Ato 2 - Cena XIII O Primo da Califórnia · Capítulo 28 de 31
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Ato 2 - Cena XIII

CENA XIII

Celestina, Adriano e Beatriz. – Celestina

recua, ficando Adriano de joelhos

aos pés de Beatriz Adriano - (De joelhos e com os olhos baixos) – E eu

cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como

um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!...

esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e

que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh!

Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e

beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava

eu falando!... (Vê CELESTINA) Ah! tu

estás aí!

Celestina – E te

compreendi bastante, Adriano.

Beatriz – E eu

também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a

Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu

defunto Pancrácio.

Adriano

(Mostrando o relógio) – Minha Celestina, eu adivinhei tudo!

Beatriz –

Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco

pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as

pazes trinta vezes por dia...

Adriano – Mas

agora, Celestina, tu me desprezas?

Celestina – Não,

não, meu amigo, tudo está esquecido.

Adriano – Eu te

desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do

nosso casamento.

Celestina – E

ficará para sempre morando conosco.

Beatriz

(Limpando os olhos) – E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia

esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda

a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de

visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)

Adriano – Que

nova miséria será esta?...

Celestina – Não

é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de

quase todos.

Beatriz

(Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) – Eis aqui as provas de que

Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.

Adriano –

Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh!

Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma

e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê)

miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se

obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem

rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que

se arrepender!...

Celestina – Que

ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido...

todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.

Adriano (Depois

de ler outra carta) Esta também não é má! Sou admitido na orquestra o teatro de

S. Pedro de Alcântara pelo competente diretor com todas as condições por mim

propostas: eis aqui o contrato assinado! Havia de ser bonito se eu aparecesse

agora tocando tímpanos ou ferrinhos!...

Celestina

– E essa carta?... será ainda algum novo obséquio?...

Adriano (Depois

de ler) – Oh! Lá se é! Nada menos do que a empresa do Provisório que me compra a propriedade da minha ópera por dois

contos de réis, e que se obriga a pô-la em cena dentro de um ano!...

Celestina – Oh!

Isto sim é que é uma grande felicidade! Todos apostaram sobre quem mais faria

para te colocar a salvo da pobreza!

Adriano –

Sim! Agora que já de nada disso preciso, curvam-se todos ante o meu dinheiro:

oh! Sim! Abrem-me os braços, quando já estou acima de seus favores: este mundo,

Celestina, tem uma alma de bilhetes de banco, e um coração de monjolo!

Celestina – Paciência... é preciso

sofrêolo, porque é o mundo que temos... e pela minha parte por ora não desejo

mudar-me para outro.

Adriano (Vendo e

atirando fora os bilhetes de visita) - E

esta nuvem de bilhetes de visita! Oh! Que povaréu, que multidão veio visitar os

meus cinco milhões!... vejamos sempre; (Tira

um) comendador fulano dos anzóis carapuça... Não conheço, fora com ele;

(Outro) O Deputado... Misericórdia! Deputado é uma coisa que custa muito cara à

nação; (Outro) o brigadeiro... Fora, que pode brigar comigo; (Outro) o

doutor... Pior está essa! Doutores longe de minha porta; (Outro) Mr. De tal,

cabeleireiro, tem pomada de urso e água dos amantes... Ao fresco; (Outro)

pílulas vegetais... E esta! Pois já tão depressa não me querem dar pílulas a

engolir?... (Outro) trastes, mármores e porcelanas... entendo! (Outro) frei

Laverno faz os seus cumprimentos... Ah! é um frade!... chegou a minha fama aos

conventos... rua; (Outro) o barão de

qualquer coisa... Irra! Não posso mais!... (Atira com todos os bilhetes fora)

Eis ali rolando pelo chão não sei quantos diplomas da vergonha humana!...

desprezavam o artista e vêm beijar os pés do milionário!... Miseráveis!

Vândalos!... isto ou é para desesperar, ou para rir!

Celestina – Pois

então é melhor rir... riamo-nos!

Adriano – Vá

feito... riamo-nos!... (Canta)

Vejam já quantos amigosMal me deixam respirar!“Que cambada d marrecos“Pega neles p’ra capar!”Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

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