Ato 1 - Cena XI O Primo da Califórnia · Capítulo 12 de 31
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Ato 1 - Cena XI

CENA XIelestina e logo Adriano Adriano – Esta

velha mente! Mente por força! Mas não... deve ser verdade... as desgraças hão

de continuar a cair sobre mim... todos devem abandonar-me... aborrecer-me: eu

sou o mais vil dos homens, isto é... sou pobre!

Celestina – Meu

Deus! Que tens?... ah! Eu o adivinho; o editor rejeitou tuas músicas...

Adriano – Sim,

Celestina, ele faltou à sua palavra: é muito mal feito faltar à palavra que se

dá, não é assim?...

Celestina – Sim,

sim; é muito mal feito.

Adriano – Não é

verdade, que quando se tem feito uma promessa, essa promessa se deve

cumprir?...

Celestina – Sim,

sempre; mas a que fim semelhantes perguntas?...

Adriano – Ah!

Celestina! É que tu te condenas por ti mesma; tu me fizeste uma promessa

sagrada... juraste que serias minha mulher à face da igreja, e agora?... oh!...

mas não... tens razão... era necessário esperar... sabe Deus quanto tempo!... e

ganhará com que dar-te belos vestidos de seda... que só teria para ti profusão

de amor, e de ternos cuidados?!!! Pensas bem... é melhor um homem rico, que te

encherá de brilhantes e de jóias preciosas; que te levará ao teatro, aos

espetáculos, aos passeios em seu vistoso carro!... tens razão, Celestina;

aceita o homem rico, esquece o pobre músico; somente uma coisa te peço: quando

correres pelas ruas em tua carruagem, se encontrares o mísero artista,

recomenda ao teu cocheiro, que o não salpique de lama... isso será um obséquio

feito a quem morrerá pronunciando o teu nome.

Celestina

(Chorando) – Adriano! Que acabas de proferir?... ah! Despedaçaste-me o coração.

Adriano

(Cantando)

Não chores; podem no rostoTraços de pranto ficar,E esses sinais de amarguraTeu novo amor desgostar.

Tem valor, porque bem cedoPara ti vindo a riqueza,Esquecerá, sem remorso,Quem te adora na pobreza.

Celestina –

Ah!... Adriano... és muito cruel!

Adriano –

Como?... ainda em cima sou eu que não tenho razão?... ora não falta mais

nada!... tuas ausências, essa luz que em horas mortas vejo em teu quarto...

esse maldito homeopata, que te faz propostas sedutoras: tudo isso será um sonho

de minha imaginação?...

Celestina – Eu

queria te ocultar a razão por que velo; mas já que me acusas, falo e provarei

tua injustiça: essa luz que tens visto em horas mortas, esclarece minhas

vigílias; eu aprendo a gravar música... se não me acreditas, posso mostrar-te

os meus trabalhos...

Adriano –

Celestina? É possível?...

Celestina – O

meu bom Adriano... disse eu a mim mesma, merece ser feliz, e é desgraçado!

Bem... eu não lhe serei pesada... ele tem talento; porém, não querem aceitar

suas produções... pois eu as gravarei... nós as espalharemos pelo mundo...

finalmente, far-lhe-ão justiça, e eu terei feito alguma coisa para lhe chegar

mais cedo a glória e a fortuna, que por força deve ter um dia.

Adriano – Ah!

Celestina! Tu tens tantas virtudes, como aquela jovem mulher que outrora

conduzia pela mão a Belisário cego! Mas esse indigno homeopata...

Celestina – Ele quer casar comigo.

Adriano – Casar

contigo?

Celestina (Dando

uma carta) – Eis a minha resposta; eu lhe ia enviar; podes lê-la; a carta ainda

não tem obreia.

Adriano (Depois

de ler) – Recusas, Celestina?... tu recusas um brilhante futuro?...

Celestina – Sim;

e queria também ocultar-te isso.

Adriano – Ah!

Que eu não mereço um anjo, como tu és! Quanto mais sobre mim pesa a pobreza,

mais tu te prendes à minha má fortuna: ah! Velha bruxa Beatriz de uma figa!

Celestina – Não

falemos mais nisso.

Adriano – Ah!

Que eu não mereço um anjo, como tu és! Julgado mal de ti, me oprime tão

fortemente o coração, que me acho quase em termos de, por indisposto,

transferir o bolo inglês, que ofereci aos meus amigos.

Celestina – Bolo inglês?... e o dinheiro?...

Adriano – Eu

ainda tenho... uns... dezessete mil réis.

Celestina –

Sim?... e como os arranjaste?...

Adriano – Como

os arranjei?... sim... é verdade... foi... um caso muito engraçado; encontrei

um amigo, que nos devia e que nos pagou; o procedimento certo que é pouco

usado; mas... esta senhora Beatriz... (Indo à porta)

Celestina (Junto

à mesa e vendo a clareza) – Uma clareza!... o seu relógio no

Monte de Socorro!... ah! Eu compreendo tudo agora

(Guarda a clareza)

Adriano – Sinto

as pisadas da minha velha e insolente criada.

Celestina – Eu

te deixo.

Adriano – Sem

ressentimento, minha Celestina?...

Celestina – Oh!

Sim! Amando-te mais ainda!

Adriano

(Cantando)

Adeus, pois o meu ciúmeOfendeu teu coração;Mas do amor, que me consagras,Alcancei fácil perdão.

O ciúme é um pecado,Que sempre de amor provém:Sem ciúmes não se ama;Só quem não ama os não tem

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