Ato 1 - Cena I
CENA IBeatriz (Em pé, engraxando um botim) – eis-me aqui pagando os meus pecados!... eu sou uma espécie de verbi-gratia das mudanças desta vida. No tempo do vice-rei chamavam-me a neném da rua das Flores; quando o rei chegou, já eu era conhecida pela formosa Beatriz: depois que me apareceu o primeiro cabelinho branco, tiveram o desaforo de tratar-me por tia Beatriz; felizmente ainda a sorte me deparou um soldado inválido que quis casar comigo; mas veio a febre amarela, que deu baixa eterna ao meu querido Pancrácio, e eu fiquei viúva, e viúva sem filha, e sem vintém! Não tive remédio senão recorrer aos Diários, e anunciar uma criada para homem solteiro ou viúvo: tive a esperança de me tornar meia-dona de casa; mas por fim de contas fiquei simples criada, e criada muito ordinária: isto é, criada de um músico!... Eis aqui portanto a bota de um músico engraxada pelas mãos da formosa Beatriz!... Oh! Eu só conheço três coisas tão desprezíveis como as botas de um músico: uma barretina de soldado, um capote de estudante, e uma casaca de meirinho! E eu sempre a engraxar estas botas, botas de um músico, de um músico que tem a pouca vergonha de me estar a dever cinco patacas de despesas miúdas!... (Canta) No tempo da venturaChamavam-me formosa;E agora nem airosaAlguém, que eu sou, me diz!...
Engraxa, engraxa as botas, Engraxa, Beatriz!
Meus olhos, minhas faces Cobriam de louvores;E agora... adeus amores, Já torcem-me o nariz! Engraxa, engraxa as botas,Engraxa, Beatriz!