Universo da obra
Universo da obra
O casamento realizou-se em maio de 71. Dom Baldomero disse com muito bom senso que, já que era costume os noivos saírem correndo pelo mundo mal recebiam a bênção, não compreendia por que seria obrigatório o passeio pela França ou pela Itália, havendo na Espanha tantos lugares dignos de ser vistos. Ele e Barbarita não haviam ido sequer a Chamberí, pois em seu tempo os noivos ficavam onde estavam, e o único espanhol que se permitia viajar era o duque de Osuna, dom Pedro. Que diferença entre os tempos!... E agora até Periquillo Redondo, o dono do bazar de gravatas ao ar livre na esquina da agência dos Correios, fizera sua viagenzinha a Paris... Juanito mostrou-se inteiramente de acordo com o papai e, recebida a bênção nupcial, realizado o almoço em família sem aparato algum por causa do luto, sem outra coisa notável além de uma tentativa de brinde de Estupiñá, cuja boca Barbarita tapou à primeira palavra; dadas as despedidas, com as correspondentes lágrimas e trocas de beijos, marido e mulher foram para a estação. A primeira etapa da viagem foi Burgos, aonde chegaram às três da madrugada, felizes e loquazes, rindo de tudo, do frio e da escuridão. Na alma de Jacinta, contudo, as alegrias não excluíam certo medo, que às vezes era terror. O ruído do ônibus sobre o calçamento desigual das ruas, a subida ao hotel por uma escada estreita, o aposento e seus móveis de mau gosto, mistura de restos da cidade e luxos de aldeia, aumentaram aquele frio invencível e aquela pavorosa expectativa que a faziam estremecer. E ela amava tanto o marido!... Como conciliar dois desejos tão diferentes: que o marido se afastasse dela e que permanecesse perto? Porque a ideia de ele poder ir embora, deixando-a sozinha, era como a morte, e a de que se aproximasse e a tomasse nos braços com apaixonado atrevimento também a deixava trêmula e assustada. Teria desejado que não se afastasse, mas que ficasse quietinho.
No dia seguinte, quando foram à catedral, já bastante tarde, Jacinta conhecia uma porção de expressões carinhosas e de íntima confiança amorosa que até então nunca pronunciara, senão na discreta vagueza do pensamento que receia revelar-se a si mesmo. Não sentia vergonha de dizer ao outro que o idolatrava, assim, assim mesmo, com toda a clareza... pão, pão, queijo, queijo... nem de perguntar-lhe a cada momento se era verdade que ele também estava feito um idólatra e continuaria assim até o dia do Juízo Final. E à tal perguntinha, que se tornara tão frequente quanto o piscar dos olhos, aquele cuja vez chegava respondia «Xi», dando à sílaba um tom de pronúncia infantil. O «Xi» fora ensinado por Juanito naquela noite, assim como dizer, também em estilo mimado, «Cê me qué?», e outras tolices e criancices melosas, pronunciadas da maneira mais grave do mundo. Na própria catedral, quando o sacristão que lhes mostrava alguma capela ou preciosidade reservada desviava os olhos, os esposos aproveitavam o momento para trocar beijos rápidos e furtivos, diante da santidade dos altares consagrados ou atrás da estátua jacente de um sepulcro. É que Juanito era um tratante, guloso e atrevido. Aquelas profanações causavam medo a Jacinta; ela, porém, consentia e tolerava, pondo o pensamento em Deus e confiando que Ele, ao vê-las, voltaria o rosto com aquela indulgência própria de quem é fonte de todo amor.
Tudo era para eles motivo de felicidade. Contemplar uma maravilha da arte os entusiasmava e, de puro entusiasmo, riam, do mesmo modo que diante de qualquer contratempo. Se a comida era ruim, risadas; se a carruagem que os levava à Cartuja dançava nos buracos da estrada, risadas; se o sacristão de las Huelgas lhes contava mil patranhas, dizendo que a senhora abadessa usava mitra e governava os padres, risadas. Além disso, tudo quanto Jacinta dizia, ainda que fosse a coisa mais séria do mundo, fazia Juanito achar graça extraordinária. A qualquer tolice dita por ele, a mulher soltava uma gargalhada. As expressões cruas de estilo popular e flamenco que Santa Cruz usava às vezes divertiam-na mais que qualquer coisa, e ela as repetia, procurando fixá-las na memória. Quando não são muito grosseiras, essas fórmulas de falar têm graça, pois são caricaturas da linguagem.
O tempo passa sem ser sentido por aqueles que estão em êxtase e pelos enamorados. Nem Jacinta nem seu esposo avaliavam bem o curso das horas fugazes. Ela, principalmente, precisava pensar um pouco para descobrir se determinado dia era o terceiro ou o quarto daquela existência feliz. Mas, embora não saiba avaliar bem a sucessão dos dias, o amor aspira a dominar o tempo como domina tudo e, quando se sente vitorioso no presente, anseia tornar-se dono do passado, investigando os acontecimentos para verificar se lhe são favoráveis, já que não pode destruí-los nem transformá-los em mentira. Forte na consciência de seu triunfo presente, Jacinta começou a sentir o desconsolo de não submeter também o passado do marido, tornando-se dona de tudo quanto ele sentira e pensara antes do casamento. Como daquela ação passada só tinha leves indícios, despertaram nela curiosidades que a inquietavam. Com os carinhos recíprocos crescia a confiança, que começa inocente e vai adquirindo pouco a pouco a liberdade de investigar e a coragem das revelações. Santa Cruz não estava em situação de ser atormentado pela curiosidade, pois Jacinta era a própria pureza. Nem sequer tivera um desses namorados que não fazem mais que olhar e pôr cara aflita. Ela, sim, tinha campo vastíssimo em que exercer seu espírito crítico. Mãos à obra. Não deve haver segredos entre os esposos. Essa é a primeira lei que a curiosidade promulga antes de começar a oficiar como inquisidora.
Embora Jacinta fizesse a primeira pergunta chamando o marido de Nenê, como ele lhe ensinara, ele não deixou de sentir certo incômodo. Caminhavam pelas alamedas de álamos de Burgos, retas e intermináveis como caminhos de pesadelo. A resposta foi carinhosa, mas evasiva. Se aquilo que a nenê desejava saber era apenas um desvario, uma tolice...!, coisas de rapazes. A educação do homem de nossos dias não pode ser completa se ele não convive com toda espécie de gente, se não lança um olhar sobre todas as situações possíveis da vida, se não experimenta todas as paixões. Puro estudo e pura educação... Não se tratava de amor, pois amor, bem podia afirmá-lo, ele nunca sentira até a mulher que já era sua esposa tocar-lhe o coração.
Jacinta acreditava nisso, mas a fé é uma coisa e a curiosidade é outra. Não duvidava nem um pouquinho do amor do marido; queria, porém, saber, sim, senhor, queria inteirar-se de certas aventurazinhas. Entre esposos deve existir sempre a maior confiança, não é verdade? Quando há segredos, adeus à paz do casamento. Pois bem, ela queria ler de cabo a rabo certas paginazinhas da vida do esposo antes de ele casar-se. Pois essas histórias ajudam bastante na educação matrimonial! Sabendo-as de cor, as mulheres vivem mais avisadas e, ao menor deslize dos maridos... zás!, já os apanharam.
— Você tem de me contar tudinho... Senão, não o deixo viver.
Isso foi dito no trem, que corria e apitava pelos desfiladeiros de Pancorvo. Na paisagem, Juanito via uma imagem de sua consciência. A via que a atravessava, revelando as sombrias voltas, era a inteligente investigação de Jacinta. O grande maroto ria, prometendo, sim, contar depois; a verdade, porém, era que não contava nada de substancial.
— Sim, porque você pensa que me engana!... Veio bater na porta errada... Sei mais do que imagina. Lembro-me bem de algumas coisas que vi e ouvi. Sua mamãe estava muito desgostosa porque você havia ficado muito chu... la... pito; isso mesmo.
O marido continuava encerrado em sua prudência, mas nem por isso Jacinta se irritava. Sua sagacidade feminina dizia-lhe que a obstinação impertinente produz efeitos contrários aos pretendidos. Outra teria feito, naquele caso, um beicinho muito sério; ela não, pois fundava o êxito na perseverança combinada com um carinho capcioso e diplomático. Ao entrarem num túnel de La Rioja, disse:
— Apostamos que, sem você me dizer uma palavra, descubro tudo?
À saída do túnel, o esposo apaixonado, depois de esmagá-la num abraço um pouco teatral e misturar o estalo dos beijos ao mugido da máquina fumegante, gritou:
— O que posso esconder desta gracinha gulosa?... Eu a devoro; olhe que eu a devoro. Curiosa, bisbilhoteira, feiosinha! Você quer saber? Pois vou contar, para que me ame ainda mais.
— Mais? Que engraçado! Isso é que é difícil.
— Espere até chegarmos a Zaragoza.
— Não, agora.
— Agora mesmo?
— Xi.
— Não... em Zaragoza. Olhe que é uma história longa e enfadonha.
— Melhor ainda... Conte, e depois veremos.
— Você vai rir de mim. Pois bem... por volta de dezembro do ano passado... não, do anterior... Está vendo? Já começou a rir.
— Não estou rindo, estou mais séria que o Papamoscas.
— Pois bem, lá vou eu... Como dizia, conheci uma mulher... Coisas de rapazes. Mas deixe-me começar pelo princípio. Era uma vez... um cavalheiro idoso muito parecido com uma maritaca e chamado Estupiñá, que adoeceu e... coisa natural, seus amigos foram visitá-lo... e um desses amigos, ao subir a escada de pedra, encontrou uma moça que comia um ovo cru... Que tal?...
— Um ovo cru... que nojo! — exclamou Jacinta, cuspindo um pouquinho de saliva. — O que se pode esperar de quem se apaixona por uma mulher que come ovos crus?...
— Falando aqui com imparcialidade, direi que era bonita. Você se irrita?
— Por que eu me irritaria, homem? Continue...
— Ela comia o ovo, oferecia a você, e você participou...
— Não, naquele dia não houve nada. Voltei no seguinte e tornei a encontrá-la.
— Ora, você lhe agradou e ela estava esperando.
O Delfim não queria ser muito explícito e contava em linhas gerais, suavizando as asperezas e passando como sobre brasas pelas passagens perigosas. Jacinta, porém, tinha arte instintiva no manejo do gancho e sempre arrancava alguma coisa daquilo que desejava saber. Veio então à luz parte do que Barbarita tentara inutilmente descobrir... Quem era a do ovo? Pois uma moça órfã que vivia com a tia, vendedora de ovos e aves na Cava de San Miguel. Ah, Segunda Izquierdo!... também chamada Melaera, que basilisco!... que língua!... que voracidade!... Era viúva e estava envolvida, como se diz, com um picador.
— Mas basta de digressões. Na segunda vez que entrei na casa, encontrei-a sentada num daqueles degraus de granito, chorando.
— A tia?
— Não, mulher, a sobrinha. A tia acabara de dar-lhe uma descompostura, e ainda se ouviam lá embaixo os bufos da fera... Consolei a pobre moça com quatro palavrinhas e sentei-me ao lado dela no degrau.
— Que falta de vergonha!
— Começamos a conversar. Não subia nem descia ninguém. A moça era muito dada, inocentona, dessas que dizem tudo quanto sentem, tanto o bom como o mau. Continuemos. Pois bem... no terceiro dia encontrei-a na rua. De longe percebi que sorria ao me ver. Trocamos só quatro palavras; voltei, enfiei-me na casa, fiz amizade com a tia e conversamos; e uma tarde o picador saiu de entre um monte de cestos onde dormia a sesta, coberto de penas, aproximou-se de mim e lançou-me a garra, quero dizer, estendeu-me aquela mão enorme, eu a apertei, ele me convidou para tomar umas taças, aceitei e bebemos. Villalonga e eu não demoramos a fazer amizade com os amigos daquela gente... Não ria... Garanto que Villalonga me arrastava para aquela vida, porque se apaixonara por outra moça do bairro, assim como eu pela sobrinha de Segunda.
— E qual era mais bonita?
— A minha! — replicou prontamente o Delfim, deixando entrever a força de seu amor-próprio. — A minha... um bichinho muito gracioso, uma selvagem que não sabia ler nem escrever. Imagine, que educação! Pobre povo!, e depois falamos de suas paixões brutais, quando nós somos os culpados... É preciso ver essas coisas de perto... Sim, minha filha, é preciso pôr a mão sobre o coração do povo, que é são... sim, mas às vezes suas batidas não são batidas, e sim coices... Aquela infeliz moça!... Como lhe digo, um animal; mas bom coração, bom coração... pobre nenê!
Ao ouvir aquela expressão carinhosa, dita pelo Delfim de modo tão espontâneo, Jacinta franziu a testa. Ela herdara o emprego da palavrinha, que agora lhe desagradava por ser como o resto descartado de uma paixão anterior, um vestido ou joia sujos pelo uso; e expressou seu desgosto dando uma bofetada no tratante do Juanito, bofetada que, para ter sido dada por uma mulher e de brincadeira, ressoou bastante.
— Está vendo? Já ficou zangada. E sem motivo. Conto as coisas como aconteceram... Basta, basta de histórias.
— Não, não. Não estou zangada. Continue, ou lhe dou outra.
— Não estou com vontade... Se o que quero é apagar um passado que considero infamante; se não quero conservar nem a lembrança dele... É um episódio que tem seus lados ridículos e seus lados vergonhosos. A pouca idade desculpa certas loucuras quando delas se tira a honra pura e o coração são. Por que me obriga a repetir aquilo que quero esquecer, se apenas recordá-lo já me faz parecer indigno deste bem que hoje possuo, você, minha menina?
— Está perdoado — disse a esposa, arrumando os cabelos que Santa Cruz lhe havia desfeito ao acentuar materialmente aquelas expressões tão sábias quanto apaixonadas. — Não sou impertinente, não exijo impossíveis. Sei muito bem que os homens precisam fazer suas estripulias antes de casar. Advirto que serei muito ciumenta se me der motivo para isso; mas nunca terei ciúmes retrospectivos.
Isso seria tão razoável e discreto quanto se queira supor, mas a curiosidade não diminuía; ao contrário, aumentava. Renasceu com força em Zaragoza, depois que os esposos ouviram missa no Pilar e visitaram la Seo.
— Se você quisesse me contar mais alguma coisa daquilo... — insinuou Jacinta quando vagavam pelas ruas solitárias e românticas que se estendem atrás da catedral.
Santa Cruz fez cara feia.
— Mas que bobinho! Quero saber para rir, apenas para rir. O que você pensava, que eu ficaria zangada?... Ah, que tolinho!... Não, é que suas loucuras me divertem. Têm certo chic. Ontem à noite pensei nelas e até sonhei um pouquinho com a do ovo cru, a tia e o espantalho do tio. Não, eu não me irritava; ria, acredite, divertia-me vendo você no meio daquela aristocracia, feito um cavalheiro, uma pessoa decente, enfim, com os cabelinhos sobre a orelha. Agora vou antecipar a continuação da história. Pois bem... você lhe fez a corte com finura, e ela aceitou com grosseria. Tirou-a da casa da tia e os dois foram para outro ninho, na Concepción Jerónima.
Juanito olhou fixamente para a mulher e depois caiu na risada. Aquilo não era adivinhação de Jacinta. Sem dúvida ouvira alguma coisa, ao menos o nome da rua. Pensando que convinha manter o tom festivo, disse:
— Você sabia o nome da rua; não venha agora fingir-se de vidente... É que Estupiñá me espionava e levava histórias a mamãe.
— Continue com sua conquista. Pois bem...
— Questão de poucos dias. Entre o povo, minha filha, os procedimentos são breves. Você vê como se matam. Pois com o amor acontece a mesma coisa. Um dia eu lhe disse: «Se quer provar que me ama, fuja de casa comigo.» Pensei que diria não.
— Pensou mal... sobretudo se havia... pancada em casa.
— A resposta foi pegar o xale e dizer «vamos». Não podia sair pela Cava. Saímos pela sapataria chamada Al Ramo de Azucenas. É o que lhe digo: o povo é assim, extremamente executivo e inimigo de formalidades.
Jacinta olhava mais para o chão que para o marido.
— E logo em seguida veio a conhecida palavrinha de casamento — disse, encarando-o e observando que ele hesitava na resposta.
Embora Jacinta não conhecesse pessoalmente nenhuma vítima das promessas de casamento, tinha uma ideia clara desses pactos diabólicos pelo que vira deles nos dramas, nas peças curtas e até nas óperas, apresentados como recurso teatral, ora para fazer o público chorar, ora para fazê-lo rir. Tornou a olhar para o marido e, notando nele uma espécie de sorrisinho de homem do mundo, deu-lhe um beliscão acompanhado destas considerações, um tanto irritadas:
— Sim, a promessa de casamento com a reserva mental de não cumpri-la, um escárnio, uma fraude, uma vilania. Que homens!... Depois reclamam... E aquela tonta não lhe arrancou os olhos quando se viu enganada?... Se fosse eu...
— Se fosse você, tampouco teria arrancado meus olhos.
— Teria, sim... tratante... malandrezinho. Ora, não quero saber mais, não me conte mais nada.
— Para que pergunta? Se digo que não a amava, você se zanga comigo e toma o partido dela... E se eu dissesse que a amava, que pouco depois de tirá-la de casa me ocorreu a tolice de cumprir a promessa de casamento que lhe fiz?
— Ah, maroto! — exclamou Jacinta com ira cômica, embora não inteiramente cômica. — Agradeça por estarmos na rua, porque, do contrário, agora mesmo eu lhe daria dois puxões e em cada manotada arrancaria uma mecha de cabelos... Então queria se casar... e diz isso a mim!... a mim!
A gargalhada lançada por Santa Cruz retumbou na cavidade da pracinha silenciosa e deserta com ecos tão estranhos que os dois esposos ficaram admirados ao ouvi-la. Formavam aquele recanto velhos casarões de tijolos moldados ao estilo mudéjar, nas portas, gigantes ou selvagens de pedra com a maça ao ombro, nas cornijas, beirais de madeira entalhada, tudo de uma cor de poeira uniforme e tristíssima. Não se via sinal de alma vivente em parte alguma. Atrás das grades enferrujadas, não aparecia fresta alguma de postigos entreabertos pela qual pudesse filtrar-se um olhar humano.
— Isto aqui é tão solitário, minha filha — disse o marido, tirando o chapéu e rindo — que você pode armar o maior escândalo sem que ninguém saiba.
Juanito saiu correndo. Jacinta foi atrás dele com a sombrinha levantada.
— Você não me alcança.
— Alcanço, sim.
— Eu mato você...
E ambos correram pelo pavimento desigual cheio de ervas, ele rindo às gargalhadas, ela coradinha e com os olhos úmidos. Por fim, pumba!, deu-lhe uma sombrinhada e, enquanto Juanito se coçava, os dois pararam ofegantes, sufocados de tanto rir.
— Por aqui — disse Santa Cruz, apontando para um arco que era a única saída.
E, quando passavam por aquele túnel, em cuja extremidade se via outra pracinha tão solitária e misteriosa quanto a anterior, os amantes, sem dizer uma palavra, abraçaram-se e permaneceram estreitamente unidos, beijando-se durante um bom minuto e dizendo ao ouvido as palavras mais ternas.
— Está vendo? Isto é saborosíssimo. Quem diria que no meio da rua uma pessoa podia...
— Se alguém nos visse... — murmurou Jacinta, ruborizada, pois, na verdade, aquele recanto de Zaragoza podia ser tão solitário quanto se quisesse, mas não era uma alcova.
— Melhor... se nos virem, melhor... Que aguentem.
E tornaram aos abracinhos e às palavras de mel.
— Por aqui não passa uma alma... — disse ele. — Mais ainda, creio que nunca passou ninguém por aqui. Há pelo menos dois séculos nenhum olhar humano corre por estas paredes...
— Cale-se, parece que estou ouvindo passos.
— Passos... vejamos...
— Sim, passos.
De fato, alguém vinha. Ouviu-se, sem poder determinar de onde, um arrastar de pés sobre os seixos do chão. Entre duas casas surgiu de repente uma figura negra. Era um sacerdote velho. Os esposos tomaram-se pelo braço e avançaram afetando a maior compostura. Ao passar junto deles, o clérigo olhou-os demoradamente.
— Parece-me — disse a esposa, agarrando-se ainda mais ao braço do marido e colando-se a ele — que ele percebeu por nossa cara.
— Percebeu o quê?
— Que estávamos... fazendo bobagens.
— Psch... e daí?
— Veja — disse ela quando chegaram a um lugar menos deserto —, não me conte mais histórias. Não quero saber mais. Ponto-final.
Começou a rir, a rir, e o Delfim precisou perguntar muitas vezes a causa da hilaridade para obter esta resposta:
— Sabe do que estou rindo? De pensar na cara que sua mamãe faria se você entrasse pela porta com uma nora de xale, anéis baratos e lenço na cabeça, uma nora que diz «daqui inté logo» e não sabe ler.
— Ficamos combinados em que não há mais histórias.
— Não há mais... Já ri bastante de sua tolice. Francamente, pensei que você fosse mais esperto... Além disso, tudo o que possa contar eu já imagino. Você logo se cansou. É natural... O homem bem-educado e a mulher vulgar não formam bom par. Passa a ilusão, e depois o que acontece? Ela cheira a cebola e diz palavras feias... A ele... estou vendo a cena... revira-se o estômago, e começam as discussões. O povo é sujo; a mulher de classe baixa, por mais que lave o rostinho, continua sendo povo. Basta ver as casas por dentro. Pois os benditos corpos são do mesmo jeito.
Naquela mesma tarde, depois de contemplarem a Puerta del Carmen e os eloquentes muros de Santa Engracia, que viram aquilo que ninguém tornará a ver, passeavam pelos arvoredos de Torrero. Jacinta apoiava-se com força no braço do marido, pois estava realmente cansadinha, e disse-lhe:
— Só quero saber uma coisa, uma única coisa. Depois, boca fechada. Que casa era aquela da Concepción Jerónima?...
— Mas, minha filha, o que isso lhe importa?... Está bem, eu direi. Não tem nada de particular. Pois bem... naquela casa morava um tio dela, irmão da vendedora de ovos, um bom tipo, o maior perdido e o maior animal que já vi na vida; homem que foi de tudo, presidiário e revolucionário de barricadas, toureiro de inverno e negociante de gado. Ah, José Izquierdo!... Você riria se o visse e o ouvisse falar. Esse sujeito virou a cabeça de uma pobre mulher, viúva de um ourives, e se casou com ela. Cada qual a seu modo, aquele casal valia um império. Passavam o santo dia brigando, de boca, entenda-se... E que loja, minha filha, que desordem, que cenas! Primeiro ele se embriagava sozinho, depois os dois, alternadamente. Pergunte a Villalonga; é ele quem conta isso maravilhosamente e imita as algazarras que se armavam ali. Parece mentira que eu me divertisse com semelhantes escândalos. O que é o homem! Mas eu estava cego; tinha então a mania do popular.
— E a tia, quando a viu desonrada, deve ter ficado furiosa, não é?
— No princípio, sim... vou lhe explicar... — replicou o Delfim, procurando as ruelas de uma explicação um tanto incômoda. — Mas enfureceu-se mais pela fuga que pela desonra. Queria manter em casa a pobre moça, que era sua faz-tudo. Essa gente do povo é atroz. Que moral estranha a deles! Melhor dizendo, não têm nem um pingo de moral. Segunda começou por aparecer todos os dias na loja da Concepción Jerónima e armar um escândalo com o irmão e a cunhada. «Você é isto, você é aquilo...» Parece mentira; Villalonga e eu, que ouvíamos aquelas confusões do mezanino, só fazíamos rir. A que degradação chega uma pessoa quando se deixa cair assim! Eu estava tão tolo que me parecia que viveria para sempre entre semelhante ralé. E nem lhe conto, filha de minha alma... o dia em que entrou ali o picador, o amante de Segunda. Esse cavalheiro e meu amigo Izquierdo detestavam-se... O que disseram um ao outro!... Era caso de alugar sacadas.
— Não sei como tanto selvajismo podia diverti-lo.
— Nem eu sei. Creio que me transformei em outra pessoa, diferente da que era e da que tornei a ser. Foi como um parêntese em minha vida. E nada, filha de minha alma, foi o maldito capricho por aquela mulher do povo, não sei que espécie de entusiasmo artístico, uma loucura ocasional que não consigo explicar.
— Sabe o que desejo agora? — disse Jacinta bruscamente.
— Que você se cale, homem, que se cale. Isso me causa repugnância. Você tem razão; naquela época não era você mesmo. Tento imaginar como era e não consigo. Amar você e vê-lo tal como pinta a si próprio são duas coisas que não posso juntar.
— Você tem razão, ame-me muito, e o passado, passado. Mas espere um pouco: para arredondar a história, preciso acrescentar uma coisa que a surpreenderá. Duas semanas depois de todas aquelas recriminações, de tanta briga e tanto escândalo entre os irmãos Izquierdo, entre Izquierdo e o picador e entre tia e sobrinha, todos se reconciliaram; acabaram-se as discussões e só houve gentilezas e apertos de mão.
— Isso, sim, é singular. Que gente!
— O povo não conhece a dignidade. Só é movido pelas paixões ou pelo interesse. Como Villalonga e eu tínhamos dinheiro de sobra para festas e rodadas de bebida, uns e outros tomaram gosto por nossos bolsos, e logo chegou o dia em que ali só se fazia beber, bater palmas, tocar violão, «manda mais», comer presunto. Era uma orgia contínua. Na loja não se vendia; em nenhuma das duas casas se trabalhava. No dia em que não havia refeição no campo, havia ceia em casa até a madrugada. A vizinhança estava escandalizada. A polícia rondava. Villalonga e eu como dois insensatos...
— Ah, que bela dupla!... Mas, meu filho, está chovendo... caiu uma gota na ponta do meu nariz... Está vendo?... Depressa, senão vamos nos molhar.
O tempo tornou-se muito ruim e, em todo o percurso até Barcelona, não parou de chover. Encostados os dois à janela, marido e mulher contemplavam a chuva, aquela cortina de pequenas linhas oblíquas que desciam do Céu sem terminar de descer. Quando o trem parava, ouvia-se o gotejar da água que os tetos dos vagões derramavam sobre os estribos. Fazia frio e, mesmo que não fizesse, os viajantes o sentiriam só de ver as estações alagadas, os empregados ensopados e os camponeses que vinham tomar o trem com um saco sobre a cabeça. As locomotivas escorriam água e fogo ao mesmo tempo, e nos oleados das plataformas do trem de carga formavam-se bolsas cheias de água, pequenos lagos onde os pássaros poderiam beber, caso sentissem sede naquele dia.
Jacinta estava contente, e o marido também, apesar da melancolia chorosa da paisagem; como havia outros viajantes no vagão, porém, os recém-casados não podiam passar o tempo trocando beijos e tolices de amor. Ao chegar, ambos riam da formalidade com que haviam feito aquela viagem, pois as pessoas estranhas não lhes permitiram derreter-se em carinhos. Em Barcelona, Jacinta ficou muito distraída com a animação e o fecundo bulício daquela grande colmeia humana. Passaram momentos felicíssimos visitando as soberbas fábricas de Batlló e Sert e admirando sem cessar, de oficina em oficina, as armas maravilhosas que o homem concebeu para submeter a Natureza. Durante três dias, a história do ovo cru, da mulher seduzida e da família de insensatos que se amansava com orgias ficou inteiramente esquecida ou perdida num labirinto de máquinas ruidosas e enfumaçadas ou no matraquear dos teares. Os de Jacquard, com seus incompreensíveis jogos de cartões perfurados, mantinham ocupada e suspensa a imaginação de Jacinta, que via aquele prodígio e não queria acreditar. Que coisa estupenda!
— A gente vê as coisas todos os dias e não pensa em como são feitas, nem lhe ocorre descobrir. Somos tão tolos que, ao ver uma ovelha, não pensamos que nela estão nossos sobretudos. E quem diria que as blusas e anáguas saíram de uma árvore? Ora, o algodão! E os corantes? O carmim foi um bichinho, o preto, uma laranja amarga, e os verdes e azuis, carvão mineral. Mas o mais estranho de tudo é que, quando vemos um burro, aquilo em que menos pensamos é que dele saem os tambores. E essa história de que os fósforos são tirados dos ossos e o som do violino é produzido pela cauda do cavalo passando pelas tripas da cabra?
A observadora não parava aí. Naquela excursão pelo campo instrutivo da indústria, seu coração generoso transbordava em sentimentos filantrópicos e seu juízo claro sabia encarar os problemas sociais.
— Você não imagina — dizia ao marido ao sair de uma oficina — quanta pena tenho dessas infelizes moças que passam o dia aqui ganhando um jornal miserável, que não dá nem para se vestir. Não têm instrução, são como máquinas e ficam tão tolas... mais que tolice deve ser tédio... ficam tão tolas, digo, que, assim que lhes aparece qualquer tratante, deixam-se seduzir... E não é maldade; chega um momento em que dizem: «Mais vale ser mulher má que boa máquina.»
— Minha mulher está filosófica.
— Ora... diga que não me saí bem... Enfim, não se fala mais nisso. Diga se me ama, sim ou não... mas depressa, depressa.
No dia seguinte, nas alturas do Tibidabo, vendo a seus pés a imensa cidade estendida na planície, soltando por mil chaminés o negro resfolegar que declarava sua ardente atividade, Jacinta deixou-se cair para o lado do marido e disse:
— Você vai satisfazer uma curiosidade minha... a última.
No instante em que falou, arrependeu-se, pois aquilo que desejava saber, se a picava muito como curiosidade, também lhe picava um pouco o pudor. Se encontrasse uma maneira delicada de fazer a pergunta...! Revolveu na mente tudo quanto sabia e não encontrou fórmula alguma que lhe assentasse bem na boca. E a coisa era bastante natural. Ou pensara nela ou sonhara na noite anterior, não tinha certeza; mas era uma consequência que ocorreria a qualquer pessoa. A ordem de seus juízos era esta: «Quanto tempo durou o envolvimento de meu marido com essa mulher? Não sei. Mas, durasse mais ou durasse menos, bem poderia acontecer que... tivesse nascido alguma criança.» Essa era a palavra difícil de pronunciar, criança! Jacinta não se atrevia e, embora tentasse substituí-la por família, descendência, nada saía.
— Não, não era nada.
— Você disse que ia me perguntar não sei o quê.
— Era uma tolice; não ligue.
— Não há nada que me irrite mais que isso... dizer a alguém que vai perguntar uma coisa e depois não perguntar. A pessoa fica confusa, fazendo mil cálculos. Isso, isso, guarde bem... Não cairão moscas em cima. Olhe, filha de minha alma, quando não se pretende atirar, não se aponta.
— Atirarei depois... há tempo, filhinho.
— Diga agora... O que será, o que não será?
— Nada... não era nada.
Ele a olhava e ficava sério. Parecia adivinhar-lhe o pensamento, e ela tinha nos olhos e no sorrisinho malicioso uma expressão tal que quase se podia ler em seu rosto a palavra que circulava por dentro. Olhavam-se, riam e nada mais. A esposa disse consigo: «A seu tempo amadurecem as uvas. Virão dias de maior confiança, falaremos... e saberei se existe ou não por aí algum ovinho.»
Jacinta não tinha espécie alguma de erudição. Lera pouquíssimos livros. Era completamente ignorante em questões de geografia artística e, no entanto, apreciava a poesia daquela região costeira mediterrânea que se desdobrou diante de seus olhos no trajeto de Barcelona a Valencia. As pequenas cidades marítimas desfilavam à esquerda da via, dispostas entre o mar azul e uma vegetação esplêndida. Em certos trechos, a paisagem azulava com a folha prateada das oliveiras; mais adiante, os vinhedos alegravam-na com a verde gala das folhas. A vela triangular das embarcações, as casinhas baixas e brancas, a ausência de telhados pontiagudos e o predomínio da linha horizontal nas construções traziam ao pensamento de Santa Cruz ideias de arte e natureza helênicas. Seguindo as rotinas a que se entregam os que leram alguns livros, falou também de Constantino, da Grécia, das barras de Aragón e dos peixinhos que as tinham pintadas no lombo. Era inevitável trazer à baila as colônias fenícias, assunto do qual Jacinta não entendia uma palavra, nem precisava entender. Depois vieram Prócida e as Vésperas Sicilianas, dom Jaime de Aragón, Roger de Flor e o Império do Oriente, o duque de Osuna e Nápoles, Veneza e o marquês de Bedmar, Masaniello, os Bórgias, Lepanto, dom Juan de Austria, as galeras e os piratas, Cervantes e os padres da Merced.
Entretida com os comentários que o outro acrescentava à rápida visão da costa mediterrânea, Jacinta condensava sua ciência nestas expressões ou em outras parecidas:
— E a gente que vive aqui será feliz ou tão desgraçada quanto os aldeões do interior, que nunca tiveram nada a ver com o Grão-Turco nem com a capitânia de dom Juan de Austria? Porque os daqui não devem perceber que vivem num paraíso, e o pobre é tão pobre na Grécia quanto em Getafe.
Passaram um dia agradabilíssimo, contemplando a alegre região que se desdobrava diante de seus olhos, o caudaloso Ebro, os pântanos de seu delta e, por fim, a maravilha da região valenciana, anunciada por grupos de alfarrobeiras que de toda parte pareciam acorrer dançando ao encontro do trem. Jacinta sentia vertigem quando as contemplava fixamente. Ora se aproximavam até tocar a janela com a folhagem arredondada, ora se afastavam para o alto de uma colina, ora se escondiam atrás de um outeiro para reaparecer fazendo passos e figuras de minueto ou brincando de esconde-esconde com os postes do telégrafo.
O tempo, que não lhes fora muito favorável em Zaragoza e Barcelona, melhorou naquele dia. Um sol esplêndido dourava os campos. Toda a luz do céu parecia infiltrar-se no coração dos esposos. Jacinta ria da dança das alfarrobeiras e ao ver os pássaros pousados em fila nos fios telegráficos.
— Olhe, olhe para eles ali. Que grandes tratantes! Zombam do trem e de nós.
— Repare agora nos fios. São iguais à pauta de uma folha de música. Veja como sobe, veja como desce. As cinco linhas parecem traçadas com tinta preta sobre o céu azul, e parece que é o céu que se move, como uma cortina de teatro ainda não inteiramente pendurada.
— É o que digo — declarou Jacinta, rindo. — Muita poesia, muita coisa bonita e nova, mas pouco para comer. Confesso, marido de minha alma, estou com uma fome de mil demônios. A madrugada e este frescor do campo abriram meu apetite de par em par.
— Eu não queria falar nisso para não desanimá-la. Logo chegaremos a uma estação com restaurante. Se não, compraremos ao menos algumas rosquinhas ou pão seco... Viajar tem essas peripécias. Ânimo, moça, e me dê um beijo, pois as fomes com amor doem menos.
— Lá vão três, e na primeira estação olhe bem, meu filho, para ver se descobrimos alguma coisa. Sabe o que eu comeria agora?
— Um bife?
— Não.
— Então o quê?
— Um e meio.
— Você acabará satisfeita com uma laranja e meia.
Passavam estações, e o restaurante não aparecia. Por fim, não sei em qual delas, surgiu uma mulher que tinha diante de si uma mesinha com licores, rosquinhas, pastéis enfeitados com formigas e uns... o que era aquilo?
— Pássaros fritos! — gritou Jacinta no momento em que Juan descia do vagão. — Traga uma dúzia... Não... escute, duas dúzias.
E o trem tornou a pôr-se em marcha. Ambos se acomodaram joelho contra joelho, colocando no meio o papel engordurado que continha aquele monte de cadáveres fritos, e começaram a comer com a rapidez provocada pela muita fome.
— Ah, como estão gostosos! Veja este peito... Este é para você, que está bem gorduchinho.
— Não, para você, para você.
A mão dela servia de garfo para a boca dele, e vice-versa. Jacinta dizia que nunca na vida fizera uma refeição que lhe soubesse melhor.
— Este, sim, estava bem alimentado... pobre anjo! Ontem o infeliz devia estar pousado no fio com os companheiros, tão contente, tão bonito, vendo o trem passar e dizendo: «Lá vão aqueles brutos»... até que chegou o maior bruto de todos, um caçador, e... pum!... Tudo para que hoje nós nos regalássemos. E estão mesmo saborosos. Gostei deste almoço.
— Eu também. Agora vejamos estes pastéis. O ácido fórmico é bom para a digestão.
— O ácido o quê?...
— As formigas, moça. Não repare e mande para dentro. Fique de dentes neles. Estão deliciosos.
Restauradas as forças, a alegria transbordava daquelas almas.
— As alfarrobeiras já não me dão vertigem — dizia Jacinta. — Dancem, dancem. Veja que casas, que parreirais! E aquilo, o que é? Laranjeiras. Como cheiram!
Estavam sozinhos. Que felicidade, sempre sozinhos! Juan sentou-se junto à janela e Jacinta, sobre os joelhos dele. Ele lhe cercava a cintura com o braço. Às vezes conversavam, fazendo ela observações cândidas sobre tudo o que via. Depois, porém, transcorria algum tempo sem que nenhum dos dois dissesse palavra. De repente, Jacinta virou-se para o marido e, lançando-lhe um braço ao redor do pescoço, soltou esta:
— Você não me disse como ela se chamava.
— Quem? — perguntou Santa Cruz, um tanto atordoado.
— Seu tormento adorado, sua... Como se chamava ou como se chama... porque suponho que ainda viva.
— Não sei... nem me importa. Ora, veja com o que vem agora.
— É que há pouco comecei a pensar nela. Ocorreu-me de repente. Sabe como? Vi umas saias vermelhas postas para secar num arbusto. Você dirá que relação existe... Claro, nenhuma; mas vá saber como as ideias se ligam no pensamento. Esta manhã me lembrei da mesma coisa quando passaram rangendo os carrinhos carregados de bagagem. Ontem à noite me lembrei, sabe quando? Quando você apagou a luz. Pareceu-me que a chama era uma mulher que dizia «ai!» e caía morta. Sei que são tolices, mas no cérebro acontecem coisas muito singulares. Então, nenê, vai desembuchar ou não?
— O quê?
— O nome.
— Deixe-me em paz com nomes.
— Como este senhor é pouco amável! — disse ela, abraçando-o. — Está bem, guarde o segredinho, homem, e desculpe. Tome cuidado para não lhe roubarem essa preciosidade. É isso mesmo: ou somos reservados ou não somos. Fico exatamente como estava. Não pense que tenho grande interesse em saber. O que ganho sabendo mais um nome?
— É um nome muito feio... Não me faça pensar naquilo que quero esquecer — replicou Santa Cruz com enfado. — Não lhe digo uma palavra, entendeu?
— Obrigada, amado povo... Pois veja, se imagina que vou sentir ciúme, está enganado. Isso é o que você gostaria, para fazer-se importante. Não sinto e não há motivo para sentir.
Não sei o que viram que os desviou daquela conversa. A paisagem tornava-se cada vez mais bonita e o campo, transformando-se em jardim, revelava os requintes da civilização agrícola. Tudo ali era nobreza, isto é, laranjeiras, árvores de folhas perenes e brilhantes, flores perfumadíssimas e frutos de ouro, árvore ilustre que foi uma das muletas mais úteis aos poetas e que, na região valenciana, está pelo chão, quero dizer, há tantas que até os poetas já as olham como se fossem cardos. As terras cultivadas encantam a vista com a correção elegante de suas linhas. As hortaliças bordam os sulcos e desenham o solo, que em algumas partes parece talagarça. Os variados verdes parecem produzidos mais pela arte, com um pincel, que pela Natureza em seu trabalho invisível. E por toda parte, flores, arbustos tenros; nas estações, acácias gigantescas que estendem os galhos sobre a via; os homens de zaragüelles e lenço enrolado na cabeça, reminiscência mourisca; as mulheres viçosas e graciosas, vestidas de chita e penteadas com roscas de cabelo sobre as têmporas.
— E qual é — perguntou Jacinta, desejosa de instruir-se — a árvore das chufas?
Juan não soube responder, pois tampouco sabia de onde diabos saíam as chufas. Valencia já se aproximava. Algumas pessoas entraram no vagão, mas os esposos não deixaram a janela. De vez em quando via-se o mar, tão azul, tão azul que a retina sofria a ilusão de ver o céu verde.
Sagunto! Ah, que nome! Quando o vemos escrito com as letras novas e talvez tortas de uma estação, parece brincadeira. Não é todos os dias que vemos envoltas na fumaça das locomotivas as inscrições mais retumbantes da história humana. Juanito, que aproveitava as ocasiões de ser um sábio sentimental, pasmou mais do que convinha diante da aparição daquela placa.
— E então, o que é? — perguntou Jacinta, provocada pela afetação. — Ah, Sagunto, sim... um nome. Certamente houve aqui alguma grande confusão. Mas deve ter chovido muito desde então. Não se entusiasme, meu filho, e leve com calma. Para que tanto «ah!», tanto «oh!»?... Tudo porque aqueles brutos...
— Moça, o que está dizendo?
— Sim, filho de minha alma, porque aqueles brutos... não volto atrás... fizeram uma barbaridade. Está bem, chame-os de heróis, se quiser, e feche essa boca, porque está começando a parecer o Papamoscas de Burgos.
Tornaram a contemplar o jardim agrícola, em cuja verdura se destacavam as cabanas de palha com uma cruz na ponta do teto. Nos cercados, Jacinta viu umas plantas muito estranhas, de hastes nuas e folhas enormes, que lhe chamaram a atenção.
— Veja, veja, que espantalho de árvore. Será a dos figos-da-índia?
— Não, minha filha, os figos-da-índia são dados por aquela outra planta baixa, composta de umas pás eriçadas de espinhos. Aquilo é a piteira, que dá cordas como fruto.
— E o esparto, onde está?
— Até aí não chega minha sabedoria. Deve andar por algum lugar.
O trem descrevia uma curva amplíssima. Os viajantes distinguiram uma grande massa de edifícios cuja brancura sobressaía entre o verde. Os grupos de árvores a escondiam por trechos; depois a revelavam.
— Já estamos em Valencia, menina; veja-a ali.
Valencia era a cidade mais bem situada do mundo, segundo disse um observador perspicaz, por estar construída no meio do campo. Pouco depois, os esposos, empacotados dentro de uma tartana, penetravam pelas ruas estreitas e tortuosas da cidade campestre.
— Mas que lugar, meu filho!... Isto parece um biombo... Para onde este homem está nos levando?
— Para o hotel, sem dúvida.
À meia-noite, quando se recolheram fatigados à hospedagem, depois de passearem pelas ruas e ouvirem meia Africana no Teatro de la Princesa, Jacinta sentiu que, de repente, sem saber como nem por quê, aquele vermezinho tornava a picar-lhe o cérebro, a ideia perseguidora, a pequena mágoa disfarçada de curiosidade. Juan resistiu a satisfazê-la, alegando razões diversas.
— Não me deixe tonto, minha filha... Já lhe disse que quero esquecer isso...
— Mas o nome, nenê, só o nome. O que custa abrir a boca por um segundo?... Não pense que vou repreendê-lo, bobinho.
Enquanto falava, tirava o chapéu, depois o casaco, em seguida o corpete, a saia, o polisón, e ia colocando tudo em ordem nas poltronas e cadeiras do aposento. Estava exausta e não via a hora bendita de lançar as carnes fatigadas na cama. O esposo também ia soltando as roupas. Fingira bom humor, mas a curiosidade de Jacinta já o desagradava. Por fim, sem poder resistir às gracinhas da mulher, não teve outro remédio senão decidir-se. As cabeças já estavam sobre os travesseiros quando Santa Cruz deixou cair preguiçosamente da boca estas palavras:
— Pois vou lhe dizer, mas com a condição de que nunca mais na vida... nunca mais na vida você pronuncie esse nome diante de mim, nem faça a menor alusão... entendeu? Pois ela se chama...
— Graças a Deus, homem.
Custava-lhe muito trabalho dizer. A outra ajudava-o.
— Chama-se For...
— For... narina.
— Não. For... tuna...
— Fortunata.
— Isso... Pronto, já está satisfeita.
— Nada mais. Você se comportou bem, foi amável. É assim que eu gosto de você.
Pouco depois, dormia como um anjo... dormiam os dois.
— Sabe o que me ocorreu? — disse Santa Cruz à mulher dois dias depois, na estação de Valencia. — Parece-me uma tolice voltarmos tão cedo a Madri. Vamos até Sevilla. Mandarei um telegrama para casa.
A princípio, Jacinta entristeceu. Já sentia vontade de ver as irmãs, o papai, os tios e sogros. A ideia de prolongar um pouco aquela viagem tão divertida, porém, logo conquistou sua alma. Andar assim, levados pelas asas do trem, que para as almas jovens sempre tem alguma coisa de dragão fabuloso, era tão doce, tão divertido...!
Viram a opulenta ribeira do Júcar, passaram por Alcira, coberta de flores de laranjeira, pela alegre Játiva; depois veio Montesa, de aspecto feudal, e em seguida Almansa, em território frio e nu. Os campos de vinhas tornavam-se cada vez mais raros, até que a severidade do solo lhes disse que estavam na austera Castilla. O trem lançava-se por aquele campo triste como imenso galgo, farejando a via e latindo para a noite tardia, que caía lentamente sobre a planície sem fim. Uniformidade, postes de telégrafo, cabras, poças, matagais, terra cinzenta, imensidão horizontal sobre a qual os mares parecem ter corrido ainda há pouco; a fumaça da máquina afastando-se em baforadas majestosas para o horizonte; as guardas de passagem, com a bandeira verde assinalando o caminho livre, que parece a estrada do infinito; bandos de aves voando baixo, e as estações demorando muito a chegar, como se guardassem alguma coisa boa... Jacinta adormeceu, e Juanito também. Aquela ditosa Mancha era um narcótico. Por fim desceram em Alcázar de San Juan, à meia-noite, mortos de frio. Ali esperaram o trem da Andalucía, tomaram chocolate e tornaram a rodar por outra região manchega, a mais ilustre de todas, a de Argamasilla.
Os esposos passaram uma noite ruim naquela estepe, combatendo o frio muito juntinhos sob as dobras de uma única manta, e por fim chegaram a Córdoba, onde descansaram e viram a Mesquita, não lhes bastando um dia para ambas as coisas. Ardiam de vontade de chegar à incomparável Sevilla... Outra vez ao trem. Deviam ser nove da noite quando se viram dentro da romântica e alegre cidade, em meio àquele idioma ceceante e às graças e pilhérias da gente andaluza. Passaram ali, creio, oito ou dez dias, encantados, sem se entediarem um único instante, contemplando os prodígios da arquitetura e da Natureza, participando do bom humor que ali se respira com o ar e se recolhe dos olhares dos transeuntes. Uma das coisas que mais cativavam Jacinta era o costume dos pátios mobiliados e ajardinados, nos quais se vê os galhos de uma azaleia baixarem até acariciar as teclas do piano, como se quisessem tocar. Também gostava de ver que todas as mulheres, até as velhas que pedem esmola, levam uma flor na cabeça. Aquela que não tem flor põe nos cabelos qualquer folha verde e vai por aquelas ruas vendendo vidas.
Certa tarde foram comer numa taberna de Triana, pois Juanito dizia ser preciso conhecer tudo de perto e acotovelar-se com aquele povo originalíssimo, artista de nascença, poeta que parece pintar o que fala e que recebeu do Céu o dom de uma filosofia muito útil, consistente em tomar todas as coisas pelo lado humorístico, de modo que a vida, uma vez transformada em brincadeira, se torna mais suportável. O Delfim bebeu muitas cañas, pois opinava com grande senso prático que, para assimilar Andalucía e senti-la bem dentro de si, era preciso introduzir no corpo toda a manzanilla que este pudesse conter. Jacinta apenas a provava e a achava áspera e ligeiramente ácida, sem conseguir apreciar o cheirinho de maçã de Ronda que dizem existir naquela bebida.
Voltaram de excelente humor ao hotel e, ao chegar, viram que havia muita gente na sala de jantar. Era um banquete de casamento. Os noivos eram espanhóis anglicizados de Gibraltar. Os esposos Santa Cruz foram convidados a tomar alguma coisa, mas recusaram; beberam apenas um pouco de champanhe, para não fazer desfeita. Depois um inglês muito maçante, que mascava o castelhano com a boca franzida e os dentes apertados, como se quisesse morder as palavras, teimou que deviam tomar umas cañas.
— De modo algum... muito obrigado.
— Ooooh, sim...
A sala de jantar era um caldeirão de alegria e gracejos, entre os quais começavam a soar alguns de gosto duvidoso. Santa Cruz não teve outro remédio senão ceder à exigência daquele maldito inglês e, tomando-lhe a taça das mãos, dizia em voz baixa:
— Você está com uma bela carraspana.
O inglês, porém, não entendia... Jacinta viu que aquilo começava a ficar ruim. O inglês chamava os outros à ordem, dizendo aos mais jovens, com sua boquinha fechada, que tivessem fundamenta. Ninguém precisava tanto quanto ele de ser chamado à ordem e, sobretudo, aquilo que mais lhe fazia falta era uma redução na bebida, pois aquilo já não era boca, era funil. Jacinta pressentiu a algazarra e, tomando uma resolução súbita, puxou o marido pelo braço e levou-o embora no momento em que ele começava a zombar do inglês.
— Ainda bem — disse o Delfim, enquanto a mulher o conduzia escada acima —, ainda bem que me tirou dali, porque você não imagina como aquele inglês começava a me irritar, com seus dentes brancos e apertados, sua amabilidade e seu sapatinho baixo... Se fico mais um minuto, dou-lhe dois socos... O sangue já estava subindo à cabeça...
Entraram no quarto e, sentados um diante do outro, passaram algum tempo recordando os tipos engraçados que estavam na sala de jantar e os equívocos que ali se diziam. Juan falava pouco e parecia um tanto inquieto. De repente, sentiu vontade de voltar para baixo. A mulher se opôs. Discutiram. Por fim, Jacinta teve de trancar a porta.
— Você tem razão — disse Santa Cruz, deixando-se cair pesadamente sobre a cadeira. — É melhor eu ficar aqui... porque, se desço e o mister torna com suas delicadezas, eu lhe bato... Eu também sei boxear.
Fez o gesto do boxe, e então a mulher o olhou com muita seriedade.
— Você deve deitar-se — disse-lhe.
— É cedo... Ficaremos aqui conversando... sim... você não está com sono? Eu também não. Acompanharei minha cara-metade. Esse é meu dever, e saberei cumpri-lo, sim, senhora. Porque sou escravo do dever...
Jacinta tirara o chapéu e o casaco. Juanito sentou-a sobre os joelhos e começou a fazê-la trotar como se faz com as crianças quando se brinca de cavalinho. E insistia com a ladainha de que era escravo do dever e que a família vinha antes de tudo. O trote largo em que o marido a levava começou a incomodar Jacinta, que desmontou e foi para a cadeira onde antes estava. Ele então começou a dar passos rápidos pelo quarto.
— Meu maior prazer é ficar ao lado de minha adorada nenê — dizia sem olhá-la. — Amo você com delírio, como se diz nos dramas. Bendita seja minha mãezinha... que me casou com você...
Ajoelhou-se diante dela e beijou-lhe as mãos. Jacinta o observava com atenção desconfiada, sem piscar, querendo rir e sem conseguir. Santa Cruz adotou um tom muito choroso para dizer:
— E eu, tão estúpido que não reconheci seu valor! Eu, que olhava para você todos os dias como o burro olha a flor sem ousar comê-la! E comi o cardo!... Oh, perdão, perdão... Eu estava cego, embrutecido; era muito cañí... isso quer dizer cigano, vida minha. O vício e a grosseria haviam posto uma crosta em meu coração... chamemos-lhe garlochín... Jacintinha, não me olhe assim. O que lhe digo é a pura verdade. Se minto, que eu morra agora mesmo. Todas as minhas faltas aparecem claras esta noite. Não sei o que está acontecendo comigo; estou como inspirado... tenho mais espírito, acredite... amo você ainda mais, meu céu, pombinha, e vou fazer um altar de ouro para adorá-la.
— Jesus, como o tempo está refinado! — exclamou a esposa, que já não conseguia ocultar o desgosto. — Por que você não se deita?
— Deitar-me, eu, eu... quando tenho tantas coisas para lhe contar, chavala! — acrescentou Santa Cruz, que, já cansado de ficar de joelhos, pegara um banquinho para sentar-se aos pés da mulher. — Perdoe-me por não ter sido franco. Sentia vergonha de revelar-lhe certas coisas. Mas não posso mais: minha consciência se derrama como uma urna cheia que cai... assim, assim; tudo para fora... Você me absolverá quando me ouvir, não é verdade? Diga que sim... Há momentos na vida dos povos, quero dizer, na vida do homem, momentos terríveis, alma minha. Você compreende... Eu não a conhecia naquela época. Estava como a humanidade antes da vinda do Messias, no escuro, com o gás apagado... sim. Não me condene, não, não, não me condene sem me ouvir...
Jacinta não sabia o que fazer. Os dois ficaram olhando um para o outro por breve tempo, olhos cravados nos olhos, até Juan dizer em voz baixa:
— Se você a tivesse visto...! Fortunata tinha os olhos como duas estrelas, muito parecidos com os da Virgen del Carmen que antes ficava em Santo Tomás e agora está em San Ginés. Pergunte a Estupiñá, pergunte, caso duvide... vamos... Fortunata tinha as mãos ásperas de tanto trabalhar, o coração cheio de inocência...
Fortunata não tinha educação; aquela boca tão linda comia muitas letras e trocava outras. Dizia indilugências, vortar, ansim. Passou a infância cuidando do gado. Sabe o que é o gado? As galinhas. Depois criava os pombinhos nos próprios seios. Como os pombinhos só comem do bico da mãe, Fortunata os metia no peito, e se você visse que peito bonito!, apenas tinha muitos arranhões feitos pelos pombos com os ganchos das patas. Depois tomava na boca uma golada de água e alguns grãos de alfarroba e, metendo o bico deles na boca... dava-lhes de comer... Era a pomba-mãe dos ternos filhotinhos... Depois dava-lhes seu calor natural... arrulhava, fazia rorrrô... cantava cantigas de ama... Pobre Fortunata, pobre Pitusa!... Eu lhe disse que a chamavam Pitusa? Não?... pois digo agora. Que fique registrado... Eu a perdi... sim... que isso também fique registrado; é preciso que cada qual carregue sua responsabilidade... Eu a perdi, enganei-a, disse-lhe mil mentiras, fiz com que acreditasse que eu me casaria com ela. Viu?... Como sou tratante!... Deixe-me rir um pouco... Sim, ela engolia todas as patranhas que eu dizia... O povo é muito inocente, é tolo por completo, acredita em tudo, contanto que lhe digam com palavras finas... Enganei-a, arranquei-lhe a honra com minhas garras e fiquei muito tranquilo. Nós, os homens, digo, os senhorzinhos, somos uns miseráveis; acreditamos que a honra das filhas do povo é brinquedo... Não faça essa cara, vida minha. Compreendo que você tem razão; sou um infame, mereço seu desprezo, porque... o que você dirá, uma mulher é sempre criatura de Deus, não é?... e eu, depois de me divertir com ela, deixei-a abandonada no meio das ruas... justo... seu destino é o destino das cadelas... Diga que sim.
Jacinta estava alarmadíssima, meio morta de medo e dor. Não sabia o que fazer nem o que dizer.
— Meu filho — exclamou, enxugando o suor da testa do marido —, como você está...! Acalme-se, por Maria Santíssima. Está delirando.
— Não, não; isto não é delírio, é arrependimento — acrescentou Santa Cruz, que, ao mover-se, quase caiu e teve de apoiar as mãos no chão. — Pensa acaso que foi o vinho?... Oh, não, minha filha, não me faça essa injustiça. É que a consciência subiu até aqui, ao pescoço, à cabeça, e está tão pesada que não consigo manter bem o equilíbrio... Deixe-me prostrar diante de você e pôr a seus pés todas as minhas culpas para que as perdoe... Não se mexa, não me deixe sozinho, por Deus... Aonde vai? Não vê minha aflição?
— O que vejo... Oh, meu Deus. Juan, pelo amor de Deus, sossegue; não diga mais disparates. Deite-se. Vou preparar-lhe uma xícara de chá.
— E para que eu quero chá, desventurada!... — disse o outro num tom tão transtornado que as lágrimas saltaram dos olhos de Jacinta. — Chá!... O que quero é seu perdão, o perdão da humanidade, a quem ofendi, a quem ultrajei e pisoteei. Diga que sim... Há momentos na vida dos povos, digo, na vida dos homens, em que uma pessoa deveria ter mil bocas para, com todas ao mesmo tempo... expressar a, a, a... Seria um coro... isso, isso... Porque fui mau, não diga que não, não me diga...
Jacinta percebeu que o marido soluçava. Mas soluçava de verdade ou era brincadeira?
— Juan, por Deus!, você está me atormentando.
— Não, menina de minha alma — replicou ele, sentado no chão sem descobrir o rosto, que mantinha entre as mãos. — Não vê que estou chorando? Tenha compaixão deste infeliz... Fui perverso... Porque a Pitusa me idolatrava... Sejamos francos.
Levantou então a cabeça e assumiu um ar mais tranquilo.
— Sejamos francos; a verdade antes de tudo... ela me idolatrava. Acreditava que eu não era como os outros, que eu era o cavalheirismo, a fidalguia, a decência, a nobreza em pessoa, a perfeição dos homens... Nobreza, que sarcasmo! Nobreza na mentira; digo que não pode ser... e que não, e que não. Decência porque se usa uma roupa chamada sobrecasaca!... Que humanidade farsante! O pobre sempre embaixo; o rico faz o que lhe dá na telha. Eu sou rico... diga que sou inconstante... A ilusão do pitoresco ia passando. A grosseria com graça seduz por algum tempo, depois enjoa... A cada dia me incomodava mais a carga que lançara sobre mim. O ardor do alho me repugnava. Desejei, pode acreditar, que a Pitusa fosse má para poder dar-lhe um pontapé... Mas qual o quê... nem assim... Má, ela? Veio bater na porta errada... Se eu mandasse que se atirasse ao fogo por mim, iria de cabeça ao fogo! Todos os dias havia festa em casa. Hoje acabava bem, amanhã não... Cantos, violão... José Izquierdo, a quem chamam Platón porque comia num prato do tamanho de uma bacia, provocava o picador... Villalonga e eu os instigávamos a brigar ou os reconciliávamos quando nos convinha... A Pitusa tremia ao vê-los alegres e ao vê-los amuados... Sabe o que me ocorria? Nunca mais voltar àquela maldita casa... Por fim, Villalonga e eu resolvemos dar o fora e nunca mais aparecer. Certa noite armou-se tamanha confusão que até as navalhas saíram, e por pouco não nadamos todos num lago de sangue... Parece-me ouvir aquelas delicadezas: «Indecente, corno, navalhado, ladrão, delator...!» Não era possível levar semelhante vida. Diga que não. O fastio já era irresistível. A própria Pitusa me era odiosa, assim como aquelas palavras imundas... Um dia disse «já volto» e nunca mais voltei... O que Villalonga dizia: cortar o mal pela raiz... Eu tinha na consciência alguma coisa, um fiozinho que me puxava para lá... Cortei-o... Fortunata me perseguiu; precisei brincar de esconde-esconde. Ela por aqui, eu por ali... Eu escapava como uma enguia. Não me pegava, não. O último que vi foi Izquierdo; encontrei-o certo dia subindo a escada de minha casa. Ameaçou-me; disse que a Pitusa estava grávida de cinco meses... Grávida de cinco meses!... Dei de ombros... Duas palavras dele, duas minhas... estendi este braço, e plaf... Izquierdo desceu de uma vez um lance inteiro... Outro empurrão, e plaf... de um salto, o segundo lance... e de cabeça para baixo...
Esta última parte ele disse inteiramente transtornado. Continuava sentado no chão, com as pernas estendidas e um braço apoiado no assento da cadeira. Jacinta tremia. Sentira um frio mortal e batia os dentes. Permanecia de pé no meio do quarto, como uma estátua, contemplando a figura lastimável do marido, sem ousar perguntar nada nem pedir explicação sobre as coisas estranhas que ele revelava.
— Por Deus e por sua mãe! — disse por fim, movida pelo carinho e pelo medo. — Não me conte mais. É preciso deitar-se e procurar dormir. Cale-se agora.
— Que eu me cale!... que eu me cale! Ah, esposa minha, esposa adorada, anjo de minha salvação... meu Messias... É verdade que me perdoa?... diga que sim.
Levantou-se de um salto e tentou andar... Não conseguia. Dando uma volta rápida, foi desabar sobre o sofá, cobrindo os olhos com a mão e dizendo em voz cavernosa:
— Que pesadelo horrível!
Jacinta foi até ele, passou-lhe os braços pelo pescoço e embalou-o como se embalam as crianças quando se quer fazê-las dormir.
Vencido por fim pela própria excitação, o cérebro do Delfim caía num embrutecimento estúpido. E seus nervos, que começavam a acalmar-se, lutavam contra a sedação. De repente ele se movia, como se alguma coisa saltasse dentro dele, e pronunciava algumas sílabas. A sedação, porém, venceu, e por fim adormeceu profundamente. À meia-noite, não sem grande esforço, Jacinta conseguiu levá-lo até a cama e deitá-lo. Ele caiu no sono como num poço, e a mulher passou uma noite muito ruim, atormentada pela lembrança desagradável do que vira e ouvira.
No dia seguinte, Santa Cruz estava como que envergonhado. Tinha consciência vaga dos disparates cometidos na noite anterior, e seu amor-próprio sofria horrivelmente com a ideia de ter sido ridículo. Não ousava falar à mulher sobre o ocorrido e ela, que era a própria prudência, além de não dizer uma palavra, mostrava-se tão afável e carinhosa como de costume. Por fim, meu homem não conseguiu resistir ao desejo de explicar-se e, preparando o terreno com uma infinidade de carinhos, disse-lhe:
— Menina, é preciso que me perdoe pelo mau momento que lhe proporcionei ontem à noite... Devo ter ficado muito maçante... Como eu estava mal! Nunca me aconteceu nada igual. Conte os disparates que lhe disse, porque não me lembro.
— Ah, foram muitos; mas muitos mesmo... Ainda bem que não havia outro público além de mim.
— Vamos, seja franca... eu estava insuportável.
— Você mesmo disse...
— É que não sei... Nunca na vida, pode acreditar, peguei uma bebedeira como a de ontem à noite. A culpa foi do maldito inglês, e ele ainda me pagará. Meu Deus, como fiquei!... E o que eu disse, o que disse?... Não ligue, vida minha, porque certamente falei mil coisas que não são verdade. Que vergonha! Você está zangada? Não, não há motivo...
— É verdade. Como você estava...
Jacinta não ousou dizer «bêbado». A palavra horrível recusava-se a sair de sua boca.
— Diga, minha filha. Diga ajumao, que é mais bonito e atenua um pouco a gravidade da falta.
— Pois, como estava ajumaíto, não era responsável pelo que dizia.
— Mas o quê? Escapou-me alguma palavra que pudesse ofendê-la?
— Não; apenas meia dúzia de expressões elegantes, das que a alta sociedade usa. Não as entendi bem. O resto estava muito claro, claro demais. Você chorou por sua Pitusa da alma e chamou a si mesmo de miserável por tê-la abandonado. Acredite, ficou de um jeito que não havia por onde pegá-lo.
— Ora, minha filha, agora, com a cabeça limpa, vou dizer duas palavrinhas para que não me julgue pior do que sou.
Foram passear pelas Delicias e, sentados num banco solitário, voltados para o rio, conversaram durante algum tempo. Jacinta queria devorar o marido com os olhos, adivinhando-lhe as palavras antes que as dissesse e confrontando-as com a expressão dos olhos para ver se eram sinceras. Juan falou a verdade? Houve de tudo. Suas declarações eram uma verdade refundida, como as comédias antigas. O amor-próprio não lhe permitia reproduzir fielmente os fatos. Pois bem... ao voltar de Plencia, já comprometido a casar-se e apaixonado pela noiva, quis saber que rumo tomara Fortunata, de quem não tivera notícias durante tanto tempo. Não o movia sentimento algum de ternura, mas a compaixão e o desejo de socorrê-la caso estivesse em má situação. Platón estava fora de Madri, e sua mulher no outro mundo. Tampouco se sabia onde diabos fora parar o picador; Segunda, porém, transferira a loja de ovos e tinha na mesma Cava, um pouco mais abaixo, já perto da pequena escada, um cubículo ao qual dava o nome de estabelecimento. Naquela caverna morava e fazia o café que vendia pela manhã ao pessoal do mercado. Quatro panelas, duas cadeiras e uma mesa compunham a mobília. No restante do dia, prestava serviços na taberna del Pulpitillo. Decaíra tanto física quanto economicamente que seu antigo frequentador teve dificuldade em reconhecê-la.
— E a outra?...
Porque isso era o que importava.
Santa Cruz demorou algum tempo para dar a resposta devida. Fazia riscos no chão com a bengala. Por fim, expressou-se assim:
— Soube que, de fato, havia...
Jacinta teve a piedade de poupá-lo das últimas palavras da frase, dizendo-as ela mesma. O Delfim sentiu-se aliviado.
— Tentei vê-la..., procurei aqui e ali... e nada... Mas o quê, você não acredita? Depois não pude ocupar-me de coisa alguma. Veio a morte de sua mamãe. Passou algum tempo sem que eu pensasse em semelhante assunto, e não devo esconder que sentia aqui certa comichão, na consciência... Por volta de janeiro deste ano, quando me preparava para fazer diligências, uma amiga de Segunda me disse que a Pitusa saíra de Madri. Para onde? Com quem? Nem então soube, nem soube depois. E agora juro que nunca mais a vi nem tive notícias dela.
A esposa soltou um grande suspiro. Não sabia por quê, mas tinha na alma certa aflição e, em sua retidão, tomava para si uma parte da responsabilidade do marido naquela falta; porque sem dúvida houvera falta. Jacinta não podia considerar de outra maneira o abandono, embora ele significasse o triunfo do amor legítimo sobre o criminoso e do casamento sobre a mancebia... Não podiam entreter-se mais em conversas ociosas, pois pretendiam partir para Cádiz naquela tarde e era preciso preparar a bagagem e comprar algumas bugigangas. De cada cidade deviam levar presentinhos para todos em Madri. Com a atividade própria de um dia de viagem, as compras e algumas despedidas, ambos se distraíram tão bem daqueles pensamentos desagradáveis que, à tarde, eles já se haviam dissipado.
Só três dias depois aquele vermezinho tornou a agitar-se na mente de Jacinta. Foi coisa repentina, provocada por não sei o quê, por essas misteriosas iniciativas da memória cuja origem desconhecemos. Uma pessoa se lembra das coisas contra toda lógica e, às vezes, o encadeamento das ideias é uma extravagância e até uma ridiculez. Quem acreditaria que Jacinta se lembrou de Fortunata ao ouvir apregoarem as bocas de la Isla? Pois o curioso perguntará, com razão, que relação têm as bocas com aquela mulher. Nenhuma, absolutamente nenhuma.
Os esposos voltavam de Cádiz no trem-correio. Já não pretendiam parar em parte alguma e chegariam a Madri de uma só vez. Iam muito contentes, desejosos de ver a família e dar a cada um seu presente. Jacinta, embora picada por aquele vermezinho, resolvera não tornar a falar no assunto, deixando-o sepultado na memória até que o tempo o apagasse para sempre. Ao chegarem à estação de Jerez, porém, aconteceu algo que fez reviver inesperadamente aquilo que ambos queriam esquecer. Pois bem... viram sair da cantina da estação o maldito inglês daquela noite, que os reconheceu imediatamente e foi cumprimentá-los com muita finura e galanteria e oferecer-lhes umas cañas. Quando se livraram dele, Santa Cruz lançou-lhe mil pragas e disse que algum dia teria a oportunidade de dar-lhe o par de bofetadas que já merecia.
— Esse maldito sujeito teve a culpa de eu ficar daquela maneira naquela noite e contar a você todos aqueles horrores...
Por aí a conversa começou a enredar-se até recair outra vez no ponto negro. Jacinta não queria conservar na alma uma ideia que tinha e, na primeira ocasião, lançou-a para fora.
— Pobres mulheres! — exclamou. — A pior parte sempre fica para elas.
— Minha filha, é preciso julgar as coisas com cuidado, examinar as circunstâncias... considerar o meio... — disse Santa Cruz, preparando todos os apetrechos daquela dialética convencional com a qual se prova tudo o que se deseja.
Jacinta deixou-se acariciar. Não estava zangada. Em seu espírito, porém, ocorria um fenômeno muito novo. Dois sentimentos diferentes embaralhavam-se em sua alma, sobrepondo-se alternadamente. Como adorava o marido, sentia orgulho de ele ter desprezado outra para escolhê-la. Esse orgulho é primordial e existirá sempre, até nos seres mais perfeitos. O outro sentimento procedia do fundo de retidão que dava firmeza àquela alma nobre e lhe inspirava um protesto contra o ultraje e o abandono impiedoso da desconhecida. Por mais que o Delfim o atenuasse, ultrajara a humanidade. Jacinta não podia ocultar isso de si mesma. Os triunfos de seu amor-próprio não a impediam de ver que, debaixo do troféu de sua vitória, havia uma vítima esmagada. Talvez a vítima merecesse sê-lo; mas a vencedora nada tinha a ver com merecê-lo ou não e, no altar de sua alma, acendia para ela uma pequena luz de compaixão.
Santa Cruz, em sua perspicácia, compreendeu e procurava livrar a esposa do incômodo de compadecer-se de quem, sem dúvida, não o merecia. Para isso, punha em funcionamento toda a maquinaria mais brilhante que sólida de seu raciocínio, aprendido no comércio das leviandades humanas e em leituras superficiais.
— Filha de minha alma, é preciso colocar-se na realidade. Há dois mundos, o que se vê e o que não se vê. A sociedade não é governada por ideias puras. Estaríamos bem arranjados... Não sou tão culpado quanto pareço à primeira vista; repare. As diferenças de educação e classe sempre estabelecem uma grande diferença de procedimentos nas relações humanas. O Decálogo não diz isso; a realidade diz. A conduta social tem leis que não estão escritas em parte alguma, mas são sentidas e não podem ser violadas. Cometi faltas, quem duvida?, mas imagine que eu houvesse continuado entre aquela gente, que houvesse cumprido meus compromissos com a Pitusa... Não preciso dizer mais nada. Vejo que você ri. Isso prova que teria sido um absurdo, uma loucura percorrer aquilo que, visto de lá, parecia o caminho reto. Visto daqui, já é outro. Em matéria de moral, o reto e o torto dependem do lugar de onde se olha. Portanto, não havia outro remédio senão fazer o que fiz e salvar-me... Caia quem cair. O mundo é assim. Eu devia salvar-me, sim ou não? Pois, devendo salvar-me, não havia outro remédio senão lançar-me para fora do barco que afundava. Nos naufrágios sempre há alguém que se afoga... E, no caso concreto do abandono, também há muito o que discutir. Certas palavras nada significam por si mesmas. É preciso ver os fatos... Procurei-a para socorrê-la; ela não quis aparecer. Cada qual tem seu destino. O dela era esse: não aparecer quando eu a procurava.
Ninguém diria que o homem que raciocinava desse modo, com arte tão sutil e paradoxal, era o mesmo que, noites antes, sob a influência de uma bebida alcoólica, esvaziara a alma inteira com aquela sinceridade brutal e descontrolada, comparável apenas ao vômito físico provocado por um emético muito forte. E depois, quando a clareza do cérebro o tornava senhor de todas as artimanhas de homem lido e mundano, não tornou a sair de seus lábios um único vocábulo grosseiro, nem uma só daquelas espontaneidades que existiam dentro dele, como existem trapos coloridos em algum canto da casa daquele que foi ator, ainda que apenas por amadorismo. Tudo era convencionalismo e frase engenhosa naquele homem que se enfeitara intelectualmente, cortando uma sobrecasaca para as ideias e passando a ferro os colarinhos da linguagem.
Jacinta, que ainda conhecia pouco o mundo, deixava-se iludir pelos dons sedutores do marido. E amava-o tanto, talvez por aqueles mesmos dons e por outros, que não precisava fazer esforço algum para acreditar em tudo quanto ele dizia, embora acreditasse mais pela fé, que é sentimento, do que pela convicção. Conversaram por muito tempo, misturando as discussões com carinhos discretos, pois em Sevilla entrou gente no vagão e não se podia pensar em beijação, e, quando a noite caiu sobre a Espanha, cujo raio percorriam, adormeceram por volta de Despeñaperros, sonharam com o quanto se amavam e despertaram por fim em Alcázar com a agradável ideia de chegar logo a Madri, ver a família, contar todas as peripécias da viagem, menos a ceninha daquela noite, e distribuir os presentes.
Para Estupiñá levavam uma bengala cuja empunhadura era a cabeça de uma maritaca.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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