Ato 1 - Cena V
CENA VAdriano, que acompanha Celestina até à porta, e Felisberto Adriano – Oh!
Caro e preclaro amigo Felisberto!... (Acompanha
Celestina).
Felisberto (à parte) – Exatamente... a nova rua, que
a Câmara Municipal projeta abrir, deve passar por aqui, e se eu consigo comprar
esta casa, hei de vendê-la com um lucro de trezentos por cento, pois que tenho
bons padrinhos.
Adriano – Às
ordens do meu amigo Felisberto!
Felisberto – o
senhor adivinha sem dúvida os motivos que me trazem aqui...
Adriano – Oh! Incomparável alfaiate!
Vem seguramente ver se tenho necessidade de alguma roupa; chega bem a
propósito... a minha roupa mais nova mostra já os cordões diabolicamente, e
exige a todo transe uma reforma.
Felisberto – E o
senhor pensa...
Adriano – Em lhe
encomendar roupa nova... pois que duvida?... tenho inteira confiança na sua
tesoura magistral; o senhor é o alfaiate de minha confiança; não lhe pose
retirar o meu voto.
Felisberto – Eu
suponho; quando se é o alfaiate do corpo diplomático...
Adriano – Ah!...
então o senhor é o alfaiate dos diplomatas?... por que não mo disse há mais
tempo?
Felisberto –
Tenho essa honra; porém, voltemos ao que mais importa; o senhor diz que quer
roupa nova?... bem; mas a respeito da velha, que lhe fiz...
Adriano – Já não presta para nada, meu
querido Felisberto!
Felisberto –
Estou por isso; é, porém, necessário que nos entendamos acerca de...
Adriano – Da cor provavelmente?... é
verdade; qual é a do último gosto?...
Felisberto – Não
há cor dominante agora; mas não é isso... o que eu quero é que...
Adriano – Já lhe disse que o senhor é o
alfaiate da minha confiança; escolha portanto as fazendas, corte, cosa,
vista-me! Eu me entrego em suas mãos... Que mais pode desejar?...
Felisberto – O
que eu desejo é que finalmente falemos sobre...
Adriano – Sobre
os botões, não é isso?... meu amigo, prefiro os de metal, porque o metal...
Felisberto –
Exatamente é por causa do metal que eu aqui venho; o meu metal, meu senhor, é
muito raro... não aparece nunca... o meu cobrador já cansou de o procurar, e
agora venho eu próprio a ver se sou mais feliz: então?... (Canta)
Está perdendo o seu tempo,Se finge não me entender;Pague já o que me deve,Que eu tenho mais que fazer.
Não sou criado do povo;Quem trabalha, quer comer;Pague já o que me deve,Que eu tenho mais que fazer. Adriano –
Qué!... será possível que por alguns magros réis o alfaiate do corpo
diplomático se abaixasse a subir a um terceiro andar?... o alfaiate do corpo
diplomático!... que miséria!... que miséria!...
Felisberto – Mas
é que o senhor chama magros réis a uma soma de....
Adriano –
Pare... pare... não pronuncie o total... lembre-se que sou músico, e que o som
produzido por um total é capaz de esfolar-me os ouvidos!...
Felisberto –
Senhor, basta de gracejos; creio que devo ser pago, visto que não seria com o
único fim de lhe obsequiar, que há dois anos o tenho vestido dos pés à cabeça;
lembre-se que está coberto com os meus panos?
Adriano – Alfaiate do corpo diplomático! Sabe música?...
Felisberto –
Não, senhor.
Adriano – Em tal
caso lhe farei ouvir uma composição, que deve elevar-me à imortalidade!
Compreendo perfeitamente que enquanto não chega a imortalidade é necessário ter
de que viver; mas não é tarde... sim, caro, preclaro, e preclaríssimo
Felisberto; eu vou estrear na minha arte... o senhor já esteou na sua... a
única diferença está nas nossas divisas; o senhor tem a tesoura, e eu vou ter a
batuta... o senhor entende isto suficientemente, não é assim?... eu sou rapaz
de consciência... O senhor deve ser um homem de paciência... eu... não pretendo
enganar a pessoa alguma... oh! Não... nunca!... porém, por ora... falemos
sério... (Batendo nos bolsos) Estou a
tocar matinas!... por conseqüência, caro e preclaro Felisberto em suma.... em
uma palavra... em último resultado... para dizer tudo... agora?... não pode
ser; amanhã... veremos, espere sempre; (À
parte) é impossível... ninguém satisfaz um credor melhor do que eu!
Felisberto –
Senhor! Se acha em más circunstâncias, tanto piro para a sua pessoa, quanto a
mim, nada tenho com isso, nem pretendo intrometer-me em negócios alheios.
Adriano –
Todavia convém que fique sabendo, que me vão imprimir uma magnífica coleção de
composições musicais.
Felisberto –
Faço idéia... algumas valsinhas...
Adriano –
Nada... nada... coisa mais alta; vou concluir o meu ajuste com o editor, e
espero em breve pagar-lhe a insignificante continha, que o senhor teve a
baixeza de julgar tão elevada.
Felisberto –
Porém, quando, senhor? Quando?...
Adriano – Mais
cedo do que talvez espera.
Felisberto –
Juro que não será mais cedo do que desejo.
Adriano – Oh!
Que semelhança em nossos pensamentos, caro e preclaroFelisberto!
Felisberto –
Adeus, senhor; como não nasci para andar toda a minha vida correndo atrás do
seu dinheiro, cá lhe enviarei outra vez o meu cobrador.
Adriano – Ele
achará a porta da minha casa tão aberta e franca, como para o senhor o está
sempre a porta do meu coração
Felisberto –
Preciso é pagar;
O triste credorNão pode esperar;Quem compra fiado,E quer ser honrado,De pagar os meiosCalcula e prevê;Preciso é pagar,Arranje com quê.
Adriano – Preciso é pagar?...
O duro credorNão pode esperar?...
Eu comprei fiado,Quero ser honrado;Mas que os meios faltamO senhor bem vê;Preciso é pagar?...
Não tenho com quê.