A Ilha de Cypango Eu · Capítulo 3 de 56
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A Ilha de Cypango

Pau d’Arco — 1904

Estou sósinho! A estrada se desdobra

Como uma immensa e rutilante cobra

De epiderme finissima de areia

E por essa finissima epiderme

Eis-me passeiando como um grande verme

Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vae ter começo

Caio de joelhos, tremulo... Offereço

Preces a Deus de amor e de respeito

E o Occaso que nas aguas se retrata

Nitidamente reproduz, exacta,

A saudade interior que ha no meu peito...

Tenho allucinações de toda a sorte...

Impressionado sem cessar com a Morte

E sentindo o que um lazaro não sente,

Em negras nuanças lugubres e aziagas

Vejo terribilissimas adagas,

Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o ceu divino

E observo-me pygmeu e pequenino

Atravez de minusculos espelhos.

Assim, quem deante duma cordilheira,

Pára, entre assombros, pela vez primeira,

Sente vontade de cahir de joelhos!

Sôa o rumor fatidico dos ventos,

Annunciando desmoronamentos

De mil lagedos sobre mil lagedos...

E ao longe sôam tragicos fracassos

De heroes, partindo e fracturando os braços

Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,

Qual se num sonho arrebatado fosse,

Na ilha encantada de Cypango tombo,

Da qual, no meio, em luz perpetua, brilha

A arvore da perpetua maravilha,

Á cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cypango,

Verde, affectando a forma de um losango,

Rica, ostentando amplo floral risonho,

Que Toscanelli viu seu sonho extincto

E como succedeu a Affonso Quinto

Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia

O genio singular da Fantasia

Convidou-me a sorrir para um passeio...

Iriamos a um paiz de eternas pazes

Onde em cada deserto ha mil oasis

E em cada rocha um crystallino veio.

Gozei numa hora seculos de affagos,

Banhei-me na agua de risonhos lagos

E finalmente me cobri de flores...

Mas veio o vento que a Desgraça espalha

E cobriu-me com o panno da mortalha,

Que estou cozendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!

Um penetrante e corrosivo trio

Anesthesiou-me a sensibilidade

E a grande golpes arrancou as raizes

Que prendiam meus dias infelizes

A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.

A tarde morre. Passa o seu enterro!...

A luz descreve zigzags tortos

Enviando á terra os derradeiros beijos.

Pela estrada feral dous realejos

Estão chorando meus amores mortos!

E a treva occupa toda a estrada longa...

O Firmamento é unia caverna oblonga

Em cujo fundo a Via-lactea existe.

E como agora a lua cheia brilha!

Ilha maldita vinte vezes a ilha

Que para todo o sempre me fez triste!

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