado um senhor e uma senhora, «ela uma bonitona», durante apenas dois dias. Depois tinham desaparecido... A porteira declarava com notável perspicácia que, em sua opinião, o senhor partira de trem, e a indivídua, senhora... ou o que fosse... andava por Madri. Mas onde diabos andava? Era isso que se precisava descobrir. Com todo o seu talento, Juan não conseguia dar explicação satisfatória ao interesse, à curiosidade ou ao ardor amoroso que nele despertava uma pessoa que dois anos antes vira com indiferença e até repulsa. A forma, a maldita forma, alma do mundo, era a culpada. Bastara que a infeliz jovem abandonada, miserável e talvez malcheirosa se transformasse na aventureira elegante, limpa e sedutora para que os desdéns do homem do século, que rende culto à arte pessoal, se transformassem em ardente desejo de apreciar por si mesmo aquela admirável transformação, prodígio desta nossa era de seda. «Isto não passa de curiosidade, pura curiosidade...», dizia Santa Cruz consigo, aquecendo a alma perturbada. «Certamente, quando a vir, ficarei como se nada fosse; mas quero vê-la, quero vê-la a todo custo... e, enquanto não a vir, não acreditarei na metamorfose.» E essa ideia o dominava de tal modo que a inutilidade de suas pesquisas lhe produzia uma dor indizível; foi se exaltando e, por fim, imaginava que uma grande e irreparável desgraça pesava sobre ele. Para acabar de aborrecê-lo e transtorná-lo, certo dia Villalonga apareceu com novas histórias. «Descobri que aquele homem é um trambiqueiro... Já não está em Madri. Aquilo dos fuzis era um golpe... letras falsificadas.»

— Mas ela...

— Ela foi vista ontem por Joaquín Pez... Acalme-se, homem, não vá ter alguma coisa. Onde, você pergunta? Pois numa rua que não sei qual. A rua não importa. Estava vestida com a maior humildade... Você perguntará, como eu: e o casaco de veludo?... e o chapeuzinho?... e as turquesas?... Parece-me que Joaquín disse que ainda usava as turquesas... Não, não, ele não disse isso, porque, se as usasse, não as teria visto. Levava um lenço na cabeça, bem amarrado debaixo do queixo, e um xale negro muito usado, e um grande embrulho de roupas na mão... Você explica isso? Não? Pois eu explico... No embrulho estava o casaco e talvez outras peças de roupa...

— É como se eu estivesse vendo — observou Juanito, com rápido discernimento. — Joaquín a viu entrar numa casa de penhores.

— Homem, que inteligência prodigiosa!... Verde e com alça...

— Mas não a viu sair? Não a seguiu depois para ver onde mora?

— Isso cabia a você... Ele também teria feito. Mas considere, alma cristã, que Joaquinito pertence à Junta de Tarifas e Avaliações, e justamente havia reunião naquela tarde, e nosso amigo ia ao ministério com a pontualidade de um Pez.

Juan ficou, com aquela notícia, mais pensativo e de humor ainda pior, sentindo agravarem-se os sintomas do mal que padecia, alojado principalmente na imaginação, enfermidade do ânimo misturada a uma excitação nervosa acentuada pela contrariedade. Por que a desprezara quando a tivera tal como era e a procurava agora que se tornara muito diferente do que fora?... O maldito ideal, ai!, o eterno como será? E a pobre Jacinta, enquanto isso, quebrava a cabeça para descobrir que diabo de capricho ou mania dominava o ânimo de seu inteligente esposo. Este se mostrava sempre atencioso e afetuoso com ela; não queria dar-lhe motivo de queixa; mas, para consegui-lo, precisava recorrer à própria imaginação enferma, revestir a mulher de formas que ela não possuía e imaginá-la mais larga de ombros, mais alta, mais mulher, mais pálida... e com aquelas turquesas nas orelhas... Se Jacinta chegasse a descobrir esse segredo profundíssimo da alma de Juanito Santa Cruz, certamente pediria o divórcio. Mas essas coisas estavam muito dentro, em cavernas mais profundas que o fundo do mar, e a sonda de Jacinta não chegaria até elas nem com todo o chumbo do mundo.

Cada dia mais dominado pelo frenesi investigador, Santa Cruz visitou diferentes casas, umas de reputação pior que outras, algumas misteriosas, outras abertas a todo o público. Não encontrando o que procurava naquilo que parecia mais elevado, desceu degrau por degrau, visitou lugares onde estivera algumas vezes e outros onde jamais estivera. Encontrou rostos conhecidos e amigos, rostos desconhecidos e repugnantes, e a todos pediu notícias, buscando remédio para o tifo de curiosidade que o consumia. Não deixou de bater a nenhuma porta atrás da qual pudessem esconder-se a vergonha perdida ou a perdição vergonhosa. Suas investigações pareciam o que não eram, pelo ardor com que as realizava e pelo caráter humanitário de que as revestia. Parecia um pai, um irmão que, desesperado, procura a pessoa querida caída nos labirintos tenebrosos do vício. E queria justificar sua inquietação com razões filantrópicas e até cristãs, tiradas de seu entendimento rico em sofismas. «É um caso de consciência. Não posso consentir que ela caia na miséria e na abjeção, sendo eu, como sou, responsável... Oh, que minha mulher me perdoe; mas uma esposa, por mais inteligente que seja, não consegue compreender os motivos morais, sim, morais, que tenho para proceder desta maneira.»

E sempre que andava à noite pelas ruas, qualquer vulto negro ou pardo lhe parecia ser aquela que procurava. Corria, olhava de perto... e não era. Às vezes julgava distingui-la de longe, e a forma se perdia na multidão como a gota na água. As silhuetas humanas que, no claro-escuro da multidão móvel, pareciam escamoteadas pelas esquinas e pelos portais deixavam-no descomposto e sobressaltado. Viu muitas mulheres, aqui no escuro, ali iluminadas pela claridade das lojas; mas a sua não aparecia. Entrava em todos os cafés, chegou até a entrar em algumas tabernas, ora sozinho, ora acompanhado de Villalonga. Ia com a certeza de encontrá-la neste ou naquele lugar; mas, ao chegar, a imagem que levava consigo, como criação dos próprios olhos, desvanecia-se na realidade. «Parece que, onde quer que eu vá», dizia com profundo tédio, «levo comigo seu desaparecimento e estou condenado a expulsá-la de minha vista com o próprio desejo de vê-la!» Villalonga dizia-lhe que tivesse paciência, mas o amigo não a tinha; ia perdendo a serenidade de seu caráter e lamentava que um homem tão grave e equilibrado quanto ele se deixasse transtornar tanto por mero capricho, por uma teimosia do ânimo, pelo desconforto da curiosidade insatisfeita. «Coisas dos nervos, não é, Jacintillo? Esta maldita imaginação... É como quando você ficava doente e delirante esperando ver sair uma carta que nunca saía. Francamente, eu me julgava mais forte contra esta horrível neurose da carta que não sai.»

Numa noite de muito frio, o Delfim entrou em casa não muito tarde, em estado lamentável. Sentia-se mal, sem conseguir precisar o que era. Deixou-se cair numa poltrona e inclinou-se para um lado, dando sinais de dor intensíssima. A amorosa esposa correu para ele, muito assustada ao vê-lo assim e ouvir os gemidos lastimosos que lhe escapavam dos lábios, junto com uma expressão feia que se perdoa facilmente aos homens que sofrem. «O que tem, meu neném?» O Delfim comprimia com a mão o lado esquerdo do corpo. A princípio, Jacinta pensou que haviam apunhalado o marido. Deu um grito... olhou; não havia sangue...

«Ah! Está doendo?... Pobre menino! Deve ser o frio... Espere, vou pôr uma flanela quente... faremos fricções com... com arnica...»

Barbarita entrou e olhou alarmada para o filho, mas, antes de tomar qualquer providência, deu-lhe uma boa repreensão porque ele não se protegia do crudelíssimo vento seco do Norte que reinava naqueles dias. Juan começou então a tiritar, batendo os dentes. O frio que o acometeu foi tão intenso que as palavras de queixa saíam de seus lábios como pulverizadas. A mãe e a esposa se entreolharam com terror, consultando-se reciprocamente em silêncio sobre a gravidade daqueles sintomas... Madri é uma cidade e tanto. Um cristão sai à caça por essas ruas, noite após noite. Onde estará a presa? Atira para cá, atira para lá, e nada. A presa não cai. E, quando o caçador está mais desprevenido, vem por trás, bem caladinha, uma pneumonia das finas, aponta, dispara e o deixa estendido.

Madri. Janeiro de 1886.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

* * * * *

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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