Os Sete Loucos: O sequestro Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 20 de 34
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Os Sete Loucos: O sequestro

O sequestro

Às nove da manhã, Erdosain foi buscar Barsut.

Saíram sem dizer palavra. Mais tarde, Erdosain refletia sobre aquela viagem estranha na qual o outro homem foi ao encontro de seu destino sem opor nenhuma resistência.

Referindo-se a essas circunstâncias, dizia:

— Eu ia com Barsut como um condenado à morte marcha para o lugar da execução, abandonada toda a sua força; com uma sensação persistente, a do vazio ocupando os interstícios de minhas entranhas.

“Barsut, por sua vez, estava carrancudo; eu compreendia que ele, ali, sentado junto à janelinha, com o cotovelo apoiado no corrimão, acumulava furores para descarregá-los contra o inimigo invisível que seu instinto lhe advertia estar oculto na chácara de Temperley.”

Erdosain continuou:

— Por momentos eu dizia a mim mesmo como teria sido curioso para os outros passageiros saber que aqueles dois homens, afundados no acolchoado de couro dos assentos, eram: um, o próximo assassino, e o outro, sua vítima.

“E, no entanto, tudo continuava igual; o sol luzia lá nos campos; havíamos deixado para trás os frigoríficos, as fábricas de estearina e sabão, as fundições de vidro e de ferro, os currais com o gado cheirando os postes, as avenidas por pavimentar com suas planícies manchadas de gesso e de sulcos.

E agora começava, transposto Lanús, o espetáculo sinistro de Remedios de Escalada, monstruosas oficinas de tijolo vermelho e suas bocarras negras, sob cujos arcos manobravam as locomotivas, e, ao longe, nas entrelinhas, viam-se quadrilhas de infelizes golpeando cascalho ou transportando dormentes.

“Mais além, entre uma vegetação raquítica de plátanos intoxicados pela fuligem e pelos fedores do petróleo, cruzava a senda oblíqua dos chalés vermelhos para os empregados da empresa, com seus jardinzinhos minúsculos, suas persianas enegrecidas pela fumaça e os caminhos semeados de escória e moinha.”

Barsut ia ensimesmado. Erdosain, para explicar o termo exato, deixava-se estar. Se naquele momento tivesse visto um comboio avançando pela linha em sentido contrário, não teria piscado, tão indiferente lhe era a vida ou a morte. Assim transcorreu a viagem. Quando chegaram a Temperley, Barsut se sacudiu como se despertasse, arrepiado, de um sonho penoso, e limitou-se a dizer:

— Por onde é?

Erdosain estendeu o braço, assinalando vagamente a distância que deviam caminhar, e Barsut seguiu o rumo.

Agora cruzavam em silêncio as ruas em direção à chácara do Astrólogo.

Caía o terno azul da manhã nos matos das ruas oblíquas.

Caules, pastéis de todos os verdes e árvores criavam informes edifícios vegetais, crestados por penachos flexíveis e bifurcados por labirintos de lenhosidades vermelhas. Tudo isso sob o ar que ondulava suavemente, de tal forma que aquelas fantásticas construções do acaso botânico pareciam flutuar numa atmosfera de ouro, que tinha a lucidez vítrea de um cristal côncavo, retendo em sua esfericidade o profundo fedor da terra.

— Bonita a manhã — disse Barsut.

E já não falaram mais até chegarem diante da chácara.

— É aqui — disse Erdosain.

Barsut deu um salto para trás e, olhando-o com uma agudeza incrível, exclamou:

— E como você sabe que é aqui, se não há número?

Comentando mais tarde esse incidente, Erdosain dizia:

“Pode-se afirmar que há um instinto do crime, um instinto que permite a alguém mentir instantaneamente sem medo de incorrer em contradições, um instinto que é como o impulso de conservação e que, no momento mais agudo da luta, lhe permite encontrar recursos de salvação quase inverossímeis.”

Erdosain levantou a vista e, com um aprumo inesperado para ele e surpreendente depois, respondeu:

— Porque vim ontem dar voltas por aqui. Queria ver se via Elsa.

Barsut o olhou, duvidando.

Teria afirmado que Erdosain mentia, mas o amor-próprio o impedia de retroceder, e Erdosain, chamando, golpeou fortemente com as palmas das mãos.

Tapando-lhe até a metade do rosto a aba larga de um chapéu de palha, e em mangas de camisa, o Homem que viu a Parteira se deteve diante do portão de arame pintado de vermelho.

— A senhora está? — perguntou Barsut.

Bromberg, sem responder, correu o ferrolho e abriu o portão; depois internou-se por uma trilha que torcia para a casa entre o eucaliptal, e os dois homens o seguiram. Repentinamente, uma voz gritou:

— Aonde vão vocês?

Barsut moveu a cabeça. Bromberg girou sobre os calcanhares e, como se alguma mola de seu braço tivesse se rompido, este se alongou semelhante a um raio.

Barsut abriu a boca num frenesi de ar, dobrando instantaneamente a parte superior do corpo. Ia apertar o estômago com as mãos, mas o braço de Bromberg dilatou o ângulo de outro golpe, e, sob o cross de mandíbula, os dentes de Barsut se entrechocaram.

Caiu, e, esmagado entre o capim, parecia estar morto, com as pernas encolhidas e os lábios ligeiramente entreabertos. O Astrólogo apareceu, e Bromberg, sério, quase triste, inclinou-se sobre o caído.

O Astrólogo o tomou pelas juntas dos braços, com os dedos em garra sob as axilas, e assim o conduziram até a cocheira abandonada. Erdosain fez correr sobre os rolos o portão pintado de cor ocre; cheiro de capim seco e um turbilhão de insetos escapou da tarimba negra.

Introduziram o desmaiado até um boxe: uma grossa corrente estava presa a um dos pilares por um cadeado.

O Astrólogo prendeu com a ponta dela, por cima do tornozelo, o pé de Barsut, fez vários nós com os elos, depois a assegurou com um cadeado; este rangeu ao se abrir, e Erdosain, endireitando-se sobre o caído, disse, olhando para o Astrólogo:

— Viu? A caderneta de cheques ele não traz consigo.

Eram dez da manhã. O Astrólogo olhou o relógio e disse:

— Tenho tempo de pegar o rápido que chega a Rosário às seis. Quer me acompanhar até Retiro?

— Como, vai a Rosário?

— E, se tenho de fazer o telegrama à dona da pensão? O senhor tem o número?

— Sim, tudo.

— É o melhor para nos apoderarmos da bagagem de Barsut sem despertar suspeitas. Na pensão, ele não tem mais nada?

— Sim, o baú e duas muletas.

— Perfeitamente. Deixemos a conversa e vamos ao ponto. Às seis estarei em Rosário, mando o telegrama à velha, o senhor dá uma passada amanhã às dez e, fazendo-se de tonto, pergunta se Barsut ainda não chegou a Rosário; e, como eu não cheguei, o senhor acrescenta que sabe que me ofereceram um emprego importante, etc., etc. O que acha?

— Muito bem.

Às doze, o Astrólogo subia no trem.

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