Queixas Nocturnas Eu · Capítulo 39 de 56
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Queixas Nocturnas

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!

Saio. Minh’alma sáe agoniada.

Andam monstros sombrios pela estrada

E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Não trago sobre a tunica fingida

As insignias medonhas do infeliz

Como os falsos mendigos de Paris

Na atra rua de Santa Margarida.

O quadro de afflições que me consomem

O proprio Pedro Americo não pinta...

Para pintal-o, era preciso a tinta

Feita de todos os tormentos do homem!

Como um ladrão sentado numa ponte

Espera alguem, armado de arcabuz,

Na ancia incoercivel de roubar a luz,

Estou á espera de que o Sol desponte!

Bati nas pedras dum tormento rude

E a minha magua de hoje é tão intensa

Que eu penso que a Alegria é uma doença

E a Tristeza é minha unica saúde!

As minhas roupas, quero até rompel-as!

Quero, arrancado das prisões carnaes,

Viver na luz dos astros immortaes,

Abraçado com todas as estrellas!

A Noite vae crescendo apavorante

E dentro do meu peito, no combate,

A Eternidade esmagadora bate

Numa dilatação exorbitante!

E eu lucto contra a universal grandeza

Na mais terrivel desesperação...

E’ a lucta, é o prelio enorme, é a rebellião

Da creatura contra a natureza!

Para essas luctas uma vida é pouca

Inda mesmo que os musculos se esforcem;

Os pobres braços do mortal se torcem

E o sangue jorra, em coalhos, pela bocca

E muitas vezes a agonia é tanta

Que, rolando dos ultimos degraus,

O Hercules treme e vai tombar no cháos

De onde seu corpo nunca mais levanta!

E’ natural que esse Hercules se estorça,

E tombe para sempre nessas luctas,

Estrangulado pelas rodas brutas

Do mechanismo que tiver mais força.

Ah! Por todos os seculos vindouros

Ha de travar-se essa batalha vã

Do dia de hoje contra o de amanhã,

Igual á lucta dos christãos e mouros!

Sobre historias de amor o interrogar-me

E’ vão, é inutil, é improficuo, em summa;

Não sou capaz de amar mulher alguma

Nem ha mulher talvez capaz de amar-me.

O amor tem favos e tem caldos quentes

E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;

O coração do Poeta é um hospital

Onde morreram todos os doentes.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto:

A benção matutina que recebo...

E é tudo: o pão que como, a agua que bebo,

O velho tamarindo a que me encosto!

Vou enterrar agora a harpa bohemia

Na atra e assombrosa solidão feroz

Onde não cheguem o echo duma voz

E o grito desvairado da blasphemia!

Que dentro de minh’alma americana

Não mais palpite o coração — esta arca,

Este relogio tragico que marca

Todos os actos da tragedia humana! —

Seja esta minha queixa derradeira

Cantada sobre o tumulo de Orpheu;

Seja este, emfim, o ultimo canto meu

Por esta grande noite brazileira!

Melancholia! Estende-me a tu’aza!

E’s a arvore em que devo reclinar-me...

Si algum dia o Prazer vier procurar-me

Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Pau d’Arco — 1906

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