Os Doentes Eu · Capítulo 36 de 56
Obra Menu

Os Doentes

Como uma cascavel que se enroscava,

A cidade dos lázaros dormia.

Somente, na metropole vasia,

Minha cabeça autónoma pensava!

Mordia-me a obsessão má de que havia,

Sob os meus pés, na terra onde eu pizava,

Um figado doente que sangrava

E uma garganta de orphã que gemia!

Tentava comprehender com as conceptivas

Funcções do encephalo as substancias vivas

Que nem Spencer, nem Hœckel comprehenderam...

E via em mim, coberto de desgraças,

O resultado de billiões de raças

Que ha muitos annos desappareceram!

Minha angustia feroz não tinha nome.

Ali, na urbe natal do Desconsôlo,

Eu tinha de comer o ultimo bolo

Que Deus fazia para a minha fome!

Convulso, o vento entoava um pseudo-psalmo.

Contrastando, entretanto, com o ar convulso

A noite funccionava como um pulso

Physiologicamente muito calmo.

Cahiam sobre os meus centros nervosos,

Como os pingos ardentes de cem vélas,

O uivo desenganado das cadellas

E o gemido dos homens bexigosos.

Pensava! E em que eu pensava, não perguntes!

Mas, em cima de um tumulo, um cachorro

Pedia para mim agua e soccorro

A’ commiseração dos transeuntes!

Bruto, de errante rio, alto e hórrido, o urro

Reboava. Além jazia aos pés da serra,

Creando as superstições de minha terra,

A queixada especifica de um burro!

Gordo adubo da agreste urtiga brava,

Benigna agua, magnanima e magnifica,

Em cuja álgida uncção, branda e beatifica

A Parahyba indigena se lava!

A manga, a ameixa, a amendoa, a abobora, o alamo

E a camara odorifera dos sumos

Absorvem diariamente o ubérrimo humus

Que Deus espalha á beira do teu thálamo!

Nos de teu curso desobstruidos trilhos,

Apenas eu comprehendo, em quaesquer horas,

O hydrogenio e o oxygenio que tu choras

Pelo fallecimento dos teus filhos!

Ah! Somente eu comprehendo, satisfeito,

A incógnita psychê das massas mortas

Que dormem, como as hervas, sobre as hortas,

Na esteira egualitaria do teu leito!

O vento continuava sem cansaço

E enchia com a fluidez do eólico hyssópe

Em seu fantasmagorico galope

A abundancia geometrica do espaço.

Meu ser estacionava, olhando os campos

Circumjacentes. No Alto, os astros miudos

Reduziam os Ceus sérios e rudos

A uma epiderme cheia de sarampos!

Dormia em baixo, com a promiscua vestia

No embotamento crasso dos sentidos,

A communhão dos homens reunidos

Pela camaradagem da molestia.

Feriam-me o nervo optico e a retina

Aponevroses e tendões de Achilles,

Restos repugnantissimos de bilis,

Vomitos impregnados de ptyalina.

Da degenerescencia ethnica do Arya

Se escapava, entre estrepitos e estouros,

Reboando pelos seculos vindouros,

O ruido de uma tosse hereditaria.

Oh! desespero das pessoas tisicas,

Adivinhando o frio que ha nas lousas,

Maior felicidade é a destas cousas

Submettidas apenas ás leis physicas!

Estas, por mais que os cardos grandes rocem

Seus corpos brutos, dores não recebem;

Estas dos bacalhaus o oleo não bebem,

Estas não cospem sangue, estas não tossem!

Descender dos macacos catarrhineos,

Cahir doente e passar a vida inteira

Com a bocca junto de uma escarradeira,

Pintando o chão de coágulos sanguineos

Sentir, adstrictos ao chimiotropismo

Erótico, os microbios assanhados

Passearem, como innumeros soldados,

Nas cancerosidades do organismo!

Falar somente uma linguagem rouca,

Um portuguez cansado e incomprehensivel,

Vomitar o pulmão na noite horrivel

Em que se deita sangue pela bocca!

Expulsar, aos bocados, a existencia

Numa bacia automata de barro,

Allucinado, vendo em cada escarro

O retrato da propria consciencia!

Querer dizer a angustia de que é pábulo,

E com a respiração já muito fraca

Sentir como que a ponta de uma faca,

Cortando as raizes do ultimo vocabulo!

Não haver therapeutica que arranque

Tanta oppressão como si, com effeito,

Lhe houvessem sacudido sobre o peito

A machina pneumatica de Bianchi!

E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba

A erguer, como um chronómetro gigante,

Marcando a transição emocionante

Do lar materno para a catacumba!

Mas vos não lamenteis, magras mulheres,

Nos ardôres damnados da febre héctica,

Consagrando vossa ultima phonética

A uma recitação de miseréres.

Antes levardes ainda uma chimera

Para a garganta omnivora das lages

Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes

Contra a dissolução que vos espera!

Porque a morte, resfriando-vos o rosto,

Consoante a minha concepção vesánica,

É a alfandega, onde toda a vida orgánica

Ha de pagar um dia o ultimo imposto!

Começára a chover. Pelas algentes

Ruas, a agua, em cachoeiras desobstruidas,

Encharcava os buracos das feridas,

Alagava a medulla dos Doentes!

Do fundo do meu trágico destino,

Onde a Resignação os braços cruza,

Sahia, com o vexame de uma fusa,

A magua gaguejada de um cretino.

Aquelle ruido obscuro de gagueira

Que a noite, em sonhos mórbidos, me acórda,

Vinha da vibração bruta da córda

Mais recondita da alma brasileira!

Aturdia-me a tétrica miragem

De que, naquelle instante, no Amazonas,

Fedia, entregue a visceras glutonas,

A carcassa esquecida de um selvagem.

A civilisação entrou na tába

Em que elle estava. O genio de Colombo

Manchou de opprobrios a alma do mazombo,

Cuspiu na cóva do morubichaba!

E o indio, por fim, adstricto á ethnica escória,

Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,

Esse achincalhamento do progresso

Que o annullava na critica da Historia!

Como quem analysa uma apostema,

De repente, acordando na desgraça,

Viu toda a podridão de sua raça

Na tumba de Iracema!.

Ah! Tudo, como um lúgubre cyclone,

Exercia sobre elle acção funesta

Desde o desbravamento da floresta

Á ultrajante invenção do telephone.

E sentia-se peor que um vagabundo

Microcéphalo vil que a especie encerra,

Desterrado na sua propria terra,

Diminuido na chrónica do mundo!

A hereditariedade dessa pécha

Seguiria seus filhos. Dóra em diante

Seu povo tombaria agonisante

Na lucta da espingarda contra a flécha!

Veio-lhe então como á femea veem antojos,

Uma desesperada ancia improficua

De estrangular aquella gente iniqua

Que progredia sobre os seus despojos!

Mas, deante a xantochroide raça loura,

Jazem, caladas, todas as inubias,

E agora, sem difficeis nuanças dubias,

Com uma clarividencia aterradora,

Em vez da prisca tribu e indiana tropa

A gente deste seculo, espantada,

Vê sómente a caveira abandonada

De uma raça esmagada pela Europa!

Era a hora em que arrastados pelos ventos,

Os fantasmas hamleticos dispersos

Atiram na consciencia dos perversos

A sombra dos remorsos famulentos.

As mães sem coração rogavam pragas

Aos filhos bons. E eu, roido pelos medos,

Batia com o pentagono dos dedos

Sobre um fundo hypothético de chagas!

Diabolica dynámica damninha

Opprimia meu cerebro indefeso

Com a força onerosissima de um peso

Que eu não sabia mesmo de onde vinha.

Perfurava-me o peito a aspera púa

Do desanimo negro que me prostra,

E quasi a todos os momentos mostra

Minha caveira aos bebedos da rua.

Hereditariedades polytypicas

Punham na minha bocca putrescivel

Interjeições de abracadabra horrivel

E os verbos indignados das Philippicas.

Todos os vocativos dos blaphemos,

No horror daquella noite monstruosa,

Maldiziam, com voz stentorosa,

A peçonha inicial de onde nascemos.

Como o que havia na ancia de conforto

De cada ser, ex: o homem e o ophidio,

Uma necessidade de suicidio

E um desejo incoercível de ser morto!

Naquella angustia absurda e tragi-comica

Eu chorava, rolando sobre o lixo,

Com a contorsão neurotica de um bicho

Que ingeriu 30 grammas de nux-vomica.

E, como um homem doido que se enforca,

Tentava, na terraquea superficie,

Consubstanciar-me todo com a immundicie,

Confundir-me com aquella coisa pórca!

Vinha, ás vezes, porém, o anhelo instavel

De, com o auxilio especial do osso masseter

Mastigando homoeomerias neutras de ether

Nutrir-me de materia imponderavel.

Anhelava ficar um dia, em summa,

Menor que o amphyoxus e inferior á tenia,

Reduzido á plastidula homogenea,

Sem differenciação de especie alguma.

Era (nem sei em synthese o que diga)

Um velhissimo instincto atavico, era

A saudade inconsciente da monéra

Que havia sido minha mãe antiga!

Com o horror tradicional da raiva côrsa

Minha vontade era, perante a cóva,

Arrancar do meu proprio corpo a prova

Da persistencia trágica da força.

A pragmatica má de humanos usos

Não comprehende que a Morte que não dorme

É a absorpção do movimento enorme

Na dispersão dos atomos diffusos.

Não me incommoda esse ultimo abandono.

Si a carne individual hoje apodrece.

Amanhã, como Christo, reapparece

Na universalidade do carbono!

A vida vem do ether que se condensa,

Mas o que mais no Cosmos me enthusiasma

É a esphera microscópica do plasma

Fazer a luz do cerebro que pensa.

Eu voltarei, cançado da ardua liça,

Á substancia inórganica priméva,

De onde, por epigénesis, veio Eva

E a stirpe radiolar chamada Actissa!

Quando eu fôr misturar-me com as violetas,

Minha lyra, maior que a Biblia e a Phédra,

Reviverá, dando emoção á pedra,

Na acustica de todos os planetas!

Á algida agulha, agora, alva, a saraiva

Cahindo, análoga era. Um cão agora

Punha a atra lingua hydrophoba de fóra

Em contracções myológicas de raiva.

Mas, para além, entre oscillantes chammas,

Acordavam os bairros da luxuria.

As prostitutas, doentes de hematuria,

Se extenuavam nas camas.

Uma, ignobil, derreada de cansaço,

Quasi que escangalhada pelo vicio,

Cheirava com prazer no sacrificio

A lepra má que lhe roia o braço!

E ensanguentava os dedos da mão nivea

Com o sentimento gasto e a emoção pobre,

Nessa alegria barbara que cobre

Os saracoteamentos da lascivia.

De certo, a perversão de que era prêza

O sensorium daquella prostituta

Vinha da adaptação quasi absoluta

Á ambiencia microbiana da baixeza!

Emtanto, virgem fostes, e, quando o ereis,

Não tinheis ainda essa erupção cutanea,

Nem tinheis, victima ultima da insania,

Duas mammarias glándulas estereis!

Ah! Certamente, não havia ainda

Rompido, com violencia, no horizonte,

O sol malvado que seccou a fonte

De vossa castidade agora finda!

Talvez tivesseis fome, e as mãos, em balde,

Estendestes ao mundo, até que, a tôa,

Fostes vender a virginal corôa

Ao primeiro bandido do arrabalde.

E estais velha! — De vós o mundo é farto,

E hoje, que a sociedade vos enxota,

Somente as bruxas negras da derrota

Frequentam diariamente vosso quarto!

Promettem-vos (quem sabe?!) entre os cyprestes

Longe da mancebia dos alcouces,

Nas quietudes nirvanicas mais

O noivado que em vida não tivestes!

Quasi todos os lutos conjugados,

Como uma associação de monopólio,

Lançavam pinceladas pretas de oleo

Na architectura archaica dos sobrados.

Dentro da noite funda um braço humano

Parecia cavar ao longe um poço

Para enterrar minha illusão de moço,

Como a bocca de um poço artesiano!

Atabalhoadamente pelos beccos,

Eu pensava nas coisas que perecem,

Desde as musculaturas que apodrecem

A’ ruina vegetal dos lyrios seccos.

Scismava no proposito funéreo

Da mosca debochada que fareja

O defunto, no chão frio da egreja,

E vai depois leval-o ao cemiterio!

E esfregando as mãos magras, eu, inquieto,

Sentia, na craneana caixa tôsca,

A racionalidade dessa mosca,

A consciencia terrivel desse insecto!

Regougando, porém, argots e aljamias,

Como quem nada encontra que o perturbe,

A energumena grey dos ebrios da urbe

Festejava seu sabbado de infamias.

A estática fatal das paixões cégas,

Rugindo fundamente nos neuronios,

Puxava aqnelle povo de demonios

Para a promiscuidade das adégas.

E a ebria turba que escáras sujas masca,

A’ falta idiosyncrasica de escrupulo,

Absorvia com gaudio absintho, lúpulo

E outras substancias toxicas da tasca.

O ar ambiente cheirava a acido acético,

Mas, de repente, com o ar de quem empesta,

Appareceu, escorraçando a festa,

A mandibula inchada de um morphetico!

Saliencias polymórphicas vermelhas,

Em cujo aspecto o olhar perspicuo prendo,

Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo

Tamanho aberratorio das orelhas.

O facies do morphético assombrava!

— Aquillo éra uma negra eucharistia,

Onde minh’alma inteira surprehendia

A Humanidade que se lamentava!

Era todo o meu sonho, assim, inchado,

Já podre, que a morphéa miseravel

Tornava ás impressões tactis, palpavel,

Como se fosse um corpo organisado!

Em torno a mim, nesta hora, estryges vôam,

E o cemiterio, em que eu entrei adrede,

Dá-me a impressão de um boulevard que fede,

Pela degradação dos que o povoam.

Quanta gente, roubada á humana cohorte,

Morre de fome, sobre a palha espessa,

Sem ter, como Ugolino, uma cabeça

Que possa mastigar na hora da morte;

E nùa, após baixar ao cháos budhista,

Vem para aqui, nos braços de um canalha,

Porque o madapolão para a mortalha

Custa 1$200 ao logista!

Que resta das cabeças que pensaram?!

E afundado nos sonhos mais nefastos,

Ao pegar num milhão de miolos gastos,

Todos os meus cabellos se arripiaram.

Os evolucionismos bemfeitores

Que por entre os cadaveres caminham,

Iguaes a irmães de caridade, vinham

Com a podridão dar de comer ás flôres!

Os defuntos então me offereciam

Com as articulações das mãos inermes,

Num prato de hospital, cheio de vermes,

Todos os animaes que apodreciam!

É possivel que o estomago se afoite

(Muito embora contra isto a alma se irrite)

A cevar o anthropophago appetite,

Comendo carne humana, á meia noite!

Com uma illimitadissima tristeza,

Na impaciencia do estomago vasio,

Eu devorava aquelle bôlo frio

Feito das podridões da Natureza!

E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos,

Vendo passar com as tunicas obscuras,

As escaveiradissimas figuras

Das negras deshonradas pelos brancos;

Pisando, como quem salta, entre fardos,

Nos corpos nús das moças hottentotes

Entregues, ao clarão de alguns archotes,

A sodomia indigna dos moscardos;

Eu maldizia o deus de mãos nefandas

Que, transgredindo a egualitaria regra

Da Natureza, atira a raça negra

Ao contubernio diario das quitandas!

Na evolução de minha dôr grotesca,

Eu mendigava aos vermes insubmissos

Como indemnisação dos meus serviços,

O beneficio de uma cóva fresca.

Manhã. E eis-me a absorver a luz de fóra,

Como o incola do pólo artico, ás vezes,

Absorve, após a noite de seis mezes,

Os raios calorificos da aurora.

Nunca mais as gotteiras cahiriam

Como propositaes settas malvadas,

No frio matador das madrugadas,

Por sobre o coração dos que soffriam!

Do meu cerebro á absconsa taboa rasa

Vinha a luz restituir o antigo credito,

Proporcionando-me o prazer inédito,

De quem possue um sol dentro de casa.

Era a volupia funebre que os ossos

Me inspiravam, trazendo-me ao sol claro,

Á apprehensão physiologica do faro

O odôr cadaveroso dos destroços!

O inventario do que eu já tinha sido

Espantava. Restavam só de Augusto

A forma de um mammifero vetusto

E a cerebralidade de um vencido!

O genio procreador da especie eterna

Que me fizera, em vez de hyena ou lagarta,

Uma sobrevivencia de Siddhartha,

Dentro da phylogénese moderna;

E arrancara milhares de existencias

Do ovario ignobil de uma fauna immunda,

Ia arrastando agora a alma infecunda

Na mais triste de todas as fallencias.

Um céu calamitoso de vingança

Desaggregava, despota e sem normas,

O adhesionismo biontico das fórmas

Multiplicadas pela lei da herança!

A ruina vinha horrenda e deleteria

Do subsolo infeliz, vinha de dentro

Da materia em fusão que ainda ha no centro,

Para alcançar depois a periphéria!

Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu odio exerces!

Mas, a meu ver, os saxeos prédios tortos

Tinham aspectos de edificios mortos,

Decompondo-se desde os alicerces!

A doença era geral, tudo a extenuar-se

Estava. O Espaço abstracto que não morre

Cansára. O ar que, em colonias fluidas, corre,

Parecia também desaggregar-se!

Os pródromos de um tétano medonho

Repuxavam-me o rosto. Hirto de espanto,

Eu sentia nascer-me nalma, emtanto,

O começo magnifico de um sonho!

Entre as fórmas decrépitas do povo,

Já batiam por cima dos estragos

A sensação e os movimentos vagos

Da cellula inicial de um Cósmos novo!

O lethargo larvário da cidade

Crescia. Igual a um parto, numa furna,

Vinha da original treva nocturna

O vagido de uma outra Humanidade;

E eu, com os pés atolados no Nirvana,

Acompanhava, com um prazer secreto,

A gestação daquelle grande féto,

Que vinha substituir a Especie Humana!

1/1
Menu

Fazer anotação