Ato 1 - Cena V O Primo da Califórnia · Capítulo 6 de 31
Obra Menu

Ato 1 - Cena V

CENA VAdriano, que acompanha Celestina até à porta, e Felisberto Adriano – Oh!

Caro e preclaro amigo Felisberto!... (Acompanha

Celestina).

Felisberto (à parte) – Exatamente... a nova rua, que

a Câmara Municipal projeta abrir, deve passar por aqui, e se eu consigo comprar

esta casa, hei de vendê-la com um lucro de trezentos por cento, pois que tenho

bons padrinhos.

Adriano – Às

ordens do meu amigo Felisberto!

Felisberto – o

senhor adivinha sem dúvida os motivos que me trazem aqui...

Adriano – Oh! Incomparável alfaiate!

Vem seguramente ver se tenho necessidade de alguma roupa; chega bem a

propósito... a minha roupa mais nova mostra já os cordões diabolicamente, e

exige a todo transe uma reforma.

Felisberto – E o

senhor pensa...

Adriano – Em lhe

encomendar roupa nova... pois que duvida?... tenho inteira confiança na sua

tesoura magistral; o senhor é o alfaiate de minha confiança; não lhe pose

retirar o meu voto.

Felisberto – Eu

suponho; quando se é o alfaiate do corpo diplomático...

Adriano – Ah!...

então o senhor é o alfaiate dos diplomatas?... por que não mo disse há mais

tempo?

Felisberto –

Tenho essa honra; porém, voltemos ao que mais importa; o senhor diz que quer

roupa nova?... bem; mas a respeito da velha, que lhe fiz...

Adriano – Já não presta para nada, meu

querido Felisberto!

Felisberto –

Estou por isso; é, porém, necessário que nos entendamos acerca de...

Adriano – Da cor provavelmente?... é

verdade; qual é a do último gosto?...

Felisberto – Não

há cor dominante agora; mas não é isso... o que eu quero é que...

Adriano – Já lhe disse que o senhor é o

alfaiate da minha confiança; escolha portanto as fazendas, corte, cosa,

vista-me! Eu me entrego em suas mãos... Que mais pode desejar?...

Felisberto – O

que eu desejo é que finalmente falemos sobre...

Adriano – Sobre

os botões, não é isso?... meu amigo, prefiro os de metal, porque o metal...

Felisberto –

Exatamente é por causa do metal que eu aqui venho; o meu metal, meu senhor, é

muito raro... não aparece nunca... o meu cobrador já cansou de o procurar, e

agora venho eu próprio a ver se sou mais feliz: então?... (Canta)

Está perdendo o seu tempo,Se finge não me entender;Pague já o que me deve,Que eu tenho mais que fazer.

Não sou criado do povo;Quem trabalha, quer comer;Pague já o que me deve,Que eu tenho mais que fazer. Adriano –

Qué!... será possível que por alguns magros réis o alfaiate do corpo

diplomático se abaixasse a subir a um terceiro andar?... o alfaiate do corpo

diplomático!... que miséria!... que miséria!...

Felisberto – Mas

é que o senhor chama magros réis a uma soma de....

Adriano –

Pare... pare... não pronuncie o total... lembre-se que sou músico, e que o som

produzido por um total é capaz de esfolar-me os ouvidos!...

Felisberto –

Senhor, basta de gracejos; creio que devo ser pago, visto que não seria com o

único fim de lhe obsequiar, que há dois anos o tenho vestido dos pés à cabeça;

lembre-se que está coberto com os meus panos?

Adriano – Alfaiate do corpo diplomático! Sabe música?...

Felisberto –

Não, senhor.

Adriano – Em tal

caso lhe farei ouvir uma composição, que deve elevar-me à imortalidade!

Compreendo perfeitamente que enquanto não chega a imortalidade é necessário ter

de que viver; mas não é tarde... sim, caro, preclaro, e preclaríssimo

Felisberto; eu vou estrear na minha arte... o senhor já esteou na sua... a

única diferença está nas nossas divisas; o senhor tem a tesoura, e eu vou ter a

batuta... o senhor entende isto suficientemente, não é assim?... eu sou rapaz

de consciência... O senhor deve ser um homem de paciência... eu... não pretendo

enganar a pessoa alguma... oh! Não... nunca!... porém, por ora... falemos

sério... (Batendo nos bolsos) Estou a

tocar matinas!... por conseqüência, caro e preclaro Felisberto em suma.... em

uma palavra... em último resultado... para dizer tudo... agora?... não pode

ser; amanhã... veremos, espere sempre; (À

parte) é impossível... ninguém satisfaz um credor melhor do que eu!

Felisberto –

Senhor! Se acha em más circunstâncias, tanto piro para a sua pessoa, quanto a

mim, nada tenho com isso, nem pretendo intrometer-me em negócios alheios.

Adriano –

Todavia convém que fique sabendo, que me vão imprimir uma magnífica coleção de

composições musicais.

Felisberto –

Faço idéia... algumas valsinhas...

Adriano –

Nada... nada... coisa mais alta; vou concluir o meu ajuste com o editor, e

espero em breve pagar-lhe a insignificante continha, que o senhor teve a

baixeza de julgar tão elevada.

Felisberto –

Porém, quando, senhor? Quando?...

Adriano – Mais

cedo do que talvez espera.

Felisberto –

Juro que não será mais cedo do que desejo.

Adriano – Oh!

Que semelhança em nossos pensamentos, caro e preclaroFelisberto!

Felisberto –

Adeus, senhor; como não nasci para andar toda a minha vida correndo atrás do

seu dinheiro, cá lhe enviarei outra vez o meu cobrador.

Adriano – Ele

achará a porta da minha casa tão aberta e franca, como para o senhor o está

sempre a porta do meu coração

Felisberto –

Preciso é pagar;

O triste credorNão pode esperar;Quem compra fiado,E quer ser honrado,De pagar os meiosCalcula e prevê;Preciso é pagar,Arranje com quê.

Adriano – Preciso é pagar?...

O duro credorNão pode esperar?...

Eu comprei fiado,Quero ser honrado;Mas que os meios faltamO senhor bem vê;Preciso é pagar?...

Não tenho com quê.

1/1
Menu

Fazer anotação