Os Sete Loucos: Sensação do subconsciente Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 31 de 34
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Os Sete Loucos: Sensação do subconsciente

Sensação do subconsciente

Semi-incorporado num sofá, com os braços cruzados e a cartola jogada sobre a testa, o Astrólogo meditava naquela noite suas preocupações, na escuridão do escritório. A chuva batia nos vidros da janela, mas ele não a escutava, ensimesmado em numerosos projetos. Além disso, acontecia-lhe algo estranho.

A proximidade do crime a cometer acelerava, no espaço do tempo normal, outro tempo particular. Recebia assim a sensação de existir sensibilizado em dois tempos. Um natural a todos os estados da vida normal, outro fugacíssimo e pesado nas batidas de seu coração, escapando entre seus dedos travados pela meditação como a água de um cesto.

E o Astrólogo, retido dentro do tempo do relógio, sentia deslizar em seu cérebro o outro tempo rapidíssimo e interminável que, como uma película cinematográfica, ao deslizar vertiginosamente, feria sua sensibilidade com as imagens que trazia, de modo impreciso e fatigante, já que, antes de perceber com clareza uma ideia, esta havia desaparecido para ser substituída por outra.

De tal modo que, quando olhava o relógio acendendo um fósforo, comprovava que o tempo transcorrido era de minutos, enquanto, em seu entendimento, esses minutos mecânicos, acelerados por sua ansiedade, tinham outra extensão que nenhum relógio podia medir.

Sensação que o retinha na escuridão, à expectativa. Compreendia que qualquer erro cometido nesse estado poderia ser-lhe fatal mais tarde.

O assassinato do homem Barsut não o preocupava em demasia, mas sim as precauções que devia tomar para que esse fato não adquirisse importância indevida. E, embora pretendesse preparar um álibi, isso era dificultoso. Tinha a sensação de que quem assim cismava nas trevas não era ele, mas que estava contemplando seu duplo, um duplo forjado de emoção e que tinha sua aparência exata, com o rosto romboidal, os braços cruzados e a cartola jogada sobre a testa.

No entanto, não conseguia perceber de que natureza eram os pensamentos desse duplo tão intimamente ligado a ele e tão distante de sua compreensão. Porque julgava que seu sentimento de existir era, naqueles instantes, mais efetivo que a existência de seu corpo. Mais tarde, explicando tal fenômeno, disse que era a consciência da velocidade distinta do tempo que duravam suas emoções, dentro do outro tempo mecânico, como aqueles que dizem: “aquele minuto me pareceu um século”.

Impossibilidade de pensar que não deixava de ser importante, já que se tratava de tirar a vida de um homem, paralisar a circulação de seus cinco litros de sangue, esfriar todas as suas células, apagá-lo da vida como uma mancha de um papel branco, eliminando todo rastro da superfície.

Como tão grave problema não se afastava do Astrólogo, ele sentia-se, dentro do tempo mecânico do relógio, o homem físico, enquanto na lenta velocidade do outro tempo que nenhum relógio podia controlar localizava-se seu duplo, pensativo, enigmático, autenticamente misterioso, preparando talvez que álibis que depois surpreenderiam o homem inteligente.

A certeza de ter se convertido, pela proximidade do crime, num duplo mecanismo com duas noções de tempo tão diferentes e duas inércias tão dessemelhantes, o apoltronava sombrio na escuridão.

Uma fadiga terrível aniquilava sua musculatura, seus membros rijos, a juntura de seus ossos.

A chuva fazia funcionar nas valetas a breve engrenagem das rãs, mas ele, homem de ação, amolecido pela inquietação como se lhe houvessem amolecido os ossos e não pudesse se pôr de pé, “eu, homem de ação — dizia a si mesmo — permaneço aqui, estou assim dentro do meu prazo de tempo mecânico, palpitando com outro tempo que não é meu tempo e que me relaxa para a precaução.

Porque é indubitável que matar um homem é o mesmo que degolar um cordeiro, mas não o é para os outros, e embora estejam distantes e minha conduta seja um mistério para eles, este tempo anormal os aproxima de mim, e eu quase não posso me mover, como se eles estivessem ali, na sombra, me espiando. Será o tempo de nervosismo que me inutiliza, ou o Astrólogo subconsciente que reserva suas ideias e me deixa espremido como uma laranja para conceber pensamentos de que agora preciso.

No entanto, morto Barsut, a vida continuará como se nada tivesse acontecido... e é que nada aconteceu se isto não for descoberto”.

Acendeu novamente um fósforo. O quarto ficou flechado por vértices de sombras movediças. Não havia passado um minuto. Seus pensamentos eram simultâneos e continham, no nada do tempo, fatos que, para estar presentes no tempo que os recolhia, teriam necessitado, em outras circunstâncias, meses e anos.

Assim havia nascido havia quarenta e três anos e sete dias, e esse passado se aniquilava continuamente no presente, presente tão fugaz que ele sempre era o Astrólogo do minuto posterior, no tempo do minuto ou segundo vindouro. Agora sua vida, enfocada para um fato que ainda não existia, mas que se consumaria dentro de algumas horas, estendia-se dentro do tempo mecânico como um arco cuja violência contida dava ao tempo do relógio a tensão extraordinária desse outro tempo de inquietude.

E, embora muitas vezes tivesse dito a si mesmo que, se tivesse oportunidade de assassinar alguém, não a desperdiçaria, voltou a deter suas preocupações naqueles tempos de mistério. Depois saltou daí à imaginação de uma ditadura que se sustentaria mediante o terror imposto por numerosas execuções, e o meio de anular essa repugnante impressão momentânea era representar os fuzilados como homens horizontais.

Com efeito, imaginava no centro da planície o pequeno corpo de um homem estendido, e, ao comparar a extensão do morto com a dos milhares de quilômetros que media a terra por ele tiranizada, apoderava-se da certeza de que a vida de um homem não tinha nenhum valor.

O outro apodreceria debaixo da terra, enquanto ele, eliminado o obstáculo humano cuja extensão era a milionésima parte da sua terra, avançaria rumo a todas as conquistas.

Depois pensava em Lênin, que, esfregando as mãos, repetia aos comissários dos Sovietes:

É uma loucura. Como podemos fazer a revolução sem fuzilar ninguém? — E isso regozijava o coração do Astrólogo. Estabeleceria tal princípio na sociedade. Os futuros patriarcas de raças seriam educados com um inexorável critério homicida; e novamente suas esperanças se alargavam.

Depois reconhecia que todo inovador devia lutar com ideias antigas, estampadas em si mesmo pelo costume, e que todas as suas cismas atuais eram consequência de uma contradição entre princípios a sancionar e aqueles estabelecidos. O tempo corria entre seus dedos travados pela cisma.

Assassino de hoje seria o conquistador de amanhã, mas, enquanto isso, suportava a maledicência sombria do presente amassado com ontens. Levantou-se encolerizado. Ainda chovia. Saiu até a escadaria, onde se deteve esquadrinhando a escuridão silvestre, estremecida pela água que caía espessa e lenta. As trevas pareciam ali formar parte da existência de um monstro que arquejava pesadamente na escuridão. A terra molhada tornara-se ocre...

E ele era um homem firme na noite, um animador de acontecimentos grandiosos, e, no entanto, nenhum fantasma se levantava da espessura para sancionar sua atitude. Agora perguntava a si mesmo se os homens de outras idades haviam sofrido suas indecisões, ou se marchavam para a conquista de seus fins satisfeitos de que a Morte desse uma espessura de couraça às suas determinações.

Mas tinha importância a morte? Dizia a si mesmo que, como ente filosófico, o único que poderia lhe interessar era a espécie, não o indivíduo; mas os que o assediavam com escrúpulos eram seus sentimentos, que contra sua vontade desdobravam o tempo de que necessitava em dois tempos estranhos.

Um relâmpago interpôs distâncias azuis entre os blocos das montanhas de nuvens.

Molhado e com a cabeleira revolta, deteve-se ao lado da escadaria o Homem que viu a Parteira.

— Ah! é o senhor — disse o Astrólogo.

— Sim; eu queria perguntar o que o senhor pensa desta interpretação do versículo que diz: “O céu de Deus”. Isto significa claramente que há outros céus que não são de Deus...

— De quem, então?

— Quero dizer que pode ser que haja céus onde Deus não esteja. Porque o versículo acrescenta: “E descerá a nova Jerusalém”. A nova Jerusalém? Será a nova Igreja?

O Astrólogo meditou um instante. O assunto não lhe interessava, mas sabia que, para manter seu prestígio diante do outro, tinha de responder, e respondeu:

— Nós, os iluminados, sabemos em segredo que a nova Jerusalém é a nova Igreja.

Por isso diz Swedemborg: “Visto que o Senhor não pode manifestar-se em pessoa, e tendo anunciado que virá e estabelecerá uma Nova Igreja, segue-se que o fará por meio de um homem que não apenas possa receber a doutrina desta igreja, mas também publicá-la por meio da imprensa...” mas por que o senhor, independentemente de outra escritura, chega a admitir a existência de vários céus? Bromberg, abrigando-se no pórtico, olhou a ofegante escuridão estremecida pela chuva, depois respondeu:

— Porque os céus se sentem como o amor.

O Astrólogo olhou surpreendido para o judeu, e este continuou:

— É como o amor. Como o senhor pode negar o amor se o amor está no senhor e o senhor sente que os anjos tornam mais forte seu amor? O mesmo acontece com os quatro céus. Deve-se admitir que todas as palavras da Bíblia são de mistério, porque, se assim não fosse, o livro seria absurdo. Na outra noite, eu lia entristecido o Apocalipse. Pensava que tinha de assassiná-lo, Gregorio, e me dizia se é permitido verter sangue humano.

— Quando se estrangula, não se verte sangue — replicou o Astrólogo.

— E quando cheguei à parte do “céu de Deus”, compreendi o motivo da tristeza dos homens.

O céu de Deus lhes fora negado pela igreja tenebrosa... e por isso os homens pecavam tão fortemente.

Nas trevas, a voz infantil de Bromberg soava tão tristemente como se lamentasse que o tivessem excluído do verdadeiro céu. O Astrólogo argumentou:

— O homem alado que me fala em sonhos me disse que o fim da igreja tenebrosa está próximo...

— Assim tem de ser... porque o inferno cresce dia a dia. São tão poucos os que se salvam que o céu junto ao inferno é menor que um grão de areia junto ao oceano. Ano após ano cresce o inferno, e a igreja tenebrosa, que deveria salvar o homem, engorda dia a dia o inferno, e o inferno triste cresce, cresce, sem que haja uma possibilidade de torná-lo menor. E os anjos olham com medo a igreja tenebrosa e o inferno vermelho inchado como o ventre de um hidrópico.

O Astrólogo respondeu, adotando para falar um tom altissonante:

— Por isso o homem alado me disse: “Vai, santo varão, edificar os homens e anunciar a boa nova. E extermina os anticristos e revela teus segredos e os segredos da nova Jerusalém a Bromberg, o judeu” — e de repente o Astrólogo, tomando seu companheiro por um braço, disse-lhe: — Não se lembra de quando seu espírito conversava com os anjos e lhes servia o pão branco à beira dos caminhos, e os fazia sentar à porta de sua cabana e lhes lavava os pés?

— Não me lembro.

— Pois devia se lembrar. O que dirá o Senhor quando souber disso? Como responderei eu por sua alma diante do Anjo da Nova Igreja? Ele me dirá: que é desse filho querido, meu piedoso Alfón? E eu o que lhe direi? Que você é um bobalhão. Que se esqueceu dos tempos em que realizou uma existência angélica e que passa o dia todo num canto peidando como um mulo.

Gravemente emburrado, Bromberg objetou:

— Eu não peido.

— E bem ruidosamente você peida... mas não importa... o Anjo das Igrejas sabe que seu espírito arde na devoção sincera, e que você é inimigo do Rei da Babilônia, do tenebroso Papa, e por isso está escolhido para ser o amigo do homem que, por mandato do Senhor, estabelecerá a Nova Igreja sobre a terra.

A chuva soava baixinho nas folhas das figueiras, e toda a escuridão acre e branda estremecia na noite seu úmido fedor vegetal. Bromberg predisse gravemente:

— E o Papa, o próprio Papa espantado, sairá à rua descalço, e todos se afastarão dele com terror e pressa, e nos caminhos as cercas se encherão de flores quando passar o santo Cordeiro.

— Assim mesmo é — continuou o Astrólogo. — E, no céu entreaberto, será dado ver, a todos os pecadores arrependidos, as portas douradas da nova Jerusalém. Porque tão imensa é a caridade de Deus, querido Alfón, que nenhum homem poderia entrar diretamente em contato com ela sem cair por terra com os ossos esponjosos.

— Por isso eu darei aos homens minha interpretação do Apocalipse e depois irei à montanha fazer penitência e rogar por eles.

— Assim é, Alfón, mas agora vá dormir porque tenho de meditar, e é a hora em que o homem alado vem falar no meu ouvido. Você também tem de dormir porque, se não, amanhã não terá força para estrangular o réprobo...

— E o Rei da Babilônia.

— Assim é.

Lentamente, o Homem que viu a Parteira afastou-se da escadaria. O Astrólogo entrou na casa e, subindo por uma escada que ficava a um lado do vestíbulo, internou-se num quarto extremamente alongado, cruzado no alto pelas vigas que suportavam os caibros do telhado, que ali estendia sua asa oblíqua.

Nos muros descascados não havia nenhuma gravura. Num canto estavam os baús de Gregorio Barsut e, sob um olho de boi, uma cama de madeira pintada de vermelho. Uma manta negra formava uma barafunda com os lençóis brancos. O Astrólogo sentou-se pensativo à beira do leito. Seu sobretudo entreabriu-se, deixando ver nu o peito peludo. Abriu em forquilha as pontas dos dedos sobre seus bigodes de foca e, franzindo o cenho, ficou contemplando um baú no canto.

Queria fazer seu pensamento saltar para uma novidade exterior, que, rompendo o monorritmo de suas sensações, lhe devolvesse a presença de espírito que, antes da determinação de assassinar Barsut, estava nele.

— São vinte mil pesos — pensou —, vinte mil pesos que servirão para instalar os prostíbulos e a colônia... a colônia...

No entanto, não via claro. As ideias lhe escapavam como sombras, seus pensamentos, diluídos pelo sobressalto permanente, tornavam estéril toda concentração. De repente deu uma palmada na testa e, jubiloso, passou ao sótão imediato arrastando um caixote, de cuja tampa mal retida pelos aros se desprendia espesso pó.

Sem se importar com as bocas das mangas do sobretudo que se enchiam de terra branca, destampou o caixote.

Misturavam-se ali soldados de chumbo com bonecos de madeira, e aquilo era um amontoado de pierrots, generalzinhos, clowns, princesas e estranhos monstros gordos com narizes avariados e bocas de sapo.

Pegou um pedaço de corda e, dirigindo-se ao canto, amarrou-a a dois pregos, unindo assim o ângulo formado pelos dois muros com uma bissetriz improvisada. Feito isso, tomou do caixote vários fantoches, atirando-os sobre a cama. Com pedaços de barbante amarrou a garganta de cada boneco, e tão absorvido estava no trabalho que não percebeu que o vento empurrava pelo postigo aberto a água da chuva, que havia engrossado.

Trabalhava entusiasmado. Quando acabou de acolarar a garganta dos bonecos com barbantes que recortava de maior para menor, levou-os até o canto, amarrando-os à corda. Terminada sua obra, ficou contemplando-a. Os cinco fantoches enforcados moviam suas sombras de capuz no muro rosado.

O primeiro, um pierrot sem calças, mas com uma blusa de quadradinhos brancos e negros; o segundo, um ídolo de chocolate e lábios vermelhão, cujo crânio de melancia estava à altura dos pés do pierrot; o terceiro, ainda mais abaixo, era um pierrot automático, com um prato de bronze cravado no estômago e cara de macaco; o quarto era um marinheiro de pasta de papelão azul, e o quinto, um negro sem nariz mostrando uma chaga de gesso pela gravata branca de um colarinho patrício.

Satisfeito, o Astrólogo contemplou sua obra. Estava de costas para a lâmpada, e até o teto alcançava sua silhueta negra. Falou com força:

— Você, pierrot, é Erdosain; você, gordo, é o Buscador de Ouro; clown, você é o Rufião; e você, negro, é Alfón. Estamos de acordo.

Terminada sua arenga, afastou o baú de Barsut do muro e, colocando-o diante dos bonecos, sentou-se diante deles. E assim começou um diálogo silencioso, cujas perguntas partiam dele, recebendo em seu interior a resposta quando fixava o olhar no fantoche interrogado.

Seu pensamento adquiriu uma clareza surpreendente. Precisava expressar suas ideias num sistema telegráfico, vibrante, interrompido, como se todo ele tivesse de acompassar o ritmo do pensamento a uma misteriosa trepidação de entusiasmo.

Pensava:

— É necessário instalar fábricas de gases asfixiantes. Conseguir químico. Células, em vez de automóveis caminhões. Pneus maciços. Colônia da cordilheira, disparate. Ou não. Sim. Não. Também à beira do Paraná uma fábrica. Automóveis blindagem cromo aço níquel. Gases asfixiantes importantes. Na cordilheira e no Chaco estourar revolução. Onde houver prostíbulos, matar donos. Bando de assassinos em aeroplano. Tudo factível. Cada célula radiotelegrafia. Código e onda mudando sincronamente.

Corrente elétrica com queda-d’água. Turbinas suecas. Erdosain tem razão. Como a vida é grande! Quem sou eu? Fábrica de bacilos peste bubônica e tifo exantemático. Instalar academia estudos comparativos revolução francesa e russa. Também escola de propaganda revolucionária.

Cinematógrafo elemento importante. Olho. Ver cinematógrafo. Erdosain que estude ramo. Cinematógrafo aplicado à propaganda revolucionária. É isso. Agora o ritmo do pensamento se temperava. Dizia a si mesmo:

— Como pôr em cada consciência o entusiasmo revolucionário que há na minha? Isso, isso, isso. Com que mentira ou verdade? Como é rápido o tempo que passa! E como é triste! Porque isso é certo. Há tanta tristeza em mim que, se eles a conhecessem, se espantariam. E eu sozinho sustentando tudo.

Aconchegou-se no sofá. Tinha frio. Nas têmporas batiam-lhe fortemente as veias.

— O tempo que escapa. Isso. Isso. E todos se deixam ficar caídos como sacos. Ninguém que queira voar. Como convencer esses burros de que têm de voar? E, no entanto, a vida é outra. Outra como eles nem sequer concebem. A alma como um oceano agitando-se dentro de setenta quilos de carne. E a própria carne querendo voar. Tudo em nós está desejando subir até as nuvens, tornar reais os países das nuvens... mas como?... Sempre aparece este “como” e eu...

eu aqui, sofrendo por eles, querendo-os como se os tivesse parido, porque eu quero esses homens... quero todos eles. Estão em cima da terra porque sim, quando deveriam estar de outro modo. E, no entanto, eu os quero. Estou sentindo isso agora. Quero a humanidade. Quero todos como se todos estivessem atados ao meu coração por um fio fino.

E por esse fio levam meu sangue, minha vida, e, no entanto, apesar de tudo, há tanta vida em mim que eu gostaria que fossem muitos milhões mais para querê-los ainda mais e lhes dar de presente minha vida. Sim, dá-la como se dá um cigarro. Agora explico Cristo para mim.

Quanto ele deve ter amado a humanidade! E, no entanto, sou feio. Meu enorme rosto largo é feio. E, no entanto, eu deveria ser bonito, bonito como um deus. Mas minha orelha é como um repolho e meu nariz como um tremendo osso fraturado por um soco. Mas que importa isso. Sou homem e basta. E preciso conquistar. É tudo. E não daria um só dos meus pensamentos em troca do amor da mulher mais linda.

De repente, palavras anteriores cruzam sua memória, e o Astrólogo diz a si mesmo:

— Por que não?... Podemos fabricar canhões, como diz Erdosain. O procedimento é fácil. Além disso, não é necessário que tenham resistência para mil descargas. Uma revolução que durasse esse tempo seria um fracasso.

As palavras calam nele. Na escuridão, abre-se para o interior de seu crânio um beco sombrio, com vigas que cruzam o espaço unindo os telheiros, enquanto, entre uma neblina de pó de carvão, os altos-fornos, com seus atalajes de refrigeração que fingem couraças monstruosas, ocupam o espaço. Nuvens de fogo escapam das goelas blindadas, e a selva, mais além, estende-se cerrada e impenetrável.

O Astrólogo sente recuperada sua personalidade, que a sensação do tempo estranho lhe havia arrebatado. Pensa, pensa que é possível fabricar aço-níquel e construir canhões de tubos encaixados.

Por que não? Seu pensamento desliza agora sobre os obstáculos com flexibilidade. Então, com o dinheiro fornecido pelos prostíbulos, seriam comprados, nos diversos pontos da República, terrenos a um preço insignificante. Ali os membros da loja assentariam as bases de cimento armado para emplazar as peças de artilharia, simulando construções de galpões para conservar cereais.

Exaltava-o a possibilidade de criar, dentro do país, um exército revolucionário que se sublevaria mediante um sinal radiotelefônico. Por que não? Aço, cromo, níquel. Como um sortilégio, a palavra fende sua imaginação. Aço, cromo, níquel. Cada chefe de célula estaria encarregado de uma bateria. O que é necessário, em resumo? Que os canhões disparem quinhentos, quatrocentos projéteis. E os automóveis com metralhadoras. Por que não? A cada dez homens, uma metralhadora, um automóvel, um canhão.

Por que não tentar?

Lentamente, no fundo da noite negra, um gigantesco ovo de aço ao vermelho-branco, entre duas colunas, dobra lentamente sua ponta em direção a uma cúpula. É o conversor de Bessemer acionado por um pistão hidráulico. Uma torrente de fagulhas e chamas ardentes escapa da ponta do ovo de aço. É o ferro que se converte em aço, agitado na base por um jorro de ar de centenas de atmosferas de pressão. Aço, cromo, níquel. Por que não tentar? Seu pensamento se fixa em cem detalhes.

Não faz muito, a voz de dentro lhe perguntou:

— Por que motivo a felicidade humana ocupa tão pouco espaço?

Essa verdade lhe entristece a vida. O mundo deveria ser de uns poucos. E esses poucos caminhar com passos de gigantes.

É necessário criar a complicação. E ver claro. Primeiro matá-lo, Barsut, depois instalar o prostíbulo, a colônia na montanha... mas como fazer desaparecer o cadáver? Não é estúpido isso de que ele, o homem que acha fácil construir um canhão e fabricar aço, cromo, níquel, tenha tantas dúvidas para fazer desaparecer um cadáver? Certo é que não devia pensar... será queimado... quinhentos graus são suficientes para destruir um cadáver contido num recipiente. Quinhentos graus.

O tempo e o cansaço correm por sua mente. Não gostaria de pensar, e de repente a voz, a voz independente de sua boca e de sua vontade, sussurra de dentro para distraí-lo um pouco:

— O movimento revolucionário estourará à mesma hora em todos os povoados da República. Assaltaremos os quartéis. Começaremos por fuzilar todos os que possam alvoroçar um pouco. Na capital serão lançados, dias antes, alguns quilogramas de tifo exantemático e de peste bubônica. Por meio de aeroplanos e à noite. Cada célula imediata à capital cortará os trilhos da ferrovia. Não deixaremos entrar nem sair trens.

Dominada a cabeça, suprimido o telégrafo, fuzilados os chefes, o poder é nosso. Tudo isso é uma loucura possível, e sempre se vive numa atmosfera de sonho e como de sonambulismo quando se está a caminho de realizar as coisas. No entanto, vai-se até elas com uma lentidão tão rápida que tudo é surpreendente quando se conseguiu. Para isso é necessário apenas vontade e dinheiro... Podemos organizar, à parte das células, uma quadrilha de assassinos e assaltantes.

De quantos aeroplanos disporá o exército? Mas, cortados os meios de comunicação, assaltados os quartéis, fuzilados os chefes, quem move esse mecanismo? Este é um país de bestas. É preciso fuzilar. É indispensável. Só semeando o terror nos respeitarão. O homem é covarde assim. Uma metralhadora... Como se organizarão as forças que devem combater-nos? Suprimido o telégrafo, o telefone, cortados os trilhos... Dez homens podem atemorizar uma população de dez mil pessoas.

Basta que tenham uma metralhadora. São onze milhões de habitantes. O norte, com os ervais, nos responderia. Tucumán e Santiago del Estero, com os engenhos... San Juan, com os meio-comunistas... Temos apenas o exército pela frente. Os quartéis podem ser assaltados de noite. Sequestrado o paiol de armas, fuzilados os chefes e enforcados os sargentos, com dez homens podemos nos apoderar de um quartel de mil soldados, desde que tenhamos uma metralhadora. Isso é tão fácil.

E as bombas de mão, onde deixo as bombas de mão? Só surpresa simultânea em todo o país, dez homens por povoado, e a Argentina é nossa. Os soldados são jovens e nos seguirão. Promoveremos os cabos a oficiais e teremos o mais inverossímil exército vermelho que a América conheceu.

Por que não? O que é o assalto ao banco de San Martín, o assalto ao hospital Rawson, o assalto à agência Martelli em Montevidéu? Três jornaleiros audazes e acabou-se uma cidade.

Um rancor surdo faz suas veias baterem apressadamente. O sangue corre em tumulto por seu corpo rijo e tenso numa posição de assalto. Sente-se mais forte que nunca, a força daquele que pode mandar fuzilar.

A luz elétrica oscilava sob as sonoras descargas da tempestade, mas o Astrólogo, sentado de costas para a cama, sobre o baú, com as pernas cruzadas, o queixo cravado na palma da mão e o cotovelo apoiado no joelho, não afastava os olhos de seus cinco bonecos, cujas sombras andrajosas tremiam no muro enrosado.

Atrás dele, a chuva que entrava pelo postigo fazia uma poça no piso; as perguntas e respostas se cruzavam em silêncio; por momentos uma ruga escurecia a testa do Astrólogo, depois seus olhos imóveis, em seu rosto romboidal, assentiam com um piscar lento a uma resposta de acordo com seus desejos, e assim permaneceu até o amanhecer, hora em que, levantando-se do baú, ironicamente deu as costas aos cinco bonecos que ficaram na solidão do quartinho, bamboleando sob a bandeirola, como cinco enforcados.

Cismou um instante, depois desceu apressadamente as escadas, deixou o portal e, a passos largos, dirigiu-se entre as trevas à cocheira onde se encontrava Barsut.

Já não chovia. As nuvens haviam se rachado, deixando ver, num claro celeste, um pedaço amarelo de lua.

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