Os Sete Loucos: Um crime Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 30 de 34
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Os Sete Loucos: Um crime

Um crime

Erdosain levantou bruscamente a cabeça, e Hipólita, como se tivesse estado pensando nele, disse:

— Você também... você também foi muito desgraçado.

Erdosain tomou a mão fria da mulher e apoiou nela os lábios.

Ela continuou devagar:

— Às vezes esta vida me parece um sonho ruim. Agora que me sinto sua, aparece outra vez em mim a pena de outros tempos. Sempre, em toda parte, sofrimentos.

Depois disse:

— O que será preciso fazer para não sofrer?

— É que levamos o sofrimento dentro de nós. Uma vez cheguei a pensar que ele flutuava no ar... era uma ideia ridícula; mas o certo é que a inconformidade está na gente.

Calados. Hipólita acariciava lentamente seu cabelo; de repente a mão se afastou de sua cabeça e Erdosain sentiu que a mulher apertava sua mão contra os lábios.

Erdosain, sentando-se ao lado dela, murmurou:

— Diga-me, o que fiz para que você me faça tão feliz? Não compreende que faz o céu descer para mim? Nunca me senti tão enormemente desgraçado.

— Ninguém quis você?

— Não sei; mas nunca o amor me foi mostrado em sua terrível paixão. Quando me casei, tinha vinte anos e acreditava na espiritualidade do amor.

Cismou um instante, mas não demorou a se levantar e, depois de apagar a luz, sentou-se no divã junto a Hipólita. Depois disse:

— Talvez eu fosse um infeliz. Quando me casei, não havia beijado minha mulher. Certo é que jamais havia sentido a necessidade de fazê-lo, porque eu confundia com pureza o que era frieza de seus sentidos e, além disso... porque eu acreditava que não se deve beijar uma senhorita.

A outra sorria na escuridão. Ele estava agora sentado à beira do sofá, com os cotovelos cravados nos joelhos e as faces entre as palmas das mãos.

Um relâmpago violeta iluminou o quarto.

Ele prosseguiu lentamente:

— A senhorita estava, em meu conceito, como a mais verdadeira expressão de pureza. Além disso... não ria... eu era pudico... e na noite do dia em que nos casamos, quando ela se despiu com naturalidade diante da lâmpada acesa, eu virei a cabeça envergonhado... e depois me deitei com as calças postas.

— O senhor fez isso? — na voz da mulher tremia a indignação. Erdosain pôs-se a rir, excitadíssimo:

— Por que não? — enquanto examinava obliquamente a Coxa, esfregava as mãos. — Fiz isso e muitas coisas mais graves ainda. E as que farei... “Os tempos chegaram”, dizia seu esposo. Acho que ele tem razão. Claro que esses episódios se referem a uma época da minha vida em que eu vivia como um idiota. Digo isso para que a senhora tenha certeza de que, se eu tivesse de me deitar com a senhora, não o faria com as calças postas...

Por um instante Hipólita teve medo. Erdosain não fazia outra coisa senão observá-la de rabo de olho, enquanto esfregava as mãos. Precavida, ela acrescentou:

— Deve ter acontecido que o senhor estava doente. Como eu quando era criada. Vive-se entre céu e terra...

— Isso, entre céu e terra... Precisamente isso. Sim, lembro quando me chamavam de imbecil.

— Também?...

— Sim, na minha cara... eu ficava olhando para aquele que me havia injuriado, e, enquanto todos os músculos relaxavam numa frouxidão imensa, perguntava-me o que havia feito, não sei em que tempo, para suportar tantas humilhações e covardias. Sofri muito... tanto... que mais de uma vez me senti tentado a ir me oferecer como criado em alguma casa rica...

Podia acaso engolir mais vergonha? Então senti o terror, um medo espantoso de não ter um objeto nobre em minha vida, um sonho grande, e por fim agora o encontrei... condenei à morte um homem... Fique aí sentada... Amanhã, porque eu não me oponho, um homem vai ser assassinado.

— Não é possível!

— Sim, é verdade. O homem da mentira, o homem de quem lhe falei antes, precisava de dinheiro para realizar seu projeto. Assim ele será realizado, porque eu quero que aconteça. Amanhã ele me entregará um cheque para cobrar. Quando eu voltar, será executado.

— Não... não é possível.

— Sim, e, se eu não voltar, não o assassinariam, porque sem o dinheiro o crime é inútil... são quinze mil pesos... posso fugir com eles... a sociedade vai para o diabo... o homem se salva. Está vendo? Da minha honradez criminosa depende tudo.

— Meu Deus!

— Quero que a experiência seja feita... A senhora compreende, certas determinações convertem a gente num deus. Faz muito tempo que estou resolvido a me matar. Se antes, quando eu disse, a senhora tivesse concordado, eu me matava. Se soubesse como me sinto belo e grande! Não me fale mais do outro... já está resolvido, até me alegra pensar no poço em que me afundo. Percebe?... E qualquer dia... não, de dia não será... qualquer noite, quando eu estiver farto de tanta farsa e incoerência, irei embora.

Uma ruga se bifurcou na testa de Hipólita. Não havia dúvida. Aquele homem estava louco. Sua alma aventureira previu acontecimentos futuros e disse a si mesma: “Com este imbecil é preciso proceder prudentemente”. E, cruzando os braços sobre o casaco, perguntou como se duvidasse:

— O senhor teria coragem de se matar?

— Não é isso que a senhora diz. Já não há coragem nem covardia. Lá de muito dentro tenho a sensação de que se suicidar é como ir arrancar um dente. Quando penso assim, tudo descansa em mim. Certo é que eu havia pensado em outras viagens e em outras terras, em outra vida. Há algo em mim que deseja tudo o que é delicado e belo. Muitas vezes pensei que sim... ponhamos esses quinze mil pesos que vou cobrar amanhã... poderia ir para as Filipinas...

para o Equador, recomeçar minha vida, casar-me com alguma donzela milionária e delicada... ficaríamos durante as sestas deitados numa rede, sob os coqueiros, enquanto os negros nos ofereceriam laranjas partidas. E eu olharia tristemente o mar... e sabe?... esta certeza que me diz que, aonde eu for, olharei tristemente o mar... esta segurança de que nunca mais serei feliz... no começo me enlouqueceu... e agora me resignei.

— Então para que vai fazer a experiência?

— Sabe?... ainda não cheguei ao fundo de mim mesmo... mas o crime é minha última esperança... e o Astrólogo sabe disso, porque, quando hoje lhe perguntei se não temia que eu fugisse, respondeu-me: “Não, por enquanto, não... O senhor, mais que ninguém, precisa que isso dê certo para se desangustiar...” Já vê até onde cheguei.

— Nunca imaginaria uma coisa dessas. E vão matá-lo em Temperley?

— Sim. No entanto... sei lá! A angústia. A senhora sabe o que é a angústia? Ter a angústia enraizada até os ossos como a sífilis? Veja, faz quatro meses disso: eu esperava o trem numa estação do campo. Ele demoraria três quartos de hora para chegar... então atravessei até uma praça que havia em frente. Poucos minutos depois de eu me sentar num banco, uma menina... teria nove anos, veio se sentar ao meu lado. Começamos a conversar... ela estava com um avental branco...

morava numa das casas ali em frente... Lentamente, sem poder me conter, desviei a conversa para um tema obsceno... mas com prudência... sondando o terreno. Uma curiosidade atroz havia tomado conta da minha consciência. A criatura, hipnotizada por seu instinto semidesperto, me escutava tremendo... e eu, devagar, naquele momento devia ter cara de criminoso...

note que, da guarita dos guardas de agulha, dois cambistas me olhavam com atenção; revelei-lhe o mistério sexual, incitando-a a se dedicar a corromper suas amiguinhas...

Hipólita apertou as têmporas com os dedos.

— Mas o senhor é um monstro!

— Agora cheguei ao fim. Minha vida é um horror... Preciso criar complicações espantosas... cometer o pecado. Não me olhe. Possivelmente... veja... as pessoas perderam o sentido da palavra pecado... o pecado não é uma falta... cheguei a perceber que o pecado é um ato pelo qual o homem rompe o fio frágil que o mantinha unido a Deus. Deus lhe fica negado para sempre.

Ainda que a vida desse homem, depois do pecado, se tornasse mais pura que a do santo mais puro, ele jamais poderia chegar até Deus. Eu vou romper o fio frágil que me unia à caridade divina. Eu sinto. Desde amanhã serei sobre a terra um monstro... imagine a senhora uma criatura... um feto... um feto que tivesse a virtude de viver fora do seio materno... não cresce jamais... peludo... pequeno... sem unhas caminha entre os homens sem ser um homem... sua fragilidade horroriza o mundo que o rodeia...

mas não há força humana que possa restituí-lo ao ventre perdido. É o que acontecerá amanhã comigo. Vou me afastar de Deus para sempre. Estarei sozinho sobre a terra. Minha alma e eu, os dois sozinhos. O infinito pela frente. Sempre sozinhos. E noite e dia... e sempre um sol amarelo. Percebe? Cresce o infinito... lá em cima um sol amarelo e a alma que se afastou da caridade divina anda sozinha e cega sob o sol amarelo.

Um golpe surdo estremeceu o chão, e de repente aconteceu algo extraordinário. Erdosain calou-se espantado. Hipólita estava ajoelhada a seus pés... Ela lhe tomou a mão e a cobriu de beijos. Na escuridão, a mulher exclamou:

— Deixa... deixa que eu beije essas pobres mãos. Você é o homem mais desgraçado da terra.

— Levante-se, Hipólita.

— Não, quero beijar seus pés — ele sentiu que os braços dela lhe apertavam as pernas —. Você é o homem mais desgraçado da terra. Quanto você sofreu, meu Deus! Como você é grande... como é grande sua alma!

Erdosain levantou-a com doçura infinita. Sentia-se amolecido por uma piedade infinita, atraiu-a para o peito, alisou-lhe o cabelo sobre a testa e lhe disse:

— Se você soubesse agora como vai ser fácil morrer. Como uma brincadeira.

— Que alma a sua!...

— Mas você está febril?...

— Pobre rapaz!

— Por quê? Se agora somos como deuses... Sente-se ao meu lado. Está bem assim? Olhe, irmãzinha, tudo o que sofri foi pago com suas palavras. Viveremos mais algum tempo...

— Sim, como noivos...

— Só no grande dia você será minha esposa.

— Eu te quero tanto!... Que alma a sua!

— E depois iremos embora.

E já não falaram mais. A cabeça de Hipólita estava caída sobre seu peito. Faltava pouco para amanhecer. Então Erdosain dobrou aquele corpo fatigado sobre o sofá... ela sorriu extenuada; depois Remo sentou-se sobre o tapete, apoiou a cabeça na borda do sofá e, assim encolhido, ficou adormecido.

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