Ato 2 - Cena VI
CENA VIFelisberto, Adriano e Celestina Felisberto – Dá
licença?...
Adriano – Oh!
Pois não! (À parte) Entra, diabo.
Felisberto – Eu
estou desesperado por me ver obrigado a parecer importuno!
Adriano (À
parte) – Mais desesperado do que eu não está, certamente ele.
Felisberto –
Passando por acaso por diante desta casa...
Adriano (À
parte) – Os credores passam sempre casualmente por defronte da porta dos
devedores.
Felisberto – Meu
caro amigo, ontem eu fui por demais apressado... não estava em mim... um
negócio importante me preocupava tanto, que o deixei de repente e sem lhe tomar
medida, ao acordar hoje, lembrei-me do meu bom amigo, como sempre me acontece,
porque realmente e lhe tributo verdadeira estima; lembrei-me, pois, e disse
comigo mesmo: o meu caro Adriano precisa de minha tesoura e... eis-me aqui...
(Desdobrando a medida)
Adriano (À
parte) – Ora esta agora ainda é melhor!... eu estou no mundo da lua!...
(A FELISBERTO)
Então o senhor diz...
Felisberto –
Vestido preto, completo, não é assim?...
Adriano – Senhor
Felisberto... então eu... e o senhor... sim... o senhor e eu... como ontem...
era ontem... e hoje... (À parte) Eu não sei mesmo o que lhe hei de dizer...
isto é uma charada indecifrável.
Felisberto – Mas
o que pretende fazer-me entender?...
Adriano – Eu?...
pois se exatamente sou eu, que não entendo nada, homem! Felisberto (À parte) Ainda não sabe... tanto melhor; isto me fará
honra... (A
ADRIANO) Nada há
mais inteligível; quero tomar-lhe medida.
Adriano –
Contudo, ontem o senho negou-se a isso, e creio mesmo, que chegou a ameaçar-me.
Felisberto –
Eu?... eu?... como?... o senhor me confunde com outro: eu ameaçar ao meu maior
amigo?... a aquele, em cuja defesa eu me deixaria fazer em postas, morreria
até, exclamando no momento de morrer – oh! Glória! Morro por um amigo! – amicus est alter ego!!!
Adriano (À
parte) – Começo a me persuadir que estou com o juízo virado! Quem sabe se ainda
me dura a mona de ontem?... porque é impossível, eu juro, que tudo isto que
acontece esteja realmente acontecendo.
Celestina (À
parte) – Aqui há mistério, seja ele qual for.
Felisberto – Nós
dizíamos, pois – vestido preto...
Adriano – Nada:
a roupa preta é muito cara, e estraga-se muito depressa; antes quero azul.
Felisberto – Por
conseqüência, preta e azul; a azul em verdade tem seu lugar; atualmente, porém,
o senhor Adriano há de precisar de preta.
Adriano (À
parte) – Ah! entendo: este mequetrefe tem na loja alguma porção de pano preto
velho, e como se vê em termos de mandá-lo atirar à praia, prefere fazerme roupa
com ele. (FELISBERTO toma a medida e
canta).
Felisberto – Deixe que eu
tome a medida...
Adriano – Sim,
senhor...
Felisberto
–Fique direito.
Nunca vi moço mais lindo, Mais garboso, e mais bem-feito. Adriano – Ora, até já sou bonito! Felisberto –Sempre o foiAdriano – Inda mais essa!
Ou estou doido ou este amigo, Quer pregar-me alguma peça. AMBOS Felisberto –
Fazer esta roupaQue gosto me dá!
Que linda casacaNão lhe sairá!
Adriano – A tal
roupa novaCuidado me dá;Que cara casacaNão me sairá!
Adriano – Mas já
de antemão lhe vou declarando que duvido muito, que lhe possa pagar, ouviu?...
não sei se lhe poderei pagar, entendeu?...
Felisberto – Oh!
E quem foi que lhe falou aqui em dinheiro, meu amigo?...
Adriano – Nada!
Não posso mais viver com tal mistério! Senhor Felisberto, expliquese: ontem, eu
não lhe merecia um ceitil de crédito e hoje...
Felisberto – Oh!
Sim! Ontem, hoje, amanhã o senhor tem sido, é, e será sempre o meu amigo do
coração: eis a única explicação, que pode dar uma alma sensível como a minha.
Adriano (A CELESTINA) – Celestina, vai pedir que
me preparem um quarto no hospício dos alienados da Praia Vermelha.
Felisberto –
Enfim, o meu caro amigo Adriano me dará a honra de tomar um lugar no meu
caleche, e iremos juntos à minha casa escolher o mais finos panos.
Adriano – A
melhor! Quer que eu lhe faça a honra de tomar um lugar no seu caleche!... então
que me dizem a esta?...
Felisberto –
Nada de cerimônias... verá como ele é elegante... talvez que lhe dê na cabeça
comprar-mo... olhe... pode se quiser, ficar com ele, e com os cavalos, que são
magníficos, por três contos de réis, é quase de graça...
Adriano – E
esta?... pois o homem não quer me vender o caleche?!!!
Felisberto – Não
percamos tempo... o seu chapéu. (Dá-lhe o chapéu) a sua bengala... pois não tem
bengala?... é indispensável eu lhe cedo a minha... tenho outras em casa... esta
custou-me sessenta mil réis; olhe, é de unicórnio, e tem rico castão de ouro;
eu lhe cedo pelo custo...
Adriano – Então
eu hei de dar sessenta mil réis por isto? Estou quase gritando ah! quem
d’El-Rei!... esta gente quer pôr-me doido...
Felisberto – Oh!
Sessenta mil réis... que vale isso?... o senhor não pode fazer caso de
semelhante bagatela. (Canta)
Querido amigo, enfim,É tempo de pôr casa,Fazer não pode vasaVivendo sempre assimMeu caro, eu já lhe acudo,Porquanto tenho tudoQue possa desejar;Oh! Venha me comprarMobília nova e lindaDe França há pouco vinda,Cadeiras de lavoresQuatorze aparadores,Divãs, sofás e mesasDe formas e belezasEm tudo variadas:As mesas regularesRedondas, ou quadradas,E até triangulares;Por uma ninhariaLhe cedo a livraria,Que bem cara comprei!
Também lhe vendereiO meu melhor carrinho,E até o fardamentoPra um lindo joqueizinho,E tudo a bom contento;Sim, sim, venha comprar.
Que em tudo que lhe vendo,Amigo, o que pretendoÉ só gosto lhe dar. Adriano – Ora,
louvada seja a Providência! Pois que, enfim, conheço que quem está doido não
sou eu, é ele!
Felisberto –
Vamos, vamos depressa, amigo do coração.
Adriano – Adeus, Celestina, eu me deixo levar para ver isto em que dá.