Noite de um Visionario Eu · Capítulo 27 de 56
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Noite de um Visionario

Numero cento e tres. Rua Direita.

Eu tinha a sensação de quem se esfóla

E inopinadamente o corpo atóla

Numa poça de carne liquefeita!

— “Que esta allucinação tactil não cresça!”

— Dizia; e erguia, oh! ceu, alto, por vêr-vos,

Com a rebeldia acerrima dos nervos

Minha atormentadissima cabeça.

É a potencialidade que me eleva

Ao grande Deus, e absorve em cada viagem

Minh’alma — este sombrio personagem

Do drama pantheistico da treva!

Depois de dezeseis annos de estudo

Generalisações grandes e ousadas

Traziam minhas forças concentradas

Na comprehensão monistica de tudo.

Mas a aguadilha pútrida o hombro inérme

Me aspergia, banhava minhas tibias,

E a ella se alliava o ardor das syrtes lybias,

Cortando o melanismo da epiderme.

Ahrimánico genio destructivo

Desconjunctava minha autónoma alma

Esbandalhando essa unidade calma,

Que fórma a coherencia do ser vivo.

E eu sahi a tremer com a lingua grossa

E a volição no cumulo do exicio,

Como quem é levado para o hospicio

Aos trambolhões, num canto de carroça!

Perante o inexoravel ceu accêso

Aggregações abióticas espúrias,

Como uma cara, recebendo injurias,

Recebiam os cuspos do desprezo.

A essa hora, nas telluricas reservas,

O reino mineral americano

Dormia, sob os pés do orgulho humano,

E a cimalha minúscula das hervas.

E não haver quem, integra, lhe entregue,

Com os ligamentos glótticos precisos,

A liberdade de vingar em risos

A angustia millenaria que o persegue!

Bolia nos obscuros labyrinthos

Da fertil terra gorda, humida e fresca,

A infima abscondita e grotesca

Da familia bastárda dos helminthos.

As vegetalidades subalternas

Que os serenos nocturnos orvalhavam,

Pela alta frieza intrinseca, lembravam

Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.

E no estrume fresquissimo da gleba

Formigavam, com a simplice sarcóde,

O vibrião, o ancylóstomo, o colpóde

E outros irmãos legitimos da amœba!

E todas essas fórmas que Deus lança

No Cosmos, me pediam, com o ar horrivel,

Um pedaço de lingua disponivel

Para a philogenetica vingança!

A cidade exhalava um pôdre báfio:

Os annuncios das casas de commercio,

Mais tristes que as elégias de Propércio,

Pareciam talvez meu epitaphio.

O motor teleológico da Vida

Parára! Agora, em diástoles de guerra,

Vinha do coração quente da terra

Um rumor de materia dissolvida.

A chimica feroz do cemiterio

Transformava porções de atomos juntos

No oleo malsão que escorre dos defuntos,

Com a abundancia de um geyser deletério.

Dedos denunciadores escreviam

Na lugubre extensão da rua preta

Todo o destino negro do planeta,

Onde minhas moleculas soffriam.

Um necróphilo mau forçava as lousas

E eu — coetaneo do horrendo cataclysmo —

Era puxado para aquelle abysmo

No rodomoinho universal das cousas!

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