Os Sete Loucos: Um homem estranho Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 4 de 34
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Os Sete Loucos: Um homem estranho

Um homem estranho

Às dez da manhã, Erdosain chegou à esquina da rua Perú com a Avenida de Mayo. Sabia que seu problema não tinha outra solução além da prisão, porque Barsut certamente não lhe emprestaria o dinheiro. De repente, surpreendeu-se.

À mesa de um café estava o farmacêutico Ergueta.

Com o chapéu enterrado até as orelhas e as mãos tocando-se pelos polegares sobre a barriga grossa, cochilava com uma expressão azeda, entorpecida, no rosto amarelo.

O vidro de seus olhos saltados, seu grosso nariz adunco, as bochechas flácidas e o lábio inferior quase pendente davam-lhe a aparência de um cretino. Enfundava o maciço corpanzil num terno cor de canela e, às vezes, inclinando o rosto, apoiava os dentes no punho de marfim de sua bengala.

Por aquele desânimo e pela expressão canalha de seu tédio, tinha o aspecto de um traficante de mulheres. Inesperadamente, seus olhos se encontraram com os de Erdosain, que ia em sua direção, e o semblante do farmacêutico se iluminou com um sorriso pueril. Ainda sorria quando apertava a mão de Erdosain, que pensou:

— Quantas o terão amado por causa desse sorriso!

Involuntariamente, a primeira pergunta de Erdosain foi:

— E então, casou-se com Hipólita?

— Sim, mas você nem imagina a confusão que se armou em casa...

— Quê?... Souberam que ela era “da vida”?

— Não... isso ela disse depois. Você sabe que Hipólita, antes de “fazer a rua”, trabalhou como criada?...

— E daí?...

— Pouco depois de nos casarmos, fomos minha mãe, eu, Hipólita e minha irmãzinha à casa de uma família. Você imagina que memória a daquela gente? Depois de dez anos reconheceram Hipólita, que foi criada deles. Uma coisa sem nome! Eu e ela viemos por um caminho, e mamãe e Juana por outro. Toda a história que eu inventei para justificar meu casamento veio abaixo.

— E por que ela confessou que tinha sido prostituta?

— Um momento de raiva. Mas ela não tinha razão? Não se regenerara? Não me aguentava a mim, a mim, que já fiz aquela gente arrancar cabelos?

— E como vai?

— Muito bem... A farmácia dá setenta pesos por dia. Em Pico não há outro que conheça a Bíblia como eu. Desafiei o padre para uma controvérsia, e ele não quis entrar nessa.

Erdosain olhou de repente, esperançoso, para seu estranho amigo. Depois perguntou:

— Continua jogando?

— Sim, e Jesus, por minha muita inocência, revelou-me o segredo da roleta.

— O que é isso?

— Você não sabe... o grande segredo... uma lei de sincronismo estático... Já fui duas vezes a Montevidéu e ganhei muito dinheiro, mas esta noite saímos com Hipólita para quebrar a banca.

E de repente lançou a explicação embaralhada:

— Olha, você joga hipoteticamente uma quantia nas três primeiras bolas, uma em cada dúzia. Se não saem três dúzias diferentes, produz-se forçosamente o desequilíbrio. Marca, então, com um ponto a dúzia que saiu. Para as três bolas seguintes ficará igual a dúzia que você marcou. Claro que o zero não conta e que se joga nas dúzias em séries de três bolas. Então você aumenta uma unidade na dúzia que não tem nenhuma cruz, diminui em uma, quero dizer, em duas unidades a dúzia que tem três cruzes, e essa base única permite deduzir a unidade menor que as maiores, e joga-se a diferença na dúzia ou nas dúzias que resultarem.

Erdosain não havia entendido. Continha a vontade de rir à medida que sua esperança crescia, pois era indubitável que Ergueta estava louco. Por isso replicou:

— Jesus sabe revelar esses segredos aos que têm a alma cheia de santidade.

— E também aos idiotas — argumentou Ergueta, cravando nele um olhar zombeteiro, enquanto piscava a pálpebra esquerda. — Desde que me ocupo dessas coisas misteriosas, fiz besteiras grandes como casas, por exemplo, casar-me com aquela vagabunda...

— E você é feliz com ela?

— ...acreditar na bondade das pessoas, quando todo mundo só quer afundar a gente e fazer fama de louco...

Erdosain, impaciente, franziu o cenho, depois disse:

— Como você não quer que o tomem por louco? Você foi, segundo suas próprias palavras, um grande pecador. E de repente se converte, casa-se com uma prostituta porque isso está escrito na Bíblia; fala às pessoas do quarto selo e do cavalo amarelo... claro... as pessoas têm de acreditar que você está louco, porque essas coisas você não conhece nem por cima. A mim não me tomam também por louco porque eu disse que instalaria uma tinturaria para cães e metalizaria os punhos das camisas?... Mas eu não acho que você esteja louco. Não, não acho. O que há em você é um excesso de vida, de caridade e de amor ao próximo. Agora, essa história de Jesus ter revelado a você o segredo da roleta me parece meio absurda...

— Ganhei cinco mil pesos nas duas vezes...

— Admitamos que seja verdade. Mas o que salva você não é o segredo da roleta, e sim o fato de ter uma bela alma. Você é capaz de fazer o bem, de se emocionar diante de um homem que está às portas da prisão...

— Isso sim é verdade — interrompeu Ergueta. — Olhe que há outro farmacêutico no povoado que é um velho sovina. O filho roubou dele cinco mil pesos... e depois veio me pedir conselho. Sabe o que eu aconselhei? Que ameaçasse o pai com mandá-lo preso por vender cocaína, se ele o denunciasse.

— Está vendo como eu compreendo você? Você queria salvar a alma do velho fazendo o filho cometer um pecado, pecado do qual ele se arrependeria a vida inteira. Não é assim?

— Sim, na Bíblia está escrito: “E o pai se levantará contra o filho contra o pai”...

— Está vendo? Eu entendo você. Não sei para o que você está predestinado... O destino dos homens é sempre incerto. Mas acho que você tem pela frente um caminho magnífico. Sabe? Um caminho raro...

— Serei o Rei do Mundo. Você entende? Ganharei em todas as roletas o dinheiro que quiser. Irei à Palestina, a Jerusalém, e reedificarei o grande templo de Salomão...

— E salvará da angústia muita gente boa. Quantos há que, por necessidade, fraudaram seus patrões, roubaram dinheiro que lhes fora confiado. Sabe? A angústia... Um sujeito angustiado não sabe o que faz... Hoje rouba um peso, amanhã cinco, depois de amanhã vinte, e quando se lembra deve centenas de pesos. E o homem pensa: é pouco... e de repente se encontra com o desaparecimento de quinhentos, não, seiscentos pesos com sete centavos. Entende? Essa é a gente que é preciso salvar... os angustiados, os fraudulentos.

O farmacêutico meditou por um instante. Uma expressão grave se dissolveu na superfície de seu semblante entorpecido; depois, calmamente, acrescentou:

— Você tem razão... o mundo está cheio de canalhas, de infelizes... mas como remediar isso? É o que me preocupa. De que modo apresentar novamente as verdades sagradas a essa gente que não tem fé?...

— Mas o que as pessoas precisam é dinheiro... não verdades sagradas.

— Não, isso acontece pelo esquecimento das Escrituras. Um homem que leva em si as verdades sagradas não rouba seu patrão, não frauda a companhia em que trabalha, não se coloca, de hoje para amanhã, em situação de ir para a cadeia.

Depois coçou pensativamente o nariz e continuou:

— Além disso, quem pode dizer que isso não seja para o bem? Quem vai fazer a revolução social, senão os estelionatários, os desgraçados, os assassinos, os fraudulentos, toda a canalha que sofre lá embaixo sem esperança alguma? Ou você acha que a revolução será feita pelos escrevinhadores e pelos lojistas?

— De acordo, de acordo... mas, enquanto chega a revolução social, o que faz esse desgraçado? O que faço eu?

E Erdosain, tomando Ergueta por um braço, exclamou:

— Porque estou a um passo da prisão, sabe? Roubei seiscentos pesos com sete centavos.

O farmacêutico piscou lentamente a pálpebra esquerda e depois disse:

— Não se aflija. Os tempos de tribulação de que falam as Escrituras chegaram. Não me casei eu com a Coxa, com a Meretriz? Não se levantou o filho contra o pai e o pai contra o filho? A revolução está mais perto do que os homens desejam. Não é você o fraudador e o lobo que dizima o rebanho?...

— Mas me diga, você não pode me emprestar esses seiscentos pesos?

O outro moveu lentamente a cabeça:

— Juro que devo esse dinheiro.

De repente, aconteceu algo inesperado. O farmacêutico se levantou, estendeu o braço e, estalando as pontas dos dedos, exclamou diante do garçom do café, que olhava espantado a cena:

— Some, canalhinha, some.

Erdosain, vermelho de vergonha, afastou-se. Quando, na esquina, virou a cabeça, viu que Ergueta movia os braços, falando com o garçom.

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