Tristezas de um Quarto-Minguante Eu · Capítulo 46 de 56
Obra Menu

Tristezas de um Quarto-Minguante

Pau d’Arco, Maio — 1907

Quarto-Minguante! E, embora a lua o aclare,

Este Engenho Pau d’Arco é muito triste.

Nos engenhos da varzea não existe

Talvez um outro que se lhe equipare!

Do observatorio em que eu estou situado

A lua magra, quando a noite cresce,

Vista, atravéz do vidro azul, parece

Um parallelipipedo quebrado!

O somno esmaga o encéphalo do povo.

Tenho 3OO kilos no epigastro.

Dóe-me a cabeça. Agora a cara do astro

Lembra a metade de uma casca de ovo.

Diabo! não ser mais tempo de milagre!

Para que esta oppressão desappareça

Vou amarrar um panno na cabeça,

Molhar a minha fronte com vinagre.

Augmentam-se-me então os grandes medos.

O hemispherio lunar se ergue e se abaixa

Num desenvolvimento de borracha,

Variando á acção mechanica dos dedos;

Vai-me crescendo a aberração do sonho.

Morde-me os nervos o desejo doudo

De dissolver-me, de enterrar-me todo

Naquelle semi-circulo medonho!

Mas tudo isto é illusão de minha parte!

Quem sabe se não é porque não saio

Desde que, 6ª-feira, 3 de Maio,

Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!

A lampada a estirar linguas vermelhas

Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,

Como um degenerado psychopatha

Eis-me a contar o numero das telhas!

— Uma, duas, tres, quatro. E aos tombos, tonta

Sinto a cabeça e a conta perco; e, em summa,

A conta recomeço, em ancias: — Uma.

Mas novamente eis-me a perder a conta!

Succede a uma tontura outra tontura.

— Estarei morto?! E a esta pergunta extranha

Responde a Vida — aquella grande aranha

Que anda tecendo a minha desventura! —

A luz do quarto diminuindo o brilho

Segue todas as phases de um eclypse.

Começo a ver coisas de Apocalypse

No triangulo escaleno do ladrilho!

Deito-me emfim. Ponho o chapéu num gancho.

Cinco lençóes balançam numa corda,

Mas aquillo mortalhas me recorda,

E o amontoamento dos lençòes desmancho.

Vêm-me á imaginação sonhos dementes.

Acho-me, por exemplo, numa festa.

Tomba uma torre sobre a minha testa,

Caem-me de uma só vez todos os dentes!

Então dois ossos roidos me assombraram.

— «Por ventura haverá quem queira roer-nos?!

Os vermes já não querem mais comer-nos

E os formigueiros já nos desprezaram».

Figuras espectraes de boccas tronchas

Tornam-me o pesadelo duradouro.

Chóro e quero beber a agua do chôro

Com as mãos dispostas á feição de conchas.

Tal uma planta aquatica submersa,

Ante-gozando as ultimas delicias

Mergulho as mãos — vis raizes adventicias —

No algodão quente de um tapete persa.

Por muito tempo rólo no tapete.

Subito me ergo. A lua é morta. Um frio

Cahe sobre o meu estomago vasio

Como se fosse um cópo de sorvete!

A alta frialdade me insensibilisa;

O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...

Minha familia ainda està dormindo

E eu não posso pedir outra camisa!

Abro a janella. Elevam-se fumaças

Do engenho enorme. A luz fulge abundante

E em vez do sepulchral Quarto-Minguante

Vi que era o sol batendo nas vidraças.

Pelos respiratorios tenues tubos

Dos póros vegetaes, no acto da entréga

Do matto verde, a terra resfolèga

Estrumada, feliz, cheia de adubos.

Concavo, o ceu, radiante e estriado, observa

A universal creação. Broncos e feios,

Varios reptis cortam os campos, cheios

Dos tenros tinhorões e da humida herva.

Babujada por baixos beiços brutos,

No humus feraz, hieratica, se ostenta

A monarchia da arvore opulenta

Que dá aos homens o obolo dos fructos.

De mim diverso, rigido e de rastos

Com a solidez do tegumento sujo

Sulca, em diametro, o sólo um caramujo

Naturalmente pelos mata-pastos.

Entretanto, passei o dia inquieto,

A ouvir, nestes bucólicos retiros,

Toda a salva fatal de 21 tiros

Que festejou os funeraes de Hamleto!

Ah! Minha ruina é peor do que a de Thebas!

Quizera ser, numa ultima cobiça,

A fatia esponjosa de carniça

Que os corvos comem sobre as jurubebas!

Porque, longe do pão com que me nutres

Nesta hora, oh! Vida, em que a soffrer me exhortas

Eu estaria como as bestas mortas

Pendurado no bico dos abutres!

1/1
Menu

Fazer anotação