Os Sete Loucos: Incoerências
Capítulo segundo
Incoerências
Os dias que se seguiram ao sequestro de Barsut, Erdosain passou-os encerrado no quarto de uma pensão, para onde se mudara provisoriamente depois de saldar sua dívida com a Limited Azucarer Company. Tomara terror da rua. Nunca pensava no sequestro projetado de Barsut, e até deixou de visitar o Astrólogo. Passava o dia na cama, com os punhos apoiados no travesseiro e a testa esmagada sobre eles.
Outras vezes permanecia horas com os olhos cravados na parede, por onde lhe parecia que trepava uma fina neblina de sono e de desespero.
Durante aquele período, nunca conseguiu reconstruir o semblante de Elsa.
— Ela havia se afastado tão misteriosamente de meu espírito que me custava um grande esforço recordar os traços de sua fisionomia.
Depois dormia ou cismava. Tentou, embora inutilmente, preocupar-se com dois projetos que considerava importantes: a mudança eletromagnética para máquinas a vapor e o de uma tinturaria de cães, que lançaria no mercado cães de pelagem tingida de azul elétrico, buldogues verdes, galgos violetas, fox-terriers lilases, cães de colo com fotografias de crepúsculos a três tintas no lombo, cadelinhas com arabescos como tapetes persas.
Estava tranquilo: uma tarde adormeceu e teve este sonho: sabia que era noivo de uma das infantas. Esse acontecimento, acompanhado do fato de ser lacaio de Sua Majestade, Alfonso XIII, regozijava-o imediatamente, pois os generais o rodeavam, fazendo-lhe perguntas intencionadas. Um espelho de água mordia os troncos das árvores sempre floridas em branco maior, enquanto a infanta, uma menina alta, tomando-o pelo braço, dizia-lhe com ceceio:
— Vós me amais, Erdosain?
Erdosain, caindo na gargalhada, respondeu com uma grosseria à infanta: um círculo de espadas brilhou diante de seus olhos e ele sentiu que afundava; cataclismos sucessivos arrancaram os continentes, mas ele dormia havia muitos séculos num cubículo de chumbo no fundo do mar. Atrás da vidraça da janelinha vinham e iam tubarões caolhos, furiosos porque sofriam de hemorroidas, e Erdosain se regozijou silenciosamente, rindo com risadinhas do homem que não quer ser ouvido.
Agora todos os peixes do mar estavam caolhos, e ele era Imperador da Cidade dos Peixes Caolhos. Uma muralha eterna circundava o deserto à beira-mar; o céu verde oxidava nos tijolos do muro, e, nas paredes das torres vermelhas, as ondas entrechocavam miríades de peixes gordos e caolhos, monstruosos peixes ventrudos doentes de lepra marinha, enquanto um negro hidrópico ameaçava com o punho um ídolo de sal.
Outras vezes, Erdosain evocava tempos passados, nos quais havia previsto os acontecimentos atuais, como dissera naquela noite ao capitão. Sofrimentos surdos, rodeios em torno de uma realidade que agora o fazia dizer:
— Eu tinha razão, não me enganava.
Assim, lembrava que, uma noite, conversando com Elsa, esta, num momento de sinceridade, confessou-lhe que, se fosse solteira, não teria se casado, mas teria tido um amante.
Erdosain lhe perguntou:
— Você está falando sério?
Da outra cama, teimosa, Elsa respondeu:
— Sim, homem, teria um amante... para que casar?...
Fenômeno curioso: Erdosain teve subitamente a sensação do silêncio da morte, um silêncio paralelo como um féretro ao seu corpo horizontal. Possivelmente, naquele instante, destruiu-se nele todo o amor inconsciente que o homem sente por uma mulher, e que depois lhe permitirá enfrentar situações terríveis, que seriam insuportáveis se aquele fenômeno não tivesse ocorrido antes.
Parecia-lhe agora encontrar-se no fundo de um sepulcro, pensou que jamais veria a luz, e, nesse silêncio leve e negro que enchia o quarto, moviam-se os fantasmas despertados pela voz de sua esposa.
Mais tarde, explicando aqueles momentos, recordou que se mantinha imóvel, na cama, temeroso de romper o equilíbrio de sua enorme desgraça, que prumava definitivamente seu corpo horizontal na superfície de uma angústia implacável.
Seu coração batia pesadamente. Parecia-lhe que cada sístole e diástole tinha de vencer a pressão de uma massa elástica de lodo. E era inútil que, dali, tentasse mover as mãos para alcançar o sol que estava mais acima. E a voz da esposa repetia ainda em seus ouvidos:
— Eu não teria me casado. Teria um amante.
E essas palavras, que para serem pronunciadas não haviam requerido senão o espaço de dois segundos de tempo, agora estariam ressoando a vida inteira nele. Fechou os olhos. As palavras estariam toda a vida nele, enraizadas em suas entranhas como um crescimento de carne. E seus dentes rangeram. Queria sofrer ainda mais, esgotar-se de dor, dessangrar-se num lento escorrer de angústia.
E, com as mãos coladas às coxas, rígido como um morto em seu caixão, sem virar a cabeça, retendo o galope de sua respiração, perguntou com voz sibilante:
— E você teria gostado dele?
— Para quê?... Quem sabe!... Sim; se ele fosse bom, por que não?
— E onde vocês se veriam? Porque na sua casa não iam tolerar isso.
— Em algum hotel.
— Ah!
Calavam-se, mas Erdosain já a via, na firme desgraça de sua vida, avançar pela calçada de uma rua calçada com lascas de rio. Ela seguia pela larga calçada. Um tule escuro lhe cobria metade do semblante, e, encaminhando-se para o lugar aonde a conduzia o desejo deliberado, avançava com passos rápidos e seguros.
E, desejoso de martirizar ainda o pouco de esperança que lhe restava, Erdosain continuou, com um sorriso falso que ela não podia distinguir na escuridão, e a voz suave, para que Elsa não percebesse o furor que estremecia seus lábios:
— Vê? Assim é bonito, num casamento, poder falar de tudo com uma confiança de irmãos. E diga-me, você teria se despido diante dele?
— Não diga estupidezes!
— Não; diga-me: você teria se despido?
— E... claro! Eu não ia ficar vestida!
Se lhe tivessem partido a coluna vertebral com uma machadada, não ficaria mais rígido. A garganta ressecou-se como se por ela entrasse um vento de fogo. O coração mal batia; por sobre os miolos sentiu correr uma neblina que lhe escapava pelos olhos. Caía no silêncio e na escuridão, submergia no nada por um brando afundamento, enquanto a firme paralisia de sua carne cúbica subsistia para que a sensação da pena se estampasse mais profundamente.
Calou-se, e, no entanto, teria querido soluçar, ajoelhar-se diante de alguém, levantar-se naquele instante, vestir-se e ir dormir no átrio de alguma casa, no umbral de uma cidade desconhecida.
Enlouquecido, Erdosain gritou:
— Mas você percebe... percebe o horror disso, o espantoso que acaba de me dizer? Eu devia matar você! Você é uma cadela! Eu devia matar você, sim, matar! Você percebe?
— Mas o que está acontecendo com você? Está louco?
— Você desfez minha vida. Agora sei por que não se entregava a mim, e me obrigou a me masturbar! Sim, a isso! Você fez de mim um trapo de homem. Eu devia matar você. O primeiro que vier poderá cuspir na minha cara. Você percebe? E, enquanto eu roubo e trapaceio, e sofro por você, você... sim, você está pensando nisso. Em que teria se entregado a um homem bom! Você percebe? Um homem bom! Assim, um homem bom!
— Mas você está louco?
Erdosain se vestia rapidamente.
— Aonde você vai?
Jogou o sobretudo sobre os ombros; depois, inclinando-se sobre a cama da mulher, exclamou:
— Sabe aonde vou? A um prostíbulo, procurar uma sífilis.