Ato 1 - Cena VIII
CENA VIIIBeatriz, e depois Pantaleão Beatriz
(Suspirando) – Sempre pensei que tivesse o atrevimento de me abraçar! Também de
que me servia o abraço de um musicozinho das dúzias?... se eu não recuo tão
depressa... mas deixemos estas asneiras. Uma ceia!... ainda trabalho... e
depois deita-se a gente tarde... perde-se a noite... e isto acontece à Beatriz
formosa, por causa de um músico de meia cara!... ora enfim vamos a ver o que se
arranja. (Abre a gaveta) Bem... copos
cinco, exatamente, e cada qual de sua qualidade: pratos... nove, entrando dois
rachados: aqui há de tudo, desde a louça da China, até...
Pantaleão –
Olhem lá em que ela se ocupa... dá de língua como deputado!... Velha
rezingueira, é assim que cumpre o nosso contrato?... eu te pago meia moeda por
mês, fora os caídos, para observares o procedimento da minha súcia de
inquilinos, e entretanto um deles está pondo os trastes da porta para fora sem
pagar o que legitimamente me deve, e eu nada sei do que se passa!... olha, que
te suspendo o ordenado!
Beatriz – E quem
é que está fazendo esse desaforo?...
Pantaleão – O
locatário do terceiro andar, que acaba de fazer descer as escadas a dois
enxergões e uma esteira!...
Beatriz – já sei
o seu destino, senhor; os enxergões vão se encher de novo e a esteira, que já
está muito velha, mandaram-na atirar à praia.
Pantaleão –
Aceito a explicação; mas sustento o que disse:
eu quero que não durmas, e que de dia e de noite observes o que se passa
na minha propriedade: olha... põe-te alerta principalmente de madrugada: quando
eu tinha as minhas duas vendas era de madrugada que eu fazia o melhor negócio
com os pretinhos: aquilo, sim! Hoje era um cordão de ouro por meia pataca,
amanhã uma colher de prata por quatro vinténs, depois de amanhã um anel de
brilhantes por um martelinho de infusão de gengibre, que eu chamava aguardente...
oh! Tudo isso sem bulha, sem matinada, e muito honradamente, muito
honradamente!...
Beatriz – Senhor
Pantaleão, eu cumpre como posso as suas ordens; mas VossaSenhoria bem sabe que eu sou também criada do
musicozinho...
Pantaleão – Tudo
isso mudará, e principiarei hoje por mandar pôr os quartos na rua a esse
insuportável arranha-notas...
Beatriz – Olhe,
não hei de ser eu que me ponha diante dele para lhe impedir a retirada: pois o
insolente não quis ainda há pouco dar-me um abraço?... e se eu não recuo tão
depressa...
Pantaleão –
Enfim... devo proceder desse modo; pois o que é esse músico?... um habitante de
um terceiro andar: somente farroupilhas moram em tais alturas: deverse-ia
proibir os terceiros andares... eles só servem para alojar inquilinos que nunca
pagam ao senhorio.
Beatriz – Eis aí
o que é falar bem: cá eu sempre fui inimiga de canalha.
Pantaleão –
Sim... é isso mesmo: essa gente que não tem real de seu é uma verdadeira
canalha!... Mas agora deixa-me só, que ouço os passos do meu inquilino
farroupilha: anda, vai-te!
Beatriz – Eu sou uma criada sempre pronta a obedecer a Vossa Senhoria por cuja felicidade rezo sempre nas minhas bentas contas! (À parte) é um jagodes muito ordinário; mas é preciso fazer-lhe cortesias, porque dizem que tem dinheiro, como farinha! (A PANTALEÃO) Sou uma criada de Vossa Senhoria Excelentíssima... (Vaise)