Mysterios de um Phosphoro Eu · Capítulo 26 de 56
Obra Menu

Mysterios de um Phosphoro

Parahyba, 1910

Pego de um phosphoro. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o

Depois. E o que depois fica e depois

Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois

Tumulos dentro de um carvão promiscuo.

Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo

Que a individual psychê humana tece e

O outro é o do sonho altruistico da especie

Que é o substractum dos sonhos do individuo!

E exclamo, ébrio, a esvasiar bácchicos odres:

— «Cinza, synthese má da podridão,

«Miniatura allegorica do chão,

«Onde os ventres maternos ficam pôdres;

«Na tua clandestina e erma alma vasta,

«Onde nenhuma lampada se accende,

«Meu raciocinio sóffrego surprehende

«Todas as fórmas da materia gasta!»

Raciocinar! Aziaga contingencia!

Ser quadrupede! Andar de quatro pés

É mais do que ser Christo e ser Moysés

Porque é ser animal sem ter consciencia!

Bebedo, os beiços na amphora infima, harto,

Mergulho, e na infima amphora, harto, sinto

O amargor especifico do absintho

E o cheiro animalissimo do parto!

E afógo mentalmente os olhos fundos

Na amorphia da cytula inicial,

De onde, por epigénese geral,

Todos os organismos são oriundos.

Presto, irrupto, atravez ovoide e hyalino

Vidro, apparece, amorpho e lúrido, ante

Minha massa encephalica minguante

Todo o genero humano intra-uterino!

É o cháos da ávita viscera avarenta

— Mucosa nojentissima de pús,

A nutrir diariamente os fétos nús

Pelas villosidades da placenta! —

Certo, o architectural e integro aspecto

Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nelle

Morre, sou eu, sois vós, é todo aquelle

Que vem de um ventre inchado, infimo e infecto!

É a flor dos genealógicos abysmos

— Zooplasma pequenissimo e plebeu,

De onde o desprotegido homem nasceu

Para a fatalidade dos tropismos. —

Depois, é o ceu abscóndito do Nada.

É este acto extraordinario de morrer

Que ha de, na ultima hebdómada, attender

Ao pedido da céllula cansada!

Um dia restará, na terra instavel,

De minha anthropocéntrica matéria

Numa concava chicara funerea

Uma colher de cinza miseravel!

Abro na treva os olhos quasi cégos.

Que mão sinistra e desgraçada encheu

Os olhos tristes que meu Pae me deu

De alfinetes, de agulhas e de pregos?!

Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!

Dentro um dynamo despota, sósinho,

Sob a morphologia de um moinho,

Move todos os meus nervos vibrateis.

Então, do meu espirito, em segredo,

Se escapa, dentre as ténebras, muito alto,

Na synthese acrobatica de um salto,

O espectro angulosissimo do Medo!

Em scismas philosophicas me perco

E vejo, como nunca outro homem viu,

Na amphigonia que me produziu

Nonilliões de moleculas de esterco.

Vida, mónada vil, cosmico zéro,

Migalha de albumina semi-fluida,

Que fez a bocca mystica do druida

E a lingua revoltada de Luthero;

Teus gyneceus prolificos envolvem

Cinza fetal!. Basta um phosphoro só

Para mostrar a incognita de pò,

Em que todos os seres se resolvem!

Ah! Maldito o connúbio incestuoso

Dessas affinidades electivas,

De onde chimicamente tu derivas,

Na acclamação symbiótica do gozo!

O enterro de minha ultima neurona

Desfila... E eis-me outro phosphoro a riscar,

E esse accidente chimico vulgar

Extraordinariamente me impressiona!

Mas minha crise arthritica não tarda.

Adeus! Que eu vejo emfim, com a alma vencida,

Na abjecção embryologica da vida

O futuro de cinza que me aguarda!

1/1
Menu

Fazer anotação