Os Sete Loucos: O chicote
Capítulo terceiro
O chicote
A artimanha imaginada por Erdosain e levada a cabo pelo Astrólogo teve êxito, e este resolveu que, na quarta-feira, fosse realizada a primeira reunião em que se conheceriam os “chefes”.
Na terça-feira, às quatro da tarde, Erdosain recebeu a visita do Astrólogo, que lhe avisou que, na quarta daquela semana, às nove da manhã, os chefes se reuniriam em Temperley.
O Astrólogo permaneceu em companhia de Erdosain alguns minutos e, quando este descia a escada, examinando sobressaltado seu relógio, disse àquele:
— Caramba... são quatro horas, tenho de ir a um monte de lugares... espero o senhor amanhã às nove...
Ai! pensei que o único que podia desempenhar o posto de Chefe de Indústrias era o senhor.
Bom, amanhã conversaremos... Ah!, não se esqueça de apresentar... melhor dizendo, de preparar um projeto sobre turbinas hidráulicas, um tipo para usina de montanha, simples. Seria para a colônia e os trabalhos de eletrometalurgia.
— Quantos quilowatts?
— Não sei... isso o senhor deve estudar. Haverá fornos elétricos... enfim, dê um jeito. Além disso, chegou o Buscador de Ouro; amanhã ele lhe dará detalhes mais concretos. Prepare-se para que o assunto não o pegue de surpresa. Diabo, está ficando tarde... até amanhã... — ajeitando a cartola, chamou um chofer que passava e acomodou-se no automóvel.
No dia seguinte, Erdosain, caminhando pelas calçadas de Temperley, observava assombrado que fazia muito tempo não gozava de uma emoção de sossego semelhante.
Caminhava devagar. Aqueles túneis vegetais lhe davam a sensação de um trabalho titânico e disforme. Olhava deliciado as trilhas de grão vermelho nos parques, que avançavam suas lâminas escarlates até os prados, toalhas verdes esmaltadas de flores violáceas, amarelas e vermelhas.
E, se levantava os olhos, encontrava no zênite uns poçais aquosos que lhe produziam uma vertigem de queda, pois, de repente, o céu desaparecia em suas pupilas e lhe deixava nos olhos uma escuridão de cegueira, clareando-se o pensamento num furtivo borboletear de átomos de prata, que por sua vez se evaporavam, transformando-se em terríveis azulados ásperos e secos, agora no alto, como cavernas de azul de metileno.
E o prazer que a manhã suscitava nele, o gozo novo, soldava os pedaços de sua personalidade, rompida pelos sofrimentos anteriores do desastre, e ele sentia que seu corpo estava ágil para toda aventura.
— Augusto Remo Erdosain — como se pronunciar seu nome lhe produzisse um prazer físico, que duplicava a energia infiltrada em seus membros pelo movimento.
Pelas ruas oblíquas, sob os cones do sol, avançava sentindo a potência de sua personalidade flamante: Chefe de Indústrias. A frescura do caminho botânico enriquecia-lhe a consciência de grandezas. E essa satisfação o aprumava nas ruas, como a esses bonecos de celuloide o lastro de chumbo.
Pensava que se mostraria irônico na reunião, e um desprezo malévolo lhe surgia pelos fracos do mundo. O planeta era dos fortes, isso mesmo, dos fortes. Arrasariam o mundo e se apresentariam à canalha que encalha a bunda nas cadeiras de todos os escritórios, blindados de grandeza, semelhantes a imperadores solitários e cruéis. Imaginavam-se novamente num salão desmedido de muros envidraçados, cujo centro era ocupado por uma mesa redonda.
Seus quatro secretários, com papéis nas mãos e as penas atrás da orelha, aproximavam-se para consultá-lo, enquanto, num canto, com os chapéus nas mãos e as cabeças grisalhas inclinadas, estavam os delegados dos operários. E Erdosain, voltando-se para eles, dizia simplesmente: “Ou amanhã voltam ao trabalho ou mandaremos fuzilá-los”. Isso era tudo. Falava pouco e em voz baixa, e seu braço estava fatigado de assinar decretos.
Mantinha-o de pé a ferocidade dos tempos que precisavam da alma de um tigre para adornar os confins de todos os crepúsculos de fuzilamentos sinistros.
Avançava agora para a chácara do Astrólogo com o coração batendo de entusiasmo, repetindo a frase de Lênin, como uma musiquinha cheia de voluptuosidade:
“— Que diabo de revolução é esta se não fuzilamos ninguém!”
Ao chegar à chácara e entreabrir uma das portas, viu vir ao seu encontro o Astrólogo, coberto por um longo guarda-pó cinza e um chapéu de palha.
Com amizade, apertaram fortemente as mãos, enquanto o Astrólogo dizia:
Barsut está tranquilo, sabe? Acho que não vai opor muita resistência para assinar o cheque. Esses tipos já chegaram, mas primeiro veremos Barsut. Que esperem, que diabo! O senhor percebe minha situação? Com esse dinheiro, o mundo é nosso.
Agora haviam entrado no escritório, e o Astrólogo, fazendo girar o anel com a pedra violeta e olhando o mapa dos Estados Unidos, prosseguiu:
— Conquistaremos a terra, realizaremos nossa “ideia”... podemos instalar um prostíbulo em San Martín ou em Ciudadela, e a colônia dos Santos na montanha. Quem mais apto para reger o prostíbulo que o Rufião Melancólico? Vamos nomeá-lo Grande Patriarca Prostibulário.
Erdosain aproximou-se da janela... As roseiras vertiam um perfume potentíssimo, agudo, todo o espaço se povoava de uma fragrância vermelha, fresca como uma torrente de água. Moscardos de asas de cristal revoluteavam em torno das manchas escarlates das romãzeiras. Erdosain permaneceu alguns segundos assim. O espetáculo o reconduziu àquela tarde idêntica em que estivera ali, no mesmo lugar. E, no entanto, não imaginava que a noite o esperava com a surpresa da partida de Elsa.
O verdor multiforme penetrava por seus olhos, mas ele não o via. Lá no fundo de sua existência, com a face apoiada nos mamilos violetas de um peito masculino quadrado, estava sua esposa, lânguida, o olhar frouxo, os lábios entreabertos para a boca obscena do outro.
Um pássaro passou diante de seus olhos, e Erdosain, voltando-se para o Astrólogo, disse com voz forçadamente suave:
— Homem, faça o que quiser. — Depois sentou-se, acendeu um cigarro e, observando o outro, que com um compasso marcava um círculo num mapa azul, perguntou: — Mas o que o senhor pensa fazer? O Rufião Melancólico se prestará a administrar os prostíbulos?
— Sim, quanto a isso não há cuidado, e Barsut não vai opor maior resistência.
— Continua na cocheira?
— Achei prudente sequestrá-lo. Acorrentei-o na cavalariça.
— Na cavalariça?
— Era o único lugar sólido onde podia guardá-lo. Além disso, numa peça acima da cocheira dorme o Homem que viu a Parteira...
— O que é isso?
— Algum dia lhe contarei. Viu a parteira e não consegue dormir à noite. Bom, eu havia pensado que o senhor...
— Como, vou ser eu quem...?
— Deixe-me falar. Que o senhor o visse e tratasse de convencê-lo a assinar, enfim, que lhe expusesse nossas ideias...
— Vai ser preciso fazê-lo assinar à força...
— Mas como? Eu, naturalmente, sou inimigo da violência, mas o senhor me entende. Nossa ideia está acima de todo sentimentalismo; é disso que o senhor deve inteirar Barsut, enfim, que nós não gostaríamos de nos ver na obrigação de torrar-lhe os pés ou coisa pior... para que assinasse o cheque.
— E o senhor está disposto?
— Sim, estamos dispostos porque não podemos perder esta única oportunidade. Eu contava com seu invento da rosa de cobre, mas isso é lento. Ao Rufião Melancólico não convém pedir dinheiro.
Se ele não tiver, nós o poremos num aperto; e, se tiver e não quiser nos dar, perderemos um amigo. O fato de ter sido generoso com o senhor não quer dizer que seja conosco. Além disso, é um neurastênico que não sabe o que dá de si.
Erdosain olhava, pelos quadriláteros formados pelos ferros da janela, as manchas escarlates nas copas verdes das romãzeiras. Uma faixa amarela de sol cortava o muro no alto da sala. Uma tristeza enorme passou por seu coração. O que havia feito de sua vida?
O Astrólogo reparou em seu silêncio e disse:
— Veja, Erdosain. Não nos resta outro remédio senão enfrentar tudo ou abandonar. A vida é assim, triste... mas o que quer que façamos? Eu também sei que o agradável seria fazer as coisas sem sacrifícios.
— É que, neste caso, o sacrifício é outro...
— E nós, Erdosain, e nós que jogamos a cadeia e a liberdade por tempo indeterminado. O senhor não leu as Vidas Paralelas, de Plutarco?
— Não...
— Pois vou lhe dar para que, lendo-as, aprenda que a vida humana vale menos que a de um cachorro, se, para imprimir um novo rumo à sociedade, for preciso destruir essa vida. O senhor sabe quantos assassinatos custa o triunfo de um Lênin ou de um Mussolini? Às pessoas isso não interessa. Por que não interessa? Porque Lênin e Mussolini triunfaram. Isso é o essencial, o que justifica toda causa injusta ou justa.
— E quem vai assassinar Barsut?
— Bromberg, o que viu a parteira...
— O senhor não me havia dito...
— Nem havia motivo, porque desse lado tudo estava resolvido. Uma rajada de perfume despejou-se na sala. Tornou-se nítido o ruído da água que caía no tonel.
— Então o assunto já é conhecido...
— Pelo senhor, por mim e por Bromberg...
— Gente demais para um segredo...
— Não, porque Bromberg é meu escravo, é escravo de si mesmo, que é pior.
— Perfeitamente, mas o senhor vai me entregar um documento assinado em que o senhor e Bromberg se confessem autores do crime.
— E para que o senhor quer isso?
— Para ter certeza de que não me engana.
Com gesto maquinal, o Astrólogo ajeitou a cartola, pegou seu rosto mongólico entre os dedos grossos e caminhou até o centro da sala, assim, com o cotovelo apoiado na palma da outra mão, e disse:
— Não tenho inconveniente em lhe dar o que o senhor pede, mas não esqueça isto. Eu vivo exclusivamente para realizar minha ideia. Vêm tempos extraordinários. Eu não poderia lhe explicar todos os prodígios que vão ocorrer porque não tenho tempo nem vontade de discutir. Sem dúvida vêm tempos novos. Quem os conhecerá? Os eleitos. No dia em que eu encontrar um homem capaz de me substituir e a empresa estiver encaminhada, vou me retirar para meditar na montanha.
Enquanto isso, todos os que me rodeiam me devem obediência absoluta. O senhor deve entender isso, se não quiser seguir o caminho do outro...
— Essa não é forma de falar.
— Sim, é forma, porque eu vou assinar o documento que o senhor me pede.
— Não preciso dele...
— O senhor vai precisar de dinheiro?
— Sim, uns dois mil pesos para...
— Não me diga... Serão entregues...
— Além disso, não quero ter nada a ver com o assunto dos prostíbulos...
— Muito bem, levará a contabilidade; mas sabe agora o que nos falta? Descobrir um símbolo vulgar para entusiasmar o populacho...
— Lúcifer.
— Não, esse é um símbolo místico... intelectual... É preciso descobrir algo grosseiro e estúpido... algo que entre pelos sentidos da multidão como a camisa negra... Esse diabo teve talento. Descobriu que a psicologia do povo italiano era uma psicologia de barbeiro e tenor de opereta... Enfim, veremos; já tenho pensada uma hierarquia, algo interessante... falaremos outro dia... pode ser que dê certo...
— A questão é que possamos nos sustentar...
— Isso se desconta... os prostíbulos vão render... Mas o senhor vai vê-lo, Barsut? Sabe o que lhe dirá?
— Sim...
Erdosain saiu em direção à cocheira, onde estavam instaladas as cavalariças. Era uma casona de paredes grossas e com andar superior, onde havia numerosas peças vazias, percorridas por ratos.
Numa delas vivia, ou melhor, dormia, o sinistro Bromberg, a quem Erdosain havia visto no dia do sequestro.
Compreendia que agora ia a caminho de um afundamento do qual não imaginava de que forma sua vida sairia maltratada, e essa incerteza, assim como sua absoluta falta de entusiasmo pelos projetos do Astrólogo, causava-lhe a impressão de que agia em falso, criando gratuitamente uma situação absurda. “Tudo havia falido em mim”, diria mais tarde; mas, sobrepondo-se ao cansaço e à indiferença, marchava para a cocheira.
Seu coração batia fortemente ao saber que se encontraria “com o inimigo”. Por instantes, franzia o cenho, e seu rancor era evidente.
Abriu o cadeado, correu a corrente e, subitamente tomado de curiosidade, empurrou uma das folhas do portão.
O prisioneiro se dispunha a comer, nus os braços no círculo da luz amarela que a lamparina de querosene estendia sobre uma mesa de pinho.
Barsut estava sentado sob o triângulo da manjedoura metálica, entre os muros de madeira de um boxe, e, ao ver Erdosain franzindo a testa, deteve por um segundo a azeiteira com que regava um pedaço de carne rodeado de batatas; depois, sem dizer palavra que revelasse sua surpresa, mergulhou novamente em seu trabalho nutritivo. Alongando o braço e tomando entre os dedos uma pitada de sal, polvilhou as batatas.
Conservava uma compostura sombria, apesar de um buraco de sua camiseta rosa deixar ver seu sovaco negro.
Os olhos fixos no fiambre certificavam que Barsut dava mais importância à comida que a Erdosain, detido a três passos dali. O resto do estábulo permanecia na escuridão. Pelas frestas dos muros entravam oblíquas setas de sol que deixavam no pó do chão porosos discos de ouro.
Barsut não se dignava a ver nada. Apertou o pão contra a tábua da mesa, cortou energicamente uma fatia, serviu-se de soda, não sem antes lançar um jato contra o chão para limpar o bico, e depois se inclinou para ler um livrão ao lado do prato, enquanto mastigava uma mistura de carne, pão e batatas.
Erdosain apoiou-se numa pilastra que sustentava o teto, enjoado pelo cheiro de capim seco, e, com os olhos semicerrados, distinguiu Barsut, que tinha metade do rosto iluminado pela claridade esverdeada da tela, enquanto seus maxilares se moviam na luz crua lançada pelo queimador da lamparina. Nessas circunstâncias, virou a cabeça e distinguiu um chicote pendurado na parede.
Erdosain sobressaltou-se. Tinha o cabo longo e a tira curta, e Barsut, que agora seguia seu olhar, franziu o lábio com desprezo. Erdosain olhou sucessivamente o homem e o chicote e tornou a sorrir. Dirigiu-se ao canto e despendurou a fusta. Agora Barsut havia se posto de pé e, com os olhos terrivelmente fixos em Erdosain, botava o corpo para fora do boxe. As veias do pescoço dilataram-se extraordinariamente. Ia falar, mas o orgulho o impedia de pronunciar uma só palavra.
Soou um estalo seco. Erdosain havia descarregado uma chicotada na madeira para provar a flexibilidade do couro; depois encolheu os ombros, e a oblíqua solar que cortava as trevas foi atravessada por uma risca negra, e o chicote caiu entre o capim.
Erdosain passeava em silêncio pelo estábulo. Pensava que aquela vida estava em suas mãos, que ninguém podia arrebatá-la dele, mas esse sentimento não o fazia mais feliz. Barsut, por cima da divisória de madeira, observava o campo ensolarado pela fresta deixada pelo portão.
Os tempos haviam mudado. Isso era tudo. Olhou Barsut com rancor:
— Você vai assinar o cheque ou não?
Barsut encolheu os ombros, e Erdosain não voltou a perguntar. Talvez ele se encontrasse algum dia, àquela mesma hora, numa cela escura, enquanto sua memória evocaria, naquele mesmo instante, o espetáculo de uma quadra com piso de pó de tijolo, à beira do rio, e as raquetes reticulando o céu de algumas moças jogando tênis. E, sem poder se conter, exclamou, não tanto dirigindo-se a Barsut quanto falando consigo mesmo:
— Lembra? Para você eu tinha cara de infeliz. Não fale. E você não sabia o que eu sofria. Nem você nem ela. Cale a boca. Você pensa que me interessa seu dinheiro? Não, homem. O que acontece é que estou triste. Você e ela me levaram a tudo isto. Nem sei por que falo. A única coisa que sei é que estou cansado. Mas para que falar... — E se dispunha a sair quando o Astrólogo entrou.
Barsut lhe examinou as mãos com o olhar, e o Astrólogo, ajeitando a cartola na cabeça, pegou a lamparina, apagou-a e, sentando-se num caixote, disse:
— Vinha vê-lo para acertarmos essa questão do cheque. O senhor saberá que foi por isso que o sequestramos. Claro que eu não lhe falaria dessa forma se, na caderneta que encontramos em seu bolso e que Erdosain quis queimar, impedindo-o eu, não tivesse lido um pensamento simplesmente formidável: “O dinheiro transforma o homem num deus. Logo Ford é um deus. Se é um deus, pode destruir a lua”.
Aquilo era mentira, mas Barsut não se comoveu.
Erdosain observava o impenetrável rosto romboidal do Astrólogo. Era evidente que este executava uma comédia e que Barsut não acreditava nela, seguro de que o outro o enganava.