Ato 2 - Cena X
CENA Xelestina e Adriano Adriano – Ah! és tu, Celestina?... vem ajudar-me a gozar esta alegria desordenada! Eu sou rico, Celestina, eu sou milionário!...
Celestina – Já o sei.
Adriano – Leste algum jornal?...
Celestina – Não; foi a senhora Beatriz.
Adriano – É o mesmo; ela é a verdadeira gazeta do quarteirão; mas desta vez a senhora Beatriz falou a verdade, o que certamente é um pouco extraordinário. Sim, eis aqui o jornal, o bem-aventurado jornal!... Celestina, tu vais ser feliz.
Celestina – Eu feliz!... pois vê, como sou criança; tua inesperada riqueza quase que me tem causado aflição.
Adriano – Oh! Não sejas tu a primeira que maldigas a minha fortuna: tu vais deixar o teu pequeno quarto para morar num sobrado cheio de espelhos de doze pés de altura!
Celestina – não sou ambiciosa: esta modesta câmara me viu tão feliz com o teu amor, que jamais a poderei deixar sem saudades.
Adriano – Oh! Os espelhos de doze pés de altura nada será ainda: terás móveis de mogno, ricas porcelanas, vasos de Sèvres, fortes-pianos e pianos-fortes; vestidos de seda, chapéus de plumas, xales de toquim, adereços de brilhantes, jóias preciosas, ouro, coralinas, esmeraldas, o diabo, Celestina, terás o diabo a quatro: e quando te virem passear comigo de carruagem, eles... esses sujeitinhos todos que nos torciam ainda ontem o nariz, hão de abaixar os olhos, e dizer: “Aquela moça deve estar bem contente por ter um amante; que com extremo tal a adora!”Celestina – Um amante!... mas ainda esta manhã, Adriano, tu dizias um marido! Não é a riqueza, é a verdadeira felicidade que eu aspiro, Adriano, estarás tu mudado?...
Adriano – Eu mudado?... oh!... não... não... mas... Celestina, isso é puerilidade: um amante... um marido... veremos... mais tarde... veremos é simplesmente uma mudança de palavra.
Celestina – mas essa palavra, senhor, é tudo para a mulher honesta; reconheço já que a vossa nova posição vos tornou outro: a pobre Celestina não é mais a mulher que se vos faz necessária...
Adriano – Eu não disse isso... todavia, falas de um modo que...
Celestina – Tendes razão, senhor, eu compreendo, eu adivinho tudo! (Canta)
Pobre me olhavasDigna de amor;Mas hoje rico, Mudas, senhor. Eu sou a mesma,Não mudarei;Qual vos amava Vos amarei. Adriano – Mas,
Celestina, que motivo...
Celestina –
(Canta e chorando vai-se)
P’ra vós mudar,No pobre quarto Me ireis achar.
Constante e puraSempre serei,Pobre de novo Vos amarei. Adriano – Que teima! Quem te disse que eu te desprezo?...
Celestina (Canta e chorando vai-se)
Rico vos deixo,Pura me ausento;Mas levo n’almaCruel tormento Vossa venturaFaçam os céus. Adeus... eu parto; Senhor, adeus!