Insomnia Eu · Capítulo 22 de 56
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Insomnia

Pau d’Arco — 1905.

Noute. Da Magua o espirito noctambulo

Passou de certo por aqui chorando!

Assim, em magua, eu tambem vou passando

Somnambulo... somnambulo... somnambulo...

Que voz é esta que a gemer concentro

No meu ouvido e que do meu ouvido

Como um bemol e como um sostenido

Rola impetuosa por meu peito a dentro?!

— Por que é que este gemido me acompanha?!

Mas dos meus olhos no sombrio palco

Subito surge como um catafalco

Uma cidade ao mappa-mundi estranha.

A dispersão dos sonhos vagos reúno.

Desta cidade pelas ruas erra

A procissão dos Martyres da Terra

Desde os Christãos até Giordano Bruno!

Vejo deante de mim Santa Francisca

Que com o cilicio as tentações supplanta

E invejo o soffrimento desta Santa,

Em cujo olhar o Vicio não faisca!

Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,

Depois de embebedado deste vinho,

Sahir da vida puro como o arminho

Que os cabellos dos velhos embranquece!

Porque cumpri o universal dictame!?

Pois se eu sabia onde morava o Vicio,

Porque não evitei o precipicio

Estrangulando minha carne infame?!

Até que dia o entoxicado aroma

Das paixões torpes sorverei contente?

E os dias correrão eternamente?!

E eu nunca sahirei desta Sodoma?!

Á proporção que a minha insomnia augmenta

Hieroglyphos e esphinges interrogo.

Mas, triumphalmente, nos ceus altos, logo

Toda a alvorada esplendida se ostenta.

Vagueio pela Noute decahida.

No espaço a luz de Aldebaran e de Argus

Vai projectando sobre os campos largos

O derradeiro phosphoro da Vida.

O Sol, equilibrando-se na esphera,

Restitue-me a pureza da hematose

E então uma interior metamorphose

Nas minhas arcas cerebraes se opera.

O odor da margarida e da begonia

Subitamente me penetra o olfato.

Aqui, neste silencio e neste matto,

Respira com vontade a alma camponia!

Grita a satisfação na alma dos bichos.

Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.

As arvores, as flores, os corimbos.

Recordam santos nos seus proprios nichos.

Com o olhar a verde periphéria abarco.

Estou alegre. Agora, por exemplo,

Cercado destas arvores, contemplo

As maravilhas reaes do meu Pau d’Arco!

Cedo virá, porém, o funerario,

Atro dragão da escura noute, hedionda,

Em que o Tedio, batendo na alma, estronda

Como um grande trovão extraordinario.

Outra vez serei pábulo do susto

E terei outra vez de, em magua immerso,

Sacrificar-me por amor do Verso

No meu eterno leito de Procusto!

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