Uma Noite no Cairo Eu · Capítulo 48 de 56
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Uma Noite no Cairo

Noite no Egypto. O ceu claro e profundo

Fulgúra. A rua é triste. A Lua Cheia

Está sinistra, e sobre a paz do mundo

A alma dos Pharaós anda e vagueia.

Os mastins negros vão ladrando á lua...

O Cairo é de uma formosura archaica.

No angulo mais recondito da rua

Passa cantando uma mulher hebraica.

O Egypto é sempre assim quando anoitece!

Ás vezes, das pyramides o quêdo

E atro perfil, exposto ao luar, parece

Uma sombria interjeição de medo!

Como um contraste áquelles miseréres,

Num kiosque em festa a alegre turba grita,

E dentro dançam homens e mulheres

Numa agglomeracão cosmopolita,

Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia,

Convulso e rôto, no apogêu da furia,

Executando evoluções de razzia

Solta um brado epileptico de injuria!

Em derredor duma ampla mesa preta

— Ultima nota do connubio infando —

Veem-se dez jogadores de roleta

Fumando, discutindo, conversando.

Resplandece a celeste superficie.

Dorme soturna a natureza sabia...

Em baixo, na mais proxima planicie,

Pasta um cavallo esplendido da Arabia.

Vaga no espaço um sylpho solitario.

Trôam kinnors! Depois tudo é tranquillo...

Apenas, como um velho stradivario,

Soluça toda a noite a agua do Nilo!

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