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Ah metrópole agoniada
grita, buzina e ferve em panelaço!
Ruas que invadidas revelam
todos os abandonados
Ah pauliceia desvairada
sujeira, poeira e fumaça!
No crack e na cachaça amarelam
todos os acovardados
Ah locomotiva descarrilada
revolta tua gente e tua praça!
Retira daqueles que só exploram
todos os níqueis roubados
Ah São Paulo deslumbrada
inunda tua pátria e tua farsa!
Expele a verdade dos que namoram
todos os capitais surrupiados
Ah selva de pedra perfumada
acolhe teu povo em teu regaço!
Volta a garoa dos que acreditam
que por ti foram sim adotados
Edu Liguori
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Malkovich embarcou em Paris
o trem tinha a direção de Moscou
Malkovich fez o que sempre quis
largou tudo e enfim viajou
Ao chegar na fria capital moscovita
Nastassja em sua cabine embarcou
o Trem Transiberiano inconteste apita
e o sonho de uma viagem longa começou:
Malkovich se encantou
com os olhos e cabelos escuros
de Nastassja que timidamente sorriu
sem delongas ele se apresentou
Malkovich, lhe amava contar histórias
Nastassja curiosamente deliciava-se ouvi-las
Por muitos dias e noites
quilômetros sem fim
ele cantava em prosa uma vida rica
com momentos de glória
e derrotas comuns
ela acenava, sorria ou franzia
e adjetivos apontava
que belo!
que singelo!
que triste!
que peste!
assim a Europa se foi
e a Ásia surgiu
os montes, estepes, tundras
o que fosse
decoravam as janelas
mas ele só tinha
olhos nela
e ela ouvidos nele
o Trem Transiberiano
apitava inocente
e não era consciente
do encantamento que havia
na cabine sessenta e seis
onde Malkovich se apaixonou
e Nastassja o beijou
em Vladivostok
viveram os últimos anos
de Malkovich
tiveram bons e maus momentos
sobreviveram felizes
aos doces tormentos
ela o ouvia e agora corrigia
ele a respeitava e aprendia
um romance burlesco
improvável
imprevisível
mas quem poderá dizer
as razões quentes que vem do coração
nos caminhos frios siberianos
Nastassja se lembra de Malkovich
com carinho
não se arrepende
nem um pouquinho
de ter naquele dia
embarcado em Moscou
sem saber que havia
na cabine sessenta e seis
o homem que queria
Malkovich
o contador de histórias
Edu Liguori
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O relógio é uma réplica
mas tem esse jeitão do passado
sem ponteiro de segundos
traços fortes
moldura cor de madeira velha
um rachado colado
que lhe permite um ar histórico
os ponteiros rebuscados
movem-se quase imperceptíveis
contando o tempo
é falso brilhante
movido a pilha
não faz tic-tac
mas todas as noites
sobre minha cabeça
às costas
vai registrando
minha respiração
os suspiros
a fumaça dos cigarros
calado
ouve Nat King Cole
Miles Davis
Billie Holiday
não demonstra sentimento
segue impávido
não teme o futuro
não chora
auréola do espírito
que me toma
todas as noites
em que te espero
Edu Liguori
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Os poetas as vezes enxergam anjos
com cachos dourados mas sem asas
adoram, amam, glorificam
mas são apenas lembranças
de que cada estrofe
reflete o sol do norte e seu calor
musas jovens e inspiração
pra viver mais um novo verão
então o poeta deita a tinta
em papel, papiro ou no chão
pra cantar a beleza mais pura
e a loucura da paixão
paixão dos sonhos
dos rios e mares verdes
dos olhos que brilham e encantam
ah os poetas
imaginam um mundo
onde havia apenas um simples sorriso
em mesquitas e igrejas
cantam fiéis pelos seus anjos
afinal crentes ou não
todos nós temos sonhos
Edu Liguori
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Com o palco vazio
ela entrou silenciosa
rodopiou suavemente
olhou para os lados
procurou segredos
ocupou o espaço sem alarde
movimentos precisos
leve e flutuando no ar
foi ampliando sua presença cênica
mostrava seu talento, delicadeza
o olhar calmo
o sorriso aberto
os cabelos brilhando
a bailarina chegou
(ele sorriu sem que ela visse)
os braços ritmados
as pernas alongadas
os pés precisos
(encanto)
ela estava apenas se aquecendo
no silêncio do teatro ainda fechado
(mas no fundo sentia sua presença)
nesse balé enfeitiçado
cisnes negros e brancos
se encontram e descobrem
seus medos, seus amores
(ele está lá, mais perto do que ela pensa)
Edu Liguori
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À boca o velho amigo que o mata devagar
sob a fumaça e os encantos da droga diária
vence o silêncio em tragadas profundas
o cinzeiro sujo é como relógio, marca as horas
pode ouvir o estalar das folhas queimadas
exala pelo nariz nuvens embaçadas de confusão
a visão da corrente de ar atravessa os óculos
pensamentos vem e vão desordenados
bate o bastão para colher as cinzas mortas
ritual sem sentido que acolhe seu vazio
enquanto escreve sua existência
se aproxima mais de seu fim
onde está o isqueiro?
mais um capítulo
um novo processo velho
repetido angustiado
traga a vida pela boca
entre os dentes amarelados
corrói os pulmões e preenche os espaços
assim passa o tempo
que o detém ou que convém
vício antigo do homem
que não se incomoda
com a longevidade
vive apenas das baforadas
que exalam sua ausência
e marcam o sofá com queimaduras
os dedos com nicotina
as unhas com o rancor
de uma dor desconhecida
fumou aquela vida
como se fosse a última
Edu LIguori
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Tem um zumzum
aqui no peito que não me deixa
não é assim uma dor nem uma queixa
é só esse maldito zum zum zum zum zum
um ruído estranho, surdo, mas não é novo
ele vem de vez em quando, quando ele vem
é tipo moeda velha, cruzeiro, cruzado, vintém
vale mais nada, mas tá sempre vindo aqui, de novo
enquanto respiro, penso e solto um suspiro longo e fundo
as vistas então marejam, embaça a visão, os olhos já cansados
é como uma leseira sem idade, coisa típica dos poetas aparvalhados
o verso vai crescendo, saindo sem muito conteúdo nada muito profundo
só um zumzum
mais um
Edu Liguori
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Que tempestades vivi
nesse universo infinito
que os tempos me opuseram
recolhi velas, fiquei a deriva
chorei lágrimas salgadas
por tantas noites incertas
descobri o sabor da solidão
o encontro do eu que nem
conhecia em mim
desafiei as grandes ondas
e a maresia fria que corroía
pele e ossos desestruturados
bússola girando em descompasso
os sentidos confusos
sem referência no horizonte
mas bravo por ser tão covarde
e não ter para onde escapar
deixei o vento soprar
entre correntezas continentais
desertos de águas escuras
senti o humano em mim
em farrapos os tecidos rotos
me desnudaram aos poucos
a alma esfacelada ainda viva
febres, calafrios, gemidos
os gritos de Netuno
e meu suor de sangue
meio século navegando
as incertezas e asperezas
da procura pelo nada
foram assim os piores
momentos e grandes
lamentos que escrevi
não nego que pela escotilha
cheguei a ver o sol
reluzente estelar
sempre soube de sua
existência e poder
sobre meu pulsar
mas como foram
confusos estes momentos
e me via ainda capitular
voei com as gaivotas
beijei alguns arco-iris
tive raras noites tranquilas
mas não havia em mim
a completude, a essência
o desapego
nada poderia me fazer
maior
era minúsculo em si
mas toda viagem
real ou fantasia
tem um fim
neste ancoradouro
que agora cheguei
me vi no espelho
finalmente!
me reconheci
tempestades
agora tem outro significado
não são mais meus pesadelos e medos
ao me encontrar
abri uma porta que desconhecia
sei que estou pronto
senhor de si
deixo atrás o marujo
independente
ergo as velas e miro o firmamento
sou eu senhor
sou eu capitão
vejo agora novas cores
abraço o ar com renovadas forças
navego sem mais receio
enfim formado
assim construído
meu barco hoje é um forte
(meu corpo fortaleza)
e então você pôde chegar
pois agora o outro
não me faz complemento
não necessita pagar
não está aqui para me curar
a cor do mar
está em seus olhos
somos encontro de oceanos
não nos necessitamos
não nos dependemos
apenas vivemos
juntos a fazer amar
Edu Liguori
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Dia Nacional da Visibilidade Trans
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Lhe envolvo
com todas as coisas desconhecidas
que não são
e por não serem
mal não fazem
aproveite esse mistério
olhe meu olho sério
e o outro sorrindo
pra ti meu remédio
Edu Liguori
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