Barcarola Eu · Capítulo 10 de 56
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Barcarola

Cantam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas.

Espelham-se os esplendores

Do ceu, em reflexos, nas

Aguas, fingindo crystaes

Das mais deslumbrantes côres.

E em fulvos filões doirados

Cáe a luz dos astros por

Sobre o maritimo horror

Como globos estrellados.

Lá onde as rochas se assentam

Fulguram como outros sóes

Os flammivomos pharóes

Que os navegantes orientam.

Vai uma onda, vem outra onda

E nesse eterno vaivem

Coitadas! Não acham quem,

Quem as esconda, as esconda.

Allegoria tristonha

Do que pelo Mundo vai!

Si um sonha e se ergue, outro cáe;

Si um cáe, outro se ergue e sonha.

Mas desgraçado do pobre

Que em meio da Vida cáe!

Esse não volta, esse vai

Para o tumulo que o cobre.

Vagueia um poeta num barco.

O Ceu, de cima, a luzir

Como um diamante de Ophir

Imita a curva de um arco.

A Lua — globo de louça —

Surgiu, em lucido veu.

Cantam! Os astros do Ceu

Ouçam e a Lua Cheia ouça!

Ouça do alto a Lua Cheia

Que a sereia vai fallar

Haja silencio no mar

Para se ouvir a sereia.

Que é que ella diz?! Será uma

Historia de amor feliz?

Não! O que a sereia diz

Não é historia nenhuma.

É como um requiem profundo

De tristissimos bemóes.

Sua voz é egual á voz

Das dores todas do mundo!

«Fecha-te nesse medonho

«Reducto de Maldição,

«Viajeiro da Extrema-Uncção,

«Sonhador do ultimo sonho!

«Numa redoma illusoria

«Cercou-te a gloria fallaz,

«Mas nunca mais, nunca mais

«Ha de cercar-te essa gloria!

«Nunca mais! Sê, porém, forte.

«O poeta é como Jesus!

«Abraça-te à tua Cruz

«E morre, poeta da Morte!»

— E disse e porque isto disse

O luar no Ceu se apagou.

Subito o barco tombou

Sem que o poeta o presentisse!

Vista de luto o Universo

E Deus se enlute no Ceu!

Alais um poeta que morreu,

Mais um coveiro do Verso!

Cantam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas!

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