Gemidos de Arte Eu · Capítulo 18 de 56
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Gemidos de Arte

Esta desillusão que me acabrunha

É mais traidora do que o foi Pilatos!...

Por causa disto, eu vivo pelos mattos,

Magro, roendo a substancia córnea da unha.

Tenho estremecimentos indecisos

E sinto, haurindo o tépido ar sereno,

O mesmo assombro que sentio Parphéno

Quando arrancou os olhos de Dyonisos!

Em gyro e em redemoinho em mim caminham

Rispidas maguas estranguladoras,

Taes quaes, nos fortes fulcros, as tesouras

Bronzeas, tambem gyram e redemoinham.

Os pães — filhos legitimos dos trigos —

Nutrem a geração do Odio e da Guerra...

Os cachorros anonymos da terra

São talvez os meus unicos amigos!

Ah! Porque desgraçada contingencia

Á hispida aresta saxea aspera e abrupta

Da rocha brava, numa ininterrupta

Adhesão, não prendi minha existencia?!

Porque Jehovah, maior do que Laplace

Não fez cahir o tumulo de Plinio

Por sobre todo o meu raciocinio

Para que eu nunca mais raciocinasse?!

Pois minha Mãe tão cheia assim daquelles

Carinhos, com que guarda meus sapatos,

Porque me deu consciencia dos meus actos

Para eu me arrepender de todos elles?!

Quizera antes, mordendo glabros talos,

Nabuchodonosor ser no Pau d’Arco,

Beber a acre e estagnada agua do charco,

Dormir na mangedoura com os cavallos!

Mas a carne é que é humana! A alma é divina.

Dorme num leito de feridas, goza

O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,

Beija a peçonha, e não se contamina!

Ser homem! escapar de ser abôrto!

Sahir de um ventre inchado que se anoja,

Comprar vestidos pretos numa loja

E andar de luto pelo pae que é morto!

E por trezentos e sessenta dias

Trabalhar e comer! Martyrios juntos!

Alimentar-se dos irmãos defuntos,

Chupar os ossos das alimarías!

Barulho de mandibulas e abdomens!

E vem-me com um despreso por tudo isto

Uma vontade absurda de ser Christo

Para sacrificar-me pelos homens!

Soberano desejo! Soberana

Ambição de construir para o homem uma

Região, onde não cuspa lingua alguma

O oleo rançoso da saliva humana!

Uma região sem nodoas e sem lixos,

Subtrahida á hediondez de infimo casco,

Onde a forca feroz coma o carrasco

E o olho do estuprador se encha de bichos!

Outras constellações e outros espaços

Em que, no agúdo gráu da ultima crise,

O braço do ladrão se paralyse

E a mão da meretriz caia aos pedaços!

O sol agora é de um fulgor compacto,

E eu vou andando, cheio de chamusco,

Com a flexibilidade de um mollusco,

Humido, pegajoso e unctuoso ao tacto!

Reunam-se em rebellião ardente e accesa

Todas as minhas forças emotivas

E armem ciladas como cobras vivas

Para despedaçar minha tristeza!

O sol de cima espiando a flora moça

Arda, fustigue, queime, corte, morda!

Deleito a vista na verdura gorda

Que nas hastes delgadas se balouça!

Avisto o vulto das sombrias granjas

Perdidas no alto... Nos terrenos baixos,

Das laranjeiras eu admiro os cachos

E a ampla circumferencia das laranjas.

Ladra furiosa a tribu dos podengos.

Olhando para as pútridas charnécas

Grita o exercito avulso das marrécas

Na humida cópa dos bambús verdoengos.

Um passaro alvo artifice da teia

De um ninho, salta, no árdego trabalho,

De arvore em arvore e de galho em galho,

Com a rapidez duma semi-colcheia.

Em grandes semi-circulos aduncos,

Entrançados, pelo ar, largando pellos,

Vôam á similhança de cabellos

Os chicotes finissimos dos juncos.

Os ventos vagabundos batem, bolem

Nas arvores. O ar cheira. A terra cheira

E a alma dos vegetaes rebenta inteira

De todos os corpusculos do pollen.

A camara nupcial de cada ovario

Se abre. No chão collêa a lagartixa.

Por toda a parte a seiva bruta esguicha

Num extravasamento involuntario,

Eu, depois de morrer, depois de tanta

Tristeza, quero, em vez do nome — Augusto,

Possuir ahi o nome dum arbusto

Qualquer ou de qualquer obscura planta!

Pelo accidentadissimo caminho

Faisca o sol. Nédios, batendo a cauda,

Urram os bois. O céo lembra uma lauda

Do mais incorruptivel pergaminho.

Uma atmosphera má de incommoda hulha

Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte

Féde. O ardente calor da areia forte

Racha-me os pés como se fosse agulha.

Não sei que subterranea e atra voz rouca,

Por saibros e por cem concavos valles,

Como pela avenida das Mappales,

Me arrasta á casa do finado Tôca!

Todas as tardes a esta casa venho.

Aqui, outr’ora, sem conchego nobre,

Viveu, sentiu e amou este homem pobre

Que carregava cannas para o engenho!

Nos outros tempos e nas outras eras,

Quantas flôres! Agora, em vez de flôres,

Os musgos, como exoticos pintores,

Pintam caretas verdes nas tapéras.

Na bruta dispersão de vitreos cacos,

A dura luz do sol resplandecente,

Tropega e antiga, uma parede doente

Mostra a cara medonha dos buracos.

O cupim negro bróca o ámago fino

Do tecto. E traça trombas de elephantes

Com as circumvoluções extravagantes

Do seu complicadissimo intestino.

O lodo obscuro trepa-se nas portas.

Amortoadas em grossos feixes rijos,

As lagartixas dos esconderijos

Estão olhando aquellas coisas mortas!

Fico a pensar no Espirito disperso

Que unindo a pedra ao gneiss e a arvore á creança,

Como um annel enorme de alliança,

Une todas as coisas do Universo!

E assim pensando, com a cabeça em brazas

Ante a fatalidade que me opprime,

Julgo ver este Espirito sublime,

Chamando-me do sol com as suas azas!

Gosto do sol ignivomo e iracundo

Como o reptil gosta quando se molha

E na atra escuridão do ares, olha

Melancolicamente para o mundo!

Essa alegria immaterialisada,

Que por vezes me absorve, é o obolo obscuro,

É o pedaço já pôdre de pão duro

Que o miseravel recebeu na estrada!

Não são os cinco mil milhões de francos

Que a Allemanha pediu a Jules Favre.

É o dinheiro coberto de azinhavre

Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!

Seja este sol meu ultimo consolo;

E o espirito infeliz que em mim se encarna

Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna,

Só, com a misericordia de um tijolo!...

Tudo emfim a mesma órbita percorre

E as boccas vão beber o mesmo leite

A lamparina quando falta o azeite

Morre, da mesma fórma que o homem morre.

Subito, arrebentando a horrenda calma,

Grito, e se grito é para que meu grito

Seja a revelação deste Infinito

Que eu trago encarcerado na minh’alma!

Sol brazileiro! Queima-me os destroços!

Quero assistir, aqui, sem pae que me ame,

De pé, á luz da consciencia infame,

A carbonisação dos proprios ossos!

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