Os Sete Loucos: O Astrólogo Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 7 de 34
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Os Sete Loucos: O Astrólogo

O Astrólogo

O edifício ocupado pelo Astrólogo ficava situado no centro de uma chácara arborizada. A casa era baixa, e seus telhados avermelhados se avistavam de longe por cima da espessura das árvores silvestres. Pelas clareiras deixadas pelos volumes, entre o autêntico ondular dos pastos e das trepadeiras, insetos grossos de traseiro negro zumbiam o dia inteiro sob a chuva perene de ervas e talos.

Não longe da casa, a roda do moinho girava sua manqueira de três pás sobre um prisma de ferro oxidado e, mais além, sobre a estrebaria, distinguiam-se os cristais azuis e vermelhos de um biombo destruído pela urina. Atrás do moinho e da casa, para lá das cercas, escurecia a serra verde-garrafa de um bosque de eucaliptos, emplumando de borbotões e cristas em relevo o céu de um azul marítimo.

Chupando uma flor de madressilva, Erdosain cruzou a chácara em direção à casa. Parecia-lhe estar no campo, muito longe da cidade, e a vista do edifício o alegrou. Embora baixa, a casa tinha dois andares, com uma sacada ruinosa no segundo e um descascado conjunto de colunas gregas na entrada, até onde subia uma escadaria destruída, guarnecida de palmeiras.

Os telhados avermelhados caíam obliquamente, protegendo com o beiral as claraboias e janelinhas dos sótãos, e entre a folhagem vistosa dos castanheiros, por cima da copa das romãzeiras manchadas de asteriscos escarlates, via-se um galo de zinco movendo sua cauda torta para todos os ventos.

Ao redor, intrincadamente, surgia o jardim, arranjado como pequeno bosque, e agora, na quietude do entardecer, sob o sol que chumbava no espaço uma atmosfera de cristal nacarado, as roseiras vertiam seu perfume fortíssimo, tão penetrante que todo o espaço parecia povoar-se de uma atmosfera vermelha e fresca como uma torrente de água.

Erdosain pensou:

— Mesmo que eu tivesse uma barca de prata com velas de ouro e remos de marfim, e o oceano se tornasse de sete cores lisas, e da lua uma milionária me atirasse beijos com as mãos, minha tristeza seria a mesma... Mas isso não se deve dizer. No entanto, eu viveria melhor aqui do que lá. Aqui poderia ter um laboratório.

Uma torneira mal fechada pingava num barril. Ao pé do poste de um caramanchão, dormitava um cachorro, e, quando Erdosain parou para chamar diante da escadaria, apareceu à porta a figura gigantesca do Astrólogo, coberto com um guarda-pó amarelo e a cartola enfiada sobre a testa, sombreando-lhe o largo rosto romboidal. Alguns tufos de cabelo encaracolado escapavam sobre suas têmporas, e seu nariz, com o septo fraturado na parte média, estava extraordinariamente desviado para a esquerda.

Sob as sobrancelhas salientes, moviam-se vivamente uns olhos negros redondos, e aquele rosto de faces duras, sulcadas de estrias rugosas, dava a impressão de estar esculpido em chumbo. Tanto devia pesar aquela cabeça!

— Ah! É o senhor?... Entre. Vou apresentá-lo ao Rufião Melancólico.

Atravessando o vestíbulo escuro e fétido de umidade, entraram num escritório de paredes ramificadas por um papel esverdeado e desbotado.

O aposento era francamente sinistro, com seu teto altíssimo sulcado de teias de aranha e a janela estreita protegida pelo gradeado nodoso. No folheado de um armário antigo, metido num canto, a claridade azulada se quebrava em penumbras lívidas. Sentado numa poltrona forrada de puído veludo verde estava um homem vestido de cinza; uma onda enegrecida de cabelos lhe atravessava a testa, e ele calçava botinas de camurça clara. O guarda-pó amarelo do Astrólogo ondulou quando ele se aproximou do desconhecido.

— Erdosain, vou apresentá-lo a Arturo Haffner.

Em outra ocasião, o fraudador teria dito alguma coisa ao homem que o Astrólogo chamava, na intimidade, de Rufião Melancólico, o qual, depois de apertar a mão de Erdosain, cruzou as pernas na poltrona, apoiando a face azulada em três dedos de unhas cintilantes.

E Erdosain examinou aquele rosto quase redondo, com uma lassidão de paz, no qual só denunciavam o homem de ação a chispa zombeteira, movediça, no fundo dos olhos, e aquele movimento de erguer uma sobrancelha mais que a outra ao escutar quem falava. Erdosain distinguiu de lado, entre o paletó e a camisa de seda que o Rufião usava, o cabo negro de um revólver. Sem dúvida, na vida, os rostos significam pouca coisa.

Depois o Rufião voltou novamente a cabeça para um mapa dos Estados Unidos da América do Norte, ao qual o Astrólogo se dirigiu recolhendo uma ponteira. Já detido, com o braço amarelo cortando o azul do mar do Caribe, exclamou:

— O Ku-Klux-Klan tinha só em Chicago cento e cinquenta mil adeptos... No Missouri, cem mil adeptos. Dizem que no Arkansas há mais de duzentas “cavernas”. Em Little Rock, o Império Invisível afirma que todos os pastores protestantes aderiram à irmandade. No Texas domina absolutamente nas cidades de Dallas, Fort, Houston, Beaumont. Em Binghamton, residência de Smith, que era Grande Dragão da Ordem, contavam-se setenta e cinco mil adeptos, e em Oklahoma estes fizeram as Câmaras decretarem um bill suspendendo Walton, o governador, por persegui-los, de tal modo que, praticamente, o estado se encontrava até há pouco sob o controle do Klan.

O guarda-pó amarelo do Astrólogo parecia a vestimenta de um sacerdote de Buda.

Continuou o Astrólogo:

— O senhor sabe que queimaram muitos homens vivos?...

— Sim — assentiu o Rufião —, li os telegramas.

Erdosain examinava agora o Rufião Melancólico. Assim o chamava o Astrólogo porque, muitos anos antes, o macrô quisera se suicidar. Fora um assunto obscuro. De um dia para o outro, Haffner, que havia tempos explorava prostitutas, disparou contra o próprio peito, junto ao coração. A contração do órgão no preciso instante em que o projétil passou salvou-o da morte.

Depois, como é natural, continuou sua vida, talvez com um pouco mais de prestígio por aquele gesto que nenhum de seus camaradas de rapina explicava a si mesmo. Continuou o Astrólogo:

— O Ku-Klux-Klan reuniu milhões...

O Rufião se espreguiçou e respondeu:

— Sim, e o Dragão... esse sim é um Dragão!, está sendo processado por estelionato...

O Astrólogo desentendeu-se da réplica:

— O que se opõe aqui na Argentina a que também exista uma sociedade secreta que alcance tanto poderio quanto aquela lá? E falo ao senhor com franqueza. Não sei se nossa sociedade será bolchevique ou fascista. Às vezes me inclino a crer que o melhor que se pode fazer é preparar uma salada russa que nem Deus entenda. Creio que não se pode me pedir mais sinceridade neste momento.

Veja que, por enquanto, o que pretendo fazer é um bloco onde se consolidem todas as possíveis esperanças humanas. Meu plano é dirigir-nos de preferência aos jovens bolcheviques, estudantes e proletários inteligentes.

Além disso, acolheremos os que têm um plano para reformar o universo, os empregados que aspiram a ser milionários, os inventores fracassados, não se dê por aludido, Erdosain, os desempregados de qualquer coisa, os que acabam de sofrer um processo e ficam na rua sem saber para que lado olhar...

Erdosain recordou a missão que o levara à casa do Astrólogo e disse:

— Eu teria de falar com o senhor...

— Um momentinho... já estou com o senhor — e continuou: — O poder desta sociedade não derivará do que os sócios quiserem dar, mas do que produzirão os prostíbulos anexos a cada célula. Quando falo de uma sociedade secreta, não me refiro ao tipo clássico de sociedade, mas a uma supermoderna, em que cada membro e adepto tenha interesses e recolha lucros, porque só assim é possível vinculá-los cada vez mais aos fins que apenas uns poucos conhecerão. Este é o aspecto comercial.

Os prostíbulos produzirão renda suficiente para manter as ramificações crescentes da sociedade. Na cordilheira, estabeleceremos uma colônia revolucionária. Ali, os noviços seguirão cursos de tática ácrata, propaganda revolucionária, engenharia militar, instalações industriais, de modo que esses associados, no dia em que saírem da colônia, possam estabelecer em qualquer lugar um ramo da sociedade... O senhor entende? A sociedade secreta terá sua academia, a Academia para Revolucionários.

O relógio suspenso na parede deu cinco badaladas. Erdosain compreendeu que não podia perder mais tempo e exclamou:

— Perdoe que o interrompa. Vim por um assunto grave. O senhor tem seiscentos pesos?

O Astrólogo deixou a ponteira e cruzou os braços:

— O que está acontecendo com o senhor?

— Se amanhã eu não repuser seiscentos pesos na Açucareira, vão me pôr preso.

Os dois homens olharam Erdosain com curiosidade. Ele devia sofrer muito para ter lançado seu pedido daquele modo. Erdosain continuou:

— É preciso que o senhor me ajude. Em alguns meses, defraudei seiscentos pesos. Fui denunciado num anônimo. Se amanhã eu não repuser o dinheiro, vão me pôr preso.

— E como foi que o senhor roubou esse dinheiro?...

— Assim, aos poucos...

O Astrólogo acariciava a barba, preocupado.

— Como isso aconteceu?

Erdosain teve de se explicar novamente. Os comerciantes, ao receberem a mercadoria, assinavam um vale em que reconheciam dever o valor do que haviam adquirido. Erdosain, em companhia de outros dois cobradores, recebia no fim de cada mês os vales que tinha de tornar efetivos durante os trinta dias restantes.

Os recibos que eles diziam não ter cobrado ficavam em seu poder até que os comerciantes resolvessem cancelar a dívida.

E Erdosain continuou:

— Reparem que a negligência do caixa era tal que ele nunca controlava os vales que nós dizíamos não ter cobrado; de modo que, a uma conta já paga e malversada, dávamos entrada na planilha de cobrança com o dinheiro vindo de uma conta que cobrávamos depois. Percebem?

Erdosain era o vértice daquele triângulo formado pelos três homens sentados. O Rufião Melancólico e o Astrólogo se olhavam de vez em quando. Haffner sacudia a cinza de seu cigarro e depois, com uma sobrancelha mais levantada que a outra, continuava examinando Erdosain da cabeça aos pés. Por fim, acabou fazendo-lhe esta estranha pergunta:

— E o senhor encontrava alguma satisfação em roubar?...

— Não, nenhuma...

— Então por que anda com as botinas rotas?...

— É que eu ganhava muito pouco.

— Mas e o que roubava?

— Nunca me ocorreu comprar botinas com esse dinheiro.

E era verdade. O prazer que experimentou no começo, ao dispor impunemente do que não lhe pertencia, logo evaporou. Um dia, Erdosain descobriu em si a inquietação que faz ver os céus ensolarados como escurecidos por uma fuligem visível apenas para a alma que está triste.

Quando comprovou que devia quatrocentos pesos, o sobressalto o despejou na loucura. Então gastou o dinheiro de uma forma estúpida, frenética.

Comprou doces que nunca lhe haviam apetecido, almoçou caranguejos, sopas de tartaruga e fritadas de rãs em restaurantes onde o direito de sentar-se ao lado de pessoas bem-vestidas custa caríssimo; bebeu licores caros e vinhos insossos para seu paladar sem sensibilidade, e, no entanto, carecia das coisas mais necessárias para uma vida medíocre, como roupa de baixo, sapatos, gravatas...

Dava esmolas abundantes e costumava deixar gorjetas consideráveis aos garçons que o serviam, tudo para acabar com os rastros daquele dinheiro roubado que carregava no bolso e que, no dia seguinte, podia subtrair impunemente.

— Então não lhe ocorreu comprar botinas? — insistiu Haffner.

— Realmente, agora que o senhor me faz observar isso, também me parece curioso, mas a verdade é que nunca pensei que com dinheiro roubado se pudessem comprar essas coisas.

— Então em que gastava o dinheiro?

— Duzentos pesos dei a uma família amiga, os Espila, para comprar um acumulador e instalar um pequeno laboratório de galvanoplastia, para fabricar a rosa de cobre, que é...

— Já a conheço...

— Sim, já lhe falei disso — respondeu o Astrólogo.

— E os outros quatrocentos?

— Não sei... Gastei de uma maneira absurda...

— E agora, o que pensa fazer?...

— Não sei.

— Não conhece ninguém que possa lhe facilitar?...

— Não, ninguém. Pedi a um parente de minha mulher, Barsut, há dez dias. Ele me disse que não podia...

— Então vão pô-lo preso?

— É claro...

O Astrólogo voltou-se para o macrô e disse:

— O senhor já sabe que conto com mil pesos. Essa é a base de todos os meus projetos. A você, Erdosain, a única coisa que posso dar são trezentos pesos. Também, meu amigo, que coisas o senhor faz!...

De repente, Erdosain esqueceu Haffner e exclamou:

— É que é a angústia, sabe?... Essa maldita angústia que arrasta a gente...

— Como é isso? — interrompeu o Rufião.

— Eu disse que é a angústia. A gente rouba, faz besteiras porque está angustiado. O senhor caminha pelas ruas sob o sol amarelo, que parece um sol de peste... Claro. O senhor deve ter passado por essas situações. Levar cinco mil pesos na carteira e estar triste. E, de repente, uma ideia pequenina lhe sugere o roubo. Nessa noite, o senhor não consegue dormir de alegria. No dia seguinte, faz a prova tremendo, e sai tão bem que não resta outro remédio senão continuar... o mesmo que quando o senhor tentou se matar.

Ao pronunciar essas palavras, Haffner se ergueu na poltrona e agarrou os joelhos com as mãos. O Astrólogo teria querido impor silêncio a Erdosain. Era impossível, e este continuou:

— Sim, como quando o senhor tentou se matar. Eu imaginei isso muitas vezes. O senhor se aborrecera de ser cafetão. Ah, se soubesse o interesse que eu tinha em conhecê-lo! Eu dizia comigo: este deve ser um macrô estranho. Claro que, entre cem mil indivíduos que, como o senhor, vivem das mulheres, encontra-se um da sua maneira de ser. O senhor me perguntou se eu sentia prazer em roubar. E o senhor, sente prazer em ser cafetão? Diga-me: sente prazer?...

Mas que diabo!, eu não vim aqui para dar explicações, sabem? O que eu preciso é dinheiro, não palavras.

Erdosain se levantara e agora apertava, trêmulo, a aba do chapéu entre os dedos.

Olhava indignado para o Astrólogo, cuja cartola cobria o estado de Kansas no mapa, e para o Rufião, que introduziu as mãos entre o cinto e a calça. Este voltou a acomodar-se em sua poltrona forrada de veludo verde, apoiou a face em sua mão gordinha e, sorrindo zombeteiro, disse calmamente:

— Sente-se, amigo, eu lhe darei os seiscentos pesos.

Os braços de Erdosain se contraíram.

Depois, sem se mover, olhou longamente para o Rufião. Este insistiu, marcando as palavras:

— Sente-se com confiança, amigo. Eu lhe darei os seiscentos pesos. Para isso estamos os homens.

Erdosain não soube o que dizer. A mesma tristeza que estourara nele quando o homem da cabeça de javali lhe disse, no escritório, que podia ir embora, a mesma tristeza o enervava agora. Então a vida não era tão ruim!

— Façamos isto — disse o Astrólogo. — Eu lhe dou os trezentos pesos e o senhor outros trezentos.

— Não — disse Haffner. — O senhor precisa desse dinheiro. Eu, não. Para isso tenho três mulheres. — E, dirigindo-se a Erdosain, continuou: — Viu, amigo, como as coisas se ajeitam? Está satisfeito?

Falava com zombeteira calma, com certa pachorra de homem do campo que sabe sempre que a experiência que tem da natureza lhe permitirá encontrar uma saída na situação mais complicada. E Erdosain só agora percebeu o perfume ardente das rosas e o gotejar da torneira no barril, que se escutava pela janela entreaberta. Lá fora ondulavam os caminhos, iluminados pelo sol, e o peso dos pássaros dobrava os galhos das romãzeiras, consteladas de asteriscos escarlates.

Novamente brilhou nos olhos do Rufião a chispa de luz maliciosa. Com uma sobrancelha mais erguida que a outra, aguardava a explosão de júbilo de Erdosain; como ela não veio, disse:

— Faz muito tempo que o senhor vive dessa maneira?...

— Sim, muito.

— Lembra-se de que eu lhe disse uma vez que desse modo, embora o senhor não me confiasse nada, não se pode viver? — objetou o Astrólogo.

— Sim, mas eu não queria falar do assunto. Não sei... essas coisas que a gente não consegue explicar por que cala justamente às pessoas em quem mais confia.

— Quando o senhor vai repor esse dinheiro?

— Amanhã.

— Bom, então vou fazer um cheque agora. O senhor terá de descontá-lo amanhã.

Haffner dirigiu-se à escrivaninha. Tirou do bolso o talão de cheques e escreveu firmemente a soma, assinando em seguida.

Erdosain passou por aquele minuto imóvel com a inconsciência de quem se encontra diante da perspectiva de um sonho e que depois, mais tarde, se recorda para afirmar que, em determinadas circunstâncias, a vida está encharcada de um fatalismo inteligente.

— Tome, amigo.

Erdosain recolheu o cheque e, sem lê-lo, dobrou-o em quatro, guardando-o no bolso.

Tudo havia ocorrido em um minuto. O acontecimento era mais absurdo que um romance, apesar de ele ser um homem de carne e osso. Já não os devia, e o prodígio fora operado por um único gesto do Rufião. Aquele acontecimento era impossível de acordo com a lógica que rege os procedimentos correntes, e, no entanto, nada havia acontecido. Queria dizer alguma coisa. Novamente examinou a catadura do homem refestelado na poltrona de veludo puído.

Agora o revólver estava em relevo sob o tecido cinzento do paletó, e Haffner, displicente, apoiava a face azulada em seus três dedos de unhas cintilantes. Erdosain desejava agradecer ao Rufião, mas não sabia com que palavras fazê-lo. Este compreendeu e, dirigindo-se ao Astrólogo, que se sentara num tamborete junto à escrivaninha, disse:

— Então uma das bases de sua sociedade será a obediência?...

— E o industrialismo. É preciso ouro para capturar a consciência dos homens. Assim como houve o misticismo religioso e o cavalheiresco, é preciso criar o misticismo industrial. Fazer um homem ver que é tão belo ser chefe de um alto-forno quanto antes era belo descobrir um continente. Meu político, meu aluno político na sociedade, será um homem que pretenderá conquistar a felicidade mediante a indústria.

Esse revolucionário saberá falar tão bem de um sistema de estampagem de tecidos quanto da desmagnetização de um aço. Foi por isso que estimei Erdosain assim que o conheci. Ele tinha a mesma preocupação que eu. O senhor se recorda de quantas vezes falamos da coincidência de nossos pontos de vista. Criar um homem soberbo, belo, inexorável, que domine as multidões e lhes mostre um futuro baseado na ciência. Como é possível, de outro modo, uma revolução social? O chefe de hoje deve ser um homem que saiba tudo.

Nós criaremos esse príncipe de sapiência. A sociedade se encarregará de confeccionar sua lenda e difundi-la. Um Ford ou um Edison têm mil probabilidades a mais de provocar uma revolução do que um político. O senhor acha que as futuras ditaduras serão militares? Não, senhor. O militar não vale nada ao lado do industrial. Pode ser instrumento dele, nada mais. Isso é tudo. Os futuros ditadores serão reis do petróleo, do aço, do trigo. Nós, com nossa sociedade, prepararemos esse ambiente.

Familiarizaremos as pessoas com nossas teorias. Por isso é necessário um estudo detido da propaganda. Aproveitar os estudantes e as estudantes. Embelezar a ciência, aproximá-la de tal modo dos homens que, de repente...

— Eu vou embora — disse Erdosain.

Ia se despedir de Haffner quando este disse:

— Então, um momento, escute.

O Astrólogo e o macrô saíram por um instante, depois voltaram, e, ao despedir-se à porta da chácara, Erdosain virou a cabeça para olhar o homem gigantesco, que, com o braço encolhido, lhes fazia gestos de despedida.

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