Os Sete Loucos: A bofetada Os Sete Loucos: Traducao Literunico · Capítulo 11 de 34
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Os Sete Loucos: A bofetada

A bofetada

De repente, alguém parou diante da porta da rua. Erdosain compreendeu que era ele e saltou da cama. Como de costume, Barsut batia tentando não fazer barulho.

Com a voz enrouquecida, Erdosain gritou-lhe:

— Entra: o que está fazendo que não entra?

Com o peso do corpo jogado sobre os calcanhares, Barsut entrou.

— Agora vou — gritou Remo, enquanto o outro entrava na sala de jantar.

E, quando entrou, Barsut já se sentara, cruzando as pernas, dando, como de costume, as costas à porta e o perfil na direção do ângulo sudeste da peça.

— O que você faz?

— Como vai?

Apoiava o cotovelo na borda da mesa, pois sustentava a face na barba, e a luz punha uma vermelhidão de cobre na carnosidade branca da mão. Sob as sobrancelhas, alongadas para as têmporas, seus olhos verdes temperavam a dura vidrosidade numa temperatura de pergunta.

E Erdosain distinguia seu semblante como através de uma névoa de luzes tremeluzentes no alto, a testa fugidia com as têmporas descendo para as orelhas pontudas, o nariz ossudo de ave carniceira, o queixo chato feito para suportar tremendos golpes e o nó cuidadoso da gravata preta saindo do colarinho engomado.

Com timbre de voz pesado, o outro perguntou:

— E Elsa?

Erdosain recuperou a lucidez do entendimento.

— Saiu.

— Ah...

Calavam-se, e Erdosain ficou contemplando o ângulo reto que a manga cinzenta do paletó formava na borda branca da mesa, e a face que a lâmpada iluminava com um vermelho de cobre até o dorso do nariz, enquanto a outra metade do rosto permanecia, desde a raiz dos cabelos até a covinha do queixo, numa escuridão onde a olheira aprofundava um cesto de sombra. Barsut movia lentamente uma perna cruzada sobre a outra.

— Ah! — ouviu Erdosain e perguntou: — O que você disse?

É que Erdosain havia escutado aquele “ah”, pronunciado alguns segundos antes, só agora.

— Elsa saiu?...

Barsut endireitou a cabeça, suas sobrancelhas se ergueram para deixar entrar mais luz nas pálpebras e, com os lábios ligeiramente entreabertos, soprou:

— Foi embora?

Erdosain franziu a testa, examinou de viés os sapatos do outro e, semicerrando as pálpebras, espiando com aquele olhar filtrado através dos cílios a angústia de Barsut, deixou cair lentamente:

— Sim... foi... embora... com... um... homem...

E, piscando a pálpebra esquerda como o farmacêutico Ergueta, inclinou a cabeça. Sob a linha bronzeada de suas sobrancelhas, suas pupilas aguardavam ferozmente.

Erdosain continuou:

— Está vendo? Ali está o revólver. Pude matá-los e, no entanto, não o fiz. Que animal curioso é o homem, não?

— E você deixou levarem sua mulher debaixo do seu nariz?

Em Erdosain, o ódio antigo, exasperado pela humilhação recente, convertia-se agora num motivo de júbilo cruel e, com a voz trêmula na garganta, a boca ressecada de rancor, exclamou:

— O que isso interessa a você?

Uma enorme bofetada o fez cambalear sobre a cadeira. Mais tarde recordou que o braço de Barsut recuava e avançava amassando sua carne. Cobriu o rosto com as duas mãos, quis escapar daquela massa que sempre avançava sobre ele como uma força desencadeada da natureza. Sua cabeça bateu surdamente contra a parede e ele caiu.

Quando voltou a si, Barsut estava ajoelhado ao seu lado. Notou que tinha o colarinho aberto e que uns fios de água lhe corriam até a garganta. Do septo nasal subia-lhe pelo osso uma dor tremeluzente, e a cada momento parecia que ia espirrar. As gengivas lhe sangravam devagar, e sob a inflamação dos lábios se notava a superfície dos dentes.

Erdosain levantou-se com dificuldade e caiu sobre uma cadeira; Barsut estava tão pálido que duas chamas pareciam escapar de seus olhos. Dos pômulos às orelhas, feixes de músculos traçavam dois arcos trêmulos. Erdosain tinha a sensação de balançar num sonho interminável, mas compreendeu quando o outro o tomou pelo braço, dizendo:

— Olhe, cuspa na minha cara, se quiser, mas me deixe falar. É preciso que eu conte tudo. Sente-se... assim, aí. — Erdosain havia se levantado inconscientemente. — Ouça, faça o favor. Você está vendo, não? Eu posso matar você a socos... ainda agora perdi a mão... juro... se quiser, peço perdão de joelhos. O que quer, sou assim. Olhe... ah... ah... se as pessoas soubessem.

Erdosain cuspiu sangue. Uma faixa de temperatura lhe abraçava a testa, entrando pelas têmporas e indo espetar-lhe até a nuca. As costas se curvaram tanto que ele deixou a cabeça apoiada na borda da mesa. Barsut, ao vê-lo assim, perguntou:

— Quer lavar o rosto? Vai lhe fazer bem. Espere um momento, não saia. — E correu para a cozinha, de onde voltou com a bacia cheia de água. — Lave-se. Isso vai lhe fazer bem. Quer que eu esfregue? Olhe, perdoe-me, foi um impulso. Você também, por que piscou um olho como quem zomba? Lave-se, faça o favor.

Erdosain, em silêncio, levantou-se e mergulhou várias vezes o rosto na bacia. Quando lhe faltava o ar, retirava o rosto da superfície da água. Depois sentou-se, e o ar evaporava a umidade dos cabelos junto às têmporas. Como estava cansado! Ah, se Elsa o visse! Como teria pena dele! Fechou os olhos. Barsut aproximou a cadeira para junto dele e disse:

— É preciso que eu conte tudo. Se não fizer isso, vou me sentir um canalha. Você vê, falo com calma. Olhe, se não acredita, ponha a mão no meu coração. Sou sincero com você. Bom, eu... eu de... eu denunciei você à Açucareira... fui eu quem mandou o anônimo.

Erdosain nem ergueu a cabeça. Ele ou outro, que importava!

Barsut olhou-o: esperava sabe-se lá que palavras, e disse:

— Por que você não diz nada? Sim, eu denunciei você. Você percebe? Eu denunciei você. Queria mandar pôr você preso, ficar com Elsa, humilhá-la. Você não imagina as noites que passei pensando que iam pôr você preso! Você não tinha de onde tirar o dinheiro e, forçosamente, eles o denunciariam. Mas por que você não diz nada?

Erdosain levantou as pálpebras. Barsut estava ali, sim, era ele, e dizia todas aquelas coisas. Dos pômulos às orelhas, sob a pele, o reflexo dos músculos tremia imperceptivelmente.

Barsut baixou os olhos, apoiou os cotovelos nos joelhos como se estivesse diante de um fogão e, com voz lenta, insistiu:

— É preciso que eu conte tudo. A quem, senão a você, eu poderia contar todas essas coisas que fazem o coração doer? Dizem, e é verdade, que o coração não dói, mas acredite, às vezes eu me digo: para que viver? Aonde vai a vida se eu sou assim? Você percebe? Você precisa ver tudo o que cismei pensando nessas coisas. Olhe, eu nem devia contá-las.

Como é isso, alguém faz uma canalhice contra uma pessoa, depois se aproxima dela e conta seus segredos mais íntimos, e não sente remorsos? Eu mesmo me disse muitas vezes: por que não sinto remorsos? Que vida é esta, se fazemos uma barbaridade e não sentimos nada? Você compreende isso? De acordo com o que estudamos no colégio, um crime acaba enlouquecendo o criminoso; então como é que, na realidade, você comete um crime e fica tranquilíssimo?

Erdosain continuava com o olhar fixo em Barsut. Agora, a imagem daquele homem se depositava no fundo de sua consciência. As forças de sua vida cingiam o pálido relevo com uma malha tão intensa que o decalque produzido naqueles instantes nunca mais se apagaria.

— Olhe — continuou Barsut —, eu sabia que você tinha raiva de mim, que, se pudesse me matar, teria feito isso, e isso me alegrava e me entristecia ao mesmo tempo. Quantas noites me deitei pensando no modo de sequestrar você! Cheguei a pensar em mandar uma bomba pelo correio, ou uma víbora numa caixa de papelão. Ou pagar um chofer para atropelar você na rua. Fechava os olhos e as horas passavam pensando em vocês.

Você pensa que eu a amava? — Erdosain observou mais tarde que, na conversa daquela noite, Barsut evitou chamar Elsa pelo nome. — Não, nunca a amei.

Mas eu teria gostado de humilhá-la, sabe? Humilhá-la porque sim; ver você afundado para que ela me pedisse de joelhos que eu o ajudasse. Você percebe? Nunca a amei. Se o denunciei foi por isso, para humilhá-la, ela que sempre foi tão orgulhosa comigo. E, quando você me disse que havia fraudado a Açucareira, uma alegria selvagem me revolveu as entranhas. Você nem tinha terminado de falar quando eu disse a mim mesmo: bom, agora vamos ver onde termina o orgulho dela.

Erdosain deixou escapar a pergunta:

— Mas você a amava?...

— Não, nunca a amei. Se soubesse o que ela me fez sofrer! Eu amar ela, que nunca me deu a mão? Cada vez que me olhava, parecia que cuspia na minha cara. Ah, você foi o marido, mas nunca a conheceu! Que sabe você que mulher ela é! Olhe, ela poderia ver você morrer e não faria um gesto de pena. Você percebe? Eu me lembro. Quando a casa Astraldi quebrou e vocês ficaram na rua, se ela tivesse me pedido tudo o que eu tinha, eu teria dado.

Eu teria dado toda a minha fortuna para que ela me dissesse “obrigada”. Nada além de obrigada. Para que ela me dissesse essa palavra, eu teria ficado sem nada. Um dia, quando puxei conversa, ela me respondeu: Remo é homem suficiente para ganhar para nós dois. Ah, você não a conhece! Seria capaz de ver você morrer sem fazer um gesto. E eu pensava. Quantas coisas, meu Deus, passam pela cabeça de um homem! Eu me atirava numa cama e começava a imaginar coisas... você havia assassinado um homem...

Era necessário salvar você, e então ela vinha pedir que eu o ajudasse, e eu, sem lhe dizer uma palavra dos meus sacrifícios, corria de um lado para outro. Que mulher, Remo! Que mulher! Lembro-me de quando ela costurava. Eu teria ficado ao lado, sabe?, segurando a costura para ela, e eu sabia que ela não era feliz com você. Via isso no rosto dela, no cansaço, no sorriso.

Erdosain recordou as palavras que Elsa havia pronunciado havia uma hora:

— Não importa... Estou contente. Você percebe sua surpresa, Remo? Você está sozinho, de noite, está só... De repente, cric... a porta se abre... e sou eu... eu, que vim.

Barsut continuou:

— E, claro, eu me perguntava o que a fazia suportar a vida ao seu lado, ao lado de um homem como você...

— E vim sozinha, a pé, pelas ruas escuras, procurando você, mas você não me vê, está só, a cabeça...

Erdosain sentia que as ideias se turbilhonhavam na superfície de seu cérebro como um remoinho de água. O cone gigante afundava a espiral até a raiz de seus membros. Torvelinho cujo roçar suave arrancava de sua alma uma ternura dolorida, nova. Como eram boas as palavras de Elsa, que conteúdo extraordinário tinham!

— Sempre amei você. Agora também amo... nunca, por que nunca falou como esta noite? Sinto que vou amar você a vida inteira, que o outro, ao seu lado, é a sombra de um homem.

Erdosain tinha agora a certeza de que aquelas palavras salvavam para sempre sua alma, enquanto Barsut amontoava uma angústia invejosa:

— E eu teria querido perguntar a ela o que encontrava ao seu lado, abrir seu peito diante dela e demonstrar até cansá-la que você era um louco, um canalha, um covarde... Juro que digo essas palavras sem raiva.

— Acredito — respondeu Erdosain.

— Agora mesmo, eu me pergunto, olhando para você: com que olhos uma mulher olha um homem? Isso é o que jamais saberemos. Você não acha? Para mim, você era um desgraçado que se tira da frente com um tapa. Mas, para ela, quem era você? Esse é o ponto escuro. Você soube alguma vez? Diga francamente: soube, em seu coração, que homem era para sua mulher? O que ela viu em você para sofrer tanto ao seu lado e suportá-lo como suportou?

Com que gravidade Barsut conversava! Suas perguntas enrouquecidas exigiam resposta.

Erdosain sentia-o em suas imediações não como um homem, mas precisamente como um duplo, um espectro de nariz ossudo e cabelo de bronze que, de repente, havia se convertido num pedaço de sua consciência, já que, como esta em outras circunstâncias, agora lhe dirigia as mesmas perguntas. Sim, era provável que, para viver tranquilo, fosse necessário exterminá-lo, e a “ideia” revelou-se friamente nele.

— Semelhante a uma espada entrando num bloco de algodão — diria mais tarde Erdosain.

Barsut nem de longe imaginou que, naquele instante, Remo acabava de condená-lo à morte. Explicando-me depois as circunstâncias dessa concepção, Erdosain me dizia:

“Você já viu um general num campo de batalha?... Mas, para tornar minha ideia mais acessível, direi como inventor: você procura durante certo tempo a solução de um problema. Você sabe, tem certeza de que a chave, o segredo, está em você, mas não consegue conhecê-lo, tão coberto está o segredo por camadas de mistério. E um dia, no momento mais inesperado, de repente o plano, a visão completa da máquina, aparece diante de seus olhos, deslumbrando-o com sua exatidão fácil.

É algo maravilhoso! Imagine um general num campo de batalha... tudo está perdido e, de repente, clara, precisa, aparece-lhe uma solução que jamais sonhara conceber e que, no entanto, estava ali, ao alcance da mão, dentro de si mesmo.

Eu, naquele instante, soube que tinha de mandar matar Barsut, e ele, diante de mim, amontoando palavras inúteis, não imaginava que eu, com a boca inchada, o nariz dolorido, retinha uma alegria estupenda, um deslumbramento semelhante ao que se experimenta quando aquilo que se descobriu é fatal como uma lei matemática. Talvez exista também uma matemática do espírito, cujas terríveis leis não sejam menos invioláveis que as que regem as combinações dos números e das linhas. Porque é curioso.

Aquela bofetada que ainda me fazia sangrar a gengiva, como o cunho de uma prensa hidráulica, estampou em minha consciência as linhas definitivas de um plano de morte. Você percebe? Um plano são três linhas gerais, três admissíveis linhas retas, nada mais. E, em tumulto, meu regozijo se amontoava sobre aquele relevo a frio cujas três linhas sintéticas encerravam isto: sequestrar Barsut, mandá-lo matar e, com seu dinheiro, fundar a sociedade secreta como desejava o Astrólogo.

Você percebe? O plano do crime surgiu espontaneamente em mim, enquanto o outro falava tristemente de nossas duas almas condenadas. O plano apareceu em mim como se o tivessem estampado numa chapa de ferro sob milhares de libras de pressão.

Ah! Como explicar? De repente me esqueci de tudo, retido por uma contemplação gelada, cheia de gozo, algo como a aurora que descobre um notívago contumaz e que o alivia do cansaço na manhã que sucedeu a uma noite cheia de fadigas. Você percebe? Mandar assassinar Barsut por um homem que precisava imperiosamente de dinheiro para levar a cabo uma ideia genial.

E essa nova aurora que batia em mim estava tão perfeitamente individualizada que muitas vezes, mais tarde, perguntei-me que segredo chega a encerrar a alma de um homem quando, sucessivamente, vão lhe mostrando horizontes novos, descascando sensações que, para ele mesmo, são assombro por sua origem aparentemente ilógica.”

No curso desta história, esqueci de dizer que, quando Erdosain se entusiasmava, girava em torno da “ideia” eixo com palavras numerosas. Precisava esgotar todas as possibilidades de expressão, possuído por esse frenesi lento que, através das frases, lhe dava consciência de ser um homem extraordinário e não um infeliz. Que dizia a verdade, eu não tinha dúvida.

O que muitas vezes me confundiu foi a pergunta que fiz a mim mesmo: de onde aquele homem tirava energias para suportar seu espetáculo por tanto tempo? Não fazia outra coisa senão se examinar, analisar o que nele ocorria, como se a soma dos detalhes pudesse lhe dar a certeza de que vivia. Insisto. Um morto que tivesse o poder de conversar não falaria mais que ele, para se certificar de que, em aparência, não estava morto.

Barsut, sem se dar conta de tudo o que acabava de ocorrer no outro, continuou:

— Ah!, você não a conheceu... nunca a conheceu. Veja, escute o que vou lhe contar. Uma tarde fui ver você, sabia que você não estava, queria encontrar-me com ela, vê-la apenas, nem que fosse só isso. Cheguei suado, não sei quantas quadras caminhei ao sol antes de me decidir.

— Igual a mim, ao sol — pensou Erdosain.

— E você sabe que a mim não faltava dinheiro para tomar um automóvel, e, mesmo quando perguntei por você, ela, sem sair do umbral, respondeu: “Desculpe, não o faço entrar porque meu esposo não está”. Você percebe que cadela?

Erdosain pensou:

— Ainda há um trem para Temperley.

Barsut continuou:

— E eu, que via você tão pobre homem, disse a mim mesmo: o que Elsa terá visto nesse infeliz para se apaixonar por ele?

Com voz tranquilíssima, Erdosain lhe perguntou:

— E na minha cara dá para notar que sou um infeliz?

Barsut levantou a cabeça, estranhando. Durante um momento manteve as translúcidas pupilas esverdeadas imóveis em seu interlocutor. O pano de luz que caía sobre ele e Erdosain interpunha uma distância de sonho. E Barsut compreendia-se tão fantasma quanto o outro, porque, movendo penosamente a cabeça, como se de repente todos os músculos do pescoço tivessem se enrijecido, respondeu:

— Não, olhando bem, você parece um tipo agarrado por uma ideia fixa... sabe-se lá qual.

Erdosain respondeu:

— Você é psicólogo. Naturalmente, eu ainda não sei em que consiste essa ideia fixa, mas é curioso: o que nunca me ocorreu foi que você pensasse em tirar minha mulher... E a tranquilidade com que diz essas coisas...

— Você não vai negar que estou sendo franco...

— Não...

— Além disso, eu queria humilhá-la... não roubá-la de você. Para quê? Se eu sabia que ela nunca me amaria.

— E como você adivinhava isso?

— Isso é o que não sei. Porque a gente faz certas coisas que não consegue explicar. Porque eu tratava você e você me tratava sem podermos nos engolir. Eu vinha porque, vindo, fazia você sofrer e sofria. Todos os dias eu dizia: não irei mais... não irei mais... Mas, quando chegava a hora, ficava nervoso. Era como se me chamassem de algum lugar, e então eu me vestia às pressas... vinha...

De repente, Erdosain teve uma ideia singular e disse:

— Falando um pouco de tudo... não sei se você sabe que esta manhã me falaram, na Açucareira, do anônimo. Se eu não prestar contas, vão me pôr preso amanhã. O único culpado, e creio que você não terá inconveniente em admitir, de que isso esteja acontecendo é você; portanto, você tem de me arranjar o dinheiro. De onde vou tirar essa quantia?

Barsut se endireitou, assombrado.

— Mas como? Depois que eu saio corno e espancado, depois que Elsa vai embora e faço uma infâmia, quem tem de lhe dar o dinheiro sou eu? Você está louco? Que vantagem eu levo dando seiscentos pesos a você?...

— Com sete centavos...

Erdosain levantou-se.

— Essa é sua última palavra?

— Mas entenda, como eu?...

— Bom, meu filho... Paciência. Agora faça o favor de ir embora, que quero dormir.

— Não quer que saiamos?

— Estou cansado. Deixe-me.

Barsut vacilou. Depois, levantando-se com o chapéu seguro pela aba, saiu desajeitadamente da peça.

Erdosain ouviu o golpe que a porta fez ao fechar-se, cismou carrancudo por um instante, procurou no bolso um guia ferroviário, consultou o horário, depois tornou a lavar-se e se penteou diante do espelho. Tinha o lábio arroxeado, uma mancha vermelha contornava-lhe o nariz, e outra circundava a têmpora junto à entrada dos cabelos.

Olhou ao redor procurando algo, viu o revólver caído, recolheu-o e saiu. Mas, como deixara a luz acesa, voltou e apagou a lâmpada. Tudo estava escuro agora; como o rastro de uma luz, algo brilhou diante de seus olhos, e ele saiu. Pela segunda vez naquele dia, ia à casa do Astrólogo.

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