Os Sete Loucos: Discurso do Astrólogo
Discurso do Astrólogo
O Astrólogo continuou:
— No princípio, esse pensamento me pareceu uma das tantas estupidezes que abundam em suas divagações... No entanto, acabei me perguntando involuntariamente por que o dinheiro pode converter um homem em deus, e de repente me dei conta de que o senhor havia descoberto uma verdade essencial. E sabe como comprovei que o senhor tinha razão? Pois pensando que Henry Ford, com sua fortuna, podia comprar quantidade suficiente de explosivo para fazer saltar em pedaços um planeta como a lua.
Seu postulado se justificava.
— Certamente — resmungou Barsut, lisonjeado em seu foro íntimo.
— Então me dei conta de que toda a Antiguidade clássica, de que os escritores de todos os tempos, salvo o senhor, que havia escrito essa verdade sem saber explorá-la, jamais haviam concebido que homens como Ford, Rockefeller ou Morgan fossem capazes de destruir a lua... tivessem esse poder... poder que, como lhe digo, as mitologias só puderam atribuir a um deus criador. E o senhor, implicitamente, assentava de fato um princípio: o começo do reinado do super-homem.
Barsut virou a cabeça para examinar o Astrólogo. Erdosain compreendeu que este falava seriamente.
— Pois bem, quando cheguei à conclusão de que Morgan, Rockefeller e Ford eram, pelo poder que o dinheiro lhes conferia, algo assim como deuses, dei-me conta de que a revolução social seria impossível sobre a terra, porque um Rockefeller ou um Morgan podiam destruir, com um só gesto, uma raça, como o senhor, em seu jardim, um formigueiro.
— Desde que tivessem coragem de fazê-lo.
— Coragem? Eu me perguntei se era possível que um deus renunciasse aos seus poderes... Perguntei-me se um rei do cobre ou do petróleo chegaria a se deixar despojar de suas frotas, de suas montanhas, de seu ouro e de seus poços, e me dei conta de que, para se privar desse mundo fabuloso, seria preciso ter a espiritualidade de um Buda ou de um Cristo... e que eles, os deuses que dispunham de todas as forças, jamais permitiriam sua exação. Em consequência, teria de acontecer algo enorme.
— Não vejo isso... Eu escrevi esse pensamento guiado por outros móveis.
— Pouco importa. O enorme é isto: a humanidade, as multidões das enormes terras, perderam a religião. Não me refiro à católica. Refiro-me a todo credo teológico. Então os homens vão dizer: “Para que queremos a vida?...” Ninguém terá interesse em conservar uma existência de caráter mecânico, porque a ciência cerceou toda fé. E, no momento em que esse fenômeno se produzir, reaparecerá sobre a terra uma peste incurável... a peste do suicídio...
Imagine o senhor um mundo de gente furiosa, de crânio seco, movendo-se nos subterrâneos das cidades gigantescas e uivando às paredes de cimento armado: “O que fizeram de nosso deus?...” E as mocinhas e as escolares organizando sociedades secretas para se dedicar ao sport do suicídio? E os homens se negando a gerar filhos que o iluso Berthelot acreditava que se alimentariam com pílulas sintéticas?...
— É supor demais — disse Erdosain.
O Astrólogo voltou-se para ele, espantado. Havia se esquecido dele.
— Claro, isso não acontecerá enquanto os homens não repararem em que se funda sua desgraça. Isso é o que aconteceu, na realidade, com os movimentos revolucionários de caráter econômico.
O judaísmo aproximou seu nariz do Deve e do Haver do mundo e disse: “A felicidade está falida porque o homem carece de dinheiro para suprir suas necessidades...” Quando devia ter dito: “A felicidade está falida porque o homem carece de deuses e de fé”.
— Mas o senhor se contradiz! Antes disse que... — objetou Erdosain.
— Cale-se, o que sabe?... E, pensando, cheguei à conclusão de que essa era a doença metafísica e terrível de todo homem. A felicidade da humanidade só pode apoiar-se na mentira metafísica... Privando-a dessa mentira, ela recai nas ilusões de caráter econômico..., e então me lembrei de que os únicos que podiam devolver à humanidade o paraíso perdido eram os deuses de carne e osso: Rockefeller, Morgan, Ford... e concebi um projeto que pode parecer fantástico a uma mente medíocre...
Vi que o beco sem saída da realidade social tinha uma única saída... e era voltar para trás.
Barsut, cruzando os braços, sentara-se à beira da mesa.
Suas pupilas verdes estavam rígidas no Astrólogo, que, com o guarda-pó abotoado até a garganta e o cabelo revolto, pois tirara o chapéu, caminhava de uma extremidade à outra da cocheira, afastando com a ponta de uma botina os talos de capim seco que semeavam o chão. Erdosain, apoiado de costas contra um poste, observava o semblante de Barsut, que lentamente ia se impregnando de atenção irônica, quase malévola, como se as palavras que o Astrólogo dizia só merecessem escárnio.
Este, como se escutasse a si mesmo, caminhava, detinha-se, por instantes puxava os próprios cabelos. Disse:
— Sim, chegará um momento em que a humanidade cética, enlouquecida pelos prazeres, blasfema de impotência, ficará tão furiosa que será necessário matá-la como a um cão raivoso...
— O que é que o senhor está dizendo?...
— Será a poda da árvore humana... uma vindima que só eles, os milionários, com a ciência a seu serviço, poderão realizar. Os deuses, enojados da realidade, perdida toda ilusão na ciência como fator de felicidade, rodeados de escravos tigres, provocarão cataclismos espantosos, distribuirão pestes fulminantes... Durante algumas décadas, o trabalho dos super-homens e de seus servidores se concretará em destruir o homem de mil formas, até quase esgotar o mundo...
e só um resto, um pequeno resto, será isolado em algum ilhéu, sobre o qual se assentarão as bases de uma nova sociedade.
Barsut havia se posto de pé. Com o cenho feroz e as mãos enfiadas nos bolsos da calça, encolheu os ombros, perguntando:
— Mas é possível que o senhor acredite na realidade desses disparates?
— Não, não são disparates, porque eu os cometeria nem que fosse para me divertir. — E continuou: — Desgraçados há que acreditar neles..., e isso basta... Mas eis a minha ideia: essa sociedade se comporá de duas castas, entre as quais haverá um intervalo... melhor dizendo, uma diferença intelectual de trinta séculos. A maioria viverá mantida escrupulosamente na mais absoluta ignorância, circundada de milagres apócrifos e, portanto, muito mais interessantes que os milagres históricos, e a minoria será a depositária absoluta da ciência e do poder.
Dessa forma fica garantida a felicidade da maioria, pois o homem dessa casta terá relação com o mundo divino, no qual hoje não crê. A minoria administrará os prazeres e os milagres para o rebanho, e a idade de ouro, idade em que os anjos rondavam pelos caminhos do crepúsculo e os deuses se deixavam ver nos claros de lua, será um fato.
— Mas isso é monstruoso em si. Isso não pode ser.
— Por quê? Eu sei que não pode ser, mas é preciso proceder como se fosse factível.
— Essa desproporção... a ciência...
— Que ciência nem ciência! Acaso o senhor sabe para que serve a ciência? O senhor não zomba em pensamento dos sábios e os chama de “enfatuados do perecível”?
— Vejo que o senhor leu essas bobagens.
— Claro. Não se deve contradizer as pessoas por contradizer. E a desproporção monstruosa que o senhor percebe em minha sociedade existe atualmente em nossa sociedade, mas ao inverso. Nossos conhecimentos, quero dizer, nossas mentiras metafísicas, estão em fraldas, enquanto nossa ciência é um gigante... e o homem, criatura dolente, suporta em si esse desequilíbrio espantoso... De um lado sabe tudo... do outro ignora tudo.
Na minha sociedade, a mentira metafísica, o conhecimento prático de um deus maravilhoso, será o fim..., o todo que preencherá a ciência das coisas, inútil para a felicidade interior; será, em nossas mãos, um meio de domínio, nada mais. E não discutamos isso, porque é supérfluo. Quase tudo foi inventado, mas o homem não inventou uma máxima de governo que supere os princípios de um Cristo, de um Buda. Não.
Naturalmente, não discutirei com o senhor o direito ao ceticismo, mas o ceticismo é um luxo de minoria... Ao resto serviremos a felicidade bem cozida, e a humanidade engolirá gozosamente a divina gororoba.
— Parece-lhe possível?
O Astrólogo deteve-se por um momento. Agora fazia girar o anel de aço com a pedra violeta, tirou-o do dedo para observar seu interior; depois, aproximando-se de Barsut, mas com um gesto de estranheza, como o de um homem cuja imaginação está distante da realidade, respondeu:
— Sim, tudo o que a mente do homem imagina pode ser realizado dentro dos tempos. Mussolini já não impôs o ensino religioso na Itália? Cito isso como prova da eficácia do bastão nas costas dos povos. A questão é apoderar-se da alma de uma geração... O resto se faz sozinho.
— E a ideia?
— Aqui chegamos... Minha ideia é organizar uma sociedade secreta que não apenas propague minhas ideias, mas que seja uma escola de futuros reis de homens. Já sei que o senhor me dirá que existiram numerosas sociedades secretas... e é verdade..., todas desapareceram porque careciam de bases sólidas, isto é, apoiavam-se num sentimento, numa idealidade política ou religiosa, com exclusão de toda realidade imediata.
Em compensação, nossa sociedade se baseará num princípio mais sólido e moderno: o industrialismo, isto é, a loja terá um elemento de fantasia, se assim se quiser chamar tudo o que lhe disse, e outro elemento positivo: a indústria, que dará como consequência o ouro.
O tom de sua voz tornou-se mais rouco. Uma rajada de ferocidade punha certa distorção de astigmatismo em seu olhar. Moveu a cabeça desgrenhada para a direita e para a esquerda, como se lhe pungisse o cérebro a agudeza de uma emoção extraordinária, apoiou as mãos nos rins e, retomando o ir e vir, repetiu:
— Ah! o ouro... o ouro... Sabe como os antigos germanos chamavam o ouro? O ouro vermelho... o ouro... O senhor percebe? Não abra a boca. Satanás. Perceba: jamais, jamais nenhuma sociedade secreta tentou efetuar semelhante amálgama. O dinheiro será a solda e o lastro que concederá às ideias o peso e a violência necessários para arrastar os homens. Nós nos dirigiremos especialmente às juventudes, porque são mais estúpidas e entusiastas. Prometeremos a elas o império do mundo e do amor...
Prometeremos tudo... compreende?... e lhes daremos uniformes vistosos, túnicas esplendentes... capacetes com plumagens de variadas cores... pedrarias... graus de iniciação com nomes formosos e hierarquias... E lá na montanha levantaremos o templo de papelão... Isso será para imprimir uma fita... Não. Quando houvermos triunfado, levantaremos o templo das sete portas de ouro...
Terá colunas de mármore rosado e os caminhos para chegar a ele serão arenados com grãos de cobre. Em torno construiremos jardins... e para lá irá a humanidade adorar o deus vivo que inventamos.
— Mas o dinheiro..., o dinheiro para fazer tudo isso..., os milhões...
À medida que o Astrólogo falava, o entusiasmo dele contagiava Erdosain. Havia se esquecido de Barsut, embora este se encontrasse à sua frente. Sem poder evitá-lo, evocava uma terra de possível renovação.
A humanidade viveria em perpétua festa de simplicidade, ramalhetes de estrôncio tachonariam a noite de cascatas de estrelas vermelhas, um anjo de asas esverdeadas contornaria a crista de uma nuvem, e sob as arcadas botânicas dos bosques deslizariam homens e mulheres, envoltos em túnicas brancas, e limpo o coração da imundície que nele apodrecia.
Fechou os olhos, e o semblante de Elsa deslizou por sua memória, mas não despertou nenhum eco, porque a voz do Astrólogo enchia a cocheira com esta réplica selvagem:
— Então lhe interessa de onde tiraremos os milhões? É fácil. Organizaremos prostíbulos. O Rufião Melancólico será o Grande Patriarca Prostibulário... todos os membros da loja terão interesse nas empresas... Exploraremos a usura... a mulher, a criança, o operário, os campos e os loucos. Na montanha... será no Campo Chileno... instalaremos lavadouros de ouro, a extração de metais será feita por eletricidade. Erdosain já calculou uma turbina de 500 cavalos.
Prepararemos o ácido nítrico reduzindo o nitrogênio da atmosfera pelo procedimento do arco voltaico em torvelinho e teremos ferro, cobre e alumínio mediante as forças hidrelétricas. O senhor percebe? Levaremos os operários enganados, e os que não quiserem trabalhar nas minas serão mortos a chicotadas.
Isso não acontece hoje no Grande Chaco, nos ervais e nas explorações de borracha, café e estanho? Cercaremos nossas possessões com cabos eletrificados e compraremos com uma pera d’água todos os tiras e comissários do Sul. O caso é começar; o Buscador de Ouro já chegou. Encontrou aluviões no Campo Chileno, vagando com uma prostituta chamada a Máscara. É preciso começar. Para a comédia do deus, escolheremos um adolescente...
Melhor será criar uma criança de excepcional beleza, e se falará dela por toda parte, mas com mistério, e a imaginação das pessoas multiplicará seu prestígio.
Imagine o que dirão os papanatas de Buenos Aires quando se propagar o murmúrio de que, lá nas montanhas do Chubut, num templo inacessível de ouro e de mármore, habita um deus adolescente... um fantástico efebo que faz milagres?
— Sabe que seus disparates são interessantes!
— Disparates? Não se acreditou na existência do plesiossauro que um inglês bêbado descobriu, o único habitante do Neuquén a quem a polícia não deixa usar revólver por sua pontaria espantosa?... Não acreditou a gente de Buenos Aires nos poderes sobrenaturais de um charlatão brasileiro que se comprometia a curar milagrosamente a paralisia de Orfilia Rico? Aquilo sim era um espetáculo grotesco e sem um pingo de imaginação.
E inúmeros badulaques choravam a ranho solto quando o enrolão ergueu o braço da enferma, que ainda está entrevado, o que prova que os homens desta e de todas as gerações têm absoluta necessidade de crer em alguma coisa. Com a ajuda de algum jornal, acredite, faremos milagres. Há vários jornais que rosnam para se vender ou explorar um assunto sensacional. E nós daremos a todos os sedentos de maravilhas um deus magnífico, adornado de relatos que podemos copiar da Bíblia...
Ocorre-me uma ideia: anunciaremos que o rapazinho é o Messias anunciado pelos judeus... É preciso pensar... Tiraremos fotografias do deus da selva...
Podemos imprimir uma fita cinematográfica com o templo de papelão no fundo do bosque, o deus conversando com o espírito da Terra.
— Mas o senhor é um cínico ou um louco?
Erdosain olhou de mau humor para Barsut. Era possível que ele fosse tão imbecil e insensível à beleza que adornava os projetos do Astrólogo? E pensou: “Esta besta ruim inveja a magnífica loucura do outro. Essa é a verdade. Não restará outro remédio senão matá-lo”.
— As duas coisas, e escolheremos um termo médio entre Krisnamurti e Rodolfo Valentino... mas mais místico, uma criatura que tenha um rosto estranho, simbolizando o sofrimento do mundo. Nossas fitas serão exibidas nos bairros pobres, no arrabalde.
Imagine o senhor a impressão que causará ao populacho o espetáculo do deus pálido ressuscitando um morto, o dos lavadouros de ouro com um arcanjo como Gabriel custodiando as barcas de metal e prostitutas deliciosamente ataviadas, dispostas a ser as esposas do primeiro desgraçado que chegar? Vão sobrar candidatos para ir explorar a cidade do Rei do Mundo e gozar dos prazeres do amor livre... De entre essa ralé escolheremos os mais incultos...
e lá embaixo lhes dobraremos bem o espinhaço a pauladas, fazendo-os trabalhar vinte horas nos lavadouros.
— Eu o julgava obreirista.
— Quando conversar com um proletário, serei vermelho. Agora converso com o senhor, e ao senhor digo: minha sociedade está inspirada naquela que, no começo do século nono, organizou um bandido persa chamado Abdala-Aben-Maimum. Naturalmente, sem o aspecto industrial que eu filtro na minha, e que forçosamente garantirá seu êxito.
Maimum quis fundir os livre-pensadores, aristocratas e crentes de duas raças tão distintas como a persa e a árabe, numa seita em que implantou diversos graus de iniciação e mistérios. Mentiam descaradamente a todo mundo. Aos judeus prometiam a chegada do Messias, aos cristãos a do Paráclito, aos muçulmanos a do Madhi...
de tal maneira que uma turba de gente das mais distintas opiniões, situação social e crenças trabalhava em prol de uma obra cujo verdadeiro fim era conhecido por pouquíssimos. Dessa maneira, Maimum esperava chegar a dominar por completo o mundo muçulmano. Escuso dizer-lhe que os diretores do movimento eram uns cínicos estupendos, que não acreditavam absolutamente em nada. Nós os imitaremos. Seremos bolcheviques, católicos, fascistas, ateus, militaristas, em diversos graus de iniciação.
— O senhor é o rufião mais descarado que já conheci... Se tivesse êxito...
Barsut experimentava um prazer singular em insultar o Astrólogo. É que não queria reconhecer que era inferior ao outro. Além disso, havia algo que o humilhava profundamente — parecerá mentira —, mas o indignava pensar que Erdosain fosse amigo e gozasse da intimidade de semelhante homem. E dizia a si mesmo:
“Como é possível que este imbecil tenha chegado a ser amigo de tal homem?” E por esse motivo sentia que, em seu interior, não havia má razão que não contradissesse as palavras do Astrólogo.
— Nós o teremos, já que existe a isca do ouro. Os resultados de nossa organização serão vistos pelos balanços que derem os negócios que empreendermos. Os prostíbulos serão uma fonte de dinheiro.
Erdosain idealizou um aparelho que permitirá controlar diariamente o número de visitas que cada pupila receber. Isso sem contar as doações, uma nova indústria que pensamos explorar: a rosa de cobre, que Erdosain inventou. Agora o senhor pode explicar por que o sequestramos.
— O que fazemos com a explicação se estou preso?
Naquele instante, Erdosain observou em si mesmo quão singular era o fato de que Barsut, em nenhum momento, ameaçasse o Astrólogo com represálias para quando se encontrasse livre, o que o fez dizer a si mesmo: “É preciso ter cuidado com este Judas, é capaz de nos vender, não por seu dinheiro, mas por inveja”. O Astrólogo continuou:
— Seu dinheiro nos servirá para instalar um lenocínio, organizar o pequeno contingente e comprar ferramentas, instalação de radiotelegrafia e outros elementos para o lavadouro de ouro.
— E o senhor não admite que pode se equivocar?
— Sim... já pensei nisso, mas procedo como se estivesse certo. Além disso, uma sociedade secreta é como uma enorme caldeira. O vapor que produz pode mover uma grua como um ventilador...
— E o senhor não admite que pode se equivocar?
— Sim... já pensei nisso, mas procedo como se estivesse certo. Além disso, uma sociedade secreta é como uma enorme caldeira. O vapor que produz pode mover uma grua como um ventilador...
— E o que é que o senhor quer mover?
— Uma montanha de carne inerte. Nós, os poucos, queremos, precisamos dos esplêndidos poderes da terra. Felizes de nós se, com nossas atrocidades, podemos aterrorizar os fracos e inflamar os fortes. E, para isso, é necessário criar a força, revolucionar as consciências, exaltar a barbárie. Esse agente de força misteriosa e enorme que suscitará tudo isso será a sociedade.
Instauraremos os autos de fé, queimaremos vivos nas praças os que não acreditarem em Deus. Como é possível que as pessoas não tenham se dado conta da extraordinária beleza que há nesse ato... no de queimar vivo um homem? E por não acreditar em Deus, o senhor percebe?, por não acreditar em Deus. É necessário, compreenda-me, é absolutamente necessário que uma religião sombria e enorme volte a inflamar o coração da humanidade.
Que todos caiam de joelhos à passagem de um santo, e que a oração do mais ínfimo sacerdote acenda um milagre no céu da tarde. Ah, se o senhor soubesse quantas vezes pensei nisso! E o que me anima é saber que a civilização e a miséria do século desequilibraram muitos homens. Esses locoides que não encontram rumo na sociedade são forças perdidas. No café mais ignominioso de bairro, entre dois simplórios e um cínico, o senhor encontrará três gênios.
Esses gênios não trabalham, não fazem nada... Concordo com o senhor que são gênios de lata... Mas essa lata é uma energia que, bem utilizada, pode ser a base de um movimento novo e poderoso. E esse é o elemento que quero empregar.
— Manager de loucos?...
— Essa é a frase. Quero ser manager de loucos, dos inúmeros gênios apócrifos, dos desequilibrados que não têm entrada nos centros espíritas e bolcheviques... Esses imbecis... e eu lhe digo porque tenho experiência... bem enganados..., suficientemente superaquecidos, são capazes de executar atos que deixariam o senhor de pele arrepiada. Literatos de balcão.
Inventores de bairro, profetas de paróquia, políticos de café e filósofos de centros recreativos serão a carne de canhão de nossa sociedade.
Erdosain sorria. Depois, sem olhar para o acorrentado, disse:
— O senhor não conhece a insuportável insolência dos fronteiriços do gênio...
— Sim, enquanto não são compreendidos, não é verdade, Barsut?
— Não me interessa.
— É que ao senhor deve interessar, porque vai ser dos nossos. Eu penso isto. Se a um fronteiriço se discute que não é um gênio, toda a insolência e a grosseria desse incompreendido se levanta injuriosa diante do senhor. Mas elogie sistematicamente um monstro do amor-próprio, e esse mesmo sujeito que o teria assassinado à menor contradição se converte em seu lacaio. O que é preciso saber é fornecer-lhes uma mentira suficientemente dosada. Inventor ou poeta, será seu criado.
— O senhor também se acredita gênio? — estourou Barsut, iracundo.
— Eu também me acredito gênio... Claro que acredito... mas cinco minutos e uma só vez por dia..., embora pouco me importe sê-lo ou não. As frases importam pouco aos predestinados a realizar. São os fronteiriços do gênio que engordam com palavras inúteis. Eu me planteei este problema, que nada tem a ver com minhas condições intelectuais.
Pode-se fazer os homens felizes? E começo por me aproximar dos desgraçados, por dar-lhes como objetivo de suas atividades uma mentira que os faça felizes inflando sua vaidade..., e esses pobres diabos que, abandonados a si mesmos, não teriam passado de incompreendidos, serão o precioso material com que produziremos a potência... o vapor...
— O senhor vai pelos ramos. Eu lhe pergunto que fim pessoal o senhor persegue ao querer organizar a sociedade.
— Sua pergunta é estúpida. Para que Einstein inventou sua teoria? O mundo bem pode passar sem a teoria de Einstein. Sei eu acaso se sou um instrumento das forças superiores, nas quais não creio uma palavra? Eu não sei nada. O mundo é misterioso. Possivelmente eu não seja nada mais que o servente, o criado que prepara uma bela casa na qual virá morrer o Eleito, o Santo.
Barsut sorriu imperceptivelmente. Aquele homem falando do Eleito, com sua orelha repolhuda, sua cabeleira hirsuta e avental de carpinteiro, causava-lhe uma impressão irônica, indefinível.
Até que ponto fingia aquele patife? E o curioso é que não podia se irritar contra ele; dominava-o uma sensação imprecisa diante do homem. O que ele dizia não era inesperado, mas parecia até que já havia escutado aquelas frases, com o mesmo tom de voz, em outra circunstância distante, como perdida na paisagem cinzenta de um sonho.
A voz do Astrólogo tornou-se menos imperiosa.
— Acredite, sempre acontece assim nos tempos de inquietude e desorientação. Alguns poucos se antecipam com o pressentimento de que algo formidável deve acontecer... Esses intuitivos, eu faço parte desse grêmio de expectantes, acreditam ter o dever de excitar a consciência da sociedade..., de fazer algo, ainda que esse algo sejam disparates. Meu algo, nesta circunstância, é a sociedade secreta.
Grande Deus! Sabe acaso o homem a consequência de seus atos? Quando penso que vou pôr em movimento um mundo de bonecos..., bonecos que se multiplicarão, estremeço, chego até a pensar que o que pode ocorrer é tão alheio à minha vontade como seriam alheias à vontade do dono de uma usina as bestialidades que, no quadro de comando, executasse um eletricista que de repente enlouquecesse. E, apesar disso, sinto a necessidade imperiosa de pôr isto em marcha, de reunir num só feixe a potência disforme de cem psicologias distintas, de harmonizá-las mediante o egoísmo, a vaidade, os desejos e as ilusões, tendo como base a mentira e como realidade o ouro..., o ouro vermelho...
— O senhor está certo... O senhor vai triunfar.
— Bem, o que agora espera de mim? — replicou Barsut.
— Já lhe disse antes. Que nos assine o cheque por dezessete mil pesos. Ao senhor ficarão três mil. Com isso pode ir ao diabo. O resto lhe pagaremos em prestações mensais com o que renderem os prostíbulos e os lavadouros.
— E sairei daqui?
— Assim que cobrarmos o cheque.
— E como o senhor me prova que essas são suas verdades?
— Certas coisas não se provam... Mas, já que o senhor me pede uma prova, direi: se o senhor se negar a assinar o cheque, mandarei torturá-lo pelo Homem que viu a Parteira; e, depois que me assinar o cheque, eu o matarei...
Barsut levantou seus olhos descoloridos, e agora seu rosto, com barba de três dias, parecia envolto numa neblina de cobre. Matá-lo! A palavra não lhe causou nenhuma impressão. Naquele momento, carecia de sentido para ele. Além disso, a vida lhe importava tão pouco... Havia muito tempo aguardava uma catástrofe; esta se produzira, e, em vez de se sentir acossado pelo terror, encontrava no interior de si mesmo uma indiferença cínica que encolhia os ombros diante de qualquer destino. O Astrólogo continuou:
— Mas eu não gostaria de chegar a isso... O que eu gostaria é de contar com sua ajuda pessoal... que o senhor se interessasse por nossos projetos. Acredite, nós estamos vivendo uma época terrível. Aquele que encontrar a mentira de que a multidão necessita será o Rei do Mundo. Todos os homens vivem angustiados... O catolicismo não satisfaz ninguém, o budismo não se presta ao nosso temperamento estragado pelo desejo de gozar. Talvez falemos de Lúcifer e da Estrela da Tarde.
O senhor acrescentará aos nossos sonhos toda a poesia de que eles necessitam, e nos dirigiremos aos jovens... Oh!, isto é muito grande... muito grande...
O Astrólogo deixou-se cair sobre o caixote. Estava extenuado. Enxugou o suor da testa com um lenço xadrez como o dos lavradores, e os três permaneceram um instante em silêncio.
De repente, Barsut disse:
— Sim, o senhor tem razão, isto é muito grande. Solte-me, que eu assinarei o cheque.
Havia pensado que todas as palavras do Astrólogo eram mentiras, e aquilo quase o perdeu.
O Astrólogo levantou-se, cismando:
— Perdão, eu o porei em liberdade depois que tiver cobrado o cheque. Hoje é quarta-feira.
Amanhã ao meio-dia o senhor pode estar em liberdade, mas nossa casa só poderá abandonar dentro de dois meses — disse isso porque percebeu que o outro não acreditava em seus projetos. — Para esta tarde não precisa de alguma coisa?
— Não.
— Bem, até logo.
— Mas o senhor vai assim?... Fique...
— Não. Estou cansado. Preciso dormir um pouco. Esta noite virei e conversaremos um pouco mais. Quer cigarros?
— Está bem.
Saíram da cavalariça.
Barsut recostou-se em seu leito de capim seco e, acendendo um cigarro, soltou algumas baforadas de fumaça que, na oblíqua de uma agulha de sol, destrançavam seus maravilhosos caracóis de azul-aço.
Agora que estava sozinho, seu pensamento se ordenava cordialmente, e chegou a dizer a si mesmo:
“Por que não ajudá-lo, a ‘esse’? O projeto que tem da colônia é interessante, e agora me explico por que essa besta do Erdosain tem tanta admiração por ele. É certo que ficarei na rua... talvez sim, talvez não... mas, de uma forma ou de outra, era preciso terminar.” E entrecerrou os olhos para meditar no futuro.
O Astrólogo, com a cartola caída sobre os olhos, voltou-se para Erdosain e disse:
— Barsut acredita que nos enganou. Amanhã, depois de cobrar o cheque, teremos de executá-lo...
— Não, o senhor terá de executá-lo...
— Não tenho inconveniente... mas o que vamos fazer? Em liberdade, esse invejoso nos denunciaria imediatamente. E ele acredita que estamos loucos! E de fato estaríamos, se o deixássemos com vida.
Detiveram-se junto à casa. Lá em cima, algumas nuvens achocolatadas avançavam rapidamente no azul seu relevo dentado.
— Quem vai assassiná-lo?
— O Homem que viu a Parteira.
— Sabe que não é muito agradável morrer com o verão à porta...
— É assim mesmo...
— E o cheque?
— O senhor vai cobrá-lo.
— Não tem medo de que eu fuja?
— Não, por enquanto não.
— Por quê?
— Porque não. O senhor, mais que ninguém, precisa que a sociedade dê certo para se desentediar. Se o senhor é meu cúmplice, é precisamente por isso... por tédio, por angústia.
— Pode ser. Amanhã, a que horas nos veremos?
— Este... às nove na estação. Eu lhe levarei o cheque. A propósito, tem carteira de identidade?
— Sim.
— Então não há nada a temer. Ah! Uma coisa. Recomendo que fale pouco na reunião e friamente.
— Estão todos?
— Sim.
— Também o Buscador de Ouro?
— Sim.
Afastando os ramalhos que lhes castigavam os rostos, avançaram em direção ao caramanchão. Era este um quiosque fabricado com sarrafos, e nos losangos de madeira prendiam seus talos verdes os crescimentos de uma madressilva carregada de campânulas violetas e brancas.