Os Sete Loucos: O Buscador de Ouro
O Buscador de Ouro
Depois que Haffner saiu, Erdosain, que tinha vontade de conversar com o Buscador de Ouro, despediu-se do Astrólogo e do Major. Erdosain se encontrava novamente inquieto. Antes de se retirar, ei!, o Astrólogo lhe disse em separado:
— Não falte amanhã às 9, é preciso cobrar o cheque.
Havia se esquecido “daquilo”. De repente Erdosain olhou em volta como aturdido por um golpe.
Precisava conversar com alguém; esquecer a negra obrigação que agora acelerava as batidas de suas veias, sob o sol ardente do meio-dia.
O Buscador de Ouro lhe foi simpático. Por isso aproximou-se dele e lhe disse:
— Quer me acompanhar? Eu gostaria de conversar com o senhor sobre “lá embaixo”.
O outro o observou com seus olhinhos faiscantes e depois disse:
— Como não. Encantado. O senhor me foi muito simpático.
— Obrigado.
— Sobretudo pelo que o Astrólogo me disse a seu respeito. Sabe que é formidável seu projeto de fazer a revolução social com bacilos da peste?
Erdosain levantou os olhos. Aqueles elogios quase o humilhavam. Era possível que alguém desse importância às teorias que ele pensava?
O Buscador de Ouro insistiu:
— Isso e os gases asfixiantes é admirável. O senhor percebe? Deixar um garrafão de aço no Departamento de Polícia, na hora em que está aquele bandido do Santiago! Envenenar todos os tiras como ratos! — E soltou uma gargalhada tão estentórea que três pássaros se desprenderam num grande voo de arco de um limoeiro. — Sim, amigo Erdosain, o senhor é um colosso. Peste e cloro. Sabe que revolucionaremos esta cidade? Já imagino esse dia, os comerciantes saindo como viscachas assustadas de suas tocas e nós limpando de imundície o planeta com uma metralhadora. Duzentos e cinquenta tiros por minuto. Moleza.
E depois cortinas de cloro ou de fosgênio... Ah!, seria preciso publicar seus projetos nos jornais, acredite...
Erdosain interrompeu o panegírico com esta pergunta:
— Então o senhor encontrou o ouro, não?... o ouro...
— Suponho que não acreditará nessa novela dos “placeres”.
— Como novela? Então o ouro...?
— Existe, claro que existe... mas é preciso encontrá-lo.
Tão profunda era a decepção de Erdosain que o Buscador de Ouro acrescentou:
— Veja, irmão... eu falei com o senhor porque o Astrólogo me disse que podia fazê-lo.
— Sim, mas eu acreditava...
— O quê?
— Que, entre tantas mentiras, essa seria uma das poucas verdades.
— No fundo é verdade. O ouro existe... é preciso encontrá-lo, nada mais. O senhor devia se alegrar porque tudo está se organizando para ir buscá-lo. Ou acredita que esses animais se moverão se não forem empurrados por mentiras extraordinárias? Ah!, quanto pensei. Nisso consiste a grandeza da teoria do Astrólogo: os homens só se sacodem com mentiras.
Ele dá ao falso a consistência do certo; pessoas que jamais teriam caminhado para alcançar coisa alguma, tipos desfeitos por todas as desilusões, ressuscitam pela virtude de suas mentiras. O senhor quer algo maior que isso? Veja que, na realidade, acontece o mesmo e ninguém condena. Sim, todas as coisas são aparências... perceba... não há homem que não admita as pequenas e estúpidas mentiras que regem o funcionamento de nossa sociedade.
Qual é o pecado do Astrólogo? Substituir uma mentira insignificante por uma mentira eloquente, enorme, transcendental. O Astrólogo, com suas falsidades, não parece um homem extraordinário, e não é... e é; é... porque não tira proveito pessoal de suas mentiras, e não é porque ele não faz outra coisa senão aplicar um princípio velho posto em uso por todos os farsantes e reorganizadores da humanidade.
Se algum dia se escrever a história desse homem, os que a lerem e tiverem um pouco de sangue-frio dirão: Era grande, porque, para alcançar... de qualquer charlatão. E o que a nós nos parece novelesco e inquietante não passa da aflição dos espíritos fracos e medíocres, que só acreditam no êxito quando os meios para alcançá-lo são complicados, misteriosos, e não simples. E, no entanto, o senhor devia saber que os grandes atos são simples, como a prova do ovo de Colombo.
— A verdade da mentira?
— Isso mesmo. O que há é que nos falta coragem para empresas enormes. Imaginamos que a administração de um Estado é mais complicada que a de uma modesta casa, e nos acontecimentos pomos um excesso de novelaria, de romantismo idiota.
— Mas o senhor, em sua consciência, sente, quero dizer, a realidade lhe dá a impressão de que teremos êxito?
— Completamente, e acredite... seremos, quando menos, os donos do país... se não do mundo.
Temos que ser. O que o Astrólogo projeta é a salvação da alma dos homens esgotados pela mecanização de nossa civilização. Já não há ideais. Não há símbolos bons nem maus. O Astrólogo, da outra vez, falava de colônias que fundavam, no velho mundo, os vagos que não se sentiam bem em seu país. Faremos o mesmo, mas dando à Sociedade um sentido de jogo enérgico...
jogo que seduz até a alma dos lojistas quando vão ao cinematógrafo ver uma aventura de cowboys. O que sabe o senhor, irmão, das confusões que pensamos armar?... Em último caso, semearemos bombas de trinitrotolueno para nos divertir um pouco com o espanto da canalha.
O que o senhor pensa que eram as velhas patotas e os valentões do arrabalde? Homens que não haviam encontrado leitos por onde lançar sua energia. E então a desafogavam estragando um mauricinho ou um turco.
Veja... Comodoro... Puerto Madryn, Trelew, Esquel, Arroyo Pescado, Campo Chileno, conheço todos os caminhos e todas as solidões... Acredite... organizaremos um corpo de juventude admirável — havia se entusiasmado. — O senhor acredita que não há ouro? Faz-me lembrar as crianças que, à mesa, têm os olhos maiores que o estômago. Em nosso país tudo é ouro.
Erdosain sentia-se arrastado pelo calor do outro. O Buscador de Ouro falava convulsivamente, piscando os olhos, levantando ora uma sobrancelha, ora a outra, sacudindo-o amistosamente pelo braço.
— Acredite, Erdosain... há muito ouro... mais do que o senhor pode imaginar... mas não é essa a realidade. Há outra: o tempo que vai embora. Esquel, Arroyo Pescado, Río Pico... Campo Chileno... léguas... caminhos de dias e dias... e o senhor sabe, sabe que, para tirar o certificado de um cavalo que não vale dez pesos, caminha-se semanas; o tempo não vale nada... Tudo é grande... enorme... eterno lá. O senhor tem de se convencer. Lembro-me de quando, com a Máscara, íamos por Arroyo Pescado. Não só ouro... o ouro vermelho...
Lá se salvam as almas que a civilização adoeceu. Enviaremos à montanha todos os nossos. Veja... tenho vinte e sete anos... e joguei a pele a tiros várias vezes — tirou o revólver. — Vê aquele pardal? — estava a cinquenta passos; levantou o revólver até o queixo, apertou o gatilho e, ao soar o estampido, o pássaro desprendeu-se verticalmente do galho. — Viu? Assim joguei muitas vezes a pele. Não é preciso ficar triste. Veja, tenho vinte e sete anos.
Arroyo Pescado, Esquel, Río Pico, Campo Chileno... todas as solidões serão nossas... organizaremos a escolta da Alegria Nova... A Ordem dos Cavaleiros do Ouro Vermelho... O senhor acredita que estou exaltado. Não, homem! É preciso ter estado lá para perceber. E nessas circunstâncias a gente concebe a necessidade, a imprescindível necessidade de uma aristocracia natural. Desafiando a solidão, os perigos, a tristeza, o sol, o infinito da planície, a gente se sente outro homem...
distinto do rebanho de escravos que agoniza na cidade. Sabe o senhor o que é o proletariado, anarquista, socialista, de nossas cidades? Um rebanho de covardes. Em vez de ir quebrar a alma na montanha e nos campos, preferem as comodidades e os divertimentos à heroica solidão do deserto. O que fariam as fábricas, as casas de moda, os mil mecanismos parasitários da cidade se os homens fossem para o deserto...
se cada um deles levantasse sua tenda lá embaixo? Entende agora por que estou com o Astrólogo? Nós, os jovens, criaremos a vida nova; sim, nós. Estabeleceremos uma aristocracia bandida. Os intelectuais contagiados pelo idiotismo de Tolstói serão fuzilados, e o resto, a trabalhar para nós. Por isso admiro Mussolini. Nesse país de bandolinistas, estabeleceu o uso do bastão, e aquele reinado de opereta se converteu, da noite para o dia, no mastim do Mediterrâneo.
As cidades são os cânceres do mundo. Aniquilam o homem, moldam-no covarde, astuto, invejoso, e é a inveja que afirma seus direitos sociais, a inveja e a covardia. Se esses rebanhos fossem compostos de bestas corajosas, teriam feito tudo em pedaços. Crer no montão é crer que se pode tocar a lua com a mão. Veja o que aconteceu com Lênin e o camponês russo.
Mas já está tudo organizado e não cabe outra coisa senão dizer: em nosso século, os que não se sentem bem na cidade que vão para o deserto. Isso é o que o Astrólogo propõe. Tem muita razão. Quando os primeiros cristãos se sentiram mal nas cidades, foram para o deserto. Ali, a seu modo, construíram a felicidade. Hoje, em compensação, a chusma das cidades late nos comitês.
— Sabe que gostei de seu símile do deserto?
— Mas claro, Erdosain. O Astrólogo diz: esses que não estão cômodos nas cidades não têm direito de incomodar os que gozam dela. Para os descontentes e incômodos das cidades estão a montanha, a planície, a margem dos grandes rios.
Erdosain não imaginava tal violência no Buscador de Ouro. O outro adivinhou seu pensamento, porque disse:
— Nós pregaremos a violência, mas não aceitaremos nas células os teóricos da violência; aquele que quiser nos demonstrar seu ódio à civilização atual terá de nos dar uma prova de sua obediência à sociedade. O senhor percebe agora o objetivo da colônia? O ouro não é também uma bela ilusão? O esforço o converterá num super-homem. Então lhe serão outorgados poderes.
Não acontece o mesmo com as ordens monacais? O exército não está organizado assim? Mas, homem, não abra a boca! Nas próprias empresas comerciais... por exemplo, na casa Gath y Chaves, na Harrods, os empregados me contaram que o pessoal é governado por uma disciplina junto à qual a disciplina militar é brinquedo. Já vê, Erdosain, que nós não inventamos nada.
Substituímos um fim mesquinho por um fim extraordinário, nada mais.
Erdosain sentia-se humilhado diante do Buscador de Ouro. Invejava no outro a violência, irritavam-no suas verdades grossas e indiscutíveis, e teria desejado contradizê-lo, ao mesmo tempo em que dizia a si mesmo:
— Sou menos personagem de drama que ele, sou o homem sórdido e covarde da cidade. Por que não sinto sua agressividade e seu ódio? Sim, ele tem razão. E sorrio às suas palavras, prudentemente, como se temesse que me desse uma bofetada, e é que sua violência me assusta, sua coragem me irrita.
— Em que pensa, irmão? — disse o Buscador de Ouro.
O Buscador de Ouro encolheu os ombros.
— O senhor pensa que é covarde porque as circunstâncias para viver não o obrigaram a jogar a pele. Quero vê-lo no dia em que sua vida depender do gatilho do revólver, se será covarde ou não. O que há é que, na cidade, não se pode ser valente. O senhor sabe que, se estragar a cara de um desgraçado, os trâmites policiais vão incomodá-lo tanto que o senhor prefere tolerar a fazer justiça com as próprias mãos. Essa é a realidade.
E a gente se acostuma a ser resignado, a refrear os impulsos...
Erdosain olhou para ele:
— Sabe que é notável?
— Fique tranquilo, sócio. O senhor vai ver como vai despertar daqui a pouco... e vai se encontrar com a alma de um valente... É só começar.
À uma da tarde, os dois homens se despediram.