Os Sete Loucos: A casa negra
A casa negra
E nele apareceu a angústia, mas tão poderosa que, de repente, Erdosain levava as mãos à cabeça, enlouquecido por uma dor física. Parecia-lhe que a massa encefálica se havia desprendido do crânio e que se chocava contra as paredes dele ao movimento da menor ideia.
Sabia que estava irremediavelmente perdido, desterrado da possível felicidade que sempre, algum dia, sorri na face mais pálida; compreendia que o destino o abortara para o caos daquela espantosa multidão de homens esquivos que mancham a vida com suas estampas esmagadas por todos os vícios e sofrimentos.
Ele já não tinha nenhuma esperança, e seu medo de viver se tornava mais poderoso quando pensava que jamais teria ilusões; quando, com os olhos obstinadamente fixos num canto do quarto, reconhecia que lhe era indiferente trabalhar como lavador de pratos numa pensão ou como criado num prostíbulo.
Que lhe importava! A angústia o nivelara no seio de uma multidão silenciosa de homens terríveis que, durante o dia, arrastam sua miséria vendendo artefatos ou bíblias, percorrendo ao anoitecer os urinóis onde exibem seus órgãos genitais aos rapazotes que entram nos mictórios acossados por outras ansiedades semelhantes.
Essas convicções o entorpeciam em meditações sombrias. Sentia-se aparafusado a um bloco formidável do qual jamais escaparia.
Porque essa angústia chegou a ser tão persistente que, de repente, descobriu que sua alma estava triste pelo destino que, na cidade, aguardava seu corpo, um corpo que pesava setenta quilos e que ele só via quando o encaminhava diante de um espelho.
Em outros tempos, com o pensamento, ele se havia rodeado de todos os confortos e prazeres, prazeres que, por não estarem limitados pela matéria, não tinham duração nem fronteiras; ao passo que sua tristeza atual se referia a seu corpo, um corpo sofredor, no qual às vezes Erdosain pensava como se já não lhe pertencesse, mas com o remorso de não tê-lo feito feliz.
Essa tristeza, quando se referia ao seu pobre físico, tornava-se profunda, como deve ser profunda a dor de uma mãe que nunca pôde satisfazer os desejos do filho.
Porque ele não dera à sua carne, que viveria tão pouco tempo, nem um traje decente, nem uma alegria que a reconciliasse com o viver; ele nada fizera pelo prazer de sua matéria, enquanto ao seu espírito não fora negada nem a geografia dos países para os quais os homens ainda não descobriram máquinas que cheguem.
E muitas vezes dizia a si mesmo:
— O que fiz eu pela felicidade deste desgraçado corpo meu?
Porque o certo é que, em certas circunstâncias, se sentia tão alheio a ele quanto o vinho ao tonel que o contém.
Depois recaía na ideia de que aquele corpo era o que envasava suas cismas, nutria-as com seu sangue cansado; um corpo miserável, malvestido, que nenhuma mulher se dignava olhar e que sentia o desprezo e a carga dos dias, da qual só eram responsáveis seus pensamentos, que nunca haviam apetecido os prazeres que ele reclamava em silêncio, timidamente.
Erdosain se sentia apiedado, entristecido por seu duplo físico, do qual era quase um estranho.
Então, como um desesperado que se atira de um sétimo andar, ele se lançava no delicioso terror da masturbação, querendo aniquilar seus remorsos num mundo do qual ninguém podia expulsá-lo, cercando-se das delícias que estavam afastadas de sua vida, de todos os corpos mais distintos e formosos, para os quais seriam necessárias uma soma imensa de existências e dinheiro para gozar.
Era aquele um universo de ideias gelatinosas, rompido em passagens onde a obscenidade se vestia com as sedas, rendas, veludos e guipures mais caros; um mundo resplandecente em sua polpa crepuscular. Transitavam nele as mulheres mais belas da criação, desconhecidas lisas que, para ele, descobriam os seios de maçã, oferecendo à sua boca, azedada por cigarros indignos, lábios fragrantes e palavras pesadas de sensualidade.
E ora eram donzelas altas, finas e polidas, ora colegiais corrompidas, um mundo feminino e diverso do qual ninguém podia expulsá-lo, ele, pobre-diabo, a quem as regentes dos prostíbulos mais desmantelados olhavam com desconfiança, como se fosse fraudá-las no valor da fornicação.
Fechava os olhos e entrava na ardente escuridão, esquecido de tudo, como o fumador de ópio que, ao entrar no repugnante fumadouro onde o patrão chinês cheira a excremento, acredita recuperar o céu.
E, por um instante, deslizava sub-repticiamente para o prazer clandestino, envergonhado, mas com a impaciência de um rapazola ao entrar pela primeira vez num lenocínio.
O desejo zumbia como um moscardo em seus ouvidos, mas ninguém podia arrancá-lo já da escuridão sensual.
Era essa escuridão uma casa familiar em que perdia subitamente as noções do viver comum.
Ali, na casa negra, eram-lhe habituais os prazeres terríveis que, se os tivesse suspeitado na existência de outro homem, o teriam separado dele para sempre.
Embora essa casa negra estivesse em Erdosain, ele entrava nela fazendo rodeios singulares, manobras tortuosas, e, uma vez transposto o umbral, sabia que era inútil retroceder, porque pelos corredores da casa negra, por um exclusivo corredor sempre enfardado de sombras, avançava ao seu encontro, com pés ligeiros, a mulher que um dia, na calçada, num bonde ou numa casa, o havia enrijecido de desejo.
Como quem tira da carteira um dinheiro que é produto de esforços distintos, Erdosain tirava das alcovas da casa negra uma mulher fragmentária e completa, uma mulher composta por cem mulheres despedaçadas pelos cem desejos sempre iguais, renovados diante da presença de mulheres semelhantes.
Porque esta tinha os joelhos de uma moça a quem o vento desviava a saia enquanto esperava o ônibus, e as coxas que ele se lembrava de ter visto num cartão-postal pornográfico, e o sorriso triste e esmaecido de uma colegial que havia muito tempo encontrara no bonde, e os olhos esverdeados de uma modistinha com a boca pálida cercada de espinhas que, aos domingos, saía ao entardecer com uma amiga para dançar nesses centros recreativos onde os balconistas empurram, com suas braguilhas sublevadas, as mocinhas que gostam dos homens.
Essa mulher arbitrária, amassada com a carnadura de todas as mulheres que não pudera possuir, tinha com ele aquelas complacências das noivas prudentes que já deixaram as mãos nas entrepernas dos noivos sem deixar por isso de ser honestas. Ia em direção a ele.
Tinha as nádegas contidas por uma faixa ortopédica, que deixava livres seus seios ligeiramente arqueados, e seus modos eram irrepreensíveis como os de uma senhorita educada que sabe raciocinar, o que não a impede de deixar que o noivo perca os dedos no corpete entreaberto por um descuido.
Depois caía nos abismos da casa negra. A casa negra! Erdosain conservava daqueles tempos uma recordação abominável; tinha a sensação de haver vivido no interior de um inferno, cujo conteúdo diabólico o acompanhava através dos dias, e ainda pouco antes de sua morte, perseguido pela justiça.
Quando voltava sua memória para aquela época, exaltava-se sobriamente, uma chama vermelha brilhava diante de seus olhos, e tal era seu doloroso furor que teria querido, de um salto, chegar para além das estrelas, queimar-se numa fogueira que limpasse seu presente de todo aquele terrível passado, persistente e inevitável.
A casa negra! Ainda me parece ter diante dos olhos o semblante enrijecido do homem taciturno que, de repente, levantava a cabeça para o teto; depois baixava os olhos até pô-los à altura dos meus e, sorrindo friamente, acrescentava:
— Vá, diga aos homens o que é a casa negra. E que eu era um assassino. E, no entanto, eu, o assassino, amei todas as belezas e lutei em mim mesmo contra todas as horríveis tentações que, hora após hora, subiam de minhas entranhas. Sofri por mim, e pelos outros, está entendendo?, também pelos outros...