Ato 2 - Cena VIII O Primo da Califórnia · Capítulo 23 de 31
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Ato 2 - Cena VIII

CENA VIIIAdriano e Pantaleão Pantaleão – Meu

jovem e prezado amigo, agora que estamos sós, eu me posso desabafar...

Adriano (À

parte) – Oh!... pis também o taberneiro?... Que diabo quer dizer isto?...

estarei dormindo... ou... ou... querem ver que grassa na cidade alguma peste de

loucura!...

Pantaleão – Mas,

antes de tudo, consinta Vossa Senhoria...

Adriano

(Estupefato) – Vossa Senhoria!!! Eles acabam hoje por dar-me excelência!...

Pantaleão –

Consinta Vossa Senhoria que eu lhe abrace, e que faça correr por suas faces uma

lágrima de dor, que Vossa Senhoria ajuntará àquelas que, sem dúvida, já tem

derramado hoje!...

Adriano – Eu,

senhor?... eu ainda não derramei hoje uma única lágrima!

Pantaleão

(Chorando) – Isso depende dos temperamentos; cá eu choro como um bezerro!...

Adriano (À

parte) – Há de ser conseqüência da profissão.

Pantaleão –

Vossa Senhoria, sem dúvida, é duro para chorar...

Adriano – Mas,

sou eu algum bobo para andar chorando à toa?... chorar por que, homem dos meus

pecados?!

Pantaleão –

Comigo é inútil o fingimento... eu sei tudo!...

Adriano – Está

mais adiantado do que eu, que ainda não

sei nada.

Pantaleão –

Pois, vá que não saiba: mudemos de assunto, e tanto mais que vou propor-lhe um

negócio importante. Senhor Adriano,

estou decidido de pedra e cal a meter-me com unhas e dentes no monopólio do

toucinho e da carne fresca; mas para isso é, como lhe dizia ontem, necessário

dinheiro grosso.

Adriano (À

parte) – Entendo agora: o maldito taberneiro untou-me mel pelos beiços para

acabar pondo-me fora deste buraco!...

Pantaleão – Sou,

portanto, obrigado a vender as minhas propriedades; ora, como Vossa Senhoria

não o ignora, eu sou proprietário de uma filha muito bem edificada, e pai de

uma casa perfeitamente educada... ora... quero dizer...

Adriano –

Entendo... entendo... é isso mesmo, trocando a casa pela filha.

Pantaleão – Na

nova posição em que Vossa Senhoria se acha...

Adriano – Que

posição, senhor!... (À parte) eu creio que esta caçoada já vai passando a

desaforo... e se me chega a mostarda ao nariz, eu caio de soco inglês nesta

súcia toda.

Pantaleão –

Basta de gracejar... falemos seriamente... Eu sou um homem sério, e muito

honrado.

Adriano (À

parte) – Oh, pois não! E tanto o é, que meteu-se com unhas e dentes no

monopólio do toucinho.

Pantaleão – Na

sua nova posição tem Vossa Senhoria necessidade de uma casa e de uma mulher:

Vossa Senhoria meu amigo do coração, conhece minha filha, e esta casa; venho,

pois, rogar-lhe que me compre a propriedade, e que se case com a rapariga...

Adriano

(Estupefato) – A casa... e a moça?... ora isto só pelo diabo: é demais! É pouca

vergonha! Senhor Pantaleão, o senhor supõe que deve divertir-se à minha

custa?!! (À parte) estou quase atirando-me a ele!

Pantaleão – O que, senhor?... Pode Vossa Senhoria ficar certo, de que lhe ofereço um brilhante partido. (Canta)

Minha casa é um palácio;Minha filha é um peixão;Compre a casa, aceite a moçaE verá como ambas são;E verá que eu dou-lhe provasDa mais ardente afeição.

Não rejeite este partido,Por quem é não dê um não;Se rejeita, cai a casa,Fica a moça em convulsão,E eu julgando que duvidaDa minha ardente afeição.

Adriano – E

ontem, Senhor Pantaleão?... e ontem?...

Pantaleão – Oh!

Meu prezado amigo! Não falemos no dia de ontem... eu tinha tomado uma

carraspana... ontem foi ontem, e hoje é hoje.

Adriano – Isso

agora é a pura verdade: pode mesmo ir adiante, e declarar-me muito solenemente,

que amanhã será amanhã.

Pantaleão –

Ontem, já o disse, que estava eu fora de mim; mas despertando esta manhã, meu

amigo, abri os olhos...

Adriano – É

provável que o fizesse; eu lhe creio.

Pantaleão – E

disse então com os meus botões: minha filha e minha casa podem cair em mãos

desconchavadas; o senhor Adriano é um varão nobre e ilustrado, e portanto

habitará bem a casa, e dará boa vida à rapariga.

Adriano – Nada!

Não posso mais; agora ou há de explicar-se, ou eu atiro-me a ele como um danado

(A PANTALEÃO) Senhor Pantaleão, peço

a palavra.

Pantaleão – Oh!

Vossa Senhoria pode falar tanto quanto desejar: quem seria tão atrevido, que

ousasse cortar-lhe a palavra?...

Adriano

– Pois vamos ver: escute-me:Pantaleão – Sou

todo ouvidos, para servir a Vossa Senhoria...

Adriano – Há uma

boa hora que o senhor me fala de lágrimas, de casa e de casamento; desde hoje

de manhã eu sou uma espécie de obelisco, envolvem-me em charadas... em

logogrifo...

Pantaleão – Para

que dissimular por mais tempo?... oh! Eu li, u li o jornal!...

Adriano – Que

jornal, homem de todos os diabos?...

Pantaleão

(Tirando o jornal) – Tenho-o ainda no meu bolso tome... tome... veja...

Adriano (Lendo)

– O!... que é isto?... na Califórnia... um primo... Paulo Cláudio Jenipapo...

cinco milhões... eu Adriano seu herdeiro... que... que... que quer dizer

isso?... (Interdito)

Pantaleão – Pois

não o sabia?... Quanto sou feliz por ser o primeiro! Abracemo-nos, meu bom

amigo do coração! (Abraça ADRIANO,

que fica imóvel)

Adriano – Senhor

Pantaleão... permita que eu me assente... (PANTALEÃO

corre a buscar uma cadeira) por cinco minutos: quando se recebe uma notícia

destas, a gente sempre se assenta por cinco minutos. (Enquanto PANTALEÃO fala, ADRIANO conta pelos dedos, falando consigo mesmo)

Pantaleão –

Vossa ilustre senhoria vai saborear todos os prazeres da fortuna, todas as

vantagens sociais, que ela facilita: se quiser dar ao comércio, meu amigo do

peito, vossa Senhoria tem fundos suficientes para meter-se sozinho no monopólio

do toucinho, da carne fresca, da farinha, do milho e do feijão... Oh! Que feliz

e felicíssimo mortal!

Adriano (Sem

prestar atenção) – Cada milhão... quatrocentos contos... são cinco milhões...

cinco vezes quatro, vinte... são vinte cem contos!... que são dois mil

contos... dois mil contos são cinco milhões... cinco milhões são dois mil

contos!...

Isto faz andar a cabeça da gente à roda!... dois mil

contos!...

Pantaleão – E se

preferir a política, Vossa Senhoria será eleitor... juiz de paz... comandante

da guarda nacional... deputado... e até barão!... isto é muito agradável ao

amor próprio!

Adriano

(Levantando-se) – Muito obrigado. (À parte) Am!... tudo agora se desembrulha!

As delicadezas, as amizades, as senhorias, os oferecimentos... oh! Dinheiro!!!

(A PANTALEÃO) Senhor Pantaleão, eu

sou um rapaz muito bem criado para que me atreva a declarar que o senhor e este

jornal faltam à verdade; mas...

Pantaleão

– Eu não quero saber disso, vim aqui para perguntar a Vossa Senhoria se quer

comprar esta casa.

Adriano – Eu ia

dizendo que...

Pantaleão –

Perdoe-me Vossa Senhoria: minha casa lhe convém?

Adriano –

Certamente que sim. (À parte) Quanto à filha, nem pelo diabo! É uma maitaca que

fala até pelas pontas dos dedos.

Pantaleão

(Tirando um papel do bolso) – oh! Eu o adivinhava: acabemos portanto já com

este negócio...

Adriano – Mas se

eu não tenho real de meu, senhor.

Pantaleão – Oh!

Não falemos em dinheiro... Vossa Senhoria tem crédito na praça: acabo de

redigir este contrato, pelo qual Vossa Senhoria me compra esta casa, e se

obriga a dar-me por ela doze contos de réis, pagos no fim de seis meses, e com

o direito de desfazer o contrato no fim de um mês; e eu, pela minha parte, no

caso de arrendamento, me obrigo a pagar-lhe para reaver o imóvel, dois contos

de réis. Serve assim?... (ADRIANO lê

o contrato) Este mundéu não vale oito contos... e se ele aceita...

Adriano – Pois

vá; assinarei este papel, que finalmente a nada me obriga: mas veja que é a

pesar meu. (Assinam ambos dois papéis, cada um guarda o seu)

Pantaleão –

Quanto a isto, estamos arranjados; a respeito da rapariga, brevemente

falaremos: o meu amigo não se arrependerá destes dois negócios: uma mulher

excelente... uma propriedade que não o é menos... ainda jovem e formosa...

Vossa Senhoria a fará rebocar... a propriedade é deliciosa... cheia de talentos

e de graças: e que nariz, senhor!!! A rapariga então é um portento! É toda

feita de pedras de talha... ótimas madeiras... e finalmente... sim, amigo do

coração, adeus! Eu sou um mortal imensamente afortunado! Oh! Sim!... Vossa

Excelência aperta a mão de um mortal imensamente afortunado... (À parte) Oh!

Ifigênia, tu serás milionária e eu entrarei no monopólio com o dinheiro do

genro!... (A ADRIANO) adeus, amigo do

peito, adeus!

Adriano – Oh!

Dinheiro! (Cantam)

Pantaleão (À

parte) – Eu também sou como os outros,Não é por ser marralheiro; Mas me derreto em ternurasAo pé de quem tem dinheiro. Adriano (À parte) – Este é como alguns que eu seiAdulador, marralheiro; Os favores, que me oferece, São foscas ao meu dinheiro.

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