Os Sete Loucos: A revelação Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 32 de 34
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Os Sete Loucos: A revelação

A revelação

Enquanto ocorriam esses acontecimentos, no Hospício de las Mercedes, Ergueta entrava no que mais tarde chamaria de “o conhecimento de Deus”. Foi assim.

Despertou ao amanhecer na enfermaria. Um paralelepípedo de lua punha um retângulo azul no caiado do muro diante de sua cama. Através das grades da janela aberta via-se o céu enquadrado pelo contramarco, um céu poroso e seco de azul como gesso tingido de metileno. No retículo dos ferros tremiam os fios de água de uma estrela.

Ergueta coçou conscienciosamente o nariz, embora não sentisse maior preocupação. Compreendia que se encontrava na casa dos loucos, mas esse “era um assunto que não lhe dizia respeito”.

Preocupava-o se tivessem encarcerado seu espírito, mas o que na realidade estava preso no manicômio era seu corpo, seu corpo que pesava noventa quilos, e que agora, com certo inexplicável ressentimento, recordava que havia rolado pelos lupanares. E, sem poder evitar, revisava como espetáculo opobrioso a vida sensual com que havia se regalado. Mas que tinha seu espírito a ver com tal carnadura furiosa?

Essa era uma realidade tão evidente para seu entendimento que o assombrou que os médicos ainda não reparassem em tal diferença.

Ergueta sentiu-se maravilhado com sua descoberta. Ele já não era um homem, mas um espírito, “sensação pura de alma”, com margens nitidamente recortadas dentro da armação carniceira de seu físico, como as nuvens nos espaços infinitos.

Estava ligeiramente alegre. Já em noites anteriores tivera a certeza de que podia apartar-se de seu corpo, deixá-lo abandonado como a uma roupa. Ao descobri-la, essa súbita segurança lhe proporcionou um medo leve. Até em determinados momentos teve, na epiderme, a sensação de que só tocava com as bordas da alma, de modo que o equilíbrio de seu corpo próximo de cair, e o de sua pele, lhe causava náuseas. Era como se descesse em suma velocidade num elevador.

Além disso, tinha medo de ter vontade de abandonar seu corpo, pois, se o destruíssem, como poderia entrar nele? O enfermeiro tinha cara de velhaco e, embora ele lhe houvesse falado de umas redoblonas para a próxima “reunião”, não se sentia de todo seguro. Mas, passada essa primeira impressão, comprazia-se em acreditar que era uma criança fraca, o que não o impedia de rir, de sua cama, da comédia com que tentava tranquilizar seus noventa quilos, descontando que ele podia ir aonde quisesse... mas não...

não era questão de brincar. Sua bondade não podia admitir isso. E que belo era sentir-se assim cheio de caridade! Sua misericórdia se alargava sobre o mundo, como uma nuvem sobre os telhados da cidade.

Seu corpo ficava cada vez mais abaixo.

Agora o via como no fundo de uma gaveta, o sanatório entre os cubos brancos das casas era outro cubo, as ruas azulavam entre lençóis de sombra, as luzes verdes dos semáforos do F.C.S. luziram debilmente, e o espaço entrou nele como o oceano numa esponja, enquanto o tempo deixava de existir.

Caíam as alturas através de sua delícia. Ergueta sentia quietude, estancamento de bondade para si mesmo, pela vontade de uma força exterior. Assim gozaria o tanque seco com a chuva que o céu lhe envia.

Da terra para a qual se voltava sua caridade, via as bordas arredondadas e esverdeadas lambidas pelo éter azul. E, como não era natural permanecer calado, só atinava a dizer:

— Obrigado... obrigado, meu Senhor.

Não experimentava curiosidade alguma. Sua humildade se fortalecia no acatamento. Na lisura celeste divisou de repente o escalonamento de um rochedo. Uma luz de ouro banhava a pedraria apesar da noite, e o azul na distância caía em profundos barrancos de lombas douradas. Ergueta, com seu corpo restituído, avançou a passos prudentes, fixa a pupila feroz em seu perfil de gavião.

Naturalmente, não se sentia tranquilo, porque seu corpo havia pecado inúmeras vezes, e porque compreendia que seu rosto, apesar da atual expressão grave, tinha as marcas enérgicas e a ferocidade dos malandros, que, quando ele era mocinho, imitava no arrabalde e com as patotas.

Mas seu espírito estava contrito e talvez isso fosse suficiente, o que não o impedia de dizer a si mesmo:

— O que dirá o Senhor da minha “pinta”? Como posso me apresentar diante dele? — E, ao olhar maquinalmente os botins, comprovou que estavam sem brilho, o que aumentou sua confusão. — O que dirá o Senhor da minha “pinta” e desta cara de turfista e de cafishio? Vai me perguntar pelos meus pecados... vai se lembrar de todas as bobagens que fiz... e eu o que vou responder?... que não sabia, mas como vou dizer isso, se ele deixou testemunho de ser em todos os seus profetas?

Novamente voltou a examinar os botins, sujos e arrebentados.

— E me dirá: “Até estás feito um turro... um vago vergonhoso, e isso que foste à universidade... Jogaste nos ‘burros’ o que poderia ter sido consolo do órfão e da vida... e enlameaste em orgias a alma imortal que te dei, e arrastaste teu anjo da guarda pelos lupanares, e ele chorava atrás de ti, enquanto tua bocarra carniceira se enchia de abominações...” E o pior é que eu não vou poder negar... Como vou negar o pecado? Que macana, meu Deus!

O céu era sobre sua cabeça uma cúpula de gesso azul. Giravam nas elípticas remotos planetas como laranjas, e Ergueta olhou humildemente o pedregal dourado.

De repente, uma grande perturbação desassossegou sua modéstia. Levantou a cabeça e, à sua esquerda, detido a dez passos, viu o Filho do Homem.

O Nazareno, coberto por uma túnica celeste, voltava para ele seu perfil demacrado, onde luzia o olho amendoado e sereno.

Ergueta sofreu um grande desconsolo; não podia ajoelhar-se, “porque um bacana conserva sempre a linha” e não se ajoelha diante de um carpinteiro judeu, mas sentiu que um soluço lhe retorcia a alma e, em silêncio, estendeu os braços unidos pelos dedos em direção ao deus silencioso.

Sentia que toda a sua cara dura se impregnava de devoção por ele.

Assim, calado, olhava Jesus detido no rochedo. Os olhos de Ergueta encheram-se de lágrimas. Lamentava que não houvesse ali alguém com quem brigar para demonstrar ao Senhor quanto o queria, e já o silêncio lhe pareceu tão insuportável que, vencendo o terrível aniquilamento, humildemente suplicou:

— Eu queria ser diferente, mas não posso.

Jesus o olhava.

— Acredite... me dá não sei o quê dizer que gosto muito do senhor.

Ergueta deu-lhe as costas, caminhou três passos, depois, voltando-se, deteve-se.

— Cometi todos os pecados e muitas maca... disparates... queria me arrepender e não posso... queria me ajoelhar... é verdade, beijar os pés do senhor, que foi crucificado por nós... Ah! se o senhor soubesse todas as coisas que eu queria dizer e que me escapam... e no entanto gosto do senhor. Será porque estamos de homem para homem?

Jesus o olhava.

Um novo sorriso agraciou o rosto de Jesus.

Ergueta calou por um instante; depois, ruborizado, murmurou timidamente:

— Oh! como o senhor é bom — exclamou Ergueta, enlevado. — Como é bom! O senhor se dignou a sorrir para mim, pecador... O senhor percebe? Sorriu. Ao seu lado, acredite, sinto-me um moleque, um “purrete”. Eu queria adorá-lo a vida toda, ser seu guarda-costas. Agora não pecarei mais, a vida toda vou pensar no senhor, e pobre de quem duvidar do senhor... eu lhe arrebento a alma... Jesus o olhava.

Então Ergueta, querendo oferecer o melhor de si mesmo, disse:

— Eu me ajoelho diante do senhor. — Avançou alguns passos e, chegando diante de Jesus, inclinou a cabeça, apoiou um joelho no pedregal dourado, ia prostrar-se quando Jesus avançou sua mão perfurada, apoiou-a em seu ombro e disse:

— Vem. Segue-me sempre e não peques mais, porque tua alma é formosa como a dos anjos que louvam o Senhor.

Quis falar, mas já o vazio e o silêncio o rodeavam vertiginosamente. Ergueta compreendeu que havia entrado no conhecimento de Deus. Aquilo era bem claro, porque, ao se voltar para umas vozes que soavam na enfermaria escura, um louco mudo de nascença exclamou, olhando-o com estranheza:

— Parece que você vem do céu.

Ergueta o olhou assombrado.

— Sim, porque, como os santos, você tem uma roda de luz na cabeça.

Ergueta, suavemente atemorizado, apoiou-se no muro. Um louco caolho, que até então permanecia calado, exclamou:

— Milagres... você faz milagres. Ao mundo devolveu a fala. A conversa despertou um terceiro possesso, que passava os dias matando piolhos imaginários entre seus dedos calejados e gastos, e o barbudo, virando a cara pálida, disse:

— Você veio ressuscitar os mortos...

— E dar vista aos cegos — interrompeu o mudo.

— E também aos caolhos — assegurou o louco a quem faltava um olho —, porque agora vejo deste lado. O mudo, sustentando o busto com os dois braços apoiados no colchão, continuou:

— Mas você não é você, é Deus que está em seu corpo. Ergueta, aniquilado, asseverou:

— É verdade, irmãos... não sou eu... mas Deus que está em mim... Como poderia eu, miserável bordeuleiro, fazer milagres?

— Por que não faz outro milagre?

— Não vim para isso, mas para pregar o verbo do Deus Vivo. O matador de piolhos recolheu um pé sobre o joelho e insistiu maldosamente:

— Devia fazer um milagre. O mudo colocou seu travesseiro no piso da enfermaria e, sentando-se em cima dele, disse:

— Eu não falo mais.

Ergueta apertou as têmporas, aturdido com o que via. O caolho meditou amavelmente:

— Sim, você devia ressuscitar esse morto.

— Mas não há nenhum morto aqui!

O caolho avançou mancando até Ergueta, tomou-o por um braço e, quase arrastando-o, levou-o até uma cama defronte, onde jazia imóvel um homenzinho de cabeça redonda e nariz enorme.

O mudo se aproximou apertando os lábios.

— Não vê que está morto?

— Morreu esta tarde — resmungou o caolho.

— Estou dizendo que esse homem não está morto — exclamou Ergueta irritado, convencido de que os outros zombavam dele; mas o matador de piolhos saltou de seu leito, aproximou-se da outra cama, inclinou-se sobre o homenzinho de cabeça redonda e de tal forma empurrou o corpo imóvel que este, ao cair, ressoou opacamente no piso da enfermaria, ficando entre as duas camas com as pernas para cima, semelhante à forquilha de uma árvore recém-podada.

— Viu que está morto?

Os quatro loucos permaneceram consternados em torno da forquilha, enquadrados pelo retângulo celeste da lua, com os camisões inflados pelo vento.

— Viu que está morto? — repetiu o barbudo.

— Faça um milagre — suplicou o caolho. — Como vamos acreditar Nele se você não faz um milagre? O que custa fazer?

O mudo, inclinando repentinamente a cabeça, fazia sinais de aquiescência a Ergueta.

Gravemente inclinou-se sobre o cadáver, ia pronunciar as palavras da Vida, mas subitamente os muros da enfermaria giraram os planos do cubo diante de seus olhos, um vento escuro uivou em suas orelhas e outra vez teve tempo de ver os três loucos enquadrados pelo retângulo celeste da lua, com os camisões inflados pelo vento, enquanto ele escorregava por uma tangente que cortava o girante torvelinho de trevas, na inconsciência.

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