Ato 2 - Cena XIII
CENA XIII
Celestina, Adriano e Beatriz. – Celestina
recua, ficando Adriano de joelhos
aos pés de Beatriz Adriano - (De joelhos e com os olhos baixos) – E eu
cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como
um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!...
esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e
que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh!
Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e
beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava
eu falando!... (Vê CELESTINA) Ah! tu
estás aí!
Celestina – E te
compreendi bastante, Adriano.
Beatriz – E eu
também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a
Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu
defunto Pancrácio.
Adriano
(Mostrando o relógio) – Minha Celestina, eu adivinhei tudo!
Beatriz –
Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco
pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as
pazes trinta vezes por dia...
Adriano – Mas
agora, Celestina, tu me desprezas?
Celestina – Não,
não, meu amigo, tudo está esquecido.
Adriano – Eu te
desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do
nosso casamento.
Celestina – E
ficará para sempre morando conosco.
Beatriz
(Limpando os olhos) – E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia
esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda
a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de
visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)
Adriano – Que
nova miséria será esta?...
Celestina – Não
é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de
quase todos.
Beatriz
(Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) – Eis aqui as provas de que
Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.
Adriano –
Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh!
Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma
e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê)
miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se
obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem
rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que
se arrepender!...
Celestina – Que
ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido...
todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.
Adriano (Depois
de ler outra carta) Esta também não é má! Sou admitido na orquestra o teatro de
S. Pedro de Alcântara pelo competente diretor com todas as condições por mim
propostas: eis aqui o contrato assinado! Havia de ser bonito se eu aparecesse
agora tocando tímpanos ou ferrinhos!...
Celestina
– E essa carta?... será ainda algum novo obséquio?...
Adriano (Depois
de ler) – Oh! Lá se é! Nada menos do que a empresa do Provisório que me compra a propriedade da minha ópera por dois
contos de réis, e que se obriga a pô-la em cena dentro de um ano!...
Celestina – Oh!
Isto sim é que é uma grande felicidade! Todos apostaram sobre quem mais faria
para te colocar a salvo da pobreza!
Adriano –
Sim! Agora que já de nada disso preciso, curvam-se todos ante o meu dinheiro:
oh! Sim! Abrem-me os braços, quando já estou acima de seus favores: este mundo,
Celestina, tem uma alma de bilhetes de banco, e um coração de monjolo!
Celestina – Paciência... é preciso
sofrêolo, porque é o mundo que temos... e pela minha parte por ora não desejo
mudar-me para outro.
Adriano (Vendo e
atirando fora os bilhetes de visita) - E
esta nuvem de bilhetes de visita! Oh! Que povaréu, que multidão veio visitar os
meus cinco milhões!... vejamos sempre; (Tira
um) comendador fulano dos anzóis carapuça... Não conheço, fora com ele;
(Outro) O Deputado... Misericórdia! Deputado é uma coisa que custa muito cara à
nação; (Outro) o brigadeiro... Fora, que pode brigar comigo; (Outro) o
doutor... Pior está essa! Doutores longe de minha porta; (Outro) Mr. De tal,
cabeleireiro, tem pomada de urso e água dos amantes... Ao fresco; (Outro)
pílulas vegetais... E esta! Pois já tão depressa não me querem dar pílulas a
engolir?... (Outro) trastes, mármores e porcelanas... entendo! (Outro) frei
Laverno faz os seus cumprimentos... Ah! é um frade!... chegou a minha fama aos
conventos... rua; (Outro) o barão de
qualquer coisa... Irra! Não posso mais!... (Atira com todos os bilhetes fora)
Eis ali rolando pelo chão não sei quantos diplomas da vergonha humana!...
desprezavam o artista e vêm beijar os pés do milionário!... Miseráveis!
Vândalos!... isto ou é para desesperar, ou para rir!
Celestina – Pois
então é melhor rir... riamo-nos!
Adriano – Vá
feito... riamo-nos!... (Canta)
Vejam já quantos amigosMal me deixam respirar!“Que cambada d marrecos“Pega neles p’ra capar!”Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!