Os Sete Loucos: A Coxa Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 25 de 34
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Os Sete Loucos: A Coxa

A Coxa

Naquele mesmo dia, pouco antes de Erdosain chegar ao último lance da escada em caracol, distinguiu, parada no patamar, uma senhora envolta num casaco de lontra e touca verde, que conversava com a dona da pensão. Um “aí vem ele” lhe fez compreender que era a ele que esperavam, e, ao deter-se no corredor, a desconhecida, voltando o rosto ligeiramente sardento, disse-lhe:

— O senhor é o senhor Erdosain?

— Onde vi esta cara? — perguntou-se Erdosain ao responder afirmativamente à desconhecida, que então se apresentou:

— Sou a esposa do senhor Ergueta.

— Ah! A senhora é a Coxa! — mas, subitamente envergonhado da inconveniência que assombrou a dona da pensão a ponto de fazê-la olhar para os pés da desconhecida, Erdosain se desculpou:

— Perdão, estou atordoado... A senhora compreende, eu não esperava... quer entrar?

Antes de abrir a porta de seu quarto, Erdosain tornou a desculpar-se pela desordem que a visita encontraria nele, e Hipólita, sorrindo ironicamente, respondeu:

— Está bem, senhor.

No entanto, irritava Erdosain o olhar frio que as transparentes pupilas verde-acinzentadas da mulher filtravam. E pensou: “Deve ser uma perversa”, pois reparara que, sob a touca verde, o cabelo ruivo de Hipólita se alisava ao longo das têmporas em duas bandas lisas que cobriam a ponta de suas orelhas. Tornou a observar seus cílios fixos e ruivos, e os lábios que pareciam inflamados na morbidez corada do rosto sardento. E disse a si mesmo: “Que diferente da fotografia!”

Ela, detida diante dele, observava-o como se dissesse a si mesma:

— Este é o homem — e ele, junto à mulher, sentia sua presença sem compreendê-la, como se ela não existisse ou estivesse distante dele muitas léguas do rumo interior. No entanto, estava ali e era preciso dizer alguma coisa, e, não lhe ocorrendo outra, disse, depois de acender a luz e oferecer uma cadeira à senhora, ocupando ele o sofá:

— Então a senhora é a esposa de Ergueta? Muito bem.

Não terminava de compreender o que fazia aquela vida implantada de repente em seu desconcerto. Uma rajada de curiosidade lhe levantava a alma, mas ele gostaria de estar de outro modo, sentir-se familiar ao semblante da mulher, cujas linhas ovaladas tinham algo do vermelho do cobre, como esses raios de sol de chuva que, nos quadros de santos, brotam em mil feixes de entre um pináculo de nuvens. E dizia a si mesmo:

— Estou aqui, mas minha alma, onde está? — E tornou a dizer: — Então a senhora é a esposa de Ergueta? Muito bem.

Ela, que havia cruzado as pernas, esticou a borda do vestido muito abaixo do joelho, o tecido franziu-se entre seus dedos rosados, e, levantando a cabeça como se lhe custasse um grande esforço aquele movimento na estranheza de um ambiente que não conhecia, disse:

— É preciso que o senhor faça alguma coisa por meu marido. Ele enlouqueceu.

— Minha curiosidade não recebeu nenhum grande golpe — disse a si mesmo Erdosain, e, satisfeito por manter-se insensível como um desses banqueiros dos romances de Xavier de Montépin, acrescentou, com a alegria interior de poder representar a comédia do homem impassível: — Então ele enlouqueceu? — mas, de repente, compreendendo que não poderia prolongar aquele papel, disse: — A senhora percebe? Dá-me uma notícia extraordinária, e, no entanto, permaneci impassível.

Dói-me estar assim, vazio de toda emoção; gostaria de sentir alguma coisa e estou como um paralelepípedo. A senhora tem que me desculpar. Não sei o que acontece comigo. A senhora me desculpará, não? Em outro tempo, no entanto, eu não era assim. Lembro que era alegre como um pardal. Fui mudando pouco a pouco. Não sei, olho para a senhora, gostaria de me sentir seu amigo e não consigo. Se eu a visse agonizar, possivelmente não lhe alcançaria nem um copo d’água. Percebe? E no entanto... Mas onde ele está?

— No Hospício de las Mercedes.

— Que curioso! Vocês não moravam em Azul?

— Sim, mas faz quinze dias que estamos aqui...

— E quando aconteceu “isso”?

— Faz seis dias. Eu mesma não explico. É como o senhor dizia antes a meu respeito.

Perdoe se lhe faço perder tempo. Pensei no senhor, que o conhecia; ele sempre me falava do senhor. Quando foi a última vez que o viu?

— Antes de se casar... Sim, falou-me da senhora. Chamava-a de Coxa... e de Meretriz.

A Erdosain pareceu que a alma de Hipólita ia esmaltando serenamente suas pupilas. Tinha a certeza de que podia falar de tudo com ela. A alma da mulher estava imóvel ali, como para recebê-lo naturalmente. Ela apoiara as mãos cruzadas sobre a saia acima do joelho, e essa circunstância de posição facilitava-lhe o tempo da confidência.

O que ocorrera durante a manhã na casa do Astrólogo lhe parecia algo remoto; só algum pedacinho de árvore e de céu cruzava por momentos sua lembrança, e o deslizamento das imagens truncadas deixava apoiado na consciência um prazer lento e injustificado. Esfregou as mãos com satisfação e disse:

— A senhora não se ofenderá... mas creio que ele já estava louco quando se casou com a senhora...

— Diga-me... O senhor sabe se ele jogava antes de se casar comigo?

— Sim... Além disso, lembro que estudava muito a Bíblia, porque, entre outras coisas, me falou dos tempos novos, do quarto selo e de um monte de coisas mais. Além disso, jogava. A mim sempre me interessou porque eu via nele um temperamento frenético.

— Isso mesmo. Um frenético. Chegou a aceitar uma parada de cinco mil pesos numa mesa de pôquer.

Vendeu minhas joias, um colar que um amigo me havia dado...

— Mas como?... Esse colar a senhora não deu à criada pouco antes de se casar com ele? Foi o que ele me disse. Que a senhora lhe dera o colar e a baixela de prata... e o cheque de dez mil pesos que o outro lhe dera...

— Mas o senhor acha que sou louca?... Por que eu daria à minha criada um colar de pérolas?

— Então mentiu.

— É o que me parece.

— Que curioso!...

— Não estranhe. Mentia muito. Além disso, nesses últimos dias estava perdido. Estudou uma martingala para aplicar à roleta. O senhor teria rido se o tivesse visto. Armou um livro de números que ninguém entendia, a não ser ele. Que homem! Não conseguia dormir de preocupação; descuidava da farmácia; às vezes, com a luz apagada e eu quase dormindo, ouvia um grande golpe no chão; era ele, que se havia jogado da cama, acendia a luz, anotava umas cifras como se tivesse medo de que lhe escapassem...

Mas então ele lhe disse que eu havia dado meu colar de pérolas? Que homem! O que fez foi empenhá-lo antes de nos casarmos... Bom, como eu dizia... no mês passado foi ao Real de San Carlos...

— E, logicamente, perdeu...

— Não, com setecentos pesos ganhou sete mil. O senhor precisava ter visto como chegou... Calado... Eu disse a mim mesma: pronto, perdeu... mas o notável é que estava assustado com a sorte que tivera... ele mesmo, até então, tinha uma confiança relativa em sua martingala...

— Sim... entendo... Preferia acreditar nela a testá-la.

— Claro, por medo do fracasso. Mas já lhe digo... durante alguns dias esteve como transtornado. Lembro que, uma tarde, na hora da sesta, me disse: “Bom, negra, você se resignará a ser a rainha do mundo”.

— Sempre a mania das grandezas...

— Aviso que, em parte, eu também acreditei depois disso no sucesso da martingala. Ele havia jogado de acordo com os números que figuravam em sua tabela de cálculos, e então, para quebrar a banca, retirou três mil pesos do banco... Estavam em meu nome, lembro, e mais os seis mil e quinhentos... Tinha pagado umas contas da farmácia... Fomos para Montevidéu... e ele perdeu tudo.

— Quanto demorou?

— Vinte minutos... Eu achava que ele fosse desmaiar pelo caminho... mas então ele lhe disse que eu tinha dado meu colar à criada?... Que homem!

— Seria para me dar uma ideia melhor da senhora. E na viagem, como foram?

— Nada... não disse uma palavra. Isso sim, tinha os olhos vidrados, a cara como desfeita, relaxada, sabe? Assim que chegamos a Buenos Aires, deitou-se... era uma segunda-feira. Ficou até anoitecer na cama, depois foi à rua; não sei por que me dava no coração que algo ia acontecer...

Às dez da noite ainda não havia voltado, e então fui me deitar; por volta da uma da madrugada me despertaram seus passos no quarto; eu ia acender a luz quando ele deu um grande salto e, tomando-me por um braço — o senhor sabe a força espantosa que ele tem —, de camisola, arrancou-me da cama e, arrastando-me pelos corredores, levou-me até a porta do hotel.

— E a senhora?

— Eu não gritava porque sabia que isso o enfureceria. Já na porta do hotel, ficou olhando para mim como se não me conhecesse, com a testa feita um bloco de rugas, os olhos grandes. Corria um vento que fazia as árvores se dobrarem, eu me cobria com os braços, e ele, sem dizer palavra, não fazia nada além de me olhar, quando diante de nós parou um guarda, enquanto por trás o porteiro, que havia acordado com o barulho, agarrava-o pelos braços.

E ele gritava, dava para escutá-lo da esquina: “Esta é a meretriz... a que amou os rufiões que têm a carne como a carne do mulo...”

— Mas como a senhora se lembra dessas palavras?

— Tudo o que aconteceu é como se eu estivesse vendo agora. Ele, entre uma folha da porta, puxando para dentro; do lado de fora o guarda esticando-o, enquanto o porteiro o abraçava pela garganta para fazê-lo perder as forças, e eu no umbral esperando que aquilo terminasse, pois se haviam juntado várias pessoas que, em vez de ajudar o guarda, se entretinham em olhar para mim. Ainda bem que sempre usei uma camisola comprida de dormir...

Por fim, com a ajuda de outros guardas, que um garçom avisou de dentro com chamados de socorro, puderam levá-lo à delegacia. Achavam que estava bêbado... mas era um ataque de loucura... Foi assim que o médico diagnosticou. Delirava com a arca de Noé...

— Perfeitamente... e em que posso servi-la? — Outra vez Erdosain sentia que o importante do personagem reaparecia em sua vida como um elemento novelesco que é preciso cuidar como se cuida o laço da gravata na desordem de um baile.

— Enfim, eu o incomodava para ver se o senhor podia me ajudar provisoriamente. Com a família dele não posso contar absolutamente para nada.

— Mas a senhora não se casou na casa dele?

— Sim, mas quando voltamos de Montevidéu depois de nos casarmos, fomos um dia fazer uma visita... imagine... uma visita numa casa onde eu tinha sido criada.

— Que colossal!

— A indignação dessa gente o senhor nem imagina. Uma tia dele... mas para que contar tantas mesquinharias!... não acha? A vida é assim e pronto. Expulsaram-nos e fomos embora. Paciência, azar.

— O estranho é que a senhora tenha sido criada.

— Não há nada de especial nisso...

— É que a senhora não dá essa impressão...

— Obrigada... o caso é que, ao sair do hotel, tive de empenhar um anel... e preciso administrar o pouco dinheiro que tenho...

— E a farmácia?

— Está a cargo de um prático. Telegrafei-lhe que enviasse dinheiro... mas ele me respondeu que tem ordens da família de Ergueta para não me entregar um centavo. Enfim...

— E o que a senhora pensa fazer?

— Isso é que não sei... Se volto para Pico, ou se espero aqui.

— Que confusão!...

— Acredite, já estou farta.

— Bom, o caso é que hoje não tenho dinheiro. Amanhã, sim, terei...

— Sabe?... Esses poucos pesos eu quero reservar por via das dúvidas...

— E enquanto a senhora averigua algo sério... se quiser, pode ficar aqui. Precisamente, ao lado há um quarto vazio. E o que mais deseja?

— Ver se o senhor pode tirá-lo do hospício.

— Como vou tirá-lo se está louco? Veremos. Bom... esta noite a senhora dorme aqui. Eu me arranjarei no sofá... embora seja provável que eu não durma aqui.

Outra vez a mulher filtrou, entre os cílios ruivos, seu malévolo olhar esverdeado. Era como se projetasse a alma sobre o relevo das ideias do homem, para recolher um decalque de suas intenções.

— Bom, aceito...

— Amanhã, se quiser, darei dinheiro para que vá tranquila viver num hotel, se não preferir ficar aqui.

Mas, de repente, encrespado contra Hipólita por um pensamento que acabava de escorregar em seu entendimento, disse:

— Sabe que a senhora não deve amá-lo, Eduardo?...

— Por quê?

— É evidente. A senhora chega aqui, fala-me de todo este drama com uma tranquilidade que assombra... e, naturalmente, então... o que se vai pensar da senhora?

Ao dizer essas palavras, Erdosain começou a passear no espaço reduzido do quarto. Sentia-se inquieto, e de esguelha examinava o rosto ovalado e sardento, com as finas sobrancelhas ruivas sob a viseira verde do chapéu, e os lábios como inflamados, enquanto as duas asas de cabelo cor de cobre cingiam as têmporas cobrindo as orelhas, e as pupilas transparentes lançavam feixes de olhar.

— Quase não tem seios — pensou Erdosain. Hipólita olhava em volta; de repente, sorrindo amavelmente, perguntou-lhe:

— O que o senhor, meu filhinho, esperava de mim?

Erdosain sentiu-se irritado por aquele “meu filhinho” intempestivo e prostibulário que se somava ao canalha “paciência, azar”. Por fim, disse:

— Não sei... enfim, eu a imaginava menos fria... há momentos em que a senhora dá a ideia de que é uma mulher perversa... pode ser que eu me engane, mas... enfim... problema seu...

Hipólita levantou-se:

— Meu filhinho, eu nunca fiz comédias. Vim ao senhor, simplesmente, porque sabia que o senhor era o melhor amigo dele. O que quer?... Que eu comece a chorar como uma Madalena se não sinto isso?... Já chorei bastante...

Ela também se pusera de pé. Olhava-o com fixidez, mas a dureza de linhas que estava rígida sob a epiderme de seu semblante como uma armadura de vontade se decompôs de fadiga. Com a cabeça ligeiramente inclinada para um lado, lembrou a Erdosain sua esposa... bem podia ser ela... estava na porta de um quarto desconhecido... o capitão, indiferente, via-a partir para sempre e não a detinha... a rua se abria diante dela... talvez fosse parar num hotel de muros sujos, e então, apiedado, disse:

— Desculpe-me... estou um pouco nervoso. A senhora está em sua casa. O único que sinto é que me tenha encontrado sem dinheiro. Mas amanhã terei.

Hipólita tornou a ocupar a cadeira, e Erdosain, enquanto caminhava, tomou o próprio pulso. As veias latiam rapidamente. Fatigado da tarde passada com o Astrólogo e Barsut, disse com amargura:

— A vida é pesada... não é?...

A intrusa olhava em silêncio a ponta de seu sapatinho. Levantou os olhos e uma ruga fina estriou sua testa sardenta. Depois:

— O senhor parece preocupado. Acontece alguma coisa?

— Nada... diga-me... sofreu muito ao lado dele?...

— Um pouco. Ele é violento...

— Que curioso! Eu gostaria de representá-lo no manicômio e não consigo. Mal distingo um pedaço de rosto e um olho... Aviso que pressenti o desastre. Encontrei-o uma manhã, ele me contou tudo e de repente tive a impressão de que a senhora seria desgraçada ao lado dele... mas a senhora deve estar cansada. Eu preciso sair. Vou dizer à dona da pensão que lhe sirva o jantar aqui.

— Não... não tenho vontade.

— Bom, então, com sua licença. Aqui está o biombo. Faça como se estivesse em sua casa.

Quando Erdosain saiu, a Coxa o envolveu num olhar singular, olhar de leque que corta com uma oblíqua o corpo de um homem dos pés à cabeça, recolhendo em tangente toda a geometria interior de sua vida.

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