Os Sete Loucos: O suicida Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 33 de 34
Obra Menu

Os Sete Loucos: O suicida

O suicida

Erdosain permaneceu aos pés da Coxa talvez uma hora. As emoções anteriores dissolviam-se em sua atual modorra. Sentia-se estranho a tudo o que ocorrera no transcurso do dia. A angústia e a malevolência endureciam em seu peito como o lodo sob o sol. Permanecia, no entanto, imóvel, submetido ao poder da sonolência escura que se desprendia de seu cansaço. Mas sua testa se enrugava.

E, através da névoa e da escuridão, crescia sua outra desesperação, o temor sem esperança de ver-se perdido como um fantasma à margem de um dique de granito. As águas cinzentas traçavam faixas de diferentes alturas que corriam em direção oposta. Chalupas de ferro levavam gente borrada rumo a remotos empórios.

Havia ali, além disso, uma mulher enfeitada como uma cocotte, com uma papada de diamantes, que apoiava os cotovelos na mesa de uma taberna e apertava as faces entre os dedos cravejados. E, enquanto ela falava, Erdosain coçava a ponta do nariz. Mas, como essa atitude não era explicável, Erdosain recordou que haviam aparecido quatro mocinhas com vestidos até os joelhos e cabelo amarelo desgrenhado em torno de suas caras cavalares.

E as quatro mocinhas, ao passar a seu lado, estenderam um pratinho. Foi então que Erdosain se perguntou: “É possível que consigam alimentar-se fazendo só isso?” Então a estrela, a cocotte, que sob o queixo tinha uma papada de brilhantes, respondeu que sim, que as quatro mocinhas viviam mendigando, e começou a falar de um príncipe russo, com sua voz mais feminina, cujo gênero de vida, embora ela tratasse de emparelhá-lo, não condizia com o que levavam as quatro mocinhas.

E só recentemente então Erdosain pôde explicar satisfatoriamente por que razão coçava a ponta do nariz enquanto a preciosa falava.

Mas sua tristeza cresceu quando viu a silenciosa gente voltar a cabeça, subir nos vagões de um comboio comprido que tinha todas as persianas baixas. Ninguém perguntava por itinerários nem estações. A vinte passos dali, um deserto de pó estendia seu confim escuro. Não se divisava a locomotiva, mas ele escutou o doloroso ranger das correntes ao afrouxarem os freios.

Podia correr, o trem deslizava devagar, alcançá-lo, trepar pela escadinha e ficar um instante na plataforma do último vagão, vendo como o comboio ganhava velocidade. Erdosain ainda estava a tempo de se afastar daquela solidão cinzenta sem cidades escuras... mas, imobilizado por sua enorme angústia, ficou ali olhando, com um soluço detido na garganta, o último vagão com as janelinhas rigorosamente fechadas.

Quando o viu entrar na curva dos entretrilhos que cobria a muralha de névoa, compreendeu que havia ficado sozinho para sempre no deserto de cinza, que o trem jamais retornaria, que sempre continuaria deslizando taciturno, com todas as persianas de seus vagões estritamente fechadas.

Lentamente retirou o rosto dos joelhos de Hipólita. Havia parado de chover. Suas pernas estavam geladas, as articulações lhe doíam. Olhou um instante o rosto da mulher adormecida, esfumado na claridade azulada que entrava pelos cristais, e, com extraordinária precaução, pôs-se de pé. As quatro mocinhas de rosto cavalar e cabelo amarelo encrespado ainda estavam nele. Pensou:

“Eu devia me matar... — Mas, ao observar o cabelo vermelho da mulher adormecida, suas ideias tomaram outro rumo mais pesado —: Deve ser cruel. E, no entanto, eu poderia matá-la — apertou o cabo do revólver no bolso —. Bastaria um tiro no crânio. A bala é de aço e só faria um furinho. Isso sim, os olhos saltariam das órbitas e talvez o nariz lançasse sangue. Pobre alma! E deve ter sofrido muito. Mas deve ser cruel.”

Uma malevolência cautelosa o inclinou sobre ela. À medida que olhava a adormecida, seus olhos adquiriam uma fixidez de alienado, enquanto, com a mão no bolso, levantava o percussor, apertando o gatilho. Um trovão retumbou ao longe, e essa estranha incoerência que envolvia seu cérebro como um véu se afastou dele; então, com numerosas precauções, pegou seu impermeável, fechou os postigos evitando que as dobradiças rangessem, e saiu.

Ao descer as escadas, reconheceu com alegria que tinha fome.

Dirigiu-se a uma das tantas churrascarias que há junto ao mercado Spineto, e percorreu apressadamente algumas quadras.

A lua rolava sobre a crista violácea de uma nuvem; as calçadas, em certos trechos, sob a luz lunar, pareciam cobertas de chapas de zinco; as poças cintilavam profundidades de prata morta, e, com zunido atorvelinhado, a água corria lambendo os cordões de granito. Tão molhada estava a rua que os paralelepípedos pareciam soldados por recente fundição de estanho.

Erdosain entrava e saía das sombras celestes que cortavam obliquamente as fachadas. O cheiro de molhado comunicava à solidão matutina certa desolação marítima.

Indubitavelmente, não se encontrava em seu juízo perfeito. Ainda o preocupavam as quatro mocinhas de cara cavalar, e o mar sinistro com suas ondas de ferro.

O pesado fedor de óleo queimado que a porta amarela de uma leiteria vomitava lhe causou náuseas, e então, mudando de ideia, dirigiu-se a um prostíbulo de que se lembrava na rua Paso; mas, quando chegou, a porta já estava fechada e, desconcertado, tremendo de frio, a boca com gosto de sulfato de cobre, entrou num café onde acabavam de levantar as cortinas metálicas. Depois de longa espera, serviram-lhe o chá que havia pedido.

Pensou na mulher adormecida. Entrecerrou os olhos e, apoiando a cabeça no muro, entregou-se com mais desconsolo às suas penas.

Não sofria por ele, o homem inscrito com um nome no registro civil, mas sua consciência, apartando-se do corpo, olhava-o como a um estranho e dizia:

— Quem terá piedade do homem?

E essas palavras, que seu pensamento conseguia recolher, o perturbavam, enchendo-o de dolorosa ternura por invisíveis próximos.

— Cair... cair sempre mais baixo. E, no entanto, outros homens são felizes, encontram o amor, mas todos sofrem. O que acontece é que uns se dão conta e outros não. Alguns atribuem isso ao que não têm. Mas que sonho estúpido esse. No entanto, o rosto dela era bonito. O que tinha lógica era o que dizia a respeito do príncipe aventureiro. Ah! poder dormir no fundo do mar, numa peça de chumbo com vidros grossos. Dormir anos e anos enquanto a areia se amontoa, e dormir.

Por isso o Astrólogo tem razão. Chegará o dia em que as pessoas farão a revolução, porque lhes falta um Deus. Os homens se declararão em greve até que Deus se faça presente.

Um amargo cheiro de cianureto chegou até ele; e, percebendo através das pálpebras a leitosa claridade da manhã, sentiu-se diluído como se estivesse no fundo do mar e a areia subisse indefinidamente sobre sua choça de chumbo. Alguém lhe tocou as costas.

Abriu os olhos ao mesmo tempo em que o garçom do café lhe dizia:

— Aqui não se pode dormir.

Ia retrucar, mas o criado se afastou para ir despertar outro dormente. Era um homem gordo, que havia deixado cair a cabeça calva sobre os braços cruzados em cima da tábua da mesa.

Mas o dormente não respondia às vozes do garçom, e então, estranhando, aproximou-se o patrão, um homem que tinha bigodes tão enormes como guidões de bicicleta, e de tal forma sacudiu seu freguês que este ficou dobrado sobre a cadeira, sem cair porque o sustentava a borda da mesa.

Erdosain levantou-se estranhado, enquanto patrão e garçom, olhando-se, observavam de esguelha o singular cliente.

O dormente permaneceu em posição absurda. A cabeça caída sobre um ombro deixava ver sua cara chata, picada de bexigas, com os círculos negros de uns óculos fumê. Um fio de baba avermelhada manchava sua gravata verde, escapando de entre os lábios azulados. O cotovelo do desconhecido apertava na mesa uma folha de papel escrito. Compreenderam que estava morto.

Chamaram a polícia, mas Erdosain não se movia dali, curioso com o espetáculo do sinistro suicida dos óculos negros, cuja pele se cobria lentamente de manchas azuis. E o cheiro de amêndoas amargas, imóvel no ar, parecia escapar de entre suas mandíbulas abertas.

Chegou um auxiliar de polícia, depois um sargento, mais tarde dois guardas e um oficial inspetor, e essa gente rondava em torno do morto como se ele fosse uma rês. De repente, o auxiliar, dirigindo-se ao oficial inspetor, disse:

— Não sabe quem é?

O sargento tirou do bolso do cadáver a conta de um hotel, várias moedas, um revólver, três cartas lacradas.

— Então este é o que matou a moça da rua Talcahuano?

Tiraram os óculos do morto, e agora se lhe viam os olhos, as pupilas vesgas, a córnea voltada para cima, as pálpebras tingidas de vermelho como se houvesse chorado lágrimas de sangue.

— Não lhe dizia? — continuou o auxiliar. — Aqui está a carteira de identidade.

— Ia para Ushuaia pela vida inteira.

Então Erdosain, ao escutar essas palavras, recordou como se fizesse muito tempo que o tivesse lido. E, no entanto, não era assim. Na manhã anterior havia se inteirado num jornal. O morto era um estelionatário. Abandonou a esposa e cinco filhos para viver em concubinato com outra mulher, de quem tinha três filhos; mas fazia duas noites, talvez farto da concubina, apresentou-se num hotel da rua Talcahuano em companhia de uma jovenzinha de dezessete anos, sua nova amante.

E, às três da madrugada, tapou-lhe suavemente a cabeça com um travesseiro, disparando-lhe um tiro no ouvido. Ninguém no hotel escutou nada. Às oito da manhã, o assassino vestiu-se, deixou a porta entreaberta e, chamando a camareira, disse-lhe que não acordasse a senhora até as dez, porque estava muito cansada. Depois saiu, e só às doze do dia foi descoberta a morta.

Mas o que impressionou extraordinariamente Erdosain foi pensar que o assassino havia estado cinco horas em companhia da morta, cinco horas junto ao cadáver da jovenzinha na solidão da noite... e que devia tê-la amado muito.

Mas ele não havia pensado a mesma coisa horas antes diante da mulher de cabelo vermelho? Aquilo era uma reminiscência inconsciente ou o suicida ali dobrado?...

Chegou a carroça da Assistência Pública e o morto foi carregado.

Depois o interrogaram. Erdosain manifestou o pouco que sabia como testemunha e saiu intrigado à rua. Uma pergunta inconcreta e dolorosa estava no fundo de sua consciência.

Recordava agora que o cadáver tinha as bocas das calças enlameadas, a camisa suja e úmida, e, apesar disso, como havia chegado a se fazer amado pela jovenzinha que matou? Existia então o amor? Apesar de suas duas mulheres e de seus oito filhos dispersos e de sua vida crapulosa de ladrão e estelionatário, o assassino amava.

E imaginou-o na noite hostil, ali, nesse hotel frequentado por prostitutas e indivíduos de profissão indefinida, num quarto de papel de parede despedaçado, olhando, sobre o travesseiro empapado de sangue, a cerosa carinha da moça esfriada. Cinco horas sombrias contemplando a morta que antes o apertava entre seus braços nus. Pensando assim, chegou à Plaza Once, dolorosamente estupefato.

Eram cinco da manhã. Entrou na estação da ferrovia, olhou em volta e, como tinha sono, refugiou-se num canto da sala de espera.

Às oito, o ruído que um passageiro fez com as malas o despertou de seu profundo sono. Esfregou com os punhos as pálpebras doloridas. Num céu sem nuvens brilhava o sol.

Saiu, subindo a um ônibus que se dirigia a Constitución. O Astrólogo o esperava na estação de Temperley. Sua figura robusta, enfarpelada, com a cartola jogada sobre os olhos e os bigodões caídos à moda gaulesa, foi distinguida imediatamente por Erdosain.

— Está muito pálido — disse o Astrólogo.

— Estou pálido?

— Amarelo.

— Dormi mal... para piorar, vi um suicídio esta manhã...

— Bom, aqui está o cheque.

Erdosain o examinou. Era de quinze mil trezentos e setenta e três pesos; ao portador, mas com a data atrasada de dois dias.

— Por que atrasou a data?

— Inspirará mais confiança. O funcionário do banco sabe que, se esse cheque tivesse se perdido, na hora em que o senhor se apresentasse para cobrá-lo já haveria ordem de sequestro.

— Protestou?...

— Não... sorria. Esse homem pensa nos meter todos na cadeia... Ah!... antes de ir ao banco, vá a uma barbearia e faça a barba...

— E o outro está avisado?

— Não, quando for o momento, vamos acordá-lo. Faltavam poucos minutos para a chegada do trem. Erdosain olhou sorrindo para o Astrólogo e disse:

— O que o senhor faria se eu fugisse? O outro, com os dedos em forquilha, esfregou os bigodes, e depois:

— Isso é tão impossível quanto o trem que vem aqui não parar aqui.

— Mas admitamos por um momento.

— Não posso. Se por um momento admitisse isso, não seria o senhor quem iria cobrar o cheque... Ah!... Quem era o que se suicidou esta manhã?

— Um assassino. Curioso. Matou uma mocinha que não queria ir viver com ele.

— Forças perdidas.

— E o senhor seria capaz de se matar?

— Não... O senhor compreende que estou destinado a um fim mais alto. Erdosain lançou uma pergunta estranha:

— Diga-me, o senhor acredita que as ruivas são cruéis?

— Tanto não... mas antes assexuadas; daí que essa frieza com que examinam as coisas cause uma impressão acre. O Rufião Melancólico me contava que, em sua longa carreira de macrô, havia conhecido muito poucas prostitutas de cabelo vermelho... Já sabe. Não se esqueça de se barbear. Vá ao banco às onze, não antes. O senhor almoça comigo hoje, não?

Sim, até logo.

Atrás de Erdosain subiu o Major, que fez um sinal amistoso ao Astrólogo. Erdosain não o viu. E, já afundado em sua poltrona, Erdosain pensou:

— É um homem extraordinário. Como diabos adivinhou que eu não o enganarei? Se acerta nas outras coisas como nesta, triunfará — e, vencido pelo balanço do trem, adormeceu outra vez. Atrás dele estava o Major. E, já no banco, com o coração batendo fortemente, aproximou-se da janela quando o funcionário pagador o chamou:

— Quer grosso ou miúdo?

— Grosso.

— Assine.

Erdosain assinou o verso do cheque. Acreditou que pediriam carteira de identidade, mas o funcionário, impassível, com os braços protegidos por mangas de lustrina, contou dez notas de mil pesos, cinco de quinhentos e o restante em moeda menor. E, embora Erdosain desejasse fugir de medo, recontou escrupulosamente o dinheiro, pôs em sua carteira, colocou-a no bolso da calça, agarrando-a com força, e saiu à rua.

Entre bosques de nuvens brancas, aparecia, como metal recém-lavado, um caracol de céu.

Erdosain sentiu-se feliz. Pensou que, em outros climas e sob um espaço sempre azul como aquele que olhava, deviam existir mulheres singulares, de cabeleiras luxuosas e rostos lisos, com grandes olhos amendoados, sombrosos na escuridão dos longos cílios. E que o ar sempre perfumado sairia das grutas da manhã rumo às bocas das ruas das cidades, escalonadas sobre os gramados dos jardins, sobrepujando com suas esféricas torres as emplumadas cristas dos parques e terraços.

E o rosto romboidal do Astrólogo, com as pontas dos bigodes caídas ao longo das comissuras dos lábios, e sua cartola de cocheiro de praça, o entusiasmou; depois pensou que, unido à sociedade, poderia continuar seus ensaios de eletrotécnica, e agora cruzava as ruas semelhante a um imperador decaído, sem reparar que seu porte seduzia as passadeiras que passavam com a cesta debaixo do braço, e emocionava as costureiras de calças que voltavam das lojas com pesados embrulhos.

Inventaria o Raio da Morte, um sinistro relâmpago violeta cujos milhões de ampères fundiriam o aço dos dreadnoughts, como um forno funde uma lentilha de cera, e faria saltar em cascalhos as cidades de cimento Portland, como se as sublevassem vulcões de trinitrotolueno. Via-se convertido em Dono do Universo. Com uma esquela terminante, convocava os Embaixadores das Potências. Encontrava-se num desmedido salão de muros envidraçados, cujo centro era ocupado por uma mesa redonda.

Em redor, afundados nas poltronas, estavam os velhos diplomatas, cabeças calvas, semblantes plúmbeos, olhares duros e furtivos. Alguns golpeavam com o verso do lápis o cristal da mesa, outros fumavam silenciosos, e um gigantesco negro uniformizado de verde mantinha-se imóvel junto ao veludo vermelho dos cortinados que cobriam a entrada.

E ele! Erdosain, Augusto Remo Erdosain, o ex-ladrão, o ex-cobrador, levantava-se. Seu busto modelado por um paletó preto transpassado se refletia no vidro da mesa, com os quatro dedos da mão direita encaixados no bolso, e na esquerda alguns papéis. Já de pé, examinava com olhos glaciais o impassível rosto dos Embaixadores. Uma palidez terrível o imobilizava com seu frio delicioso. Heróis de todas as épocas sobreviviam nele.

Ulisses, Demétrio, Aníbal, Loyola, Napoleão, Lênin, Mussolini cruzavam diante de seus olhos como grandes rodas ardentes e se perdiam num declive da terra solitária sob um crepúsculo que já não era terrestre.

Suas palavras caíam em sons breves, com choques sólidos de aço. E, seduzido pela teatralidade do espetáculo, contemplava-se num espelho imaginário, estremecido e irado.

Impõe condições.

Os Estados deviam entregar-lhe suas frotas de guerra, milhares de canhões e feixes de fuzis.

Depois, de cada raça, seriam selecionadas algumas centenas de homens, isolados numa ilha, e o resto da humanidade seria destruída. O Raio explodiria as cidades, esterilizaria campos, converteria em cinzas as raças e os bosques. Perder-se-ia para sempre a lembrança de toda ciência, de toda arte e beleza.

Uma aristocracia de cínicos, bandoleiros supersaturados de civilização e ceticismo, tomava posse do poder, com ele à cabeça.

E, como o homem, para ser feliz, precisa apoiar suas esperanças numa mentira metafísica, eles robusteceriam o clero, instaurariam uma inquisição para decepar toda heresia que solapasse os alicerces do dogma ou a unidade de crença que seria a absoluta unidade da felicidade humana, e o homem, restituído ao estado primitivo de sociedade, se dedicaria, como nos tempos dos faraós, às tarefas agrícolas.

A mentira metafísica devolveria ao homem a felicidade que o conhecimento lhe havia secado em botão dentro do coração. Suas palavras caíam com sons curtos e secos, como os choques de cubos de aço. E dizia aos Embaixadores:

— A cidade de nós, os Reis, será de mármore branco e estará à beira do mar. Terá um diâmetro de sete léguas e cúpulas de cobre rosa, lagos e bosques. Ali viverão os santos de ofício, os patriarcas tratantes, os magos fraudulentos, as deusas apócrifas. Toda ciência será magia. Os médicos irão pelos caminhos disfarçados de anjos, e, quando os homens se multiplicarem demais, em castigo de seus crimes, luminosos dragões voadores derramarão pelos ares vibriões de cólera asiática.

“O homem viverá em plena etapa de milagre, e será milionário de fé. Durante as noites projetaremos nas nuvens, com poderosos refletores, a ‘entrada do Justo no Céu’. Os senhores imaginam? Subitamente, por sobre as montanhas, surge um raio verde e lilás, e as nuvens se cobrem de um jardim onde o ar branco flutua como flocos de neve.

Um anjo de asas cor-de-rosa cruza os canteiros, detém-se diante da grade do Paraíso, e com os braços abertos recebe o ‘Justo’, um homem do povo, com chapéu amassado, longa barba e porrete. Compreendem, canalhas, profissionais, cínicos e exímios? Compreendem? O anjo das asas cor-de-rosa recebe o homem que na terra sua e sofre.

Percebem como é genial a minha ideia, que maravilhoso o milagre fácil? E as multidões adorarão Deus de joelhos, e unicamente o céu não existirá para nós, bandoleiros tristes que temos o poder, a ciência e a verdade inútil.”

Tremia ao falar.

— Seremos como deuses. Doaremos aos homens milagres estupendos, belezas deliciosas, divinas mentiras, lhes daremos de presente a convicção de um futuro tão extraordinário que todas as promessas dos sacerdotes serão pálidas diante da realidade do prodígio apócrifo. E então eles serão felizes... Compreendem, imbecis?

Com um esbarrão, um carregador o arremessou contra um muro. Erdosain deteve-se espantado, apertou convulsivamente o dinheiro no bolso e, excitado, ferozmente alegre como um tigrinho solto num bosque de tijolo, cuspiu na fachada de uma casa de modas, dizendo:

— Serás nossa, cidade.

Atrás dele caminhava o Major.

1/1
Menu

Fazer anotação