Os Sete Loucos: Na caverna Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 26 de 34
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Os Sete Loucos: Na caverna

Na caverna

Já na rua, Erdosain observou que chuviscava, mas continuou caminhando, empurrado por um rancor surdo, mau humor de não poder pensar.

Os acontecimentos se complicavam... e ele, enquanto isso, que era no meio dessas engrenagens que o iam bloqueando, metendo-o cada vez mais para dentro da vida, submergindo-o num lodaçal que o desesperava? Além disso, havia aquilo... essa impotência de pensar, de pensar com raciocínios de linhas nítidas, como são as jogadas de xadrez, e uma incoerência mental que o encrespava contra todos.

Então sua irritação voltou-se contra a felicidade bestial dos lojistas, que, às portas de suas tocas, cuspiam na obliquidade da chuva. Imaginou que tramavam eternas trapaças, enquanto suas mulheres arrebentadas se deixavam ver dos fundos das lojas, estendendo toalhas nas mesas mancas, juntando ignóbeis guisados que, ao serem descobertos nas travessas, lançavam à rua flatulências de páprica e de sebo, e ásperos cheiros de milanesas requentadas.

Caminhava carrancudo, investigando com furor lento as ideias que se incubariam sob aquelas testas estreitas, olhando descaradamente as caras lívidas dos comerciantes, que, do covil dos olhos, espiavam com uma faísca de ferocidade os compradores que se moviam nos negócios defronte; e Erdosain sentia, por momentos, ímpetos de insultá-los, vontade de chamá-los de cornos, ladrões e filhos de má mãe, dizendo-lhes que tinham a falsa gordura dos leprosos e que, se alguns estavam magros, era de invejar os sucessos dos próximos.

E, em seu foro íntimo, ia injuriando-os atrozmente, imaginando que aqueles negociantes estavam aparafusados a próximas falências por promissórias espantosas, e que a desgraça que o atirava a ele ao fundo do desespero também pairaria sobre suas mulheres imundas, que, com os mesmos dedos com que momentos antes haviam retirado os panos em que menstruavam, cortariam agora o pão que eles devorariam entre maldições dirigidas aos concorrentes.

E, sem poder explicar a si mesmo, dizia que o mais educado daqueles patifes era de uma grosseria dissimulada e profunda, todos invejosos até o tutano e mais desalmados e implacáveis que cartagineses.

À medida que ia passando diante de colchoarias, armazéns e lojas, pensava que aqueles homens não tinham nenhum objeto nobre na existência, que passavam a vida esquadrinhando, com gozos malignos, a intimidade dos vizinhos, tão canalhas quanto eles, regozijando-se com palavras de falsa compaixão das desgraças que lhes aconteciam, mexericando a torto e a direito de tão entediados que estavam, e isso lhe produziu subitamente tanto rancor que de repente aceitou que o melhor que poderia fazer era ir embora, pois, se não, teria um incidente com aqueles brutos, sob cujas cataduras enfáticas via levantar-se a alma da cidade, acanalhada, implacável e feroz como eles.

Não tinha um propósito determinado; reconhecia que tinha o espírito sujo de asco pela vida, e, de repente, ao ver que passava um bonde rumo à Plaza Once, subiu à plataforma em grandes saltos. Já na bilheteria, tirou passagem de ida e volta para Ramos Mejía. Ia para lá como poderia ter ido em outra direção. Cansado, desconcertado, com a certeza de que havia jogado sua alma num fosso do qual já não poderia sair nunca mais. E esperando-o, a Coxa.

Não teria sido preferível ser capitão de navio e comandar um superdreadnought? As chaminés vomitariam torrentes de fumaça e, na ponte de comando, conversaria com o comandante da torre, enquanto no coração se pintaria a imagem de uma mulher que talvez não fosse sua esposa. Mas por que sua vida era assim? E a dos outros também, também “assim”, como se o “assim” fosse um cunho de desgraça que, visto em outro, tivesse relevo mais borrado.

Que fora feito da vida forte, que certos homens contêm em seu invólucro como o sangue de um leão? A vida forte que, de repente, faz uma existência aparecer para nós sem os tempos prévios de preparação e que tem a perfeita desenvoltura das composições cinematográficas.

Não eram acaso assim as fotografias dos heróis? Quem conservava uma fotografia dos heróis?

Quem conservava uma fotografia de Lênin discutindo num quartucho de Londres, ou de Mussolini vagabundo pelos caminhos da Itália? E, no entanto, eram de repente revelados numa sacada arengando a multidão barbuda, ou entre as colunas truncadas de umas ruínas recentes, com sapatos de esporte e um chapéu jipi-japa que não desdizia a ferocidade do semblante de conquistador.

Em compensação, ele sentia ali, localizada em sua vida, as pequenas imagens da Coxa, do capitão, de sua esposa, de Barsut, todas existências que, assim que se afastavam de seus olhos, ficavam restituídas à dimensão minúscula que a distância confere aos corpos físicos.

Apoiou a cabeça no vidro da janelinha. O vagão deslizou e depois se deteve; ao segundo apito do guarda-trem, o comboio arrancou, e entrou rangendo ferozmente nos trilhos, que se chocavam ferreamente ao serem afastados pelo fio das rodas.

As luzes verdes e vermelhas do subterrâneo lhe ofuscaram os olhos por um instante; depois tornou a fechá-los. Na noite, o trem comunicava sua trepidação aos trilhos, e a massa multiplicada pela velocidade imprimia a seus pensamentos a vertigem de uma marcha igualmente implacável e vertiginosa.

Crac... crac... crac... arrancavam as rodas em cada junta de trilho, e aquele monorritmo surdo e formidável lhe aliviava o rancor, tornava mais leve seu espírito, enquanto a carne se deixava ficar na sonolência que a velocidade comunica aos sentidos.

Depois pensou que Ergueta já estava louco. Recordou as palavras do outro quando estava à beira da desgraça: “some, canalhinha, some”, e, afirmando a cabeça no ângulo acolchoado do encosto, pensou em tempos idos, fechando os olhos para distinguir com clareza as imagens de uma lembrança.

Esta lhe causava certo estranhamento, pois era a primeira vez que observava que, numa lembrança, certas figuras têm a dimensão normal com que foram conhecidas na realidade, enquanto outras figuras ou coisas são pequeninas como soldados de chumbo ou apresentam apenas um perfil, carecendo de profundidade.

Assim, junto à corpulência de um negro, cuja mão se perdia no traseiro de um pequeno, via uma mesinha minúscula, como de bonecas, sobre a qual estavam achatadas as pequenas cabeças de uns homens ladrões, enquanto o teto, de altura real, dava um aspecto de desolação mais extraordinária à cinzenta paragem da lembrança.

Uma multidão escura se movia ali, no interior de sua alma; depois a sombra, como uma nuvem, cobria de cansaço sua pena, e, junto à mesinha onde dormiam os pequeninos ladrões adultos, erguia-se gigantesco e atarracado como um crânio de boi o relevo do patrão da fonda, com os dedos enganchados nos globos musculosos dos braços.

E outra lembrança lhe demonstrava quão exato era seu pressentimento de queda iminente, quando ainda nem havia pensado em defraudar a Açucareira, mas já buscava nas paragens sinistras uma imagem de sua possível personalidade.

Quantas trilhas havia em seu cérebro! Mas agora ia rumo à que conduzia à fonda, a fonda enorme que afundava seu cubo taciturno como um açougue até os últimos recantos de seu cerebelo, e, embora o relevo desse cubo que nascia em sua testa e terminava na nuca fosse de vinte graus, as minúsculas mesinhas com os ladrõezinhos adultos não escorregavam pelo piso como teria sido lógico; o cubo se endireitava sob o contrapeso de um hábito instantâneo, o de pensar nele, e sua carne, já acostumada à velocidade multiplicada pela massa do trem elétrico, se deixava ficar numa inércia vertiginosa; e agora que a lembrança havia vencido a inércia de todas as células, aparecia diante de seus olhos a fonda, como um quadrilátero exatamente recortado.

O qual parecia aprofundar suas retas para o interior de seu peito, de modo que quase podia admitir que, se se olhasse num espelho, a frente de seu corpo apresentaria um salão estreito, aprofundado em direção à perspectiva do espelho. E ele caminhava no interior de si mesmo, sobre um pavimento enlameado de cusparadas e serragem, cujo marco perfeito se biselava rumo ao infinito das sensações adjacentes.

E pensava que, se a Coxa estivesse a seu lado, ele lhe diria, referindo-se a uma lembrança:

— Eu ainda não era ladrão.

Erdosain imaginou que a Coxa o olhava, e ele, com um tom entediado, continuou:

— Ao lado do velho edifício do “Crítica”, na rua Sarmiento, havia uma fonda.

Hipólita levantou os olhos como que interrogando-o; de repente, entre o ranger infernal dos carros ao cruzarem as entrevias de Caballito, Erdosain imaginou que era um personagem que havia vivido como bandido, mas que já se havia regenerado, e então continuou dizendo à sua interlocutora invisível:

— E ali se reuniam vendedores de jornais e ladrões.

— Ah, sim?

O patrão, para evitar que os tumultos formados por essa canalha terminassem de quebrar as vidraças das vitrines, mantinha continuamente baixadas as cortinas metálicas.

A luz entrava no salão pelos vidros da bandeirola tingidos de azul, de modo que, naquela jaula de muros pintados de cinza como os de um açougue turco, flutuava uma escuridão que tornava leitosa a fumaceira dos cigarros.

Naquele cubo sombrio, de teto cruzado por enormes vigas, e que a cozinha da fonda inundava de neblinas de cozido e sebo, movia-se o tumulto escuro, uma “merza” de ladrões, sujeitos de testas sombreadas pelas viseiras dos bonés e lenços frouxamente amarrados no decote das camisetas.

Das onze às duas da tarde, apinhavam-se em torno das mesas engorduradas de mármore para chupar conchas de amêijoas podres ou jogar cartas entre copos de vinho.

Naquela bruma fedorenta, os semblantes afirmavam gestos canalhescos; viam-se fuças como alongadas pela violência de uma estrangulação, mandíbulas caídas e lábios frouxos em forma de funil; negros de olhos de porcelana e dentaduras brilhantes entre a almorrana de seus beiços, que apalpavam o traseiro dos menores, fazendo-os ranger os dentes; ratoneiros e “batidores” com perfil de tigre, a testa afundada e a pupila rígida.

Um vozerio rouco vomitava esses cachos esparramados nos bancos e acotovelados aos mármores, entre os quais deslizavam os “lanceros”, de traje ajeitado, colarinho frouxo, colete cinza e chapéus-coco de sete pesos. Alguns acabavam de sair de Azcuénaga e davam notícias dos novos presos, transmitindo recados; outros, para inspirar confiança, usavam óculos de tartaruga, e todos, ao entrar, varriam o antro de lado com olhares rapidíssimos.

Falavam em voz baixa, sorrindo convulsivamente, pagando garrafas de cerveja a estranhos comparsas, e saíam e entravam várias vezes em um quarto de hora, chamados por misteriosas diligências. O dono dessa caverna era um homem enorme, cara de boi, olhos verdes, nariz de trombeta e lábios finos apertadíssimos.

Quando se encolerizava, seus rugidos sobressaltavam a canalha, que o temia. Lidava com ela usando uma violência surda. Um perdulário fazia mais escândalo do que era tacitamente tolerado, e, de repente, o dono da fonda se aproximava; o barulhento sabia que o outro lhe bateria, mas aguardava em silêncio, e então o gigante descarregava, com o fio do punho, terríveis golpes curtos na borda do crânio do culpado.

Um emudecimento gozoso acompanhava o castigo; o desgraçado era lançado à rua a pontapés, e o vozerio se renovava mais injurioso e ressonante, deslocando nuvens de fumaça em direção ao quadrilátero envidraçado da porta. Às vezes entravam músicos ambulantes naquela jaula, frequentemente um bandoneón e uma guitarra.

Afinavam os instrumentos, e um silêncio de expectativa acocorava cada fera em seu canto, enquanto uma tristeza movia sua ondulação invisível naquela atmosfera de aquário.

O tango carcerário surgia choroso das caixas, e então os miseráveis compassavam inconscientemente seus rancores e suas desgraças. O silêncio parecia um monstro de muitas mãos que levantasse uma cúpula de sons sobre as cabeças derrubadas nos mármores.

Talvez em que pensassem! E essa cúpula terrível e alta, adentrada em todos os peitos, multiplicava o langor da guitarra e do bandoneón, divinizando o sofrimento da puta e o horrível tédio da prisão que espeta o coração quando se pensa nos amigos que estão do lado de fora “se escorçando” até a vida.

Então, nas almas mais de latrina, sob as fuças mais porcas, estourava um tremor ignorado; depois tudo passava e não havia mão que se estendesse para deixar cair uma moeda no boné dos músicos.

— Ali eu ia — dizia Erdosain à sua interlocutora hipotética —. Em busca de mais angústia, da afirmação de saber-me perdido e para pensar em minha esposa, que sozinha em minha casa sofreria por ter se casado com um inútil como eu. Quantas vezes, encurralado nessa fonda, imaginei Elsa fugitiva com outro homem. E eu caía sempre mais abaixo, e esse antro não era senão o adiantamento do pior que haveria de me acontecer mais adiante.

E muitas vezes, olhando aqueles miseráveis, eu me dizia: não chegarei a ser como um destes? Ah, eu não sei como, mas sempre tive o pressentimento do que mais adiante aconteceria. Nunca me enganei. A senhora percebe? E ali, na caverna, encontrei-o um dia meditando: Ergueta. Sim, ele mesmo. Estava sozinho numa mesa, e alguns jornaleiros o olhavam com assombro, embora outros devessem acreditar que era apenas um ladrão bem vestido.

Erdosain imaginou que a Coxa lhe perguntava agora:

— Como, meu marido estava ali?

— Sim, e com sua cara de cachorreiro roía o punho de sua bengala, enquanto um negro levantava o traseiro de um menor. Mas ele não fazia caso de nada. Parecia pregado no chão da caverna. É certo que me disse que tinha ido esperar um vareador que devia lhe passar umas “dicas” para a próxima corrida, mas a verdade é que estava ali como se, de repente, tivesse se sentido perdido e entrado naquela paragem para buscar um sentido para a vida. Essa talvez seja a verdade exata.

Buscar sentido para a vida entre os acontecimentos que a canalha vive. Ali soube pela primeira vez sua determinação de se casar com uma prostituta, e, quando lhe perguntei sobre sua farmácia, respondeu-me que havia deixado o prático em Pico cuidando dela, porque, de primeira intenção, supus que tivesse vindo jogar. Não sei se a senhora saberá que o expulsaram de um clube por fazer trapaças. Até se disse que havia falsificado fichas, mas esse assunto nunca ficou esclarecido.

Só me falou da senhora quando lhe perguntei pela noiva, uma moça milionária de Cacharí, que estava muito apaixonada por ele.

— Cortei faz tempo — respondeu-me.

— Por quê?

— Não sei... me enchia... estava entediado.

— Mas por que a deixou? — insisti.

Uma luz acre convulsionava sua pupila. Mal-humorado, insistiu, afastando com um tapa as moscas que faziam círculo em seu chop de cerveja:

— Sei lá!... De entediado... de turro que sou. E a pobrezinha gostava de mim. Mas que ia fazer comigo? Além disso, já não tem remédio...

— Ergueta lhe disse que isso já não tinha remédio?...

— Sim, senhora; disse assim: “Isso já não tem remédio, porque amanhã me caso”.

O trem elétrico deixou Flores para trás. Erdosain, apoltronado no assento, lembrou que olhou seriamente o farmacêutico, em cujo rosto se difundia aquele movimento à espreita dos músculos que dá ao semblante uma expressão malévola.

— E com quem você se casa?

O semblante de Ergueta empalideceu até as orelhas. À medida que inclinava a cabeça para Erdosain, piscava uma pálpebra, enquanto o outro olho imóvel tentava recolher toda a surpresa que, dentro de um segundo, transfiguraria Erdosain:

— Vou me casar com a Meretriz. — Depois levantou a cabeça e só se via o branco de seus olhos. Eu não me mexi.

O farmacêutico tinha no semblante uma expressão de arrebatamento como a que se vê nas tricromias populares, em que aparece um santo ajoelhado, com o canto das mãos apoiado no peito.

E Erdosain recordava que, nessas circunstâncias, o negro que apalpava o traseiro do menor agora levava as mãos deste às suas partes pudendas, enquanto um círculo de jornaleiros armava um vozerio infernal e o patrão gigantesco cruzava o salão com um prato de sopa numa mão e outro de guisado vermelho, para uma comandita de dois ratoneiros que devoravam num canto.

No entanto, sua resolução não o surpreendeu. Ergueta tinha essas resoluções desesperadas das naturezas frenéticas que obedecem ao império das obsessões com furor lento, uma explosão profunda cujo estampido eles não ouviram, mas cujo crescimento de volume centuplica o instinto. No entanto, aparentando grande serenidade:

— A Meretriz?... Quem é a Meretriz? — perguntei-lhe.

Uma onda de sangue avermelhava seu semblante. Até seus olhos sorriam.

— Quem é, che?... Um anjo, Erdosain. Na minha cara, na minha própria cara, rasgou um cheque de mil pesos que um amante lhe deixou. À criada deu um colar de pérolas que valia cinco mil pesos. Aos porteiros do apartamento, toda a baixela de prata. “Entrarei nua em tua casa”, ela me disse.

— Mas se tudo isso é mentira! — sentia agora Hipólita lhe dizer na lembrança.

— Eu acreditei nele naquela circunstância. E ele continuou me contando:

— Se você soubesse o que essa mulher sofreu. Uma vez, era o sétimo aborto que faziam nela; estava tão desesperada que foi se atirar da janela do quarto andar. De repente, que maravilha, che... na sacada apareceu-lhe Jesus. Esticou o braço e não a deixou passar.

Ergueta ainda sorria. Subitamente meteu a mão no bolso e estendeu um retrato a Erdosain. A deliciosa criatura o sugestionou.

Ela não sorria. Às suas costas, os espaços estavam matizados de palmas e samambaias. Sentada num banco, com a cabeça ligeiramente inclinada, olhava uma revista que seu joelho sustentava, pois cruzava uma perna sobre a outra. Dessa forma, a pouca distância do gramado, o voo de seu vestido suspendia uma campânula. O penteado alto e os cabelos escapados das têmporas faziam mais clara e larga a lua de sua testa.

Aos lados do nariz fino, o arco das sobrancelhas era delgado, como convém aos olhos que são ligeiramente oblíquos num rosto delicadamente ovalado.

E, olhando-a, Erdosain soube de repente que, junto de Hipólita, jamais experimentaria nenhum desejo, e essa certeza o alegrou de tal forma que pensou no deleite de acariciar com os dedos em forquilha o queixo da estranha jovem e escutar o ranger da areia sob a sola de seus sapatinhos.

Depois murmurou:

— Como ela é bonita!... Deve ter uma grande sensibilidade!...

Como era diferente na realidade!

O trem elétrico cruzava agora por Villa Luro. Entre montes de carvão e gasômetros velados pela neblina, reluziam tristemente os arcos voltaicos. Grandes ocos negros se abriam nos galpões das locomotivas, e as luzes vermelhas e verdes, suspensas irregularmente na distância, tornavam mais tétrico o chamado das locomotivas.

Como era diferente a Coxa na realidade! No entanto, recordava que dissera a Ergueta:

— Como é bonita!... Deve ter uma grande sensibilidade!...

— Sim, é assim; além disso, é muito delicada nos modos. Gosto da aventura. Olhe a cara que vão fazer os que duvidavam do meu comunismo. Plantei uma grã-fina, uma virgem, para me casar com uma prostituta. Mas a alma de Hipólita está acima de tudo. Ela também gosta da aventura e dos corações nobres. Juntos faremos grandes coisas, porque os tempos chegaram...

Erdosain recolheu a frase do farmacêutico:

— Então você acredita que os tempos chegaram?...

— Sim, têm de acontecer coisas terríveis. Você não se lembra que uma vez me disse que o presidente Roosevelt tinha feito um grande elogio da Bíblia?

— Sim... mas faz muito tempo.

Erdosain respondeu com tais palavras porque, na realidade, não se lembrava jamais de ter feito uma citação dessa natureza ao farmacêutico. Este continuou:

— Lá fora li bastante a Bíblia...

— O que não o impede de “escolazar”.

— Isso não te importa — interrompeu Ergueta, carrancudo.

Erdosain o olhou fastidiado, o farmacêutico sorriu com seu sorriso pueril e, enquanto o patrão depositava outro meio litro de cerveja no mármore, disse:

— Repare que palavras misteriosas estão escritas na Bíblia: “E salvarei a coxa, e recolherei a desgarrada e as porei por louvor e por renome em todo país de confusão”.

Um silêncio extraordinário se produziu na fonda. Só se viam cabeças inclinadas ou grupos que olhavam pensativamente o vaivém das moscas na gordura das mesas. Um ladrão ensinava a um comparsa um anel de brilhantes, e as duas cabeças permaneciam conjuntamente inclinadas na observação das pedras.

Pela porta entreaberta de vidros opacos penetrava um raio de sol que, como uma barra de enxofre, cindia em duas a atmosfera azulada.

O outro repetiu: “e salvarei a coxa, e recolherei a desgarrada”, insistindo e piscando maliciosamente uma pálpebra ao repetir isto: “e as porei por louvor e por renome em todo país de confusão...”

— Mas Hipólita não é coxa...

— Não, mas ela é a desgarrada e eu, o fraudulento, o “filho da perdição”. Fui de bordel em bordel, e de angústia buscando o amor. Eu acreditava que era o amor físico e depois, lendo esse livro que me iluminou, compreendi que meu coração buscava o amor divino. Você percebe? O coração se orienta por sua conta. Você está enganado, quer fazer sua vontade, e falha... por que falha... é mistério...

Depois, um dia, de repente, sem saber como, aparece a verdade. E olha que eu vivi. “Filho da perdição”, essa é a minha vida. Papai, antes de morrer em Cosquín, escreveu-me uma carta terrível, entre vômitos de sangue e recriminações, sabe? E a carta ele não assinava com seu nome, mas punha: “Teu pai, O Maldito”. Você percebe? — e outra vez piscou a pálpebra, levantando de tal forma as sobrancelhas que Erdosain perguntou a si mesmo:

— Será que este está louco?

Depois saíram da fonda. Os automóveis deslizavam pela rua Corrientes, cintilando sob o sol; passava muita gente que se dirigia ao trabalho, e, sob os toldos amarelos, o rosto das mulheres aparecia rosado. Entraram no café Ambos Mundos. Rodas de “canfinfleros” rodeavam as mesas. Jogavam cartas, dados ou bilhar. Ergueta olhou em redor, depois, cuspindo, disse em voz alta:

— Todos cafishios. Haverá que enforcá-los sem olhar suas caras.

Ninguém se deu por aludido.

Erdosain, sem querer, ficou cismando em algumas palavras do outro.

“Buscava o amor divino.” Então Ergueta levava uma vida frenética, sensual. Passava noites e dias nos antros de jogo e nos prostíbulos, dançando, embriagando-se, travando-se em brigas espantosas com malandros e macrôs. Um ímpeto surdo o levava a realizar as façanhas mais brutais.

Uma noite, Ergueta se encontrava na praça de Flores, diante da confeitaria de Niers. Estava ali o bêbado Delavene, que se formara advogado havia um mês, e muitos outros patoteiros do Club de Flores. Incomodavam os que passavam. De repente, Ergueta, ao ver aproximar-se um galego, abriu a braguilha e, quando o outro chegou até ele, molhou-o com um jato de urina. O homem foi prudente e desapareceu resmungando.

Então o farmacêutico disse, olhando para Delavene, que fanfarroneava demais:

— Bom... duvido que você mije no primeiro que passar.

— Duvida?

Todos se regozijaram, porque o basco Delavene era um selvagem. Um homem dobrou a esquina e Delavene começou a urinar. O desconhecido desviou, mas o “basco”, quase atropelando-o, molhou-o.

Aconteceu algo terrível.

Sem pronunciar palavra, o ofendido se deteve; a patota olhava rindo e assobiando; de repente o desconhecido sacou o revólver, ouviu-se um estampido, e Delavene caiu de joelhos, apertando o ventre com as mãos. A agonia do “basco” foi longa e dolorosa.

Antes de morrer, nobremente reconheceu que havia provocado o drama, e, quando Ergueta estava bêbado e Delavene era mencionado, ele se ajoelhava e com a língua fazia uma cruz no pó. Enquanto amassava um cigarro, o farmacêutico respondeu a uma pergunta de Erdosain sobre Delavene:

— Sim, era um coração nobre... um amigo único. Eu pagarei por ele algum dia — mas, recolhendo o pensamento a uma preocupação mais atual, disse: — Ah, tenho pensado muito nestes últimos tempos. E eu me dizia se era justo que um homem estéril, doente, vicioso e imoral se casasse com uma virgem...

— Hipólita... sabe?

— Sim, ela sabe tudo. Além disso, uma virgem merece um nome de virgem. Um homem que tenha a alma e o corpo virgens. Assim será algum dia. Você imagina um macho formoso, virgem e forte?

— Assim devia ser — sussurrou Erdosain.

O farmacêutico observou seu relógio.

— Tem algo a fazer?

— Sim, daqui a pouco vou à casa ver Hipólita.

— Desta vez me espantei — contava mais tarde Erdosain ao cronista desta história. — A casa da família Ergueta era suntuosa e o espírito da gente que ali se movia, como caracóis, absolutamente conservador e rotineiro. Erdosain perguntou-lhe:

— Como?... Levou-a à sua casa?

— E as histórias que tive de inventar!... Ela não queria ir; melhor dizendo, aceitava ir, mas como o que é...

— Foi capaz?...

— Tão capaz que só no fim pude convencê-la. À mamãe, disse que a havia roubado no momento em que ia embarcar com os tios para a Europa... uma “mula” maior que uma casa.

— E sua mãe?

Erdosain ia perguntar se sua mãe acreditou em semelhante mentira, como se Hipólita levasse escritos no semblante os trabalhos que lhe haviam convulsionado a vida...

— E sua mãe, como recebeu a notícia?

— Disse-me que a levasse embora imediatamente. Quando a apresentei, abraçou-a e disse: “Ele te respeitou, filha?” E ela, baixando os olhos, respondeu: “Sim, mamãe”. O que é certo. Já aviso que mamãe e minha irmã Sara estão encantadas com Hipólita.

Naquele momento, Erdosain teve o pressentimento de que aqueles desgraçados haviam preparado para si um desastre futuro. Não se equivocou, e, ao recordar agora no trem elétrico a certeza que não havia falhado, disse a si mesmo, ao passar por Liniers: “É curioso, as primeiras impressões nunca enganam a gente”; e, ao perguntar a Ergueta quando se casava, este respondeu:

— Amanhã saímos para Montevidéu. Casamos lá, caso não nos entendamos. — Ao pronunciar essas palavras, tornou a piscar a pálpebra, sorrindo cinicamente, e acrescentou: — Não sou nenhum trouxa, che.

A Erdosain incomodou aquele luxo de precauções. Não podendo se conter, disse-lhe:

— Como... você ainda não se casou e já está pensando no divórcio? Que façanha de comunista é a sua? No fundo continua sendo o jogador trapaceiro.

Mas o farmacêutico se regalava com a suficiência de um usurário que não se importa com os insultos, se lhe são dirigidos no momento de pagar os juros. Guarango, respondeu:

— Tem que ser turro, che.

Erdosain estava assombrado diante de tanta grosseria.

Pensou na deliciosa criatura e a imaginou suportando aquele bruto sob um céu escurecido por grandes nuvens de pó e incendiado por um sol amarelo e espantoso. Ela murcharia como uma samambaia transplantada para um pedregal. Agora Erdosain tornou a examinar o farmacêutico, mas com raiva.

O jogador reparou na malevolência de seu companheiro e disse:

— É necessário fazer alguma coisa contra esta sociedade, che. Há dias em que sofro de um modo insuportável. Parece que todos os homens viraram bestas. Dá vontade de sair à rua e pregar o extermínio ou pôr uma metralhadora em cada esquina. Você percebe? Vêm tempos terríveis.

“O filho se levantará contra o pai e o pai contra o filho. É necessário fazer algo contra esta sociedade maldita. Por isso me caso com uma prostituta. Bem dizem as Escrituras: ‘E tu, filho do homem, não julgarás tu a cidade derramadora de sangue e lhe mostrarás todas as suas abominações’. E estas outras palavras, repare nestas outras palavras: ‘E enamorou-se de seus rufiões, cuja carne é como carne de asno e cujo fluxo como fluxo de cavalos’.”

— E, apontando para os “cafishios” que jogavam em torno das mesas, disse: — Aí os tem. Entre no Royal Keller, no Marzzoto, no Pigall, no Maipú, em qualquer lugar onde entre você os encontrará. Forças perdidas. Até essa canalha se entedia no fundo. Quando a revolução chegar, serão enforcados ou mandados para a primeira fila. Carne de canhão. Eu pude ser como eles e renunciei. Agora vêm tempos terríveis. Por isso diz o livro:

“E salvarei a coxa e recolherei a desgarrada e a porei por louvor e por renome em todo o país de confusão.”

Porque hoje a cidade está enamorada de seus rufiões, e eles afundaram a coxa e a desgarrada, mas terão de se humilhar e beijar os pés da coxa e da desgarrada.

— Mas você ama ou não ama Hipólita?

— Claro que a amo. Às vezes me parece que ela baixou da lua por uma escada. Onde ela está, todos se sentirão felizes.

E Erdosain acreditou por um instante que ela teria descido da lua para que todos os homens acudissem a extasiar-se em sua simplicidade tranquila.

O farmacêutico continuou:

— Agora vêm tempos de sangue, che, de vingança. Os homens, dentro de suas almas, estão chorando. Mas não querem escutar o pranto de seu anjo. E as cidades são como as prostitutas, enamoradas de seus rufiões e de seus bandidos. Isto não pode continuar assim.

Olhou por um instante para a rua e depois, com a atenção fixada como num som interior, o jogador disse com voz patética no café do tédio:

— Terá de vir um homem, um anjo, eu sei lá. Ajoelhar-se-á no meio da Avenida de Mayo. Os automóveis se deterão, os gerentes dos bancos e os ricos dos hotéis assomarão às sacadas e, movendo os braços indignados, lhe dirão:

“O que queres, tu, cara de sapo? Não nos incomodes” — mas ele se levantará — e, quando virem seu rostinho triste e seus olhos acesos de febre, a todos cairão os braços, e ele se dirigirá aos grã-finos, falará com eles, perguntará por que fizeram o mal, por que se esqueceram do órfão e esmagaram o homem e fizeram um inferno da vida, que era tão linda.

E eles não saberão o que responder, e a voz do anjo derradeiro ressoará de tal forma que lhes arrepiará a pele, e até os mais rufiões chorarão.”

A bocarra do farmacêutico se deformou de angústia. Parecia que mastigava um veneno elástico e amargo.

— Sim, é necessário que Cristo venha outra vez. Os homens mais cães, os cínicos mais de latrina, ainda sofrem. E, se ele não vier, quem vai nos salvar?

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