Os Sete Loucos: O humilhado Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 9 de 34
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Os Sete Loucos: O humilhado

O humilhado

Às oito da noite, chegou em casa.

— A sala de jantar estava iluminada... Mas vamos nos explicar — contava Erdosain mais tarde —, minha esposa e eu tínhamos sofrido tanta miséria que a chamada sala de jantar consistia num cômodo sem móveis. A outra peça fazia as vezes de dormitório. Você me dirá como, sendo pobres, alugávamos uma casa, mas isso era um capricho de minha esposa que, recordando tempos melhores, não se resignava a não “ter montado” o seu lar.

Na sala de jantar não havia mais móvel que uma mesa de pinho. Num canto pendiam de um arame nossas roupas, e outro ângulo estava ocupado por um baú com cantoneiras de lata, que produzia uma sensação de vida nômade que terminaria numa viagem definitiva. Mais tarde, quantas vezes pensei na “sensação de viagem” que aquele baú barato, estivado num canto, lançava à minha tristeza de homem que se sabe à margem da prisão.

Como lhe dizia, a sala de jantar estava iluminada. Ao abrir a porta, detive-me. Minha esposa me esperava, vestida para sair, sentada junto à mesa. Um tule negro cobria até o queixo seu rostinho rosado. À sua direita, junto aos pés, estava uma valise, e do outro lado da mesa um homem se pôs de pé quando entrei, melhor dizendo, quando a surpresa me deteve no umbral.

Assim permanecemos os três por um segundo... O capitão de pé, com uma mão apoiada na tábua da mesa e a outra no punho da espada; minha esposa com a cabeça inclinada; e eu diante deles, esquecidos os dedos na borda da porta. Aquele segundo foi suficiente para que eu nunca mais esquecesse o outro homem. Era grande, de robustez atlética dentro do tecido verde do uniforme. Ao afastar os olhos de minha esposa, seu olhar recobrou uma dureza curiosa.

Não exagero se digo que me examinava com insolência, como a um inferior. Continuei olhando para ele. Sua grandeza física contrastava com a pequenez ovalada do rosto, com a delicadeza do nariz fino e a austeridade dos lábios apertados. No peito levava a insígnia de piloto aviador.

Minhas primeiras palavras foram:

— O que está acontecendo aqui?

— O senhor... — mas, envergonhando-se, ela se corrigiu. — Remo — disse, chamando-me pelo nome —, Remo, eu não vou mais viver com você.

Erdosain não teve tempo de tremer. O capitão tomou a palavra:

— Sua esposa, a quem conheci há algum tempo...

— E onde o senhor a conheceu?

— Por que você pergunta essas coisas? — interrompeu Elsa.

— Sim, certo — objetou o capitão. — O senhor compreenderá que certas coisas não devem ser perguntadas...

Erdosain enrubesceu.

— Talvez o senhor tenha razão... desculpe...

— E como o senhor não ganhava para sustentá-la...

Apertando o cabo do revólver no bolso da calça, Erdosain olhou para o capitão. Depois, involuntariamente, sorriu, pensando que nada tinha a temer, já que podia matá-lo.

— Não creio que possa achar graça no que lhe digo.

— Não; eu sorria por causa de uma ocorrência estúpida... Então ela também lhe contou isso?

— Sim, e além disso me falou do senhor como de um gênio em desgraça...

— Falamos dos seus inventos...

— Sim... do seu projeto de metalizar flores...

— Por que você vai embora, então?

— Estou cansada, Remo.

Erdosain sentiu que o furor lhe eriçava a boca em palavrões. Tê-la-ia insultado, mas, ao pensar que o outro podia lhe esmagar o rosto a socos, reteve a injúria e replicou:

— Você sempre esteve cansada. Na sua casa estava cansada... aqui... lá... também lá na montanha... lembra?

Sem saber o que responder, Elsa inclinou a cabeça.

— Cansada... o que é que você tem cansado?... E todas estão cansadas, não sei por quê... mas estão cansadas... O senhor, capitão, também não está cansado?

O intruso o observou longamente.

— E o que o senhor entende por cansaço?

— O tédio, a angústia... O senhor não reparou que estes parecem os tempos de tribulação de que fala a Bíblia? Assim os chama um amigo meu que se casou com uma coxa. A coxa é a meretriz das Escrituras...

— Nunca me dei conta disso.

— Eu, sim. Ao senhor parecerá estranho que eu lhe fale de sofrimentos nestas circunstâncias... mas é assim... os homens estão tão tristes que têm necessidade de ser humilhados por alguém.

— Não vejo tal coisa.

— Claro, o senhor com seu salário... Que salário ganha? Quinhentos?

— Mais ou menos.

— Claro, com esse salário é lógico...

— O que é lógico?

— Que não sinta sua servidão.

O capitão deteve um olhar severo em Erdosain.

— Germán, não ligue para ele — interrompeu Elsa. — Remo está sempre com essa história da angústia.

— É verdade?

— Sim... ela, em compensação, acredita na felicidade, no sentido de “felicidade eterna” que haveria em sua vida se pudesse passar os dias entre festas...

— Detesto a miséria.

— Claro, porque você não acredita na miséria... a miséria horrível está dentro de nós, é a miséria de dentro... da alma que nos cala os ossos como a sífilis.

Calou-se. O capitão, ostensivamente entediado, examinava as unhas, cuidadosamente polidas.

Elsa olhava fixamente, por trás dos losangos do véu, o semblante descarnado daquele marido que tanto amara um dia, enquanto Erdosain se perguntava por que existia nele um vazio tão imenso, vazio no qual sua consciência se dissolvia sem encontrar palavras que latissem sua pena de modo eterno.

De repente, o capitão levantou a cabeça.

— E como o senhor pensa metalizar suas flores?

— Facilmente... Toma-se uma rosa, por exemplo, e mergulha-se numa solução de nitrato de prata dissolvido em álcool. Depois coloca-se a flor à luz, que reduz o nitrato a prata metálica, ficando, por conseguinte, a rosa coberta de uma finíssima película metálica, condutora de corrente. Depois ela é tratada pelo procedimento comum de galvanoplastia, o do cobreado... e, naturalmente, a flor se converte numa rosa de cobre. Teria muitas aplicações.

— A ideia é original.

— Eu não lhe dizia, Germán, que Remo tem talento?

— Acredito.

— Sim, pode ser que eu tenha talento, mas me falta vida... entusiasmo... algo que seja como um sonho extraordinário... uma grande mentira que empurre a realização... Mas, falando um pouco de tudo, vocês esperam ser felizes?

— Sim.

Outra vez sobreveio o silêncio. Em torno da lâmpada amarela, os três semblantes pareciam três máscaras de cera. Erdosain sabia que, dentro de breves instantes, tudo terminaria e, escavando em sua angústia, perguntou ao capitão:

— Por que o senhor veio à minha casa?

O outro hesitou, depois:

— Eu tinha interesse em conhecê-lo.

— Achava divertido?

— Não... juro que não.

— E então?

— Curiosidade de conhecê-lo. Sua esposa me falou muito do senhor nestes últimos tempos. Além disso, nunca imaginei me encontrar numa situação semelhante... na verdade, não poderia explicar por que vim.

— Viu? Há coisas inexplicáveis. Eu, há um bom tempo, tento explicar a mim mesmo por que não o mato com um tiro tendo o revólver aqui, no bolso.

Elsa levantou a cabeça para Erdosain, que estava à cabeceira da mesa... O capitão perguntou:

— O que o contém?

— Na verdade, não sei... ou... sim, tenho certeza de que é por isto. Creio que no coração de cada um de nós há uma extensão de destino. É como uma adivinhação das coisas por intermédio de um instinto misterioso. O que agora me acontece sinto compreendido nessa extensão de destino... algo como se eu já tivesse visto isso... não sei em que parte.

— Como?

— O que você está dizendo?

— Não era porque você me desse motivo... não... já digo... uma certeza remota.

— Não o entendo.

— Eu me entendo. Veja, é assim. De repente ocorre a uma pessoa que determinadas coisas têm de lhe acontecer na vida... para que a vida se transforme e se faça nova.

— E você?

— O senhor acredita que sua vida?

Erdosain, desentendendo-se da pergunta, continuou:

— E o que acontece agora não me espanta. Se o senhor me dissesse que fosse comprar um maço de cigarros para o senhor... a propósito, o senhor tem um cigarro?

— Sirva-se... e depois?

— Não sei. Nestes últimos tempos, vivi incoerentemente... atordoado pela angústia. Veja com que tranquilidade converso com o senhor.

— Sim, ele sempre esperou algo extraordinário.

— E você também.

— Como? A senhora, Elsa, também?

— Sim.

— Mas a senhora?

— Continue, capitão, eu o entendo. O senhor quer dizer que o extraordinário de Elsa está acontecendo agora, não é?

— Sim.

— Pois está enganado, não é verdade, Elsa?

— Você acha?

— Diga a verdade, você espera algo extraordinário que não é isto, não espera?

— Não sei.

— Viu, capitão? Essa sempre foi a nossa vida. Ficávamos os dois em silêncio junto a esta mesa...

— Cale-se.

— Para quê? Ficávamos sentados e compreendíamos, sem dizermos, o que éramos: dois infelizes, de desejo desigual. E quando nos deitávamos...

— Remo!

— Senhor Erdosain!

— Deixem esses espantos ridículos... vocês acaso não vão se deitar?

— Desta forma não podemos continuar falando.

— Está bem, e quando nos separávamos tínhamos esta ideia semelhante: então o prazer da vida e do amor consiste nisso?... E, sem dizer nada, compreendíamos que pensávamos a mesma coisa... mas, mudando de assunto... vocês pensam ficar aqui na cidade?

Subitamente, Erdosain teve a fria sensação da viagem. Pareceu-lhe ver Elsa no corrimão, sob a fileira de olhos de boi vidrosos, contemplando o fio azul da distância. O sol caía nos mastaréus amarelos dos mastros e nos aguilhões negros dos guinchos. Entardecia, mas eles permaneciam com o pensamento fixo em outros climas, à sombra das camareiras, apoiados na passarela branca. O vento soprava iodado nas ondas, e Elsa olhava as águas através de cuja grade cambiante sua sombra se animava.

Por momentos, ela voltava o rostinho empalidecido, e então ambos pareciam escutar uma censura que subia das profundezas do mar. E Erdosain imaginava que lhes dizia:

— O que fizeram do pobre rapazinho?

Porque eu, apesar da idade, era como um rapaz — dizia-me Remo mais tarde. — Você compreende, um homem que deixa levarem sua mulher diante de seu nariz... é um desgraçado... é como um rapaz, entende?

Erdosain afastou-se da alucinação. Aquela pergunta que lhe surgira estava cavada contra sua vontade dentro dele.

— Você vai me escrever?

— Para quê?

— Sim, claro, para quê? — repetiu, fechando os olhos. Sentia-se agora, mais que nunca, caído numa profundidade não sonhada por homem algum.

— Bom, senhor Erdosain — e o capitão se levantou —, nós vamos nos retirar.

— Ah, vocês vão!... Já vão?

Elsa lhe estendeu a mão enluvada.

— Você vai?

— Sim... vou... você entende que...

— Sim... entendo.

— Não podia ser, Remo.

— Sim, claro... não podia ser... claro...

O capitão, descrevendo um círculo em torno da mesa, pegou a valise, a mesma valise que Elsa trouxera no dia do casamento.

— Senhor Erdosain, adeus.

— Às suas ordens, capitão... mas uma coisa... vocês vão... você, Elsa... você vai?

— Sim, nós vamos.

— Com licença, vou me sentar. Permita-me um momento, capitão... um momentinho.

O intruso reprimiu palavras de impaciência. Tinha um desejo brutal de gritar àquele marido: “A ver, firme, imbecil”, mas, por consideração a Elsa, conteve-se.

De repente, Erdosain abandonou a cadeira. Com lentidão, foi até um canto do quarto. Depois, voltando-se bruscamente para o capitão, disse com voz muito clara, na qual se adivinhava o desejo contido de que fosse suave:

— Sabe por que não o mato como a um cão?

Os outros se voltaram alarmados.

— Pois porque estou frio.

Agora Erdosain caminhava de um lado a outro do quarto, com as mãos cruzadas às costas. Eles o observavam, esperando algo. Por fim, o marido, sorrindo com um gesto, um desvio pálido, continuou suavemente, com a voz enfraquecida numa desesperação de soluço retido:

— Sim, estava frio... estou frio. — Agora seu olhar se tornara vago, mas sorria com o mesmo sorriso estranho, alucinado. — Escutem... isto não terá explicação para vocês, mas eu encontrei a explicação.

Seus olhos brilhavam extraordinariamente e sua voz enrouqueceu através do esforço que fez para falar.

— Vejam... minha vida foi horrivelmente ofendida... horrivelmente machucada.

Calou-se, detendo-se num ângulo da peça. Em seu rosto permanecia o sorriso estranho do homem que está vivendo um sonho perigoso. Elsa, repentinamente irritada, mordia a ponta de seu lenço. O capitão, de pé, junto à valise, aguardava.

De repente, Erdosain tirou o revólver do bolso e o atirou num canto. A Browning lascou o reboco da parede, batendo pesadamente no chão.

— Para o que serve esta tralha! — murmurou. Depois, com uma mão no bolso do paletó e a têmpora apoiada na parede, falou devagar: — Sim, minha vida foi horrivelmente ofendida... humilhada. Acredite, capitão. Não se impaciente. Vou lhe contar uma coisa. Quem começou este feroz trabalho de humilhação foi meu pai. Quando eu tinha dez anos e cometia alguma falta, dizia-me: “Amanhã vou bater em você”.

Era sempre assim, amanhã... Vocês percebem?, amanhã... E naquela noite eu dormia, mas dormia mal, com sono de cachorro, acordando à meia-noite para olhar assustado os vidros da janela e ver se já era dia; mas, quando a lua cortava como barra a pequena janela, eu fechava os olhos, dizendo a mim mesmo: ainda falta muito tempo. Mais tarde, acordava de novo ao sentir o canto dos galos.

A lua já não estava ali, mas uma claridade azulada entrava pelos vidros, e então eu cobria a cabeça com os lençóis para não olhá-la, embora soubesse que ela estava ali... embora soubesse que não havia força humana que pudesse expulsar aquela claridade. E quando, enfim, eu havia adormecido para muito tempo, uma mão me sacudia a cabeça no travesseiro. Era ele, que me dizia com voz áspera: “Vamos... está na hora”. E, enquanto eu me vestia lentamente, sentia que, no pátio, aquele homem movia a cadeira.

“Vamos”, gritava-me outra vez, e eu, hipnotizado, ia em linha reta até ele. Queria falar, mas isso era impossível diante de seu olhar espantoso. Sua mão caía sobre meu ombro, obrigando-me a ajoelhar; eu apoiava o peito no assento da cadeira, ele tomava minha cabeça entre os joelhos e, de repente, cruéis chicotadas me cruzavam as nádegas. Quando me soltava, eu corria chorando para meu quarto. Uma vergonha enorme afundava minha alma nas trevas. Porque as trevas existem, ainda que o senhor não acredite.

Elsa olhava sobressaltada para o marido. O capitão, de pé, de braços cruzados, escutava entediado. Erdosain sorria com vagueza. Continuou:

— Eu sabia que, na maioria dos meninos, os pais não batiam, e, na escola, quando eu os ouvia falar de suas casas, uma angústia tão atroz me paralisava que, se estávamos em aula e o professor me chamava, eu olhava para ele atordoado, sem perceber o sentido de suas perguntas, até que um dia ele gritou: “Mas o senhor, Erdosain, é um imbecil que não me ouve?” Toda a turma caiu na gargalhada, e desde aquele dia me chamaram Erdosain, “o imbecil”.

E eu, mais triste, sentindo-me mais ofendido que nunca, calava por medo das chicotadas de meu pai, sorrindo para os que me insultavam... mas timidamente. O senhor percebe, capitão? Insultam o senhor... e o senhor ainda sorri timidamente, como se lhe fizessem um favor ao injuriá-lo.

O intruso franziu o cenho.

— Mais tarde, permita-me, capitão, mais tarde me chamaram muitas vezes “o imbecil”. Então, subitamente, a alma se recolhia em mim ao longo dos nervos, e aquela sensação de que a alma se escondia envergonhada dentro da minha própria carne me aniquilava toda a coragem; sentindo que eu afundava cada vez mais e olhando nos olhos aquele que me injuriava, em vez de derrubá-lo com uma bofetada, dizia a mim mesmo: será que este homem percebe até que ponto me humilha? Depois eu ia embora; compreendia que os outros não faziam mais que terminar o que meu pai havia começado.

— E agora — respondeu o capitão — eu também o afundo?

— Não, homem, o senhor não. Naturalmente, sofri tanto que agora a coragem está encolhida dentro de mim, escondida. Sou meu próprio espectador e me pergunto: quando minha coragem saltará? E esse é o acontecimento que espero. Algum dia, algo monstruosamente explodirá em mim e eu me converterei em outro homem.

Então, se o senhor estiver vivo, irei procurá-lo e cuspirei em seu rosto.

O intruso o olhou sereno.

— Mas não por ódio, e sim para brincar com minha coragem, que me parecerá a coisa mais nova do mundo... Agora o senhor pode se retirar.

O intruso vacilou por um instante. O olhar de Erdosain, intensamente aumentado, estava fixo nele.

Pegou a valise e saiu.

Elsa se deteve, trêmula, diante do marido.

— Bom, vou embora, Remo... era necessário que isto terminasse assim.

— Mas você?... você?...

— E o que queria que eu fizesse?

— Não sei.

— E então? Fique tranquilo, peço. Já deixei sua roupa preparada. Troque o colarinho. Você sempre faz uma passar vergonha.

— Mas você, Elsa... você? E nossos projetos?

— Ilusões, Remo... esplendores.

— Sim, esplendores... mas onde você aprendeu essa palavra tão linda? Esplendores.

— Não sei.

— E nossa vida ficará sempre desfeita?

— O que você quer? Mesmo assim eu fui boa. Depois tomei ódio de você... mas por que você também não foi igual?...

— Ah, sim... igual... igual...

A pena o atordoava como um grande dia de sol nos trópicos. As pálpebras caíam. Ele teria querido dormir. O sentido das palavras afundava em seu entendimento com a lentidão de uma pedra numa água espessa demais. Quando a palavra tocava o fundo de sua consciência, forças escuras retorciam sua angústia. E, durante um instante, no fundo de seu peito, ficavam boiando e estremecidas, como no lodaçal de uma poça, suas ervas daninhas de sofrimento.

Ela continuou, com a voz apaziguada por uma resignação interior:

— Agora é inútil... agora vou embora. Por que você não foi bom? Por que não trabalhou?

Erdosain teve a certeza, como ela, e uma piedade imensa o fez cair à beira da cadeira, a cabeça esmagada sobre o braço estendido na mesa.

— Então você vai? De verdade que vai?

— Sim, quero ver se nossa vida melhora, sabe? Olhe minhas mãos — e, descalçando a luva da direita, apresentou-a machucada pelos frios, mordida pelas lixívias, picada pelas agulhas da costura, escurecida pela fuligem das panelas.

Erdosain levantou-se, endurecido por uma alucinação.

Via sua infeliz esposa nos tumultos monstruosos das cidades de portland e ferro, cruzando diagonais escuras à sombra oblíqua dos arranha-céus sob uma ameaçadora rede de negros cabos de alta tensão. Passava uma multidão de homens de negócios protegidos por guarda-chuvas.

Seu rostinho estava mais pálido que nunca, mas ela se lembrava dele enquanto o hálito dos desconhecidos se cortava em seu perfil.

— Onde estará meu rapazinho?

Erdosain interrompeu sua projeção de futuro:

— Elsa... você já sabe... venha quando quiser... pode vir... mas diga a verdade, você me amou alguma vez?

Devagar, ela levantou as pálpebras. Suas pupilas se dilataram. A voz enchia o quarto de calor humano. A Erdosain parecia viver agora.

— Sempre amei você... agora também amo... nunca, por que nunca falou como esta noite? Sinto que vou amar você a vida inteira... que o outro, ao seu lado, é a sombra de um homem...

— Alma, minha pobre alma... que vida a nossa... que vida...

Uma curva de sorriso encrespou dolorosamente os lábios dela. Elsa o olhou ardentemente por um instante. Depois, com a voz séria de promessas:

— Olhe... espere por mim. Se a vida é como você sempre me disse, eu volto, sabe?, e então, se você quiser, nos matamos juntos... Está contente?

Uma onda de sangue subiu até as têmporas do homem.

— Alma, que boa você é, alma... dê-me essa mão — e, enquanto ela, ainda sobressaltada, sorria com timidez, Erdosain beijou-a. — Você não se zanga, alma?

Ela endireitou a cabeça, grave de felicidade.

— Olhe, Remo... eu vou voltar, sabe?, e, se é verdade o que você diz da vida... sim, eu venho... vou voltar.

— Você vai voltar?

— Com o que eu tiver.

— Mesmo que seja rica?

— Mesmo que eu tenha todos os milhões da terra, volto. Eu juro!

— Alma, pobre alma! Que alma a sua! No entanto, você não me conheceu... não importa... ah, nossa vida!

— Não importa. Estou contente. Você percebe sua surpresa, Remo? Você está sozinho, de noite. Está só... de repente, cric... a porta se abre... e sou eu... eu que vim! Você está com um traje de baile... sapatos brancos e tem um colar de pérolas.

— E vim sozinha, a pé pelas ruas escuras, procurando você... mas você não me vê, está só... a cabeça...

— Diga... fale... fale...

— A cabeça apoiada na mão e o cotovelo na mesa... você me olha... e de repente...

— Reconheço você e digo: Elsa, é você, Elsa?

— E eu respondo: Remo, eu vim, você se lembra daquela noite? Aquela noite é esta noite, e lá fora sopra o grande vento, e nós não temos frio nem pena. Está contente, Remo?

— Sim, juro que estou contente.

— Bom, vou embora.

— Você vai?

— Sim...

O semblante do homem se deformou na súbita pena.

— Bom, vá.

— Até logo, meu esposo.

— O que você disse?

— Digo isto, Remo. Espere por mim. Mesmo que eu tenha todos os milhões do mundo, eu volto.

— Está bem... então adeus... mas me dê um beijo.

— Não, quando eu voltar... adeus, meu esposo.

De repente, Erdosain, lançado por um espasmo sem nome, agarrou-a brutalmente pelas mãos, nos pulsos.

— Diga-me: você se deitou com ele?

— Solte-me, Remo... eu não acreditava que você...

— Confesse, deitou ou não?

— Não.

No marco da porta, o capitão se deteve. Uma frouxidão imensa relaxou os nervos de seus dedos. Erdosain sentiu que caía e não viu mais nada.

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