Os Sete Loucos: O sequestro
O sequestro
Às nove da manhã, Erdosain foi buscar Barsut.
Saíram sem dizer palavra. Mais tarde, Erdosain refletia sobre aquela viagem estranha na qual o outro homem foi ao encontro de seu destino sem opor nenhuma resistência.
Referindo-se a essas circunstâncias, dizia:
— Eu ia com Barsut como um condenado à morte marcha para o lugar da execução, abandonada toda a sua força; com uma sensação persistente, a do vazio ocupando os interstícios de minhas entranhas.
“Barsut, por sua vez, estava carrancudo; eu compreendia que ele, ali, sentado junto à janelinha, com o cotovelo apoiado no corrimão, acumulava furores para descarregá-los contra o inimigo invisível que seu instinto lhe advertia estar oculto na chácara de Temperley.”
Erdosain continuou:
— Por momentos eu dizia a mim mesmo como teria sido curioso para os outros passageiros saber que aqueles dois homens, afundados no acolchoado de couro dos assentos, eram: um, o próximo assassino, e o outro, sua vítima.
“E, no entanto, tudo continuava igual; o sol luzia lá nos campos; havíamos deixado para trás os frigoríficos, as fábricas de estearina e sabão, as fundições de vidro e de ferro, os currais com o gado cheirando os postes, as avenidas por pavimentar com suas planícies manchadas de gesso e de sulcos.
E agora começava, transposto Lanús, o espetáculo sinistro de Remedios de Escalada, monstruosas oficinas de tijolo vermelho e suas bocarras negras, sob cujos arcos manobravam as locomotivas, e, ao longe, nas entrelinhas, viam-se quadrilhas de infelizes golpeando cascalho ou transportando dormentes.
“Mais além, entre uma vegetação raquítica de plátanos intoxicados pela fuligem e pelos fedores do petróleo, cruzava a senda oblíqua dos chalés vermelhos para os empregados da empresa, com seus jardinzinhos minúsculos, suas persianas enegrecidas pela fumaça e os caminhos semeados de escória e moinha.”
Barsut ia ensimesmado. Erdosain, para explicar o termo exato, deixava-se estar. Se naquele momento tivesse visto um comboio avançando pela linha em sentido contrário, não teria piscado, tão indiferente lhe era a vida ou a morte. Assim transcorreu a viagem. Quando chegaram a Temperley, Barsut se sacudiu como se despertasse, arrepiado, de um sonho penoso, e limitou-se a dizer:
— Por onde é?
Erdosain estendeu o braço, assinalando vagamente a distância que deviam caminhar, e Barsut seguiu o rumo.
Agora cruzavam em silêncio as ruas em direção à chácara do Astrólogo.
Caía o terno azul da manhã nos matos das ruas oblíquas.
Caules, pastéis de todos os verdes e árvores criavam informes edifícios vegetais, crestados por penachos flexíveis e bifurcados por labirintos de lenhosidades vermelhas. Tudo isso sob o ar que ondulava suavemente, de tal forma que aquelas fantásticas construções do acaso botânico pareciam flutuar numa atmosfera de ouro, que tinha a lucidez vítrea de um cristal côncavo, retendo em sua esfericidade o profundo fedor da terra.
— Bonita a manhã — disse Barsut.
E já não falaram mais até chegarem diante da chácara.
— É aqui — disse Erdosain.
Barsut deu um salto para trás e, olhando-o com uma agudeza incrível, exclamou:
— E como você sabe que é aqui, se não há número?
Comentando mais tarde esse incidente, Erdosain dizia:
“Pode-se afirmar que há um instinto do crime, um instinto que permite a alguém mentir instantaneamente sem medo de incorrer em contradições, um instinto que é como o impulso de conservação e que, no momento mais agudo da luta, lhe permite encontrar recursos de salvação quase inverossímeis.”
Erdosain levantou a vista e, com um aprumo inesperado para ele e surpreendente depois, respondeu:
— Porque vim ontem dar voltas por aqui. Queria ver se via Elsa.
Barsut o olhou, duvidando.
Teria afirmado que Erdosain mentia, mas o amor-próprio o impedia de retroceder, e Erdosain, chamando, golpeou fortemente com as palmas das mãos.
Tapando-lhe até a metade do rosto a aba larga de um chapéu de palha, e em mangas de camisa, o Homem que viu a Parteira se deteve diante do portão de arame pintado de vermelho.
— A senhora está? — perguntou Barsut.
Bromberg, sem responder, correu o ferrolho e abriu o portão; depois internou-se por uma trilha que torcia para a casa entre o eucaliptal, e os dois homens o seguiram. Repentinamente, uma voz gritou:
— Aonde vão vocês?
Barsut moveu a cabeça. Bromberg girou sobre os calcanhares e, como se alguma mola de seu braço tivesse se rompido, este se alongou semelhante a um raio.
Barsut abriu a boca num frenesi de ar, dobrando instantaneamente a parte superior do corpo. Ia apertar o estômago com as mãos, mas o braço de Bromberg dilatou o ângulo de outro golpe, e, sob o cross de mandíbula, os dentes de Barsut se entrechocaram.
Caiu, e, esmagado entre o capim, parecia estar morto, com as pernas encolhidas e os lábios ligeiramente entreabertos. O Astrólogo apareceu, e Bromberg, sério, quase triste, inclinou-se sobre o caído.
O Astrólogo o tomou pelas juntas dos braços, com os dedos em garra sob as axilas, e assim o conduziram até a cocheira abandonada. Erdosain fez correr sobre os rolos o portão pintado de cor ocre; cheiro de capim seco e um turbilhão de insetos escapou da tarimba negra.
Introduziram o desmaiado até um boxe: uma grossa corrente estava presa a um dos pilares por um cadeado.
O Astrólogo prendeu com a ponta dela, por cima do tornozelo, o pé de Barsut, fez vários nós com os elos, depois a assegurou com um cadeado; este rangeu ao se abrir, e Erdosain, endireitando-se sobre o caído, disse, olhando para o Astrólogo:
— Viu? A caderneta de cheques ele não traz consigo.
Eram dez da manhã. O Astrólogo olhou o relógio e disse:
— Tenho tempo de pegar o rápido que chega a Rosário às seis. Quer me acompanhar até Retiro?
— Como, vai a Rosário?
— E, se tenho de fazer o telegrama à dona da pensão? O senhor tem o número?
— Sim, tudo.
— É o melhor para nos apoderarmos da bagagem de Barsut sem despertar suspeitas. Na pensão, ele não tem mais nada?
— Sim, o baú e duas muletas.
— Perfeitamente. Deixemos a conversa e vamos ao ponto. Às seis estarei em Rosário, mando o telegrama à velha, o senhor dá uma passada amanhã às dez e, fazendo-se de tonto, pergunta se Barsut ainda não chegou a Rosário; e, como eu não cheguei, o senhor acrescenta que sabe que me ofereceram um emprego importante, etc., etc. O que acha?
— Muito bem.
Às doze, o Astrólogo subia no trem.