Ato 2 - Cena XI
CENA XIAdriano e Felisberto Adriano –
Celestina! Celestina! Eis aqui como são as mulheres! Deitam-nos sempre água na
fervura.
Felisberto – Ainda eu!
Adriano – Senhor
Felisberto, eu lhe rogo que para outra vez se faça anunciar; não se entra na
casa de um homem da minha hierarquia, como aí na espelunca de qualquer...
Felisberto –
Perdão! Mil vezes perdão: porém, um negócio da maior
transcendência... (Enquanto Adriano procura uma cadeira e
senta-se, diz Felisberto à parte) Tenho presentemente a certeza de que esta
casa se acha no alinhamento da rua projetada, e portanto ela me é necessária
por todo preço.
Adriano
(Sentado) – Então que temos?...
Felisberto –
Senhor Adriano, Vossa Senhoria me faz um grande mal.
Adriano –
Deveras?...
Felisberto –
Sim: acabo de sair da casa do senhor Pantaleão, que me assegurou ter vendido
esta propriedade a Vossa Senhoria.
Adriano – É
certo; e que mais?...
Felisberto – Mas é que Vossa Senhoria
não sabe, que eu tenho absoluta necessidade desta casa: eu a desejo
ardentemente... certas recordações de família...
Adriano – Sim...
sim... tudo isso é muito possível; mas também eu tenho aqui minhas recordações,
e portanto conservarei a propriedade.
Felisberto –
Quê! Pois Vossa Senhoria não quereria ceder-ma!
Adriano – O que
há de ser! Veio-me o desejo de representar o papel de proprietário:
despediram-me tantas vezes de casas onde morava, que tenho vontade de pôr
também os outros no meio da rua; é mais agradável ter inquilinos do que sê-lo;
e olhe, não se pode aturar inquilinos! Põem um homem doido... não pagam ao
senhorio!
Felisberto – E
se eu desse por esta casa quatorze contes de réis?...
Adriano –
Quatorze contos?... o que são nesta vida quatorze contos de réis?...
Felisberto – Oh!
É dinheiro, que se custa a ganhar!...
– Ah! ah! ah!... a
quem diz o senhor isso?...
Felisberto –
Está bem, darei dezesseis contos à vista...
Adriano –
Dezesseis contos!... (À parte) É verdade que todos me falam de milhões, que eu
possuo, mas confesso, que não me desagradaria ter já e quanto antes alguns
bilhetes do banco no bolso... (A
FELISBERTO) – Pois bem.... quero ser condescendente... aceito.
Felisberto –
Dentro em meia hora trago-lhe o dinheiro; é negócio concluído.
Adriano – Eu lhe dou a minha palavra...
também... olhe: por ora é a única coisa que eu tenho para dar.
Felisberto – Ela
me basta, honrado amigo.
Felisberto (Canta) – Que bom negócio, Que vou fazer;Oh que ventura!
Oh que prazer! Adriano – Que chuva de ouroEstá-me a chover!
Oh que ventura!
Oh que prazer! Felisberto – Parto depressaSem mais tardar, E o seu dinheiro Vou já buscar. Adriano – Parta depressaSem mais tardarE o meu dinheiro Vá já buscar.