Ato 2 - Cena V
CENA VAdriano e Celestina Celestina – Eu
não posso compreender isto...
Adriano –
Consola-te comigo, minha amiga; é um prodígio, é um fenômeno estupendo para
quem está no último apuro do infortúnio, como eu: sim... porque tudo o estás
vendo, é impossível que eu desça mais abaixo, por quanto estou morando quase em
cima do telhado.
Celestina –
Fizeste algum presente à senhora Beatriz?
Adriano – Qual!
Apesar do meu gênio um pouco extravagante, numa me veio ao pensamento
semelhante asneira; mas, enfim, deixemos a minha grotesca criada; dize: como
achas o meu novo domicílio?...
Celestina –
Excelente.
Adriano – Muito
pequeno, não é isso?...
Celestina – Não
vejo razão para que te estejas lastimando (Canta)
No rico palácioDe outro fulgenteNem sempre o viventeEncontra o prazer.
As vezes num ranchoDe palha formadoSe vê, como o fadoDá grato viver.
Ah, sim, que se gozaO néctar mais puro,Se no rancho escuroDois podem caber.
Adriano – É
assim, certamente que é assim; mas sempre com a condição de caberem dois no tal
ranchinho; e este é o meu rancho... e se algumas economias me fossem possíveis,
eu daria aqui mesmo um lugar a ti, como minha legítima mulher.
Celestina – Isso é verdade, Adriano?...
bem verdade?... Ah! tu não compreendes como esse pensamento é doce para o meu
coração!
Adriano – Não
tenho te dito já, Celestina, que logo que as circunstâncias o permitam...
Felisberto
(Dentro) – Mais acima?... obrigado.
Adriano – Ainda
este maçante alfaiate!...
Celestina – Eu
me retiro...
Adriano – Não, pelo contrário, demora-te: talvez que a tua vista lhe diminua a ferocidade; ah! que demônios seriam os que inventaram os credores!!! Celestina – Sem dúvida, Adriano, foram os devedores.