Os Sete Loucos: O aceno
O aceno
Em Temperley, o Astrólogo o esperava. Um sorriso cheio de bondade iluminava seu rosto. Erdosain quase correu ao seu encontro, mas o outro, tomando-o pelos braços, deteve-o um instante olhando-o nos olhos; depois, tratando-o por tu, coisa que nunca havia feito, disse-lhe:
— Está contente?
Erdosain enrubesceu. Naquele instante, um duplo mistério ficou revelado em sua consciência. Aquele homem não mentia, e ele se sentiu tão amigo dele que agora teria querido conversar indefinidamente, narrar-lhe os pormenores mais íntimos de sua vida desgraçada, e só atinou a dizer:
— Sim, estou muito contente.
O Astrólogo deteve-se um momento no andaime da estação. Agora o tratava por senhor, como de costume.
— Sabe? Muitos carregamos um super-homem dentro de nós. O super-homem é a vontade em seu rendimento máximo, sobrepondo-se a todas as normas morais e executando os atos mais terríveis como um gênero de alegria ingênua... algo assim como o jogo inocente da crueldade.
— Sim, e já não se sente medo nem angústia; é como se a gente andasse caminhando em cima das nuvens.
— Claro, o ideal seria despertar em muitos homens essa ferocidade jovial e ingênua. A nós cabe inaugurar a era do Monstro Inocente. Tudo se fará, sem dúvida alguma. É questão de tempo e audácia, mas, quando perceberem que o espírito afunda na latrina desta civilização, antes de se afogarem vão torcer o caminho. O que há é que o homem não reparou que está doente de covardia e de cristianismo.
— Mas o senhor não queria cristianizar a humanidade?
— Não, o montão... mas, se esse projeto fracassar, tomaremos um caminho contrário. Nós ainda não assentamos princípio algum, e o prático será açambarcar os princípios mais opostos. Como numa farmácia, teremos as mentiras perfeitas e diversas, rotuladas para as doenças mais fantásticas do entendimento e da alma.
— Sabe que o senhor me parece o louco da usina, como Barsut lhe dizia ontem?
— O que chamamos loucura é a falta de costume do pensamento dos outros. Veja, se esse carregador confessasse ao senhor as ideias que lhe ocorrem, o senhor o trancaria num manicômio. Naturalmente, como nós deve haver poucos... o essencial é que de nossos atos recolhamos vitalidade e energia. Ali está a salvação.
— E Barsut?
— Nem suspeita o que o espera.
— E como vai eliminá-lo?
— Bromberg o estrangulará... Não sei, é uma questão que não me diz respeito.
Sob o sol, evitando as poças, encaminhavam-se para a morada. E Erdosain dizia a si mesmo:
— E a cidade de nós, os Reis, será de mármore branco e estará à beira do mar... e seremos como deuses. — E, olhando-o com os olhos resplandecentes, disse ao companheiro: — Sabe que algum dia seremos como deuses?
— É isso que a gente besta não compreende. Assassinaram os deuses. Mas chegará o dia em que, sob o sol, correrão pelos caminhos gritando: “Nós queremos Deus, precisamos de Deus”. Que bárbaros! Eu não explico como puderam assassinar Deus. Mas nós o ressuscitaremos... inventaremos uns deuses belos... supercivilizados... e que outra coisa será então a vida!
— E se tudo fracassasse?
— Não importa... virá outro... virá outro que me substituirá. Assim tem de acontecer. A única coisa que devemos desejar é que a ideia germine nas imaginações... no dia em que estiver em muitas almas, coisas belas acontecerão.
Erdosain assombrava-se com sua serenidade.
Já não temia nada, e outra vez recordou o salão dos Embaixadores, e seu olhar malévolo se recolheu na perturbação dos velhos diplomatas, cabeças calvas, semblantes plúmbeos, olhares duros e furtivos, e então, sem poder se conter, exclamou:
— Que tanto “encher” para torcer o pescoço dessa besta!
O outro o olhou surpreendido.
— Está nervoso ou é que se enfurece sozinho, como os elefantes?
— Não, arrebenta-me esta carga de escrúpulo antigo.
— Assim são os mocinhos — respondeu o Astrólogo. — Sua vida é parecida à de um gato entre uma porta entreaberta.
— Assisto à execução?
— Interessa-lhe?
— Muito.
Mas, ao atravessar a porta da chácara, uma náusea lhe revolveu o estômago e ele sentiu na garganta o reflexo gástrico de um vômito. Mal conseguia ficar de pé. Em seus olhos, as formas estavam veladas por uma neblina leitosa. Das articulações pendiam-lhe os braços com peso de membros de bronze.
Caminhava sem consciência da distância; o ar pareceu vitrificar-se, o chão ondulava sob suas plantas, e, por momentos, a vertical das árvores se convertia num zigue-zague dentro de seus olhos.
Respirava com fadiga, tinha a língua ressecada e inutilmente tentava umedecer os lábios apergaminhados e as fauces ardentes; só uma vontade de vergonha o mantinha de pé.
Quando entreabriu os olhos, descia pela escadinha da cocheira em companhia de Bromberg.
O Homem que viu a Parteira caminhava como atordoado, com a cabeleira desgrenhada em alvoroço.
Tinha as calças supérfluas sustentadas pela pretina, e um pedaço de camisa branca como a ponta de um lenço escapava de sua braguilha. Tapava a boca com o punho, soltando enormes bocejos. Mas seu olhar sonolento, perdido, parecia alheio à sua atitude de patão. Eram belos os seus olhos, sérios e incoerentes como os das grandes bestas, entre as pálpebras pestanudas que sombreavam suas olheiras num rosto redondo e fino de donzela.
Erdosain olhou-o, mas o outro pareceu não vê-lo, submerso em sua magnífica incoerência. Depois olhou abobado para o Astrólogo; este lhe fez um sinal com a cabeça e, depois de abrir o cadeado, os três entraram no estábulo.
Barsut levantou-se de um salto: ia falar. Bromberg descreveu uma curva no ar, e um choque de crânios contra as tábuas retumbou na cocheira. Na poeira, o sol alongava um losango amarelo. Do monte informe desprendiam-se roncos surdos.
Erdosain seguia com curiosidade cruel a luta, e de repente, da cintura de Bromberg, que estava avolumado sobre Barsut com os dois enormes braços tensos na sujeição de um pescoço contra o chão, desprendeu-se a calça, ficando com as nádegas brancas descobertas e a camisa sobre os rins. E o ronco surdo já não foi. Houve um instante de silêncio, enquanto o assassino, semidespido, imóvel, oprimia mais fortemente a garganta do morto.
Erdosain olhava, nada mais.
O Astrólogo aguardava com o relógio na mão. Assim ficaram dois minutos, que para Erdosain não tiveram extensão.
— Basta, já está.
Torpe, com o cabelo grudado à testa, Bromberg voltou-se e, sem fixar em ninguém seu olhar incoerente, pegou, ruborizado, as pontas da calça, abotoando-a apressadamente.
O assassino havia saído da cocheira. Erdosain o seguiu, e o Astrólogo, que era o último, voltou-se para olhar o estrangulado.
Este permanecia no chão, com a cabeça voltada para o teto, as mandíbulas distendidas e a língua colada ao vértice dos lábios torcidos numa comissura que descobria os dentes.
Nessa circunstância ocorreu um acontecimento estranho, de que Erdosain não se deu conta. O Astrólogo, detendo-se sob o dintel da cocheira, voltou o rosto para o morto; então Barsut, levantando os ombros até as orelhas, esticou o pescoço e, olhando para o Astrólogo, piscou uma pálpebra. Este tocou a aba do chapéu com o indicador e saiu para se reunir a Erdosain, que, sem poder se conter, exclamou:
— E isso é tudo?
O Astrólogo levantou para ele um olhar zombeteiro.
— Mas o senhor achava que “isso” é como no teatro?
— E como vai fazê-lo desaparecer?
— Dissolvendo-o em ácido nítrico. Tenho três garrafões. Mas, falando de tudo um pouco, tem notícias da rosa de cobre?
— Sim, saiu muito bem. Os Espila estão contentíssimos. Ontem à noite, precisamente, vi uma amostra muito boa.
— Bom, almoçaremos... que bem merecemos. Mas, quando iam entrar na sala de jantar, o Astrólogo disse:
— Como... não vamos lavar as mãos?
Erdosain o olhou surpreendido e instintivamente levantou as mãos até onde se cruzavam as lapelas de seu paletó para olhá-las. Então, apressadamente, em silêncio, dirigiram-se ao banheiro; despindo os paletós, abriram as torneiras. Erdosain pegou um pedaço de sabão e, conscienciosamente, arregaçado até os cotovelos, esfregou-se com ele. Depois pôs os braços sob o jorro de água e secou-se vigorosamente na toalha. Mas, antes de sair, o Astrólogo executou um ato estranho.
Pegando a toalha, jogou-a no fundo da banheira, tomou um frasco de álcool, verteu seu conteúdo sobre ela, depois acendeu um fósforo, e durante um minuto os dois semblantes no quarto escuro foram iluminados pelas azuladas chamas do inflamável que consumia o tecido. Depois, por todo resto, ficou ali um depósito enegrecido de cinzas; o Astrólogo abriu uma torneira, novamente a água corria arrastando a leve carbonização, e então ambos saíram para a sala de jantar.
Um sorriso irônico brincava no rosto de Erdosain.
— Então fez como Pilatos, hein?
— Tem razão, e inconscientemente.
Na sala de jantar sombria, as persianas entreabertas deixavam ver o jardim. Tenros talos de madressilva trepavam até as madeiras do caixilho. Insetos transparentes escorregavam no ar junto ao limoeiro, e as paredes brancas se refletiam na loura opacidade do piso encerado. As franjas da toalha caíam em torno dos pés quadrados da mesa.
Num vaso etrusco, um ramo de cravos espalhava sua apimentada fragrância, e os talheres prateados brilhavam sobre o linho e a louça; as sombras se enroscavam como cachos na convexidade vítrea das taças, ou se estendiam em faixas triangulares sobre os pratos. Numa travessa oval havia uma maionese de lagostins.
O Astrólogo serviu vinho. Comiam em silêncio. Depois o Astrólogo trouxe caldo amarelo de gemas de ovos, uma bandeja de aspargos nadando em óleo, salada de alcachofras e, mais tarde, peixe. Como sobremesa houve ricota polvilhada de canela e frutas.
Depois serviu café, e Erdosain lhe entregou o dinheiro. O Astrólogo o recontou:
— Aqui tem três mil e quinhentos. Faça vários ternos. O senhor é um belo moço e convém que ande elegante.
— Muito obrigado... mas escute... estou morto de sono. Vou dormir um pouco. Quer me acordar às cinco?
— Como não, venha. — E o Astrólogo o acompanhou até seu dormitório. Erdosain tirou os botins, já extenuado, jogou o paletó no respaldo da cama. Um ardor enorme lhe queimava as pálpebras, seu peito cobriu-se de suor espesso e ele não pensou mais.
Despertou já escurecido, ao ruído do Astrólogo que abria uma persiana. Voltou-se sobressaltado, enquanto o outro lhe dizia:
— Finalmente! Há vinte e oito horas que está dormindo. — Mas, como ele expressasse dúvida, o Astrólogo lhe alcançou os jornais do dia, e, certamente, haviam passado dois dias.
Erdosain saltou da cama pensando em Hipólita.
— É preciso que eu vá embora.
— O senhor dormia que parecia um morto. Nunca vi ninguém dormir assim, com tal cansaço, até com o esquecimento das necessidades naturais... mas, a propósito, de onde o senhor tirou essa história do suicida do café? Vi os jornais de ontem à noite e desta manhã. Nenhum traz essa notícia. O senhor sonhou.
— No entanto, posso lhe mostrar o café.
— Pois então sonhou com o café.
— Pode ser... não tem importância... e isso?...
— Já está.
— Tudo?
— Tudo.
— E o ácido?
— Vamos despejá-lo no sumidouro.
— Então já?...
— É como se nunca tivesse existido.
Ao se despedir do Astrólogo, este lhe disse:
— Venha na quarta-feira, às cinco. À noite teremos reunião. Não se esqueça de comprar um terno pronto enquanto lhe fazem os outros. Não falte, que estarão o Buscador de Ouro, o Rufião e outros, outros. Trocaremos ideias e lembre-se de que tenho muito interesse na questão dos gases asfixiantes. Faça um projeto para uma fábrica reduzida de cloro e fosgênio. Ah, e veja se consegue averiguar que diabos é o gás mostarda.
Destrói qualquer substância que não esteja protegida por um impermeável empapado em óleo.
— O fosgênio é oxicloreto de carbono.
— Não perca tempo, Erdosain. Uma fábrica pequena. Que possa servir de escola de química revolucionária. Lembre-se de que nossas atividades podem se dividir em três partes. O Buscador de Ouro ficará encarregado do relacionado à colônia, o senhor com as indústrias, Haffner com os prostíbulos.
Agora que temos dinheiro, não há que perder tempo. É necessário que trabalhe. O que me diz se organizarmos uma usina que chegue a ser na Argentina o que foi a Krupp na Alemanha? É preciso ter confiança. Do nosso podem sair muitas surpresas. Somos descobridores que não sabem senão em conjunto para onde vão. E isso mesmo quem sabe!...
Erdosain fixou por um segundo os olhos no semblante romboidal do outro; depois, sorrindo zombeteiramente, disse:
— Sabe que o senhor se parece com Lênin?
E, antes que o Astrólogo pudesse responder, saiu.