Ato 2 - Cena VI O Primo da Califórnia · Capítulo 21 de 31
Obra Menu

Ato 2 - Cena VI

CENA VIFelisberto, Adriano e Celestina Felisberto – Dá

licença?...

Adriano – Oh!

Pois não! (À parte) Entra, diabo.

Felisberto – Eu

estou desesperado por me ver obrigado a parecer importuno!

Adriano (À

parte) – Mais desesperado do que eu não está, certamente ele.

Felisberto –

Passando por acaso por diante desta casa...

Adriano (À

parte) – Os credores passam sempre casualmente por defronte da porta dos

devedores.

Felisberto – Meu

caro amigo, ontem eu fui por demais apressado... não estava em mim... um

negócio importante me preocupava tanto, que o deixei de repente e sem lhe tomar

medida, ao acordar hoje, lembrei-me do meu bom amigo, como sempre me acontece,

porque realmente e lhe tributo verdadeira estima; lembrei-me, pois, e disse

comigo mesmo: o meu caro Adriano precisa de minha tesoura e... eis-me aqui...

(Desdobrando a medida)

Adriano (À

parte) – Ora esta agora ainda é melhor!... eu estou no mundo da lua!...

(A FELISBERTO)

Então o senhor diz...

Felisberto –

Vestido preto, completo, não é assim?...

Adriano – Senhor

Felisberto... então eu... e o senhor... sim... o senhor e eu... como ontem...

era ontem... e hoje... (À parte) Eu não sei mesmo o que lhe hei de dizer...

isto é uma charada indecifrável.

Felisberto – Mas

o que pretende fazer-me entender?...

Adriano – Eu?...

pois se exatamente sou eu, que não entendo nada, homem! Felisberto (À parte) Ainda não sabe... tanto melhor; isto me fará

honra... (A

ADRIANO) Nada há

mais inteligível; quero tomar-lhe medida.

Adriano –

Contudo, ontem o senho negou-se a isso, e creio mesmo, que chegou a ameaçar-me.

Felisberto –

Eu?... eu?... como?... o senhor me confunde com outro: eu ameaçar ao meu maior

amigo?... a aquele, em cuja defesa eu me deixaria fazer em postas, morreria

até, exclamando no momento de morrer – oh! Glória! Morro por um amigo! – amicus est alter ego!!!

Adriano (À

parte) – Começo a me persuadir que estou com o juízo virado! Quem sabe se ainda

me dura a mona de ontem?... porque é impossível, eu juro, que tudo isto que

acontece esteja realmente acontecendo.

Celestina (À

parte) – Aqui há mistério, seja ele qual for.

Felisberto – Nós

dizíamos, pois – vestido preto...

Adriano – Nada:

a roupa preta é muito cara, e estraga-se muito depressa; antes quero azul.

Felisberto – Por

conseqüência, preta e azul; a azul em verdade tem seu lugar; atualmente, porém,

o senhor Adriano há de precisar de preta.

Adriano (À

parte) – Ah! entendo: este mequetrefe tem na loja alguma porção de pano preto

velho, e como se vê em termos de mandá-lo atirar à praia, prefere fazerme roupa

com ele. (FELISBERTO toma a medida e

canta).

Felisberto – Deixe que eu

tome a medida...

Adriano – Sim,

senhor...

Felisberto

–Fique direito.

Nunca vi moço mais lindo, Mais garboso, e mais bem-feito. Adriano – Ora, até já sou bonito! Felisberto –Sempre o foiAdriano – Inda mais essa!

Ou estou doido ou este amigo, Quer pregar-me alguma peça. AMBOS Felisberto –

Fazer esta roupaQue gosto me dá!

Que linda casacaNão lhe sairá!

Adriano – A tal

roupa novaCuidado me dá;Que cara casacaNão me sairá!

Adriano – Mas já

de antemão lhe vou declarando que duvido muito, que lhe possa pagar, ouviu?...

não sei se lhe poderei pagar, entendeu?...

Felisberto – Oh!

E quem foi que lhe falou aqui em dinheiro, meu amigo?...

Adriano – Nada!

Não posso mais viver com tal mistério! Senhor Felisberto, expliquese: ontem, eu

não lhe merecia um ceitil de crédito e hoje...

Felisberto – Oh!

Sim! Ontem, hoje, amanhã o senhor tem sido, é, e será sempre o meu amigo do

coração: eis a única explicação, que pode dar uma alma sensível como a minha.

Adriano (A CELESTINA) – Celestina, vai pedir que

me preparem um quarto no hospício dos alienados da Praia Vermelha.

Felisberto –

Enfim, o meu caro amigo Adriano me dará a honra de tomar um lugar no meu

caleche, e iremos juntos à minha casa escolher o mais finos panos.

Adriano – A

melhor! Quer que eu lhe faça a honra de tomar um lugar no seu caleche!... então

que me dizem a esta?...

Felisberto –

Nada de cerimônias... verá como ele é elegante... talvez que lhe dê na cabeça

comprar-mo... olhe... pode se quiser, ficar com ele, e com os cavalos, que são

magníficos, por três contos de réis, é quase de graça...

Adriano – E

esta?... pois o homem não quer me vender o caleche?!!!

Felisberto – Não

percamos tempo... o seu chapéu. (Dá-lhe o chapéu) a sua bengala... pois não tem

bengala?... é indispensável eu lhe cedo a minha... tenho outras em casa... esta

custou-me sessenta mil réis; olhe, é de unicórnio, e tem rico castão de ouro;

eu lhe cedo pelo custo...

Adriano – Então

eu hei de dar sessenta mil réis por isto? Estou quase gritando ah! quem

d’El-Rei!... esta gente quer pôr-me doido...

Felisberto – Oh!

Sessenta mil réis... que vale isso?... o senhor não pode fazer caso de

semelhante bagatela. (Canta)

Querido amigo, enfim,É tempo de pôr casa,Fazer não pode vasaVivendo sempre assimMeu caro, eu já lhe acudo,Porquanto tenho tudoQue possa desejar;Oh! Venha me comprarMobília nova e lindaDe França há pouco vinda,Cadeiras de lavoresQuatorze aparadores,Divãs, sofás e mesasDe formas e belezasEm tudo variadas:As mesas regularesRedondas, ou quadradas,E até triangulares;Por uma ninhariaLhe cedo a livraria,Que bem cara comprei!

Também lhe vendereiO meu melhor carrinho,E até o fardamentoPra um lindo joqueizinho,E tudo a bom contento;Sim, sim, venha comprar.

Que em tudo que lhe vendo,Amigo, o que pretendoÉ só gosto lhe dar. Adriano – Ora,

louvada seja a Providência! Pois que, enfim, conheço que quem está doido não

sou eu, é ele!

Felisberto –

Vamos, vamos depressa, amigo do coração.

Adriano – Adeus, Celestina, eu me deixo levar para ver isto em que dá.

1/1
Menu

Fazer anotação