Os Sete Loucos: Trabalho da angústia Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 19 de 34
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Os Sete Loucos: Trabalho da angústia

Trabalho da angústia

Naquela noite, não dormiu. Estava extremamente cansado. Tampouco pensava em nada. Tentou dar-me uma definição daquele estado com estes termos:

— A alma está como se tivesse saído meio metro do corpo. Um aniquilamento muscular extraordinário, uma ansiedade que não termina nunca. O senhor fecha os olhos e parece que o corpo se dissolve no nada; de repente se recorda um detalhe perdido entre os milhares de dias que viveu. Nunca cometa um crime, porque isso, mais que horrível, é triste.

O senhor sente que vai cortando, uma após outra, as amarras que o prendiam à civilização, que vai entrar no mundo escuro da barbárie, que perderá o leme; diz a si mesmo, e isso também eu disse ao Astrólogo, que aquilo provinha de falta de training na delinquência, mas não é isso, não.

Na realidade, o senhor gostaria de viver como os outros, ser honrado como os outros, ter um lar, uma mulher, assomar à janela para olhar os transeuntes que passam, e, no entanto, já não há uma só célula do seu organismo que não esteja impregnada da fatalidade encerrada nestas palavras: tenho de matá-lo. O senhor dirá que raciocino meu ódio. Como não raciociná-lo? Tenho a impressão de que vivo sonhando.

Até percebo que falo tanto para me convencer de que não estou morto, não pelo ocorrido, mas pelo estado em que um fato assim o deixa. É igual à pele depois de uma queimadura. Cura, mas o senhor viu como fica?, enrugada, seca, tensa, brilhante. Assim fica a alma da gente. E o brilho que às vezes se reflete nela queima os olhos. E as rugas que ela tem lhe causam repugnância. O senhor sabe que leva no interior um monstro que a qualquer momento se soltará, e não sabe em que direção.

“Um monstro!” Muitas vezes fiquei pensando nisso. Um monstro calmo, elástico, indecifrável, que surpreenderá o próprio senhor com a violência de seus impulsos, com as obliquidades satânicas que descobre nos recantos da vida e que lhe permitem discernir infâmias de todos os ângulos. Quantas vezes me detive em mim mesmo, no mistério de mim mesmo, e invejava a vida do homem mais humilde! Ah!, nunca cometa um crime. Veja como estou.

E me confesso ao senhor porque sim, talvez porque o senhor me compreenda...

E a noite?... Cheguei tarde em casa. Atirei-me vestido sobre a cama. A emoção que um jogador pode experimentar eu sentia nas batidas ansiosas do meu coração.

Na realidade, não pensava nos acontecimentos posteriores ao delito, mas mantinha à beira dele a curiosidade de saber como eu me comportaria, o que Barsut faria, de que forma o Astrólogo o sequestraria; e o crime que eu lera em alguns romances se apresentava interessante; via agora que era algo mecânico, que cometer um crime é simples, e que ele nos parece complicado porque carecemos do costume de cometê-lo.

Tanto é assim que me lembro de ter ficado deitado, com o olhar fixo num ângulo do quarto escuro. Pedaços de antiga existência, mas inconexos, passavam diante dos meus olhos como empurrados por um vento.

Nunca cheguei a explicar a mim mesmo o mecanismo misterioso da lembrança, que faz com que, nas circunstâncias excepcionais de nossa vida, de repente adquira importância quase extraordinária o detalhe insignificante e a imagem que, durante anos e anos, esteve coberta em nossa memória pelo presente da vida.

Ignorávamos que existiam aquelas fotografias interiores e, de repente, o véu espesso que as cobre se rompe; e assim, naquela noite, em vez de pensar em Barsut, deixei-me ficar ali, naquele triste quarto de pensão, na atitude de um homem que espera a chegada de algo, desse algo de que falei tantas vezes e que, a meu modo de ver, devia dar uma guinada inesperada em minha vida, destruir por completo o passado, revelar-me a mim mesmo um homem absolutamente distinto daquele que eu era.

Na realidade, o crime não me preocupava muito, mas outra curiosidade: de que forma eu me manifestaria depois do crime? Sofreria remorsos? Enlouqueceria, acabaria indo me denunciar? Ou simplesmente viveria como até então, dolorido dessa impotência singular que dava a todos os atos da minha vida uma incoerência que agora o senhor diz serem sintomas de minha loucura?

O curioso é que às vezes eu sentia grandes impulsos de alegria, vontade de rir para simular um paroxismo de loucura que não existia em mim; mas, quebrado o impulso, tentava imaginar de que forma sequestraríamos Barsut. Estava certo de que ele se defenderia, mas o Astrólogo não era homem de entrar sem previsão numa empresa.

Outras vezes, eu me punha o problema de que modo Barsut havia adivinhado que a circular do Ministério da Guerra estava falsificada, e me admirava de ter conseguido aquela perfeita presença de espírito quando, voltando para mim a cara ensaboada, ele disse quase ironicamente:

— Olha que curioso se a circular estivesse falsificada.

Na realidade, ele era um canalha, mas eu não ficava atrás; a diferença talvez consistisse em que ele não experimentava curiosidade por suas baixas paixões como eu a sentiria. Além disso, naquelas circunstâncias, nada me importava. Talvez eu fosse quem o matasse, talvez fosse o Astrólogo; o caso é que eu havia lançado minha vida num recanto monstruoso, em que os demônios brincavam com meus sentidos como com dados metidos num copo.

Chegavam ruídos distantes; o cansaço se infiltrava por minhas articulações; às vezes me parecia que a carne, como uma esponja, chupava o silêncio e o repouso. Ideias torvas me ocorriam a respeito de Elsa, um rancor taciturno me enrijecia os músculos dos maxilares; eu chegava a sentir pena de minha pobre vida.

No entanto, a única forma de me reabilitar diante de mim mesmo era assassinando Barsut, e de repente eu me via de pé junto a ele; estava amarrado com cordas grossas e deitado sobre um monte de sacos; dele só era nítido o perfil verde do olho e o nariz pálido; eu me inclinava suavemente sobre seu corpo, empunhava um revólver, afastava docemente o cabelo de suas têmporas e lhe dizia em voz muito baixa:

— Você vai morrer, canalha.

O vulto estremecia, eu levantava o revólver, apoiava o cano na pele sobre a têmpora e repetia novamente em voz muito baixa:

— Você vai morrer, canalha.

Os braços se removiam sob as grossas ligaduras; era uma desesperada labuta de ossos e de músculos espantados.

— Você se lembra, canalha, se lembra das batatas, da salada derramada em cima da mesa? Tenho agora essa cara de infeliz que preocupava você?

Mas, intempestivamente, eu sentia vergonha de lhe dizer aquelas vilanias, e então lhe dizia, ou não, não lhe dizia nada; pegava um saco e cobria-lhe a cabeça. Sob a aniagem espessa, a cabeça se removia furiosamente; eu tentava apertá-la contra o chão para garantir a eficácia do disparo e a posição segura do cano do revólver, e a aniagem escorregava sobre os cabelos, e todos os meus esforços eram inúteis para domar a coragem daquela fera, que agora bufava surdamente para escapar da morte.

Se esse sonho se desvanecia, eu me imaginava viajando pelo arquipélago da Malásia, a bordo de um veleiro no Oceano Índico; havia mudado de nome, mascava inglês, minha tristeza talvez fosse a mesma, mas agora eu tinha braços fortes, o olhar sereníssimo; talvez em Bornéu, talvez em Calcutá ou além do mar Vermelho, ou do outro lado da taiga, na Coreia ou na Manchúria, minha vida se reedificaria.

Certo é que já não eram os sonhos do inventor nem do homem que descobria raios elétricos tão poderosos que fundissem massas de aço como se fossem lentilhas de cera, nem ele presidiria a mesa envidraçada da Liga das Nações.

Em outros momentos, o terror avançava em Erdosain: tinha a sensação de estar agrilhoado, a terrível civilização o havia metido dentro de uma camisa de força da qual não se podia escapar. Via-se acorrentado e com o traje riscado, cruzando lentamente, numa coluna presidiária, por entre dunas de neve, rumo aos bosques de Ushuaia. O céu, lá em cima, era branco como uma chapa de estanho.

Essa visão o inflamou; cegado por uma fúria lenta, levantou-se, caminhando de um lado a outro do quarto; tinha intenção de golpear as paredes com os punhos, teria querido perfurar os muros com os ossos; depois se deteve no batente da porta, cruzou os braços, novamente a pena lhe subiu até a garganta. Era inútil tudo quanto fizesse; em sua vida havia uma realidade ostensiva, única, absoluta: ele e os outros.

Entre ele e os outros interpunha-se uma distância, talvez a incompreensão dos demais, ou talvez sua loucura. De qualquer forma, não era por isso menos desgraçado. E novamente o passado se levantou por pedaços diante de seus olhos; a verdade é que teria desejado escapar de si mesmo, abandonar definitivamente aquela vida que continha seu corpo e que o envenenava.

Ah!, entrar num mundo mais novo, com grandes caminhos nos bosques, e onde o fedor das feras fosse incomparavelmente mais doce que a horrível presença do homem.

E caminhava; queria extenuar o corpo, esgotá-lo definitivamente, esmagá-lo pelo cansaço a tal ponto que lhe fosse impossível modular uma única ideia.

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