Os Sete Loucos: Os Espila Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 27 de 34
Obra Menu

Os Sete Loucos: Os Espila

Os Espila

O trem parou em Ramos Mejía. O relógio da estação marcava oito da noite. Erdosain desceu.

Uma neblina densa pesava nas ruas lamacentas do povoado.

Quando se viu sozinho na rua Centenario, bloqueado à frente e às costas por duas muralhas de neblina, recordou que no dia seguinte assassinariam Barsut. Era certo. Iam assassiná-lo.

Teria querido ter um espelho diante dos olhos para ver seu corpo assassino, tão inverossímil lhe parecia ser ele — o eu — quem, com tal crime, ia se separar de todos os homens.

Os lampiões ardiam tristemente, vertendo através do lamaçal cataratas de luz algodoada que gotejavam nos mosaicos, tornando invisível o povoado a mais de dois passos. Um enorme desconsolo estava em Erdosain, que avançava mais triste que um leproso.

Tinha agora a sensação de que sua alma se havia afastado para sempre de todo afeto terrestre. E sua angústia era a de um homem que leva na consciência um sinistro jaulão onde, entre ossos de pecados, bocejam, tingidos de sangue, tigres elásticos, firmando o olho numa projeção de salto.

E Erdosain, à medida que avançava, pensava em sua vida como se fosse a de outro, tentando compreender essas forças escuras que lhe subiam desde as raízes das unhas até se amontoarem, assobiando em suas grades como o simum.

Envolto na neblina que levava até a última celazinha de seu pulmão uma gota de umidade pesada, Erdosain chegou à rua Gaona, onde se deteve para enxugar a testa coberta de suor.

Bateu numa porta de tábuas, a única entrada de uma enorme frente de fábrica em cujo flanco estava suspensa uma lâmpada de querosene... De repente, uma mão abriu o portão e o jovem, resmungando palavrões, seguiu pelas laterais de um paredão, por uma trilha de tijolos que afundavam na lama sob suas pisadas.

Deteve-se diante dos vidros de uma porta iluminada, bateu palmas e uma voz rouca lhe gritou:

— Entre.

Erdosain entrou.

Uma lâmpada de acetileno iluminava, com chama fuliginosa, as cinco cabeças da família Espila, que um instante antes estavam inclinadas sobre os pratos. Todos o saudaram sorrindo, com vozes alegres, enquanto Emilio Espila, um rapagão alto, magro e cabeludo, correu até ele para apertar-lhe as mãos.

Erdosain cumprimentou por ordem, primeiro a velha Espila, encurvada pelo tempo e coberta de roupas negras; depois as duas irmãs moças, Luciana e Elena; depois o surdo Eustaquio, um gigantão encanecido e delgado como se fosse tuberculoso, que, segundo seu costume, comia com o nariz no prato, enquanto seus olhos cinzentos vigiavam o hieróglifo de uma revista, interpretando-o ao mesmo tempo que mastigava.

Erdosain sentiu-se um pouco reanimado pelo sorriso cordial de Luciana e Elena.

Luciana tinha o rosto comprido e era loira, de nariz arrebitado e boca de longos e finos lábios sinuosos tingidos de rosa. Elena tinha aspecto de freira, com seu semblante ovalado e cor de cera, as saias compridas e as mãos gordinhas e pálidas.

— Quer jantar? — disse a velha.

Erdosain, ao observar quão magra estava a travessa, respondeu que já o havia feito.

— De verdade que jantou?

— Sim... vou tomar um pouco de chá.

Abriram espaço para ele junto à mesa, e Erdosain tomou assento entre o surdo Eustaquio, que continuava vigiando seu hieróglifo, e Elena, que distribuía o resto do guisado entre Emilio e a velha.

Erdosain os observou com piedade. Fazia muitos anos que conhecia os Espila. Em outro tempo a família ocupava uma posição relativamente folgada; depois, uma sucessão de desastres a havia arremessado em plena miséria, e Erdosain, que encontrou Emilio por acaso um dia na rua, passou a visitá-los.

Fazia sete anos que não os via e se espantou ao reencontrá-los todos vivendo num cubículo, eles que em outra época tinham criada, sala e antessala. As três mulheres dormiam no quarto atulhado de móveis velhos, que nas horas de jantar ou almoçar fazia as vezes de sala de refeições, enquanto Emilio e o surdo se abrigavam numa cozinha pequena de chapas de zinco.

Para custear as despesas da casa, faziam os trabalhos mais extraordinários: vendiam guias sociais, aparelhos caseiros para fabricar sorvetes, e as duas irmãs costuravam. Num inverno, era tanta a pobreza, que roubaram um poste de telégrafo e o serraram durante a noite. Outra vez levaram todos os pilares de uma cerca, e as aventuras que corriam para arranjar dinheiro divertiam e, ao mesmo tempo, comoviam Erdosain.

A impressão que recebeu na primeira vez que os visitou foi enorme. Os Espila viviam num casarão perto de Chacarita, um quartel de três andares e divisórias de chapas de ferro. O edifício tinha o aspecto de um transatlântico, e os meninos brotavam dali como se o cortiço fosse um falanstério.

Durante alguns dias, Erdosain percorreu as ruas pensando nos sofrimentos que os Espila deviam ter suportado para se resignarem a essa catástrofe; e, mais tarde, quando inventou a rosa de cobre, disse a si mesmo que, para levantar o espírito daquela gente, era necessário enxertar-lhes uma esperança, e, com parte do dinheiro roubado na Açucareira, comprou um acumulador usado, um amperímetro e os diversos elementos para instalar uma oficina primitiva de galvanoplastia.

E convenceu os Espila de que deviam dedicar-se a esse trabalho nas horas vagas, pois, se tivessem êxito, todos enriqueceriam.

E ele, cuja vida carecia por completo de consolo e esperança, ele, que fazia muito tempo se sentia perdido, chegou a sugestioná-los com esperanças tão intensas que os Espila aceitaram iniciar os experimentos, e Elena dedicou-se muito seriamente a estudar galvanoplastia, enquanto o surdo preparava os banhos e se tornava prático nesse trabalho de unir os cabos do amperímetro em série ou tensão e de manejar a resistência.

Até a velha participou dos experimentos, e ninguém duvidou, quando conseguiram cobrear uma chapa de estanho, que em pouco tempo enriqueceriam caso a rosa de cobre não fracassasse.

Erdosain lhes falou, além disso, de confeccionar rendas de ouro, cortinas de prata, gazes de cobre, e até esboçou um projeto de gravata metálica que assombrou todos. Seu plano, em essência, era simples.

Fabricar-se-iam camisas de peitilhos, punhos e colarinhos metálicos, tomando o tecido, banhando-o numa solução salina e submetendo-o a um banho de galvanoplastia de cobre ou níquel.

Gath y Chaves, Harrods ou San Juan poderiam comprar-lhe a patente, e Erdosain, que acreditava apenas pela metade nessas aplicações, chegou a pensar um dia que havia se excedido ao fazer aquela gente sonhar, porque agora, apesar de não pagarem ninguém e quase morrerem de fome, o mínimo que sonhavam era adquirir um Rolls-Royce e um chalé que, se não estivesse na Avenida Alvear, não lhes interessava como propriedade.

Erdosain inclinou-se sobre a xícara de chá, e então Luciana, que estava ligeiramente rosada, correspondeu ao sorriso petulante de Emilio com um sinal, mas este, por estar extraordinariamente desdentado, não podia falar senão ceceando muito, e disse:

— Zabe?... a roza é um fato...

— Sim, graças a Deus conseguimos tirá-la. — Mas Luciana saltou impaciente, abriu uma gaveta do lavatório e Erdosain sorriu entusiasmado.

Entre os dedos da donzela loira erguia-se a rosa de cobre.

No miserável cubículo, a maravilhosa flor metálica desfolhava suas pétalas vermelhas. O tremor da chama da lâmpada de acetileno fazia brincar uma transparência rubra, como se a flor se animasse de uma vida botânica, que já estava queimada pelos ácidos e que constituía sua alma.

O surdo levantou o nariz do prato de escarola e, com voz tenaz, exclamou, depois de examinar o hieróglifo e a rosa:

— Não tem volta, che... Erdosain... você é um gênio...

— Zi desta feita ficamos ricoz...

— Deus te ouça — murmurou a velha.

— Mas mamãe... não zeja tão céptica...

— Deu muito trabalho?

Elena, com uma gravidade sorridente e ar científico, explicou-se.

— Olha, Remo, como na primeira rosa este aqui largava amperagem demais, ela queimava...

— E o banho não precipitou?

— Não... isso sim, nós o amornamos um pouco...

— Para dar o banho nesta, encolamos...

— Zabe... um banho de cola fina... zuave...

Remo examinou novamente a rosa de cobre, admirando sua perfeição. Cada pétala vermelha era quase transparente, e, sob a película metálica, distinguia-se apenas a forma nervurada da pétala natural, que havia enegrecido a cola. O peso da flor era leve, e Erdosain acrescentou:

— Que leve!... Pesa menos que uma moeda de cinco centavos...

Depois, observando uma sombra amarela que cobria os pistilos da flor, estriando-se ao subir pelas pétalas, acrescentou:

— No entanto, quando tirarem as flores do banho, precisam lavá-las com muita água. Estão vendo estas estrias amarelas? É o cianureto do banho que ataca o cobre. — Todas as cabeças formavam círculo em torno dele e o escutavam com religioso silêncio. Continuou: — Forma-se cianato de cobre, que é preciso evitar, porque, senão, o banho de níquel não pega. Quanto durou?

— Uma hora.

Ao levantar os olhos da rosa, seu olhar encontrou o de Luciana. Os olhos da donzela pareciam aveludados de um calor misterioso, e seus lábios sorriam deixando entrever os dentes brilhantes. Erdosain olhou-a estranhado. O surdo examinava a rosa, e todas as cabeças, estreitadas contra ele, seguiam com atenção os riscos amarelos do cianureto. Luciana não baixou as pálpebras.

De repente, Erdosain recordou que, no dia seguinte, interviria no assassinato de Barsut, e uma tristeza enorme fez com que baixasse os olhos; depois, subitamente hostil àquela gente iludida e que não tinha ideia de seus sofrimentos e das angústias que havia meses estava suportando, levantou-se e disse:

— Bom, até logo.

Até o surdo o olhou transtornado.

Elena deixou a cadeira e a velha ficou com o braço imóvel, segurando um prato que ia colocar diante de Eustaquio.

— O que está acontecendo com você, Remo?

— Mas, che, Erdosain...

Elena o observou seriamente:

— Acontece alguma coisa, Remo?

— Nada, Elena... acredite...

— Está zangado? — perguntou Luciana, cheios os olhos de seu calor misterioso e triste.

— Não, nada... eu sentia uma vontade enorme de ver vocês... Agora preciso ir...

— De verdade que não está zangado?

— Não, senhora.

— Zão as preocupaçõez... eu explico...

— Cala a boca você, badulaque...

O surdo resolveu abandonar o hieróglifo e insistiu no que havia dito antes.

— Estou te avisando que isso você tem que levar a sério, porque vai ficar rico.

— Mas não acontece nada com você?

Erdosain recolheu o chapéu. Experimentava uma repugnância enorme em pronunciar palavras inúteis. Tudo estava resolvido. Para que falar, então? No entanto, esforçou-se e disse:

— Acreditem... eu gosto muito de vocês... como antes... Não estou zangado... fiquem tranquilos... tenho mais ideias... Montaremos uma tinturaria de cães e venderemos cães tingidos de verde, de azul, de amarelo e de violeta... Já veem que ideias me sobram... Vocês vão sair desta miséria horrível... eu vou tirar vocês... já veem, ideias me sobram.

Luciana o olhou com compaixão e disse:

— Eu te acompanho — e assim saíram juntos até a rua.

A neblina encaixava no beco um cubo em que reverberavam tristemente os queimadores dos lampiões de petróleo.

De repente, Luciana tomou o braço de Erdosain e lhe disse com voz muito suave:

— Eu te amo, te amo muito!

Erdosain olhou-a ironicamente; sua pena havia se transfigurado em crueldade. Olhou-a:

— Eu já sei.

Ela continuou:

— Te amo tanto que, para te agradar, estudei como é um alto-forno e o transformador de Bessemer. Quer que eu te diga o que são os atalajes e como funciona a refrigeração?

Erdosain a envolveu num olhar frio, pensando: “Esta mulher não está bem”.

Ela continuou:

— Sempre pensava em você. Quer que eu te explique a análise dos aços e como se funde o cobre, olha, e a lavagem do ouro e o que são as muflas?

Erdosain, apertando obstinadamente os lábios, caminhava pelo beco pensando que a existência dos homens era um absurdo, e outra vez o rancor injustificado brotava dele contra a doce moça que, apertada contra seu braço, dizia:

— Lembra daquela vez em que você falou que seu ideal era ser chefe de um alto-forno? Você me deixou louca. Por que não fala? Então me pus a estudar metalurgia. Quer que eu te explique a diferença que existe entre uma distribuição irregular de carbono e outra molecular perfeita? Por que não fala, querido?

Sentiu-se o fragor surdo do trem que passou ao longe; a leitosidade da neblina se convertia em escuridão a pouca distância dos lampiões, e Erdosain teria querido falar, explicar-lhe suas desgraças, mas aquela malignidade surda e encarniçada o mantinha rígido junto à donzela, que insistiu:

— Mas o que você tem? Está zangado conosco? No entanto, a você devemos nossa fortuna.

Erdosain olhou-a dos pés à cabeça, apertou o braço da moça e lhe disse surdamente:

— Você não me interessa.

Depois lhe deu as costas e, antes que ela atinasse a se voltar para ele, perdeu-se a passos rápidos entre a neblina.

Compreendia que havia ultrajado gratuitamente a moça, e essa convicção lhe proporcionou uma alegria tão cruel que murmurou entre os dentes:

— Tomara que todos arrebentem e me deixem em paz.

1/1
Menu

Fazer anotação