Os Sete Loucos: Estados de consciência
Estados de consciência
Sabia que era um ladrão. A categoria em que se colocava, porém, não lhe interessava. Talvez a palavra ladrão não estivesse em consonância com seu estado interior. Existia outro sentimento, e esse era o silêncio circular, enfiado como um cilindro de aço na massa de seu crânio, de tal modo que o deixava surdo para tudo aquilo que não se relacionasse com sua desgraça.
Esse círculo de silêncio e de trevas interrompia a continuidade de suas ideias, de modo que Erdosain não conseguia associar, pelo declive de seu raciocínio, seu lar chamado casa a uma instituição designada pelo nome de prisão.
Pensava telegraficamente, suprimindo preposições, o que é enervante. Conheceu horas mortas em que poderia ter cometido um delito de qualquer natureza, sem por isso ter a menor noção de sua responsabilidade. Logicamente, um juiz não teria entendido tal fenômeno. Mas ele já estava vazio, era uma casca de homem movida pelo automatismo do costume.
Se continuou trabalhando na Companhia Açucareira, não foi para roubar mais quantias de dinheiro; esperava um acontecimento extraordinário, imensamente extraordinário, que desse um giro inesperado à sua vida e o salvasse da catástrofe que via aproximar-se de sua porta.
Essa atmosfera de sonho e inquietação que o fazia circular através dos dias como um sonâmbulo era chamada por Erdosain de “a zona da angústia”.
Erdosain imaginava que essa zona existia sobre o nível das cidades, a dois metros de altura, e a representava graficamente sob a forma dessas regiões de salinas ou desertos que, nos mapas, aparecem reveladas por ovais de pontos, tão espessos como as ovas de um arenque.
Essa zona de angústia era a consequência do sofrimento dos homens. E, como uma nuvem de gás venenoso, deslocava-se pesadamente de um ponto a outro, penetrando muralhas e atravessando os edifícios, sem perder sua forma plana e horizontal; angústia de duas dimensões que, guilhotinando as gargantas, deixava nelas um ressabor de soluço. Essa era a explicação que Erdosain dava a si mesmo quando sentia as primeiras náuseas da pena.
— O que faço com a minha vida? — dizia então a si mesmo, querendo talvez esclarecer, com essa pergunta, as origens da ansiedade que o fazia desejar uma existência na qual o amanhã não fosse a continuação de hoje com sua medida de tempo, mas algo distinto e sempre inesperado, como nos desenvolvimentos dos filmes norte-americanos, onde o mendigo de ontem é o chefe de uma sociedade secreta de hoje, e a datilógrafa aventureira, uma multimilionária incógnita.
Essa necessidade de maravilhas sem satisfação possível, já que ele era um inventor fracassado e um delinquente à margem da prisão, deixava-lhe, nas cismas seguintes, uma acidez raivosa e os dentes sensíveis como depois de mastigar limão.
Nessas circunstâncias, compunha insensatezes. Chegou a imaginar que os ricos, cansados de escutar as queixas dos miseráveis, construíam jaulões tremendos puxados por parelhas de cavalos.
Carrascos escolhidos por sua força caçavam os tristes com laços de enforcar cães, e certa cena lhe chegava a tornar-se visível: uma mãe, alta e descabelada, corria atrás do jaulão de onde, entre as grades, o filho caolho a chamava, até que um “cachorreiro”, entediado de ouvi-la gritar, a fazia desmaiar a golpes na cabeça com o cabo do laço.
Desfeita essa visão de pesadelo, Erdosain dizia a si mesmo, horrorizado consigo próprio:
— Mas que alma, que alma é esta que eu tenho? — E, como sua imaginação conservava o impulso motor impresso pelo pesadelo, continuava: — Eu devo ter nascido para lacaio, um desses lacaios perfumados e vis com quem as prostitutas ricas mandam prender os fechos do porta-seios, enquanto o amante fuma um charuto recostado no sofá.
E novamente seus pensamentos caíam, de ricochete, numa cozinha situada nos porões de uma mansão luxuosíssima. Em torno da mesa moviam-se duas criadas, além do chofer e de um árabe vendedor de ligas e perfumes. Nessa circunstância, ele usaria um paletó preto que não chegava a lhe cobrir o traseiro, e uma gravatinha branca. De súbito, “o senhor” o chamaria, um homem que era seu duplo físico, mas que não raspava os bigodes e usava lentes.
Ele não sabia o que seu patrão desejava dele, mas nunca esqueceria o olhar singular que este lhe dirigiu ao sair do aposento. E voltava à cozinha para conversar obscenidades com o chofer que, diante do regozijo das criadas e do silêncio do árabe pederasta, contava como havia corrompido a filha de uma grande senhora, uma criatura de poucos anos.
E tornava a repetir:
— Sim, eu sou um lacaio. Tenho a alma de um verdadeiro lacaio — e apertava os dentes de satisfação ao insultar-se e rebaixar-se daquele modo diante de si mesmo.
Outras vezes via-se saindo do quarto de uma solteirona velha e devota, levando com unção um pesado penico, mas nesse momento encontrava-o um sacerdote assíduo da casa que, sorrindo sem se perturbar, lhe dizia:
— Como vamos de deveres religiosos, Ernesto? — E ele, Ernesto, Ambrósio ou José, viveria torvamente uma vida de criado obsceno e hipócrita.
Um tremor de loucura o sacudia quando pensava nisso.
Sabia, ah, como sabia bem, que estava ofendendo sem motivo, sujando a própria alma. E o terror que experimenta o homem que, num pesadelo, cai no abismo em que não morrerá, ele o padecia enquanto deliberadamente ia se enlameando.
Porque, em certos instantes, seu afã era de humilhação, como o dos santos que beijavam as chagas dos imundos, movidos menos por compaixão que pelo desejo de se tornarem ainda mais indignos da piedade de Deus, que sentiria asco ao vê-los buscar o céu com provas tão repugnantes. Mas, quando essas imagens desapareciam dele e em sua consciência só restava o “desejo de conhecer o sentido da vida”, dizia a si mesmo:
— Não, eu não sou um lacaio... de verdade que não sou... — e teria querido ir pedir à esposa que se compadecesse dele, que tivesse piedade de seus pensamentos tão horríveis e baixos. Mas a lembrança de que por ela se vira obrigado a sacrificar-se tantas vezes o enchia de um rancor surdo, e nessas circunstâncias teria querido matá-la.
E sabia muito bem que algum dia ela se entregaria a outro, e aquilo era um elemento somado aos demais fatores que compunham sua angústia.
Daí que, quando desviou os primeiros vinte pesos, assombrou-se com a facilidade com que se podia fazer “isso”, talvez porque, antes de roubar, acreditasse que teria de vencer uma série de escrúpulos que em suas condições atuais de vida não podia conhecer. Depois dizia a si mesmo:
— É questão de ter vontade e fazer, nada mais.
E “isso” aliviava a vida; com “isso” tinha dinheiro que lhe causava sensações estranhas, porque nada lhe custava ganhá-lo. O assombroso para Erdosain não consistia no roubo, mas no fato de não se revelar em seu semblante que era um ladrão. Viu-se obrigado a roubar porque ganhava um ordenado exíguo.
Oitenta, cem, cento e vinte pesos, pois esse valor dependia das quantias cobradas, já que seu salário se compunha de uma comissão por cada centena recebida.
Assim, houve dias em que levou quatro ou cinco mil pesos, enquanto ele, mal alimentado, tinha de suportar o fedor de uma carteira de couro falso em cujo interior se amontoava a felicidade sob a forma de notas, cheques, giros e ordens ao portador.
Sua esposa lhe recriminava as privações que suportava cotidianamente; ele escutava em silêncio suas censuras e depois, a sós, dizia a si mesmo:
— O que posso fazer?
Quando teve a ideia, quando uma pequenina ideia o cerciorou de que podia fraudar seus patrões, experimentou a alegria de um inventor. Roubar? Como não lhe ocorrera antes?
E Erdosain assombrou-se com sua incapacidade, chegando a reprovar a própria falta de iniciativa, pois nessa época, três meses antes dos acontecimentos narrados, sofria necessidades de toda natureza, apesar de que diariamente passavam por suas mãos grandes quantias de dinheiro.
E o que facilitou suas manobras fraudulentas foi a falta de administração que havia na Companhia Açucareira.